domingo, 15 de agosto de 2021

Eu não sei sentir saudades

 


No Brasil, assim como em outras partes do mundo, há o culto às demonstrações intensas de emoção, o que podemos ver em relação ao futebol, por exemplo. Cultuamos as demonstrações apaixonadas de amor, dor, fé, ódio e até mesmo de servidão, e essa maneira de demonstrar sentimentos é considerada ideal e correta, o que foi percebido recentemente em uma reportagem da Globo sobre o nadador que quebrou um recorde e não demonstrou reação emotiva de acordo com o que se "é esperado" nos esportes, especialmente; o tom da reportagem nos dava a entender que alguns esportistas, e algumas nações, são "frios" e não valorizam e celebram as conquistas como os brasileiros, que, de acordo com os argumentos apresentados, são os exemplos de manifestação. Nessa lógica, pais torcedores incentivam os filhos a sofrerem desmesuradamente nos campos como sinal de devoção exemplar ao seu time, e se flagrado por alguma câmera em prantos escandalosos, o orgulho será eternizado e relembrado para sempre, "espalhafatosamente".

Nossa sociedade espera que sejamos "calorosos", como os estereótipos nos descreveram por décadas aos quatro cantos do mundo. Devemos ser alegres, amorosos, carinhosos e estar o tempo todo ocupados com aqueles que amamos, especialmente os familiares. O ideal é abrir mão de nossos desejos, nossas individualidades em favor dos membros de nossa família, e o exagero aplicado nesses casos tem gerado muita gente folgada, mas isso é outro assunto. Podemos dizer que quem não se encaixa nesses padrões é visto de maneira negativa, embora vivamos em um tempo louco de grande abertura e possibilidade de escuta das minorias, mas, também, um tempo de avanço (ou retrocesso) do conservadorismo. 

Dizer que se sente saudade (sentindo ou não), tornou-se uma obrigação, pois é de bom tom "sentir saudade", morrer de saudades, então, é a expressão máxima do amor. Sobre a palavra e o sentimento de saudade, novamente recaem os estereótipos que dizem que só a língua portuguesa possui essa palavra e, consequentemente, conferiria ao seu povo falante a especificidade de possuir esse sentimento, o que popularmente nos conferiria um status maior na evolução da humanidade sensível.

De acordo com matéria na revista National Geographic:

"“Saudade” representa um conjunto de sentimentos, normalmente causados pela distância ou ausência de algo ou alguém. Esta ausência pode ser física ou não, isto é, pode sentir-se saudade quando alguma relação de amizade, por exemplo, termina. Esta palavra expressa, então, um sentimento que envolve afetividade".

Eu não sofro por saudade, muito menos morro. Eu não fico remoendo situações que já se foram, eu não fico sofrendo pelas pessoas que estão longe. Eu não revivo o passado com dor. Eu não vivo no passado ou onde não estou fisicamente.

Sim, gosto de recordar de momentos bonitos, gostosos e revê-los como vejo um filme, um filme de mim mesma. Rio de novo, sinto de novo e pronto. Lembro das pessoas, dos momentos que tive com elas, lembro-me com prazer e depois os deixo em paz. Eu não vivo lá. Eu não quero voltar para lá. Eu não quero que hoje seja como ontem. Eu "re-sinto", mas não sofro.

Alguns acham que isso é frieza, é não gostar das pessoas, é não se importar. Eu gosto e me importo com as pessoas, mas não preciso de todas elas, o tempo todo. Eu desejo que estejam felizes, que estejam curtindo a vida, e, se sofrem, isso me dói, mas eu não preciso da presença física delas, nem de monitorar suas vidas minuciosamente. Quero saber se estão bem, quais as novidades, quais os planos e no que posso ajudar. 

É bom viver novos momentos com velhos conhecidos, assim como com novos. Mas, vivo muito dentro de mim mesma e minha mente é tão cheia que os dias passam e não cabe tudo, mas quase tudo está lá, num bom lugar, embora escondido.

Sinto falta verdadeira apenas do que faz parte de mim todos os dias, e que no momento são meus filhos, enteados e marido. Sinto falta da rotina, do que espero, do que faço, do que tenho, não do que já perdi, do que já se foi, do que não é. Mas, não sofro.

Se isso é ter frieza, que seja. Não digo sentimentos por dizer. Não utilizo palavras levianamente. O que digo é o que vai em mim, e isso é o que vai. Ser frio em nossa sociedade nos remete a algo negativo, ruim, marginal, delinquente. Frieza é qualidade de psicopatas (os que usam palavras para forjar todo o tipo de emoção quente); frieza lembra frigidez sexual, tão em voga nos anos 70, condenando as mulheres "defeituosas" que não sentiam prazer. Ser frio é não se comover com o outro, com sua dor, com seu sofrimento. Ser frio é não chorar no jogo de futebol; ser frio é não quase morrer no velório, não ser carinhoso e não gostar de ser tocado. Ser frio é não ser humano (de acordo com nossos modelos de comportamento). 

Chega de sofrimento e de dor pelo que não tem que ser dolorido. Chega de desejar o que não se tem. Chega de sofrer por aqueles que já se foram ou que querem estar em outro lugar. Não quero dizer que temos que cortar laços, esquecer, deixar, ignorar. Que os encontros e as partidas sejam leves, pois são breves. Que saudades sejam sinônimos  de doces e belas lembranças, que sejam matadas e guardadas, que não sejam um fardo que vem do passado, ou do ausente, para interromper o fluxo da vida.


sexta-feira, 2 de julho de 2021

O mundo da agonia



Eu não sei mais viver nesse mundo. O mundo é esse, o que tenho,  não posso mudá-lo; preciso aprender a viver nele, mas, como diria a minha avó, "é difícil ensinar novos truques a cavalos velhos". Talvez, esse sentimento faça parte dos saudosistas inconformados com as mudanças tecnológicas que sempre existiram em todas as épocas, provavelmente. Talvez eu seja parte da parcela infeliz, melancólica e depressiva da sociedade, que não consegue ver as qualidades do "novo". Será?

Por que eu não sei viver nesse mundo? 

Esse mundo me cansa. As pessoas desse mundo me cansam. Sou uma velha rabugenta, finalmente. O que posso fazer com o sentimento de terror que sinto ao perceber que as vivências estão se transformando drasticamente, assim como as formas de sentir, de interagir, de enxergar o mundo? Quais são as memórias que estão sendo construídas nessa nova dinâmica proporcionada por telas diante de nossos olhos? Quais as sensações que farão parte de nosso modelo de mundo?  

Os seres humanos estão cada vez mais destacados. Não, não se trata de se destacarem na sociedade, mas de se destacarem do resto do universo, ou seja, trata-se de se colocarem em uma condição de superioridade diante do resto do universo ao ponto de verem todas as coisas girando em torno da humanidade e em função dela, como se seres humanos não fizessem parte de um todo integrado e interdependente. Os indígenas tem muito a nos ensinar sobre esse destacamento e sobre o nosso verdadeiro lugar no mundo.

Telas. Ao acordar, a primeira coisa que fazemos é pegar a praga do telefone celular e ficar tempos inestimáveis lendo mensagens inúteis nas redes sociais. Para quem pode, na pandemia, o trabalho está sendo remoto, isso significa passar praticamente todo o dia em reuniões virtuais, grupos de WhatsApp, lives, cursos, seminários, webinars, tudo na tela. Para quem não pode, muitas vezes, dependem de um telefone para trabalhar, e quando têm uma folga, passam os minutos "livres" olhando outras coisas no celular. As crianças e adolescentes? Cada um tem um telefone (nas camadas da sociedade em que isso é possível). Despencam de aulas online para a o computador, do computador para a TV conectada à internet. E assim se formam hábitos, perspectivas, modelos, comportamento, e assim se desenvolve a capacidade cognitiva viciada e dependente. Sabemos que a desigualdade em nosso país impede que todos tenham o mesmo estilo de vida, que entre 10 famílias, 6 estão ameaçadas pela fome, mas é verdade também que o Brasil é o 5º maior mercado de smartphones do mundo. O telefone tornou-se uma necessidade real, e,  em países como a Índia, por exemplo, há mais celulares do que banheiros em casa, o que (apesar das peculiaridades culturais) demonstra qual é o valor que o aparelho, ou seja, a conexão com a internet adquiriu, tornou-se mais valioso que comida e higiene.

O nosso cérebro está extremamente exposto a milhares de informações difusas e rasas; isso nos leva à exaustão e cada vez fica mais difícil sentar-se e concentrar-se em algo específico e profundo, fazer conexões, criar. Até escrever, para mim, ficou mais difícil, porque não tenho forças, energias, porque há tanta coisa sendo dita por tantos, porque ninguém quer mais ler ou escrever textos com mais de um parágrafo ou alguns caracteres no Twitter. Tudo cansa. 

Nessa zumbilandia Matrix em que vivemos, não existe diferença entre realidade e virtualidade; não sabemos mais se estivemos em algum lugar ou vimos fotos, vídeos. Não sabemos também se aquela notícia, que já foi desmentida, foi mesmo desmentida, se os cientistas falam a verdade, se as instituições existem e são confiáveis, pois tudo é nebuloso, raso, fugidio, virtual, como em um sonho ou delírio de um louco. Pisamos em um chão de giz.

Preferimos ficar dentro de cavernas escuras olhando para telas, como em Platão. Sair cansa, sua, queima a pele. Interagir ao vivo é difícil, muito ágil, não tem como ignorar a mensagem e responder mais tarde. Ao mesmo tempo, todos estão extremamente ansiosos e  esperam que suas mensagens sejam respondidas imediatamente, escravizando e enjaulando todos em seus aplicativos. Humanos ansiosos e inseguros.

Esse é o mundo. Um mundo de escravidão e de gente curvada. Um mundo de gente ansiosa por ter seus dispositivos grudados em sua mão, que não tolera o silêncio, não tolera a si mesmo. Um mundo que não tolera o outro.

Quem sou eu? Um ser humano que também já foi escravizado e luta todos os dias para deixar de ser. Eu quero sentir o cheiro das flores e ver o por do sol ao vivo. Eu quero sentir o aroma que distingue as cidades, eu quero ficar embaraçada e exausta de tentar interagir de vez em quando. Eu quero ficar tranquila tomando um café, sem pensar que estou perdendo alguma novidade inútil. Eu quero ficar longos momentos sem me preocupar com o amanhã. Eu quero contar histórias para as crianças. Eu quero plantar e ver o desenvolvimento da planta. Eu quero ter o poder de desligar a tela e esquecer-me dela. Eu quero ter o mínimo de informação possível, mas todas as que sejam relevantes. Eu quero ser livre, e mais que tudo, eu quero ter paz. Espero conseguir, mas também espero não ficar sozinha em meio aos que já se transportaram para o mundo da agonia.





segunda-feira, 21 de junho de 2021

IMAGINÁRIO SÓCIO-DISCURSIVO NO CENÁRIO EDUCACIONAL: UMA REFLEXÃO SOBRE AS POSSÍVEIS TENDÊNCIAS IDENTIFICÁVEIS DURANTE A PANDEMIA


Agência Minas Gerais

*Artigo publicado originalmente na revista MultiAtual.

Luciana de Fátima Ferreira

 Mestre em Letras pela UFOP, cursando Especialização em docência pelo IFMG, campus Arcos.

 

 

Resumo

Este artigo traz algumas questões introdutórias que versam sobre a memória discursiva e o imaginário sócio discursivo, detendo-se, especificamente, ao imaginário sóciodiscursivo  que podemos identificar na atualidade dessa escrita e que se relaciona ao universo educacional do contexto brasileiro cujos discursos dominantes indicam privilegiar o ideal de educação baseado em valores neoliberais; para ilustrar minimamente nossa argumentação, que abarca elementos presentes nos discursos atuais, faremos uma análise preliminar de alguns trechos de um documento oficial da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais (que foi criado para anunciar a volta às aulas em regime não presencial após um período de três meses de isolamento social necessário devido à pandemia do COVID-19), e de um trecho do plano de governo do governador Romeu Zema; procuraremos encontrar elementos que nos possibilitem revelar estratégias discursivas que indiquem a existência de tendências neoliberais nos discursos dominantes em nossa sociedade. Para essa análise introdutória, faremos também uma breve narrativa sobre medidas e situações ocorridas no cenário educacional que servirão de base para legitimar os argumentos utilizados neste levantamento preliminar sobre a formação e a constituição de um imaginário sóciodiscursivo do tempo dessa escrita, imaginário capaz de revelar, talvez, os mecanismos que determinem as relações em diversos setores da sociedade.

 

Palavras-chave: Análise do discurso, Educação, Imaginário sóciodiscursivo

 

Resume

This article brings some introductory questions that deal with the discursive memory and the socio-discursive imaginary, focusing, specifically, on the socio-discursive imaginary that we can identify at the present time of this writing and that is related to the educational universe of the Brazilian context whose dominant discourses indicate to privilege the ideal of education based on neoliberal values; to minimally illustrate our argument, which includes elements present in the current speeches, we will make a preliminary analysis of some excerpts from an official document of the Minas Gerais State Department of Education (which was created to announce the return to school in a non-face-to-face regime after a three-month period of social isolation required due to the COVID-19 pandemic), and an excerpt from Governor Romeu Zema's government plan; we will seek to find elements that enable us to reveal discursive strategies that indicate the existence of neoliberal tendencies in the dominant discourses in our society. For this introductory analysis, we will also make a brief narrative about measures and situations that occurred in the educational scenario that will serve as a basis to legitimize the arguments used in this preliminary survey on the formation and constitution of a socio-discursive imaginary of the time of this writing, an imaginary capable of revealing, perhaps, the mechanisms that determine relationships in different sectors of society.

 

Keyword: Discourse analysis, Education, Socio-discursive imaginary

 

Introdução

 

            Procuramos, com essa pequena e preliminar análise, lançar questões e possíveis direcionamentos para futuros trabalhos que pretendam discorrer sobre elementos dos cenários sóciodiscursivos que fazem parte do universo educacional brasileiro; tais questionamentos mostram-se importantes para a compreensão sobre como esses imaginários podem ser construídos através da história e como eles influenciam ou determinam políticas públicas educacionais que nem sempre beneficiam a maior parte da sociedade.

            Faremos uma breve explanação sobre os conceitos que nos apoiarão nessas análises preliminares e, em seguida, recapitularemos alguns fatos que nos ajudarão a compreender como os discursos se materializam em ações governamentais. Depois dessa introdução, analisaremos pequenos trechos de textos oficiais que nos possibilitarão vislumbrar as tendências ideológicas dos discursos dominantes.

            A tentativa de compreender os elementos que constituem o imaginário sóciodiscursivo que se relacionam a determinados campos, aqui, ao campo educacional, é importante para que possamos compreender, também, como se dão os processos hegemônicos que determinam condições e relações sociais, pois é através desse imaginário que as relações sociais são estabelecidas, compreendidas e aceitas; o imaginário sóciodiscursivo nos revela os valores de uma determinada sociedade, ele diz sobre o que é aceito, desejável ou condenável, ele possibilita que projetos sejam criados e que gerem adesão da sociedade com base nesses valores que dela fazem parte. A educação, ou seja, esse complexo arcabouço de teorias, estruturas, políticas e ideais que configuram medidas tomadas para suprir a necessidade de se instruir o ser humano, de forma-lo ou de “formata-lo” em determinada direção, é um dos principais instrumentos na formação de valores e na construção do imaginário sóciodiscursivo, assim sendo a relevância dos estudos sobre esse tema parece aceitável.

                  

 

A memória discursiva e o imaginário sóciodiscursivo

 

A memória discursiva é responsável por oferecer as bases semânticas e estruturais dos discursos, essas bases constroem-se e materializam-se  através das repetições ou de reformulações de enunciados que pertencem a uma determinada formação discursiva[1]. Podemos dizer que a memória discursiva é constituída por duas esferas, que são a da materialidade do discurso e a que diz respeito a conhecimentos adquiridos socialmente, sendo assim, a relação entre o discurso e a memória se daria em dois planos que são complementares, esses planos são o da história e o da textualidade, sendo que este segundo seria constituído de elementos textuais da memória discursiva que possibilitam a coesão textual; essa memória textual tratar-se-ia do conhecimento prévio de elementos textuais discursivos, como a anáfora, os tempos verbais, as pressuposições, etc.; esses elementos são adquiridos nas experiências de trocas dialógicas e na compreensão do funcionamento destes dentro de um discurso (CHARAUDEAU e MINGUENEAU, 2006). Ainda, segundo os autores, a memória discursiva não se trataria de uma memória psicológica, mas de uma memória que estaria ligada de forma inseparável ao modo de existência das formações discursivas, isso quer dizer que o discurso construiria para si, progressivamente, uma memória intratextual, remetendo-se a enunciados precedentes, e através desses, reconstruindo significados a todo momento.

Segundo (CHARAUDEAU, 2006), essa memória discursiva seria constituída também pelos conhecimentos, crenças e saberes sobre o mundo, ou seja, os discursos que circulam socialmente estariam presentes na formação das identidades coletivas de grupos que compartilham o mesmo sistema de valores. Haveria também a memória das situações de comunicação (que abarcaria elementos que normatizam as trocas comunicativas, possibilitando que os interagentes possam estabelecer uma espécie de contrato de reconhecimento, construindo comunidades comunicacionais), e a memória das formas (que tratar-se-ia daquela constituída em torno das maneiras de dizer, ou seja, fariam parte dela os usos da linguagem, seja ela verbal, gestual ou icônica). Estas memórias estariam inter-relacionadas e possibilitariam que o sujeito se situasse e situasse os discursos de acordo com o que essas memórias possibilitassem dentro dos usos e das relações realizadas através da linguagem, ainda propiciariam o funcionamento das interações discursivas e seriam responsáveis pela manutenção ou quebra de paradigmas discursivos; essa quebra de paradigmas discursivos, ou seja, as mudanças que podem ocorrer no discurso gerando novas significações que acontecimentos históricos podem trazer através de novos enunciados que desestabilizariam o que normalmente é dito, afetariam exatamente essa memória discursiva, ou seja, os sentidos que se constituem através do entrecruzamento das memórias mítica, social e da memória histórica (PÊUCHEX, 1999). A essa tensão gerada no discurso trazida por acontecimentos históricos que resignificam elementos do discurso, Pêcheux chamou de “acontecimento discursivo”.

Podemos dizer que o nosso universo representacional é, de certa forma, estabelecido por nossas memórias discursivas, mas, é a partir das relações entre todos os elementos discursivos e novos acontecimentos que venham desestabilizar uma significação, é que novos sentidos vão sendo estabelecidos,  tendo como premissa a gama de sentidos anteriores, ou seja, o nosso imaginário sóciodiscursivo não seria construído apenas em determinadas situações interativas pelos participantes do discurso, mas o sentido que é dado a tudo que nos rodeia também é construído anteriormente a nós mesmos, embora possamos ter a ilusão de que somos a fonte do que dizemos e pensamos.

Quando viemos ao mundo, somos inseridos em um universo formado por seus paradigmas, por seus discursos e pré-discursos[2], um mundo que nos é apresentado e no qual somos levados a incorporar e resignificar conceitos e representações de tudo o que dele faz parte, ou seja, grande parte dos imaginários com os quais o sujeito convive já está presente na sociedade antes mesmo que ele venha ao mundo. Essa noção de imaginário sócio discursivo está presente em CHARAUDEAU (2017); esse autor afirma que esse conceito diz respeito a uma “forma de apreensão do mundo que nasce na mecânica das representações sociais”. Considerando o explicitado, podemos dizer que o imaginário sócio discursivo diria respeito à construção da significação sobre o mundo que nos rodeia, sobre as coisas, as pessoas, os fenômenos, os comportamentos, ou seja, esse imaginário resultaria de um processo de simbolização representacional do mundo no interior de um domínio de prática social, o que daria a essas representações uma carga afetivo-racional, instalando-se na memória coletiva; assim sendo, podemos dizer que o imaginário seria a base da constituição de valores e teria a função de justificar atos, devido a lógica que nos é fornecida por suas representações de mundo.

Neste trabalho, estamos levando em consideração elementos do imaginário sócio discursivo que se relaciona ao cenário educacional e que se apresenta na atualidade dessa escrita, imaginário que pode ser vislumbrado pela análise de diversos discursos existentes (através da análise das narrativas e das metanarrativas presentes em vários meios de comunicação, virtuais ou físicos, assim como nas interações cotidianas), nos quais podemos descrever, as estratégias linguístico-discursivas utilizadas para se justificar a sustentação de um ideal neoliberal da educação; uma dessas narrativas está presente em um memorando expedido pela subsecretaria de Gestão de Recursos Humanos da Secretaria de Estado da Educação de Minas Gerais que anuncia a volta às aulas no estado de Minas Gerais, e que nos ajudará a ilustrar nosso argumento.

 

 

O contexto da escrita: pandemia

 

O início do isolamento social necessário devido a pandemia gerada pelo contágio do COVID-19  foi decretado para o dia 18 de março de 2020, data também prevista para a greve geral dos trabalhadores da educação, sendo que grande parte dos trabalhadores das escolas estaduais já estavam em greve reivindicando melhorias e o cumprimento do piso salarial determinado por lei; a revolta dos profissionais da educação aumentou com a aprovação, em primeiro turno na assembleia legislativa, de um aumento de 42% nos salários dos policiais civis e militares, e de 30% para a educação, sendo que o governo ainda estava devendo o 13% salário dos funcionários; após grande impacto gerado na mídia e de protestos de várias categorias, o governador Romeu Zema resolveu sancionar parcialmente o aumento que passou a ser de 13% para os policiais, e de nenhum percentual para as demais categorias. Este cenário inicial nos oferece indícios sobre quais áreas são consideradas prioritárias na percepção do governo em questão, que sem analisar os impactos que poderiam ser gerados na economia, e desconsiderando a realidade, especificamente a que se relaciona à precariedade em que trabalham os profissionais da educação, queria conceder um aumento que não condizia com a realidade orçamentária do estado a uma categoria específica, a única que acabou sendo contemplada.

            A descrição desse panorama é importante para a nossa análise, pois torna possível que compreendamos as tendências ideológicas dos poderes governamentais em questão, assim como as formações discursivas que estão presentes no contexto apresentado. Um segundo documento que nos foi importante, trata-se do programa do governo[3] do atual governador Romeu Zema intitulado “Liberdade ainda que tardia” (referência à frase criada por Alvarenga Peixoto e que teria sido lema da Inconfidência Mineira), em especial a seção que dispõe sobre a educação; fica claro, através do documento produzido para a campanha, que a equipe do atual governador possuía uma visão mercadológica da educação e que o foco estaria nos resultados obtidos nos programas avaliativos governamentais. Rechaça-se, assim, todo o conhecimento construído ao longo de décadas por estudiosos e pedagogos importantes como Paulo Freire, que negava a concepção de educação em que o conhecimento seria tratado como um produto a ser consumido, ou como um índice avaliativo a ser alcançado, pois considerava que a educação deveria promover a liberdade dos indivíduos, ou seja, o indivíduo deveria tornar-se capaz de ler o mundo, compreendê-lo e agir sobre ele, sendo que esse conhecimento sobre o mundo deveria ser construído na interação com a sua realidade, quer dizer, na relação direta dos conteúdos com o que faria sentido para este indivíduo em sua realidade cotidiana.

O estudante, segundo Paulo Freire, não é uma espécie de banco em que fazemos um depósito de conteúdos, e o educador não é o detentor absoluto do conhecimento que irá transferi-lo para o aluno que o receberia passivamente; o conhecimento nasceria da interação entre educadores e educandos, sendo necessário, para isso, que o educador assumisse a condição de educador-educando, expressão que, segundo Antônio Carlos Gomes da Costa[4], inspirado nas teorias “freirianas”, refere-se aos agentes básicos do processo educativo e à “dimensão de educando (disposição de aprender, de ser “educado”) que deve existir em cada educador”. Assim sendo, podemos considerar que a relação interativa, pessoal, entre ambas as partes, também é peça fundamental no processo de construção do conhecimento, e não pode ser sublimada, especialmente nos anos iniciais, quando estão sendo formados os processos cognitivos dos indivíduos, ou, podemos dizer também, que é quando está sendo formada a memória discursiva, especialmente na dimensão que carrega os valores que os indivíduos levarão para as suas vidas; neste sentido, a presença do educador no processo de aprendizagem é fundamental.

Podemos dizer que o plano do governo apresenta uma visão enviesada de conceitos como o construtivismo[5] apresentando em suas soluções para a educação mineira práticas que poderiam excluir o educador do processo, com a premissa de que o conhecimento advém da construção pessoal do indivíduo, e assim sendo, justifica possíveis medidas que poderiam deixar a cargo do aluno e das famílias a maior parte desse processo educacional. Toda a premissa de um discurso presente no programa de governo, e que nos remeteria para soluções que buscariam privatizar serviços prestados pelo Estado, está se confirmando com propostas e medidas que estão sendo tomadas lentamente, como, por exemplo, o plano de implementação[6] de um modelo de escola público-privada, a chamada “Escola Charter”, que foi divulgado no dia 13 de setembro de 2020; as medidas planejadas e as que já foram tomadas pelo atual governo mineiro confirmam a existência de ideais neoliberais[7] que caracterizam essa gestão e que, podemos verificar, também fazem parte do imaginário sóciodiscursivo de uma grande maioria popular, agindo como referentes que guiariam e legitimariam políticas “necessárias para o progresso social”.

 

            Temos, aqui, algumas questões que influenciam em nossas reflexões, uma delas é a campanha de desvalorização dos profissionais da educação que acontece há décadas, o que podemos constatar realizando uma superficial análise de uma enorme variedade de textos disponíveis[8], inclusive jornalísticos, nos quais os discursos retratam os professores como “vagabundos”, descrevem universidades como “antros de imoralidades”, e universitários como “drogados e folgados”, além de apontar supostos privilégios que servidores públicos e estudantes teriam ao receberem recursos governamentais. Sobre o papel da mídia na formação discursiva sobre a educação, nos diz Silva (2016) em sua tese:

 

No nosso estudo, defende-se a tese de que a mídia, alinhada com o discurso neoliberal dominante no Brasil desde a década de 1990, produz relatos nos quais a educação pública brasileira é desqualificada com a mobilização das mais diferentes estratégias discursivas que objetivam desmantelar a proposta de educação pública própria do Estado de bem-estar e tornar inquestionável a proposta de organizar a educação básica brasileira de acordo com as regras e procedimentos próprios da iniciativa privada. Esses relatos exaltam um Estado de tipo empresarial, controlador e avaliador, e recorrentemente responsabilizam os professores e os sindicatos que os representam pela qualidade da educação pública brasileira, construindo-os como representantes do atraso que impedem a reforma modernizadora que faria o Brasil avançar como nação. Dessa forma, potencializa-se o discurso de controle e governamento da educação, com fins de enquadrar seus atores na nova ordem mundial.

 

Essas qualificações direcionadas aos elementos do cenário educacional, que passaram a fazer parte do imaginário sócio discursivo dos brasileiros, fomentadas e sustentadas por reportagens, muitas vezes,  parciais, unilaterais, generalizantes, e, algumas vezes, (em tempos de “Fakenews”), inventadas, ajudaram, ao longo de décadas, a sedimentar um cenário carregado de descrença e agressividade em relação a todos os setores da educação. Atualmente, podemos verificar um discurso (sustentado por muitos daqueles que se denominam “de direita”), que afirma que as escolas e as universidades foram tomadas por “doutrinadores esquerdistas”, discurso sustentado publicamente pelo ex-ministro da educação, Abhraham Weintraub[9], que pouco antes de se demitir do ministério, assinou uma medida que pretendia acabar com o programa de cotas, um “Gran finale” depois de uma trajetória recheada de medidas, falas e aparições teatrais.

            A segunda questão que devemos considerar a fim de entender o imaginário sócio discursivo identificável no tempo dessa escrita, é a visão mercadológica[10] que o atual governo demonstra em relação à educação, pois este parece considerar o conhecimento como um produto a ser adquirido, assim como relaciona alunos e pais a clientes, qualificações que podemos identificar nas linhas do seu plano de governo, programa que nos traz a proposta de melhorar a qualidade da educação com algumas medidas, dentre elas, dando “autonomia aos alunos” em seus estudos; essa visão mercadológica, ao que os discursos nos indicam, também faz parte dos discursos sustentados por uma maioria popular, ou seja, tornou-se hegemônica[11] na sociedade atual que, além de assumir que a educação funcione pela mesma lógica capitalista, ou seja, que a educação deva gerar “lucros” na forma de indicativos avaliativos, concedendo aos mais bem-sucedidos lugares especiais, assume também que ela deva servir ao capital, formando mão de obra para abastecer o mercado.

           

 

 

 

 

Os indícios

 

O memorando-circular nº 42/2020/SEE/SG é endereçado aos “superintendentes regionais de ensino, gestores escolares, professores, especialistas, demais servidores e membros da comunidade escolar”. Analisemos o primeiro parágrafo do memorando:

 

 

É com satisfação que fomos autorizados a iniciarmos o Regime Especial de Atividades Não Presenciais (REANP) a partir do dia 13 de maio de 2020, quarta-feira, com os servidores das unidades escolares e Inspeção Escolar. No dia 18 de maio de 2020, segunda-feira, teremos a grata satisfação de iniciarmos com os nossos estudantes.

 

            Podemos notar nesse trecho que a expressão “grata satisfação” foi utilizada duas vezes, sinalizando a tentativa de exaltar o sentimento positivo em informar o retorno das atividades, mesmo que não presenciais. A forma passiva em que aparece a expressão em seguida, “fomos autorizados a iniciarmos”, indica que a secretaria e os subsecretários que assinam o memorando não são os agentes, neste caso, da paralisação das atividades, e que estavam ansiosos pelo retorno das atividades que agora poderá ocorrer já que “alguém” autorizou o início das atividades remotas. Esse trecho demonstra a priorização da continuidade do ano letivo acima de outras circunstâncias, assim como indica a intenção de isenção de responsabilidade pelo cessamento e pelo retorno das atividades escolares. O terceiro parágrafo nos fornece indícios maiores sobre a perspectiva educacional do governo:

 

Sendo assim, nossas ações foram pensadas na perspectiva de que o estudante é o centro do processo e, por isso, consideramos também as caracteríscas econômicas, sociais, geográficas e físicas para proporcionar que ele acesse o Regime Especial de Avidades Não Presenciais (REANP), contribuindo para que a educação chegue em cada domicílio do estado e não haja ampliação das desigualdades educacionais.

 

            No trecho acima, podemos verificar a tentativa de se justificar a medida tomada de forma vertical, ou seja, sem nenhuma participação da maior parte da comunidade escolar a qual o documento se dirige, elencando características que talvez  poderiam significar o fracasso das medidas, já que a realidade social é de imensa desigualdade entre os alunos das escolas públicas; essa desigualdade seria um argumento contrário ao sucesso, e, a fim de minimizá-la, são utilizados argumentos que sinalizam que essas diferenças foram analisadas a tempo e a contento. A expressão mais representativa deste trecho e que deixa clara a perspectiva pedagógica sustentada pelo governo é “o estudante é o centro do processo educacional”, condição que também aparece no plano de governo do governador em questão, em um dos subtítulos que reproduziremos aqui:

 

Educação não se limita à escola e o indivíduo é o principal agente de seu processo educador

Os indivíduos são únicos. Quando o sistema é feito para tratar todos da mesma forma, com carga horária e grade curricular padrão, alguns se sobressaem e outros podem ficar para trás. Por como é sistematizada a educação pública, a tendência é que o nível de exigência caia para não permitir a evasão e garantir um mínimo denominador comum, atendendo ao maior número de pessoas possível. Esse sistema acaba por dificultar o desenvolvimento de talentos, genialidades, criatividades, poder de raciocínio, e restringir a busca de conteúdos e saberes que interessam a cada um. Deve-se ter claro que as escolas são apenas um dos meios para a educação e, provavelmente, não o melhorNormalmente, a escola não é o ambiente mais adequado para promover a criatividade e habilidades individuais. Assim, o ensino não pode ser entendido apenas como cumprimento da educação formal, mas também como a busca do desenvolvimento do indivíduo em suas várias atividades e interesses. Os estudantes podem potencializar seus talentos também fora das escolas de diversas formas. É o conhecimento descentralizado e disperso, levando em consideração a liberdade de escolha, que tornará possível elevar a qualidade educacional.

 

            Este trecho nos é revelador, pois podemos verificar nele o mecanismo estratégico utilizado na tentativa de agregar ao argumento que confere ao estudo à distância, ou fora da instituição escolar, um status superior ao do ensino presencial e sistematizado. É dito que a grade curricular padrão e a carga horária geram desigualdades por tratarem todos da mesma forma, simplificando a prática e a organização pedagógica que complementam essa estruturação escolar, colocando, ainda, a causa do rebaixamento dos níveis de exigência para os estudantes ao suposto tratamento impessoal que seria oferecido aos alunos. É dito ainda que a escola, normalmente, não seria o meio mais adequado para se promover as habilidades individuais e a criatividade. Se a escola não é o ambiente mais adequado para essa promoção, qual seria esse meio? E quem seria o responsável por essa promoção? O que é dito a seguir nos permite vislumbrar a teoria por trás dos argumentos, pois segundo o texto, “os estudantes podem potencializar seus talentos também fora das escolas de diversas formas”. O que podemos apreender dessa fala é que o aluno deveria ser o responsável por suas escolhas educacionais, fazendo isso em outros ambientes, como sua própria casa ou qualquer outro tipo de instituição terceirizada, ou sem a estruturação que as escolas estaduais mantêm atualmente. A justificativa é a de que “o conhecimento descentralizado e disperso, levando em consideração a liberdade de escolha, (...) tornará possível elevar a qualidade educacional.” Está posto o argumento de que a escola é um ambiente ultrapassado, limitante e que não permite que o aluno possa exercer sua individualidade e traçar seus próprios caminhos dentro do conhecimento, apoiando-se falsamente e distorcidamente em pressupostos teóricos pedagógicos.

 

Considerações finais

 

            Esses pequenos trechos analisados apenas esboçam um ideário que aponta para os valores neoliberais que circulam no imaginário sóciodiscursivo da sociedade, ou seja, a defesa de menor intervenção do Estado na educação, a privatização de serviços básicos, a valorização da meritocracia, e a formação tecnicista dos indivíduos para que possam preencher as necessidades estabelecidas pelo capitalismo. A não intervenção direta do Estado é tratada como benéfica e necessária para que o aluno possa se “desenvolver” e exercer sua criatividade, tomando suas próprias escolhas em relação ao seu programa de estudos, (embora esses indivíduos estejam com idades entre 6 e 14 anos em média, muitos sem condições básicas de sobrevivência, acesso à internet, ou com pais que possuam uma formação mínima para orientá-los de alguma forma). A alegria presente no trecho do memorando ao anunciar a volta às aulas parece visar minimizar as decisões extraordinárias que seriam tomadas a seguir, quando aulas remotas teriam início. As estratégias discursivas utilizadas (a hiperbolização dos sentimentos positivos ao anunciar as medidas, a passividade em relação às decisões, ao cessamento e ao reestabelecimento do regime escolar, a utilização de argumentos que remetem de alguma forma às informações validadas cientificamente, a utilização de argumentos de valorização das características individuais) nos dizem sobre os metadiscursos que estão presentes nas narrativas, metadiscursos que nos permitem visualizar os valores que sustentam esses discursos e que promovem a adesão social e a validação das medidas anunciadas.

            Podemos dizer que os trechos nos trazem indícios sobre o imaginário sóciodiscursivo da atualidade por causa de seu conteúdo, suas estratégias e a relação do discurso que trazem com medidas que são tomadas na prática social e que se relacionam com os discursos que estão presentes em diversos meios e suportes, discursos que trazem a tendência do ideário neoliberal. Essa breve análise é apenas um questionamento lançado a trabalhos posteriores, considerando a relevância dos temas levemente abordados.

 

BARREIROS, Jaqueline Lopes: Fatores que influenciam na motivação de professores. 2008. 105 f. monografia. (Graduação em psicologia) – Centro Universitário de Brasília, Brasília, 2008

 

CHARADEAU, Patrick: Dicionário de análise do discurso. 2 ed.São Paulo: Contexto, 2006.

CHARAUDEAU, Patrick. Discurso Político. Tradução Fabiana Komesu e Dilson Ferreira da Cruz. São Paulo: Contexto, 2006

CHARAUDEAU, Patrick. Os estereótipos, muito bem. Os imaginários, ainda melhor. Traduzido por André Luiz Silva e Rafael Magalhães Angrisano. Entrepalavras, Fortaleza, v. 7, p. 571-591, jan./jun. 2017.

COSTA, Antônio Carlos Gomes. Aventura pedagógica: caminhos e descaminhos de uma Ação educativa. São Paulo: Columbus Cultural, 1990.               

DANTAS,C. Capítulo I. In: Gilberto Freyre e José Lins do Rego: diálogos do senhor da casa-grande com o menino de engenho [online]. Campina Grande: EDUEPB, 2015. Substractum collection, pp. 27-51. Disponível em: http://books.scielo.org/id/y4x7f/pdf/dantas-9788578793296-03.pdf.

EDWARDS JUNIOR, Brent; HALL, Stephanie M. Escolas charter: gestão de professores e aquisição de recursos na Colômbia. Cad. Pesqui.,  São Paulo ,  v. 47, n. 164, p. 442-468,  June  2017 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-15742017000200003&lng=en&nrm=iso>. access on  22  Sept.  2020.  https://doi.org/10.1590/198053144163.

MAINGUENEAU, Dominique. Discurso e análise do discurso. Trad. Sírio Possenti. 1 ed. São Paulo: Parábolas Editorial, 2015.

PAVEAU, Marie-Anne Linguagem e moral. Campinas: Editora da Unicamp, 2015

PAVEAU, Marie-Anne. Os pré-discursos: sentido, memória, cognição. Trad. Graciely Costa e Débora Massmann. Campinas, SP: Pontes Editores, 2013.

PAVEAU, Marie-Anne., & Goldstein, N. (2007). Palavras anteriores. Os pré-discursos entre memória e cognição. Filologia E Linguística Portuguesa, (9), 311-331. https://doi.org/10.11606/issn.2176-9419.v0i9p311-331

PÊCHEUX, M. Papel da Memória. IN: Papel da Memória. Pierre Achard et al. Tradução: José Horta Nunes. 1ª edição. Campinas, SP: Pontes, 1999, p.49-50.

SILVA, Simone Patrícia da: Retratos da educação pública brasileira em relatos da mídia impressa. 2016. 199 f. tese. (Pós Graduação em psicologia) - Universidade Federal de Pernambuco, Pernambuco, 2016.



[1] Formação discursiva é um conceito elaborado por M. Foulcault e, posteriormente, reconfigurado por M. Pêcheux; para ambos a formação discursiva é concebida, segundo Maingueneau (2015) “como um sistema de restrições invisíveis, transversal às unidades tópicas”.

[2] Pré-discursos, segundo Marie - Anne Paveau (2015),  tratar-se-iam de “um conjunto de âmbitos pré-discursivos coletivos (saberes, crenças, práticas), com papel instrucional para a produção e a interpretação do sentido em discurso”.

[3] ZEMA, Romeu: Liberdade ainda que tardia - plano de governo. Partido Novo: Minas Gerais, 2018. Disponível em: http://divulgacandcontas.tse.jus.br/candidaturas/oficial/2018/BR/MG/2022802018/130000600702//proposta_1533160671813.pdf,

[4] COSTA, Antônio Carlos Gomes. Aventura pedagógica: caminhos e descaminhos de uma Ação educativa. São Paulo: Columbus Cultural, 1990.

[5] O Construtivismo, em Piaget, é uma teoria sobre a origem do conhecimento em que o indivíduo passaria por alguns estágios na aquisição e na construção de seu conhecimento, de acordo com fatores biológicos, de experiência e exercícios, de interações sociais e de equilibração das ações, sendo que o conhecimento seria resultado da construção pessoal do indivíduo, considerando o professor como importante mediador desse processo.

[6] https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2020/09/14/interna_gerais,1185405/governo-zema-estuda-implementacao-de-escola-publico-privada-em-2021.shtml

[7] Silva (2016) discorre sobre o tema em sua dissertação, onde expõe as dificuldades de se definir termos como ”direita e esquerda”, apesar da necessidade de delimitação desses conceitos; segundo ela, “o discurso produtivista e obediente à lei do mercado tem por base o neoliberalismo, uma ideologia cujos pressupostos são associados à direita ou àquilo que se convencionou chamar nova direita (GIDDENS, 1996)”.  Ainda é dito que “tal corrente de pensamento surgiu na Europa e na América do Norte, após a Segunda Guerra Mundial, locais predominantemente capitalistas. Pode-se dizer que é um movimento que se opõe ao Estado intervencionista e do bem-estar”. Citando Marrach (2002), diz que Segundo essa autora, “aqueles que adotam tal discurso tendem a olhar para a educação como uma mercadoria que deve proporcionar sujeitos com alta qualificação. Em consequência, defendem um modelo escolar semelhante ao do mercado, cuja eficiência leve ao desenvolvimento econômico.”

[8] Podemos citar como exemplo a monografia do curso de psicologia da UniCEUB de Jaqueline Lopes Barreiros, cujo título “Fatores que influenciam na motivação de professores” anuncia o descontentamento dos professores com, dentre outros motivos, a forma como são vistos pela sociedade; em três depoimentos é dito que os professores são vistos como “vagabundos”.

[9] Algumas declarações polêmicas do ex-ministro podem ser vistas na reportagem da revista Veja, como por exemplo: “Após almoçar, olhando pela janela, vejo a lápide da educação em frente ao MEC e penso: achava impossível, mas Paulo Freire visto do alto é ainda mais feio. Ao menos o MEC já está decorado para o Halloween (dia das bruxas). Tragam as crianças para se divertirem com um bom susto!” . https://veja.abril.com.br/brasil/os-tuites-mais-imprecionantes-de-weintraub/, em 15/10/2020

[10] Como bem nos explica Silva (2016), a retórica educacional dos anos 90 ajuda a construir um consenso do mercado no cenário educacional, (especialmente com a Nova Lei de Diretrizes e Bases), pois “é caracterizado por grandes mudanças no campo político, econômico, social, cultural e ideológico decorrentes, principalmente, da crise do sistema capitalista, que desencadeou uma corrida desigual dos países por mais acumulação de riqueza, tecnologia e ciência. Com base nessas mudanças, as reformas do Estado em relação ao mundo do trabalho passaram a ser defendidas por meio de um discurso no qual o vocabulário empregado focaliza a nova ordem mundial”. (FRIGOTTO; CIVIATTA, 2003) citado por Silva (2016).

[11]Segundo Dantas (2015), “ hegemonia é o conjunto das funções de domínio e direção exercido por uma classe social dominante, no decurso de um período, sobre outra classe social e até sobre o conjunto das classes da sociedade. A hegemonia é composta de duas funções: função de domínio e função de direção intelectual e moral, ou função própria de hegemonia (MOCHCOVITCH, 1992, p. 20-21).”

domingo, 13 de junho de 2021

O caos imobiliário de Ouro Preto

 

Comprar um imóvel na cidade de Ouro Preto nunca foi uma tarefa fácil, especialmente para quem não tem condições de realizar muitas escolhas dentro das condições existentes, ou seja, a maioria das pessoas que não ganharam na megasena, não são empresários ou simplesmente aqueles que possuem um emprego “normal”. Além da crise imobiliária e tudo o mais, podemos listar alguns problemas que dificultam o direito de morar em Ouro Preto:

Chevrolet Impala
Casa à venda, 3 quartos, Vila dos Engenheiros – Ouro Preto/MG – 1800,000,00 (um milhão e oitocentos mil). Parece não possuir documentação.*

_ A maioria dos imóveis não possui documentação regularizada, o que impede o financiamento bancário;

_ Ouro Preto é uma cidade incomum, patrimônio mundial da humanidade, o que faz com que o preço dos imóveis vá para as alturas;

_ Ouro Preto também é uma cidade universitária, sendo assim, os melhores e maiores imóveis transformam-se em repúblicas (ou moradias estudantis), onde diversos alunos dividem as despesas, o que também eleva exorbitantemente os preços de venda e de locação de imóveis;

_ Além de os preços serem exorbitantes, os imóveis, geralmente, estão em péssimas condições, muitos precisam de restauração, o que dobra as despesas já impagáveis para um pobre mortal;

_ Muitas casas estão em escadarias, becos, têm paredes comuns com outros imóveis, não possuem garagem, não tem iluminação natural, tem infiltrações e mofo, embora isso não diminua o seu valor;

_ Endinheirados que procuram viver ou apenas ter um imóvel na “cidade histórica” compram casas com preços exorbitantes e os deixam vazios ou alugados na maior parte do tempo, ou, algumas vezes, os transformam em comércio “gourmetizado”.

Chevrolet Impala
Casa à venda, 5 quartos, 3 suítes, 10 vagas, Antônio Dias – Ouro Preto/MG – 1.500.000,00 (um milhão e quinhentos) – parece não possuir documentação.

O povo nativo expandiu a cidade pelos morros através da famosa invasão de barrancos, alguns tiveram sorte de encontrar terrenos em locais menos arriscados e mais próximos do centro; mas, não há mais quase nenhum barranco para ser invadido, e os descendentes desses nativos são obrigados a viver com a família, fazer puxadinhos arriscados, ou a mudarem-se para uma cidade que possa oferecer condições mínimas para um cidadão. Enquanto isso, o centro torna-se espaço de comércio, estudantes esporádicos(o que alimenta uma rusga antiga entre nativos e estudantes), turistas e gente endinheirada.

Chevrolet Impala
Casa à venda, 6 quartos, Alto da Cruz – Ouro Preto/MG – 450.000 (quatrocentos e cinquenta mil- Este imóvel possui escritura, mas parece ter problemas de infiltração e ventilação em alguns de seus cômodos.

Caminhando pela cidade, vemos inúmeras placas de vende-se por todo o canto, placas que aumentaram com o passar da pandemia, mas, praticamente nenhum morador que procura imóvel pode comprar tais casas, essa é a realidade. Enquanto isso, casarões importantíssimos para a história estão caindo, sem que haja nenhuma atitude dos donos ou das autoridades, como é o caso do imóvel do “Vira Saia”, personagem da história ouropretana.

Resumindo, é praticamente impossível que um cidadão comum tenha condições de comprar um imóvel na cidade de Ouro Preto, enquanto isso, imóveis ficam vazios ou caindo pelo chão e o centro da cidade vai se transformando em museu, vendo as pessoas sendo expulsas para um canto qualquer onde as caiba. Triste

*Informações sobre os imóveis foram retiradas do site da Imobiliária Itacolomi.