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terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Morrer rolando o mouse - reféns de um psicopata


O negócio é o seguinte, só de existirem instituições sérias fazendo pesquisas sobre a influência da rede social Facebook na vida das pessoas, já é indício de uma situação incontestável.

As regras do modo de se viver e de se relacionar mudam de acordo com a evolução das tecnologias, é verdade. É verdade também que não sabemos ainda como a nossa sociedade será afetada pela dependência que criamos da internet, especialmente das redes sociais; mas, será que podemos parar um pouquinho para pensar sobre o que nossas vidas eram, o que são agora, como chegamos a isso, e como as novas gerações estão vivendo? Podemos parar e refletir sobre como nós todos nos tornamos mais ou menos livres? Mais ou menos presentes? Mais ou menos reflexivos? Pacientes? Tolerantes? 

Façamos um exercício imaginativo agora: 
Vivemos em uma era totalmente dependente da internet, especificamente da rede Facebook.  O que é o Facebook? Uma armadilha criada por um nerd psicopata que odiava todos os colegas da faculdade, a ex namorada, o mundo todo, e, ao mesmo tempo, conhecia muito bem os desejos ocultos dos seres humanos, as necessidades imaculadas e as pérfidas. Ele criou um lugar onde as pessoas poderiam ir e ficar acompanhando todas as vidas que quisessem, as dos amados, as dos odiados, as dos ridículos. Poderíamos entrar em contato com  qualquer um, até mesmo com os antes inalcançáveis artistas. Poderíamos dizer e nossas vozes poderiam ser ouvidas por dezenas, quiçá, milhares? Poderíamos conhecer pessoas de outros lugares, manter contato diariamente com elas, saber de suas peculiaridades. Não era como o Orkut, podíamos stalkear livremente, sem que ninguém soubesse. Ver tudo o que os ex faziam, se estavam bem, bonitos, ricos, pobres, felizes, infelizes, e localizá-los na vida real. Podíamos nos tornar famosos e ganhar elogios de outras pessoas. Podíamos ser notados, fazer parte de um grupo e sermos importantes. Podíamos infernizar a vida das pessoas, humilhando-as, destruindo-as publicamente. Podíamos arruinar relacionamentos; tudo era possível!

Outros benefícios foram oferecidos, como a possibilidade de se fazer negócios através da plataforma, de se publicizar trabalhos, eventos e opiniões, o que foi muito bem utilizado  pelos que podiam "pagar". Parecia o paraíso.

O tempo foi passando e as pessoas se tornaram cada vez mais dependentes do Facebook. Quem não tinha o perfil no Facebook, não existia. Prontamente, todas as informações pessoais foram entregues, como número de telefone,  opiniões, gostos, localização, tudo. O Facebook fez ligações com diversos tipos de empresas, e essas também tinham acesso às informações de usuários. Tudo o que comprávamos, o que pesquisávamos, o que desejávamos mais intimamente, onde estudávamos, trabalhávamos,  pra onde viajávamos, os livros que líamos, as opiniões políticas que tínhamos, nosso filhos, relações de parentescos, nossas conversas mais íntimas, segredos mais escabrosos, tudo estava à disposição, nós oferecemos nossas vidas de bandeja. Tudo está na internet, para sempre, até quando os computadores existirem. Tudo de bom grado.

Mas... A ilusão de que poderíamos alcançar o mundo acabou. Não somos nós quem controla onde  e como nossas publicações vão aparecer, mas o Facebook. Não adianta montar um discurso se a plataforma não o faz aparecer nas páginas de seus "amigos", não mais que de uns dez indivíduos. A não ser que seu conteúdo seja realmente bom (ridículo, engraçado, polêmico, escandaloso, revelador e curto) e os amigos passem a compartilhá-lo, pode até ser que a plataforma tenha menos autonomia sobre o paradeiro, mas, geralmente, e, especialmente se você gerencia uma página, você terá que pagar para que seu conteúdo apareça para um determinado número de uma audiência. Fato. Então, amigos, a verdade é que é o próprio Facebook quem decide se nossas publicações serão vistas ou não, e fim.

O usuário não controla nada, somos todos joguetes do capitalismo. E da política. Deram-nos uma droga e não podemos mais viver sem ela, e sempre encontramos justificativas válidas para permanecermos em nossos vícios.

Então o Facebook incorporou o Instagram, o Whatsapp, as outras duas maiores redes do mundo. Agora mais informações são coletadas, além de amigos e contatos online, há os telefônicos. Não há mais nada desconhecido para o Facebook. As pessoas começaram a realizar tudo através dessas redes, absolutamente tudo. Relações sociais e profissionais, relações de amor e de ódio. Relações políticas. Tudo.

Então o mundo se torna refém de um psicopata. "Nhem nhem nhem, teoria da conspiração", dirão uns. Mas é fato. O mundo está nas mãos de um psicopata. Ele ainda não conquistou a China, apesar da esposa chinesa. Ainda.

Resumindo é isso. As pessoas se tornarão viciadas, medrosas, apáticas, tímidas, robôs buscando felicidade em imagens na tela, presas dentro de um apartamento no subúrbio de uma São Paulo qualquer, olhando para o mundo colorido enquanto lá fora é escuro, fedorento, os pneus queimam e os craqueiros morrem de outra droga. 

Rolando a porra do mouse.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

As mulheres não são amigas


O título é uma generalização, mas o que percebo, sendo mulher, é que existe uma eterna rivalidade entre as mulheres, uma disputa infinita e infindável. Simone de Beauvoir disse que não se nasce mulher, que se torna mulher, mas eu não consigo precisar até onde as influências e o universo em que nascemos nos tornam o que somos, ou se existe algo biológico que nos impele a ser como somos. Eu precisaria de vidas de estudos antropológicos, sociológicos e biológicos para precisar algo, e, como não disponho de tantas vidas e muito menos de tantos estudos, posso apenas relatar algumas experiências dessa vidinha medíocre que venho levando.

Quando era criança tinha poucas amigas. Gostava mais dos meninos, porque eles eram sempre mais claros, sinceros e falavam de coisas mais interessantes, como sobre o sentido da vida ou os cantos das cigarras. Eu tinha uma amiguinha, um dia ela recebeu outras amiguinhas de visita, juntou-se a elas e juntas se riram ironicamente por eu não saber dançar. Eu tinha outra amiga, até nos dávamos bem. Depois de longos anos sem nos falarmos, a encontrei na internet, mas ela sequer respondeu as minhas mensagens. Éramos melhores amigas.

Eu tive boas amigas, fiéis, inteligentes e engraçadas.Essas são como gotas no oceano. Na adolescência, minhas amigas disseram para não andar com elas porque iria estragar o esquema delas, elas pensavam que eu fosse mais bonita que elas e os pretendentes iriam ignorá-las. Outra amiga ficava se insinuando e competindo comigo.

No trabalho, tive algumas chefes. Aliás, penso que todas eram mulheres. Pegavam no meu pé, chamavam a atenção na frente dos outros, enquanto que os funcionários machos dormiam na banheira do banheiro. Uma colega de trabalho vivia me julgando com aquele olhar de cobra pecaminosa, e quando eu dizia que não gostava de cozinhar, a fala dela era: nunca vi mulher, mãe, e não gostar de cozinhar. Só tenho uma coisa a dizer para ela: PNC.

Vejamos as meninas nas escolas. Quando uma aluna nova chega, ela é hostilizada por quase todas, especialmente se for bonita ou tiver algo que chame a atenção. A maioria das brigas entre mulheres se dá pelos mesmos motivos: inveja ou ciúmes. Por quê?

Talvez o mundo nos tenha ensinado que precisamos estar sempre acima das demais para atrair um macho, sem o qual supostamente não poderíamos viver. A mulher tem que ser linda, prendada, carinhosa, amável, esforçada, trabalhadora, se quiser conquistar o melhor homem. Talvez seja isso. Ou talvez conheçamos as nossas capacidades de observação, reconhecimento e manipulação a ponto de ficarmos sempre alertas.

As mulheres precisam ser mais inteiras, inclusive eu. Inteiras e unidas. A primeira coisa que deveríamos aprender é respeitar umas as outras. Talvez haja uma eterna baixa auto-estima entre nós, talvez damos valor demais aos olhares dos outros. Talvez devêssemos começar a pensar sobre como nos relacionamos com as outras, e com os homens. Quais são nossos valores? 

Algumas reflexões:

Mulheres, não subjuguem umas as outras. Estejam de peito aberto para ouvir e se interessar verdadeiramente pelo que as outras possam oferecer, suas experiências, seus conhecimentos, vamos compartilhar;

Mulheres, solidarizem-se! Nós sabemos como ainda é difícil e pesada a carga para as mulheres, por que não podemos nos ajudar para que todas possam ter um apoio e um caminhar mais suave?

Mulheres, não sejam hipócritas! Não sejam escravas dos padrões e das opiniões. Não faz sentido algum ser feminista, lutar por direitos iguais, por respeito, e ao mesmo tempo implorar por atenção através dos atributos sexuais nas redes sociais.

Mulheres, não se submetam! Se não gostam de algo ou situação, não se submeta a ela, e apoie a quem faz o mesmo!

Mulheres, sejam sinceras! Não façam elogios falsos, não fofoquem, não conspirem contra as outras mulheres apenas por elas representarem uma ameaça imaginária.

Mulheres, respeitem os limites! Respeitem os relacionamentos das outras, não estamos em uma competição por machos, além do mais, o que mais tem é homem nesse mundo. Acolhamos um código de ética e acabemos com essa eterna disputa. Não façam com as outras o que não gostariam que fizessem com vocês, ok?

Biologia ou cultura, não sei dizer, mas o nosso comportamento explica muito sobre os motivos de nossa longa submissão.



quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

A revolução começa em casa


A revolução começa quando todo o mundo de uma família, pais e filhos, tiverem a certeza de que são responsáveis por suas próprias vidas, e assumirem os benefícios e as merdas; isso que dizer:

Os pais não existem para servir aos filhos, satisfazer-lhes suas necessidades e vontades, nem tampouco evitar de mostrar-lhes as verdades da vida. Lavar banheiro não é "nojento", arrumar a própria bagunça não é sacrifício, lavar o que suja não é trabalho escravo, é o mínimo que um ser humano perfeito e com coordenação motora normal deve fazer;

Cada um que lave sua cueca e sua calcinha, mesmo existindo máquina de lavar, ninguém é obrigado a ficar lidando com secreções de outras pessoas;

Derramou-pegou, sujou-limpou, abriu-fechou, se alguém dorme é porque precisa, espaços comunitários devem ser respeitados e necessidades individuais também;

Ninguém precisa de nada que não tenha se lembrado ou utilizado por mais de um ano, as coisas existem para um determinado fim, não para se ostentar e jogar fora no fim do ano;

As tarefas não são responsabilidades de um ou outro, mas de todos que desfrutam da casa e do que ela oferece, desde a organização até a comida;

Não é empregada quem tem que resolver as coisas chatas e cuidar de nossos filhos, nossos filhos é que devem aprender a fazer o mínimo, e nós que temos que exigir do governo que tenhamos escolas e creches quando não pudermos cuidar deles para irmos trabalhar, nós e as que seriam empregadas, cuidando dos nossos filhos e deixando os delas sozinhos;

Sim, tarefas são chatas e cansam, por isso mesmo não é justo que uns se responsabilizem por tudo enquanto os outros descansem em paz;

Compartilhar, os momentos de trabalho e os momentos bons, compartilhar! De vez em quando, gastar com o que dá prazer, porque a revolução não pode ser só trabalho.

Resumindo, não adianta ficarmos discutindo teorias sobre a sociedade, capitalismo, socialismo, o diabo a quatro, se não praticamos os valores que idealizamos. De ideias o inferno está cheio.

Então é isso, se queremos uma verdadeira revolução, onde todos se respeitem, respeitem as necessidades individuais e coletivas, se responsabilizem por seus atos e deveres, não cultivem valores consumistas e saibam se divertir, é em casa que devemos começar. Não sejamos hipócritas e irresponsáveis quando o assunto é uma sociedade justa!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

A culpa é da mãe


A culpa é da mãe.

Foi ela quem não amamentou o filho de maneira e por tempo adequados para que ele se sentisse amado e desenvolvesse as aptidões afetivas sem deixar consequências traumáticas. Foi ela quem não teve tempo o bastante para suprir as carências do rebento, fornecer-lhe respostas e instruções apropriadas para ser bem sucedido e seguro. Aquela mãe que trabalhou demais e deixou os filhos na casa dos outros, a culpa é dela! Ela que teve filhos tão cedo na vida e, de certa forma, teve que estar preparada para abrir mão de si mesma, de sua individualidade, de sua intimidade, de seus sonhos, mas de vez em quando, quis sair a noite com os amigos e se esquecer de que não era só uma mãe, a culpa é dela. A culpa é dela que não deu um pai ao filho, ou que expulsou o cafajeste de casa, a culpa é dela por não ter paciência depois de um dia enorme de chateações e trabalho tentando levar comida para casa. Se ela não abandona, é culpada, se desiste, é culpada, e se não deseja ter filhos, é pior que todas as outras.

A culpa é da mãe. É dela a culpa pela disputa feminina e rivalidade com a filha e de todos os problemas psicológicos e sexuais dos Édipos. A culpa é dela se protege demais, se cobra, ou se não o faz. A culpa é da mãe por formar assassinos, psicopatas, fracos, frouxos, safados, hipocondríacos, antissociais, alienados e toda a escória social e moral. A culpa é da mãe.

Se está presente, mas não vive no mundo da Doriana ou do Barney, é culpada. Se vive cheia de palavrinhas vazias de amor eterno mas é uma pervertida e irresponsável, é culpada. Até mesmo as que andam na regra são culpadas, pois não há uma regra para uma mãe perfeita, embora digam que todas as mães sejam perfeitas e que haja uma ligação biológica ou cósmica entre mães e filhos. A mãe é o centro do universo e é a culpada da danação humana. Tudo é a mãe. Filhos da mãe.

Não sei quanto a casais homossexuais, onde a mãe entra, como e quando; de quem será a culpa? Quem será a mãe? E quanto aos filhos que jamais foram alimentados no seio da mãe? E quanto aos que tiveram ama de leite? Os que foram viver longe dos pais na era vitoriana? E quanto às crianças criadas em instituições? Quem foram as suas mães? Há de se culpar uma mãe.

Mulher, a culpa será sempre sua. Sua frígida, invejosa do pênis, histérica, Lillith banida por querer ser igual a Adão, Eva castigada por ser perversa! Sua bruxa, intelectualmente inferior, de cheiros fortes e desagradáveis, suja, que menstrua, louca, dissimulada, bipolar! Sua mãe, filha de uma mãe, a culpa é sua! A culpa é sua!

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Odeio calor!


Eu odeio calor e duvido que alguém goste. Vejam bem, por que o inferno é descrito quente, cheio de chamas, lavas, caldeirões e água fervente? Porque é literalmente um inferno sentir calor! Tudo é ruim e sacrificante, tudo é cansativo, suado e fedorento. Vamos aos exemplos dos terrores vividos no verão intenso:

Dormir: 

É necessário todo um aparato de coisas refrescantes como ventiladores, ar-condicionado, ou poucos aparatos, como dormir peladão. Mas então vem os mosquitos ajudantes do Lúcifer para atazanar a noite. O dia é longo, tem horário de verão (agora, por exemplo, são 18:47 e o sol ainda está rachando lá fora), se a janela é de vidro e não se tem cortinas escuras, o sol invade a casa lá pelas cinco da madrugada e é difícil continuar na cama. Resumo, impossível dormir!

Acordar:

Acordamos suados e cansados, tomamos banho e já saímos suando do chuveiro. 

Comer:

A fome diminui (o que para alguns pode ser bom), e depois que comemos, nos sentimos exaustos, indispostos e sonolentos.

Andar:

É como escalar o monte Everest do Saara, se fosse possível e existente. Qualquer morrinho gera um sofrimento inenarrável e um esforço árduo, sem falar que ficamos todos molhados, grudentos, fedorentos e queimados de sol. 

Trabalhar:

Sem comentários, não deveria existir trabalho no verão. Ponto.

Andar de ônibus:

É como subir na barca do inferno, a pior experiência de todas. Junte todos os elementos anteriores, acrescente o desconforto de ter 60 pessoas na mesma situação, todas encostadas umas nas outras, reclamando, gritando e chorando. Foi isso o que Dante viu quando desenhou o inferno.

Verão é bom só para quem está na praia, a passeio, ou ganhando dinheiro com turistas, ao contrário, é só dor e sofrimento.


terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Você me ama de verdade?


Eu sei que você vai me amar nas noites de samba,
Quando nos embebedarmos e dançarmos,
Quando cantarolarmos, rirmos alto e experimentarmos comidas ruins;
Eu sei que que você vai me amar quando apertar suas carnes
E encher-lhe de beijos cheios de saudades,
Mesmo quando juntos o dia todo passarmos.
Eu sei que vai me amar quando eu o surpreender
Com mimos, palavras e poemas,
Elogiando seus olhos e embolando sua barba;
Eu sei que me amará quando nos perdermos à noite,
Ou de manhã, ou a tarde, a todo momento,
Esquecendo-nos de nós e do mundo.
Eu sei que você vai me amar quando me vir cozinhando,
Cuidando de nossos pequenos,
Desenhando e falando bobagens. 
Eu sei.
Mas, você vai me amar quando eu for o avesso de mim mesma,
Quando me perder na escuridão,
Quando o sorriso sumir?
Ainda me amará quando ofender seus afetos,
Descompreender suas certezas,
Discordar de seus ideais?
Você me amará quando o belo mudar,
Quando a dor aparecer,
Quando eu enlouquecer?
Você me amará quando eu for humana?
Você me amará verdadeiramente?
Você me ama?

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

A casa dos meus tios


Os meus tios moram no centro de Ouro Preto; lembro-me bem dos primeiros dias que passei naquela casa, quando vinha a passeio de Ipatinga, dos momentos em que minha tia nos dava papeis e tintas e ficávamos no chão a criar desenhos que eram sempre lindos para ela. A casa antiga tinha um segundo andar com pisos de tábuas velhas, e podíamos ver pelos buracos o andar de baixo, morria de medo de vazar para lá. Lembro-me dos biscoitinhos quebra-queixo, derretiam na boa, nunca mais comi biscoitinho tão gostoso! Era sempre aconchegante, gostoso, e mágico, a cidade me encantava. 

Com onze anos eu me mudei definitivamente para Ouro Preto e as lembranças são das visitas frequentes de todos os familiares na casa dos meus tios. Já que eles moravam no centro, ou na Rua, como gostamos de dizer, sempre que alguém ia resolver uma pendencia, fazer compras ou passear, inevitavelmente passava na casa dos meus tios, sem aviso prévio. Eu não sei bem se eram as vacas magras, mas todo o mundo adorava ir até lá tomar um café da tarde ou filar uma bóia. Eram papos que não se acabavam, bença tia e tio, relação de verdade. Eu não sei se gostavam ou não, mas éramos todos muito bem recebidos. 

Outra vantagem para os parentes é que a casa deles fica em um ponto estratégico, onde muitas coisas acontecem, então, na Semana Santa, por exemplo, a parentaia se empoleira até hoje, um pouco menos,  nas sacadas e janelas para assistirem aos festejos. Enquanto aos meus tios, não sei se algum dia puderam assistir aos acontecimentos de suas próprias casas, mas sempre estão com um sorriso e um café.

Mas, ao que tudo indica, ninguém mais, ou poucos, passam lá para filar rango ou puxar uma prosa. As janelas, que antes ficavam cheias de meninos debruçados e brincando com turistas que lhes tiravam fotos, estão quase sempre vazias. Não sei se ainda há o pãozinho quentinho com manteiga, os bolos, o biscoitinho, o café com leite, mas o carinho, ainda está lá. O que aconteceu com a parentaia? Envelheceu, se desuniu, encheu a pança e perdeu a vontade de assistir à rua e passar boas horas de boa conversa? 

O que aconteceu é que não é mais necessário ir até a casa das pessoas, ao acordar, mandamos figurinhas de bom dia para todos no Whatsapp, feliz aniversário do dia, fotos de bebês, de convalescentes e pronto, nos atualizamos. Acabou a prosa, as risadas, o tempo de exclusividade, comilança simples e gostosa, as memórias, as bênçãos, os abraços. Acabou tudo. Ficamos com as telas e sem lembranças.

Ouça esse texto.

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