terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Brasil do futuro


Zezinho nasceu na favela do Taquara. O pai vivia bêbado pelas calçadas das ruas, dizendo gracejos para as meninas e para os postes, pois não existia diferenciação naquela situação. A mãe segurava a família de cinco filhos, trabalhando em casa de médicos  e cuidando de seus três filhos. Na casa dela, os maiores cuidavam dos menores. Zezinho tinha que ir para a escola de manhã e ajudar a tomar conta dos irmãos à tarde, quando não tinha que fazer algum serviço para ganhar uns trocadinhos ou ir pegar o pai na sarjeta. Era a vida, não nascera granfino. Na escola, as coisas da matemática não entravam na cabeça, a fome gritava demais nos ouvidos, assim como os gritos do pai descendo as escadas na madrugada passada que anunciavam mais uma noite de desespero. Era chamado de negrinho do pastoreiro e excluído dos grupos, odiava aquela escola mais que a própria vida, não vingou nela. Cresceu e foi trabalhar como entregador de compras, carregava caixas pesadas o dia todo para ganhar um salário mínimo. Um dia, sem mais nem menos, o patrão o demitiu para cortar gastos. Ele não recebeu nada. Ele não podia ir até o ministério da justiça, porque já não existia. Desse jeito, de acordo com a reforma da previdência, nunca teria tempo suficiente para se aposentar. Ele ficou imaginando que o patrão não gostara do pedido de aumento, ele queria comprar enxoval para o filho. De acordo com as novas leis, os acordos deveriam ser feitos entre empregador e funcionário, não através de sindicatos. Zezinho saiu e lá estavam na fila desesperados aceitando ganhar menos que ele, e se ele fosse recorrer, sem advogados, e perdesse da empresa milionária, ele teria que arcar com todos os custos, e ainda corria o risco de ser marcado como "aquele que recorria" e não conseguir mais emprego. Ficou quieto. Disseram que o mercado seria capaz de trazer justiça por ele mesmo, mas o mercado visa lucro, não vida justiça. Zezinho caiu na bebedeira, e caiu cantando o tchan. Pensaram que ele fosse gay e meteram-lhe um tiro na cara no meio da rua depois de uma briga; era normal qualquer homem de bem, gay ou não, ter arma para defender a sua família das ameaças comunistas e homossexuais negras. Morreu atrapalhando o tráfego. Seu filho, estará no círculo, mas não terá direito a escola, vai ter que estudar através de um computador. Aham. É o fim.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Perdedor


Eu não ganhei na Mega sena,
Nem vou cantar com Paul McCartney,
Meu artigo não estava nas normas,
Os meus poemas não venceram o concurso.

O programa de pontos nunca existiu,
A Black Friday também não,
As passagens aéreas dobraram no fim,
Não ganhei na promoção do Epa.

Fizeram dancinha pro tal eleito,
Perderam todos os direitos,
E continuam dançando
Quando deviam estar chorando.

Falo grego com brasileiros,
As antas estão no poder;
Com anta não se dialoga,
Com anta, é só se foder.

Com que ânimo devo levantar-me e pegar no trabalho
Que parece ridículo diante de um universo desmoronante,
De uma geração perdida?

Enquanto isso, os zumbis comem, bebem, e dormem
Rindo-se sozinhos como dementes, junto a uma multidão
Que não sabe sair para comprar pão.

Humanidade patética, escrava, e pestilenta,
Que aos poucos se condena à extinção
Virulenta,
Podre, decrépita, fétida, com telefone na mão.





quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Mais daquela


Aquela que depois dos 40 ainda sopra e sacode todos os dentes de leão,
Mas que esconde as lágrimas, todas elas, de dores e de prazeres.
Aquela que vê com olhar diferente, todos os dias, sem distinção,
As mesmas paisagens, que despertam diferentes quereres.

Aquela que ama intensa e insanamente
E que sofre doída como um cão.
Aquela que às vezes parece dormente
Quando já não aguenta o coração.

Aquela que escreve poemas,
Mas de lê-los, gosta não.
Mente cheia de problemas,
Todos sempre vãos.

A que não aceita
Se insatisfeita,
A que é
Mulher.


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

As taturanas, lesmas e cobras do mundo


A maioria das pessoas é de gente ruim. Ou a ruindade da porção ruim é tão nefasta que contamina o ambiente inteiro, destrói tudo ao seu redor. Na verdade, conheci muitas pessoas boas em todos os lugares em que fui. Gente que cantou comigo "We are the champion" pensando que não havia ninguém por perto, que chorou comigo contando os detalhes sobre a mãe em suas últimas experiências; gente que trazia canjiquinha e fazia chá no trabalho, gente que lutava pela igualdade e não aceitava cafajestagem, gente que se emocionou com as tristes histórias das minhas perdas... Gente que cantou comigo música do Legião Urbana e chorou comigo ao ouvir sobre a história de um filme,  que planejou viagens internacionais, contou-me segredos... Gente que escreve livros, faz arte, sonha e se indigna com as injustiças.Gente que gostava da arte e das pessoas. Gente que acredita ainda na humanidade. Obrigado por existirem, pessoas. Mas, também, a todo o momento, as cobras rastejam pelos meus pés. Essas veem-me como a elas mesmas, pensam que estou sempre a mentir ou a querer levar alguma vantagem. Essas peçonhas armam, inventam, mentem e fingem de amigas aqui e lá, para se sobressaírem com seus venenos que vão destruindo a tudo e a todos. Indivíduos que estão sempre vigiando, espionando, julgando e condenando. São lesmas nojentas com olhos de tigre que contaminam tudo com sua nuvem tóxica, sua inveja, sua gosma. São seres que só possuem olhos para elas mesmas e suas necessidades mesquinhas. Eu vomito em vocês. Eu desejo que apenas mordam suas línguas e morram com seus próprios venenos! Gente burra, gente incompetente, gente ruim como o diabo das profundezas do inferno, foi em vocês que ele fora inspirado! Cambada de Lúcifer!

Eu não quero levar vantagem as custas de ninguém, eu não penso que minhas necessidades são mais importantes que a dos outros, e nem quero ficar acima. Não pensem que olham para um espelho quando olharem para mim, na verdade, olham para as pequenas coisas que vocês gostariam de possuir e pensam que eu não deveria, como cérebro e coração. Eu e mais esse bando de gente boa que encontrei e que ainda me permitem existir nesse mar de taturanas venenosas e chupins sanguinolentos. A vocês, e de vocês, desejo apenas duas coisas: que provem do próprio veneno e distância.

 

terça-feira, 27 de novembro de 2018

TPM


Gente que não paga,
Dissertação que não se acaba,
TV, geladeira, cama, celular,
Computador, guarda-roupa,
E tudo o mais se estraga,
Dente estrupiado 
Que precisa de peça,
Gordura que cresce 
Sem comida,
Sono que nunca vem,
Relógio que decepciona,
Papéis e mais papéis
Sempre, 
E por todos os lados,
Pingos de achocolatado no chão,
Lixo fazendo aniversário,
Mesa cheia de farelo de pão,
"Preciso de dinheiro pra escola!",
"Não tenho meias"!,
"Quantas linguiça pra cada?",
"O que vai ter de janta?",
"Tem que privatizar tudo mesmo!",
"Você faz tudo isso porque quer!",
"Você é chata!",
"Deve estar de TPM!".