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quarta-feira, 10 de julho de 2019

Como viver neste mundo?


Vim vociferar contra este mundo,
Mas sem forças, exausta, voltei.
Parece que tudo já foi dito, feito,
Mas que nada funciona direito.

Vozes gritam e esmagam sem nada dizer, 
Bocas movem-se num frenético digitar, 
Falando coisas para quem não sabe ler.

Tudo é negado, mas tudo é possível,
Tudo é mentira, mas tudo é crível,
Depende do conforto de quem crê.

O que era ruim, ficou bom,
E o que era bom, a se perder.

Em meio ao caos, e da certeza histórica
De que nada muda além das moscas,
Fujo da minha vestimenta mórbida
E de traficanças mais toscas.

Lanço o olhar a quem me deu a mão,
Aos que me olham com gratidão,
Aos que amo, e que me amam,
E atravesso a podridão.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Ser ouropretano é...




Ser ouropretano raiz é morar nas periferias, nas quebradas, é ter aquela vista maravilhosa do Pico do Itacolomi da janela e ver aquelas nuvens que começam a escurecer para jogarem seus trovões nos morros. Nasci aqui, fui embora e voltei aos 11 anos de idade, e aprendi cedo que ser ouropretana é falar "cadê mãe", "isso é de mãe, isso é de pai", e não "isso é da mãe, isso é do pai", como eu falava. Quem vive nessas terrinhas descobre logo que mofo é um troço que faz parte da atmosfera, nada resolve. Tudo cheira a mofo e tem cor de mofo. 

Quem é dos tempos das vacas magras vai se lembrar muito bem do fubá suado, café com farinha, dos fogões a lenha, dos galinheiros e chiqueiros que faziam parte das casas. Vai se lembrar da diversidade de toques de sinos, dos quebra-queixos, das amêndoas da Semana Santa. Não há de fugir da memória também os escorregões por essas ladeiras, que faziam as calças se rasgarem. 


A minha família é mais que raiz, veio do mais longínquo solo. A minha mãe e tias, dizem que iam até o Pico do Itacolomi buscar lenha para cozinharem. Comiam o tal do fato de boi, a casa era um barraco se despedaçando. O meu avô, dizem, era um senhor ruim que nem capeta (fique em paz, vovôzinho). Do outro, por parte de pai, não sei quase nada. Na verdade, não conheci nenhum avô, os dois se suicidaram quando meus pais ainda eram bebês.

Aliás, ser ouropretano é saber ou conhecer alguém que já chegou ao desespero de tentar a própria morte. Esse é um fato terrível, ao qual não devemos fazer apologias, mas também não podemos ignorar ou esconder, como querem fazer com a mal assombrada Volta ou Curva do Vento. Não há um ano em que ao menos um pobre indivíduo atormentado não pule de lá. Ouropretanos, não vão para lá quando estiverem tristes! A vida é bela e Ouro Preto não é só mofo e neblina, há muita luz e eferverscência nessa cidade! Dêem-se a chance de conhecer uma nova vida, que sempre nos surpreende, se permitirmos.


Ser ouropretano é conhecer as histórias de fantasmas, como a da mulher de branco e a da Mãe do Ouro; é se esbaldar com os forasteiros no carnaval e depois fazer penitencia, participando de todas as procissões. Ah, é chamar turista, estudante e gente que comprou os casarões antigos e milionários de forasteiros, e os nascidos aqui de nativos. 

Antigamente, a guerra entre nativos e estudantes era grande, mas, parece que estão aprendendo a conviver de uma melhor maneira. Talvez, pelos acontecimentos antigos que os nativos presenciavam, como os trotes humilhantes, as festas que desrespeitavam as tradições religiosas, e o apartheid que existia entre essas duas categorias, o clima fosse tão ruim no passado. Hoje, felizmente, estamos convivendo melhor, até porque muitos nativos agora se tornaram universitários também.


Ser ouropretano é ter ido ao menos uma vez no Manso, no Tripuí, ou nadado nessas cachoeiras por aí. É falar "vai lá em casa", "depois vou lá", sendo que todos os envolvidos sabem que ninguém vai em lugar algum. Ser ouropretano raiz é fazer um churrasquinho com cerveja e chamar os amigos, seja na laje, na garagem, ou na varandinha. 

Infância em Ouro Preto, tem que ter uma escorregada na graminha do parque do Centro de Convenções, uns chup-chups nas vizinhas, uns papagaios no outono. Antes tinha queimada na rua, birosca, pega-bandeira, cobrinha de pano pra assustar os passantes. Hoje, tem nada não, só uns "menino mexeno no celular".


Ser ouropretano é ter ao menos um artista na família. Conta a lenda que Sônia Braga, quando gravava aqui "Luar sobre Parador",  disse: _Que cidade esquisita, aqui a gente anda na rua e ninguém vem pedir autógrafo. _ um guia turístico teria dito: _ Ah, minha filha, aqui em Ouro Preto, todo o mundo é artista. _ E é vero. Todos tocam violão, cantam, fazem teatro, e se equilibram nessa vida.

Ser ouropretano é ficar P da vida quando viaja e, ao encontrar um desconhecido, que fica sabendo que você é de Ouro Preto, ouvir dele (imagine isso com voz irritante): _ Nossa, Ouro Preto, Loucura aquela cidade, sexo, drogas e rock and roll. Seu Toba, é o que fico com vontade de dizer.

Uma chatice de ser ouropretano, é que para você viajar e gastar pouco, torna-se muito difícil, porque as únicas opções que temos são cidades com atrações barrocas e montanhas, do que estamos mais que servidos todos os dias e com magnificência. Então, quando sem grana, a gente fica aqui mesmo.


Outra chatice, são as poucas opções para as famílias de Ouro Preto, que desacostumadas a serem contempladas, ficam em casa e muitos não aproveitam as atrações destinadas especialmente a turistas, como festivais de cerveja a 15 reais o copo. As autoridades não priorizam as gentes de Ouro Preto, é como se o povo não precisasse das mesmas coisas que precisam os que vivem em cidades comuns, não turísticas.

Ser ouropretano é estar tão acostumado com tantas atrações acontecendo ao mesmo tempo e sempre, ao ponto de se perder as que mais deseja, como shows de artistas queridos. É morar em uma cidade muito pequena, movimentada, cosmopolita, em que podemos ver tudo, todo o tipo de gente, todo o tipo de atividade, e voltar para as nossas casas tranquilas de interior. Doideira. Por isso é difícil viver em outro lugar depois de Ouro Preto, nunca há o equilíbrio como há aqui, nesse sentido, de certo modo.



Ser ouropretano é falar taruíra, camofa, ganhão, arreda, falazada. Ser ouropretano é sonhar com as casas do centro que jamais poderemos comprar. Ser ouropretano é sentar na roda dos aposentados na Barra nos fins de semana, tomar umas ali nos bares que não existiam, é xingar turista parado no meio do caminho, é correr daquele povo  que fica na Rua São José e que fica querendo pegar dados do cartão de crédito, dizendo que é da Anistia, ou vendendo doces e canetas pelos lares de drogados. É ouvir os músicos que ficam alí de vez em quando, comprar um sorvetinho de máquina, ver a exposição na Casa dos Contos, fazer uma leitura das mãos com a cigana, ou saber do futuro com o cartomante; é cumprimentar o Tio Vicente Gomes pelas ruas, é fazer tapete de Semana Santa, cheio de polêmica. É sonhar em passar no IF, antiga Escola Técnica. 



Ser ouropretano é assistir a todos os dias, sem cansar, o pôr do sol entre as igrejas, que a cada dia, cada dia, é uma paisagem mais maravilhosa e única, e ainda se emocionar e amar essa cidade. É conversar com uma senhorinha no meio da rua, comprar umas jabuticabas, falar "e aí, beleza?". É ser meio acabrunhado, cismado, mas adorar um cafezinho e um papo. É ver o congado, as bandas, as fanfarras, as escolas de samba, o Zé Pereira, e sentir que isso é nosso. Ser ouropretano é ser mineiro raíz, de corpo e alma, sem escapatória e sem arrependimentos. 


Para ver imagens da Ouro Preto, cidade viva, acesse o link: Mulher Alienigena
Para ouvir um Podcast (meu marido não gosta de chamá-lo assim) sobre os sons dos sinos, acesse: Paisagens Históricas: Os sinos de Ouro Preto

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Hoje eu vi um zumbi


Hoje eu vi um zumbi.

Eu corri para pegar o ônibus, estava quase atrasada. Fiquei em pé no ponto, juntamente com outras pessoas, quando ele se aproximou mendigando. Era um rapaz moreno, camisa preta desbotada, calças de moletom, furadas nos fundilhos, chinelos, cabelos sem corte, sujos, ele estava sujo inteiro. Pedia dinheiro, qualquer coisa, 50 centavos para comprar comida, segundo ele. Olhei seus dedos, todos com pontas queimadas, negros e feridos. Cacei 50 centavos e dei-lhe. Uma senhora que lá também estava disse, "Você vai é pra Vila daqui a pouco comprar craque, eu sei". Ele não ouviu, não ligou, não deu a mínima e continuou pedindo. Foi até o outro lado da rua e voltou para pedir para os novos esperantes de ônibus. Desta vez, ele pedia dez reais, insistia, dizia que a comida custava isso. Quando ele havia ido para o outro lado, pude observar uma lata de refrigerante em seu bolso e o isqueiro em suas mãos. Agora seu corpo tremia. Ele não via nada, nem tampouco se importava. Ele não tinha alma. Ele não era gente.

Senti um vazio na alma, se a tenho. Tenho algo que aquele zumbi não tinha, porque a ele nada importava neste mundo, a não ser a urgência que sentia de saciar a todo custo seu vício. Ele pedia, mas seria capaz de qualquer coisa. Qualquer coisa. 

Para aquele individuo, futuro não é algo que exista em sua mente ou projeto. Laços, talvez não saiba mais o sentido. Aquele individuo estava no fundo do poço da inexistência. É a coisa mais triste que já vi.

Pensar que isso está em Ouro Preto, pensar que todos sabem o que acontece, e nada é feito. Todos sabem. Todos.

Pensar que um indivíduo pode perder-se, perder a alma, assim, sem que nem se dê conta. De repente, está com amigos, ou inimigos, ou rodeado por fantasmas, e, de repente, de brincadeira, começa a trilhar o caminho da escuridão e nunca mais volta. Coisas como se limpar, comer, namoro, família, deixam de existir.

Aquele zumbi roubou um pedaço de mim. Que deus nos proteja.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Todo o mundo quer ouvir sinos


Todo o mundo quer alguém no mundo,
Alguém que seja seu mundo,
E que lhe dê o mundo.

Toda a gente quer um beijo quente,
Um bom dia sorridente,
E suspirar o que sente.

Todo homem ou mulher quer
Agarrar da cabeça aos pés
A quem lhe deu toda a fé.

Todos nós queremos ser meninos,
Dando e ganhando mimos,
mamando, ouvindo sinos.



quinta-feira, 9 de maio de 2019

A vida real acabou


Às vezes eu me sinto um zumbi nesse mundo; mesmo criticando a tudo e  a todos que gastam 50% do seu tempo conectados a internet (ou mais), vejo-me escrava como todos eles, vivendo uma vida em outro mundo, um mundo mental, simbólico, caótico, virtual. Esse mundo me absorve, me exaure, me invade, me escraviza, me submete, me detém. E a cada dia que passa, somos mais dependentes dele, para todas as nossas realizações. Tudo vai caminhando fora enquanto ficamos sentados olhando em uma tela cheia de desinformações. Não vou mais falar sobre a metáfora Matrix, o que estamos vivendo parece pior. Sinto-me realmente como um zumbi, talvez seria a mesma sensação de estar drogada (não sei bem, sempre fui careta para essas coisas). A sensação é de estar suspensa e sempre em busca, ansiosa por alguma informação, novidade. Acontece que não absorvo nada, não reflito, não contemplo, não olho os lírios do campo. Mas, como não viver nesse emaranhado que se tornou nossas vidas? 

Todos atualizam suas vidas frequentemente nas redes sociais, postam coisas que todos já viram ou não querem ver, desabafam, esbravejam, fazem graça, se expõem em busca de solidariedade, somos humanos. Queremos nos comunicar e ter atenção. Todos querem dizer, ser ouvidos, todos querem se indignar, querem elogios, flertar, todos querem fazer a diferença. Todos. Desde os semianalfabetos até os pós-doutorados, expondo suas opiniões e suas vidas magníficas, representando seus papéis sociais. 


Zumbis. Eu fico imaginando as pessoas no meio de um protesto, por exemplo, parando para escrever textão sobre o protesto e publicar na hora em que estão protestando. Ou as donas de casa com os celulares na mão, comentando as fotos dos familiares e compartilhando vídeos engraçados, enquanto não deixam o arroz queimar. Imagino os estudantes nas salas de aula enviando figurinhas dos professores enquanto estes estão tentando lhes explicar sobre a Revolução Francesa. E aqueles funcionários bem remunerados, que a cada semana estão em uma cidade diferente, ou aquela mulher chata que fica postando foto no espelho todo o dia, dos papéis do doutorado, da comida, das roupas de academia? Para quem? Para mim não é, bloqueei as atualizações. Imagino Aquele casal que sai para ficar um tempo juntos, mas ficam sem assunto, entediados, e começam a mexer no celular até a hora de irem embora. Nunca terão chance para uma boa conversa que surge pelo tédio. A mão que coça, procurando o aparelho a todo momento, como se o mundo estivesse nos escapulindo. A mente que vaga e não descansa, sempre desatenta, morta e ativa ao mesmo tempo. 



Sinto que não tenho mais vida. Ninguém mais olha para o céu, por exemplo; por isso as pessoas estão tão cheias de si mesmas, com os estômagos embrulhados de sua grandeza imaginária, porque não conseguem ver que são menores que uma ameba e que existe um universo lá fora.

A vida acabou. O sentido dela é só esse agora. Nada mais. fim.


Alguns links para nos inspirarmos (ou não):









 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

O plano é destruir a educação superior gratuita: abram os olhos!


O plano era muito claro deste o início.
Quem está no poder, no congresso, no senado e na presidência hoje? 
Quem é o governador de Minas?
Digam-me curupiras caras de sucupiras:
Quem explora milhares de hectares de terras e vive de desmatar floresta,
Quem cria gado cheio de antibióticos para se evitarem doenças (nos produtos),
Quem pressiona para que agrotóxicos já proibidos no mundo inteiro continuem sendo fabricados,
E utilizados,
E que se aumentem os níveis de tolerância quanto aos níveis, para que as plantações não se estraguem,
Esse povo, está preocupado com o quê?
Saúde, alimentação da população?
Bem estar da sociedade?
Gerar empregos?
Digam-me,
Quem é contra o sistema educacional gratuito,
Que disse que ensino superior não deve ser para todos,
Que retirou a maior parte das verbas para a educação, impedindo que as instituições funcionem,
Quem diz que em universidade acontecem balbúrdias, e por isso devem ser punidas,
Que curso de filosofia e sociologia não servem para nada, quem quiser fazer, que pague,
Que quer controlar questões do Exame Nacional do Ensino Médio e os textos dos livros didáticos, a fim de que não se veiculem determinados conceitos que levam à reflexão,
Que negam a ciência e o conhecimento,
O que querem com tais atitudes?
Primeiramente,  tiram os direitos dos trabalhadores conquistados com duras batalhas em governos anteriores e os deixam à própria sorte, ou ao próprio azar;
Quem tem fome não negocia com patrão, não entra na justiça se for pra perder e pagar às custas, lógico que uma Vale tem mais poder! Quem tem fome se sujeita.
E os cargos públicos extintos? 
Quando morrerem os ainda ocupantes, não mais haverá concursos para tais vagas. Aliás, já anunciaram que dificilmente haverá concursos!
O que tudo isso significa?
Sucateamento das instituições publicas de ensino. As instituições vão ficando obsoletas, ou seja, ficam sem equipamento, sem funcionário, sem dinheiro para pesquisa, sem nada. As instituições vão baixar o nível até se tornarem insustentáveis, improdutivas, ineficientes, e oferecerem a desculpa perfeita para que algum empresário brasileiro ou estrangeiro venha comprar a educação e todos terão que pagar. É isso mesmo seus burros!
Não vai haver universidade para pobre não! Se o pobre quiser estudar, que faça algum desse cursos técnicos, se ainda existirem, para trabalhar nas fábricas com contratos humilhantes. Para quê estudar? Não precisam de mentes, precisam de escravos.Para quê pensar? Não precisam de questionamentos, precisam de mão de obra para que as estruturas se mantenham e cada um continue em seu lugar.
Suas antas! É realmente um projeto. Um projeto de destruição da educação no Brasil, da construção de uma nação evoluída, crítica e pensante. E os donos do poder continuam lá, mantendo seus escravos para carregarem suas liteiras. E os escravos gostam de carregar e pensam que os "superiores" tem razão em chicoteá-los.
Será que ninguém vê?


terça-feira, 30 de abril de 2019

Tudo pelo poder! O poder de ser deus




O motivo de tudo é o poder. Sempre foi e sempre será.

Em outros tempos, quem mandava mesmo eram os que possuíam o poder sobre as almas, os destinados por deus a cuidarem das vidas alheias, dos que já nasciam condenados. Deus já teve muitas caras, foi uma força natural que agia castigando ou beneficiando com suas mudanças climáticas, já foi muitos seres de formas humanoides, que influenciavam nos destinos dos peões de xadrez aqui embaixo, cujo ódio mortal  aos seus fantoches deveria ser aplacado com a morte de alguns inocentes. Deus se unificou, se tornou o pai autoritário e vaidoso que continuava a exigir sofrimento para provar a servidão de seus devotos, que pelos séculos se mutilaram, sacrificaram e se condenaram em vida para salvar a morte. Vieram muitos para falar em nome de deus e aproveitar, logicamente, raios de seus poderes incontestáveis. Criaram os templos, locais onde se cultuavam deus e deuses, assim como os homens que os representavam. Esses homens eram os deuses na terra.

Os reis, a nobraiada, e principalmente o clero, eram sustentados por servos que trabalhavam em troca de terras e proteção. Castas bem definidas divinamente, como na Índia, há milhares de anos, todos estavam bem em seus lugares que deus lhes distribuiu. De certa forma, eram donos de seus tempos, dividiam os "lucros" das colheitas, pagavam pesados impostos, mas não tinham direito a mais nada, muito menos à movimentação de status dentro da sociedade e da vida; até que veio a burguesia, o capitalismo, destruiu essas estruturas, e mostrou que todos (teoricamente) podem ser deuses também, que todos tinham direitos e que poderiam reivindicá-los. E o capitalismo se desenvolveu como tal, e muitas armas de dominação e de manutenção desse poder divino trazido pelo capital foram criadas, graças também ao desenvolvimento das tecnologias e dos estudos das áreas humanas, biológicas, psicológicas e sociais (que de maneira nenhuma foram criadas para esse fim), mas que geraram munição necessária para uma nova abordagem de dominação de desejos. Então, tá.

As massas passaram a ser moldadas e seus desejos construídos. Todo o tipo de desejo era ditado pelo mercado. A diferença é o alcance e a velocidade de se produzir novas identidades sociais e novos desejos consumistas, tudo tornou-se consumível, até mesmo os valores. E tudo tornou-se questionável e relativo, até mesmo o conceito de verdade. 

Está na história, através de documentos, que os Estados Unidos interferiram diretamente na maioria das situações políticas brasileiras, financiando movimentos como o da tal "Marcha da família com Deus pela liberdade" a fim de manter o seu poder no mundo na forma do capitalismo do qual são os grandes ditadores. 


É muito engraçado quando as pessoas dizem que o mercado deve ser totalmente livre, que a livre concorrência trará a justiça social e toda essa pataquada. A concorrência capitalista é simplesmente uma guerra, onde os grandes capitalistas (não aqueles donos de botequim), traçam estratégias o tempo todo para permanecerem no poder econômico (e principalmente político), como todos que costumam fazer parte do topo. O objetivo desse sistema não é o de promover bem estar social, é o de apenas se manter e manter quem faz parte dele em seus respectivos lugares. E, para manter todos em seus respectivos lugares, centenas de estratégias de guerra são construídas todos os dias, especialmente as estrategias de controle das ideologias, do pensamento crítico das massas que, por incrível que pareça, aceitam os novos deuses da pós-modernidade e contentam-se com seus Smartfones. 

Assim, estamos em crise. Vivemos em um momento de avalanche desinformativa, e pedimos por mais e mais informações para nutrir nossas almas de fatos para os quais nunca teremos tempo (never, jamais), de checar toda a historiografia, as fontes, os perfis, os documentos, para entender os tramites, os imbróglios, a lógica e a suposta veracidade de tudo o que é divulgado por qualquer um nas redes sociais. É impossível hoje ter certezas, ou, hoje, todos tem suas certezas de acordo com convicções plantadas. Estamos perdidos.


Perguntas como: será possível que alguém acredite que o aumento de agrotóxicos seja benéfico para a sociedade e tem outro propósito que não seja o de gerar mais lucros para as empresas? Será que é possível pensar que a educação não mereça investimento e não deva ser gratuita para todos, ou ainda, que deve servir apenas para formar trabalhadores consumidores? Será que alguém acredita que países como os Estados Unidos estão interessados na democracia e no bem estar de países como o Brasil (ou Venezuela, uma das grandes produtoras de petróleo do mundo), mesmo depois de tudo o que já aconteceu na história e do que acontece hoje, com um presidente americano que planeja construir um muro para evitar que imigrantes entrem? Será que alguém acredita que a reforma da previdência trará algum benefício ao trabalhador? E as perdas dos direitos, do ministério do trabalho, as novas regras para a contratação terceirizada, as custas de processos para trabalhador demitido terem que correr por eles mesmos caso percam, será que alguém acredita que isso é benéfico para a população pobre, ou que com "todo esse pensamento crítico" seriam capazes de enfrentar grandes empresas? Será que alguém acredita que o ser humano deva viver só de comer, trabalhar e consumir, sem a capacidade de pensar, analisar e tomar decisões conscientes ou viver algo diferente do que lhe é imposto, tentando mudar as estruturas? Somos o quê, companheiro? São perguntas que não param de me abismar por suas respostas.



E voltamos exatamente ao passado, com deuses, os antigos e os novos, a luta pelo poder, (que é transcrita pela busca de se ter sempre lucros exorbitantes), sem nenhuma certeza, e nenhuma capacidade de nos levantarmos. As leis não funcionam, absurdos são cometidos todos os dias por representantes do povo, saúde e educação não interessam, as armas são idolatradas, os livros são queimados, as vítimas são esculachadas, as notícias são maquiavelicamente montadas, os valores sociais estão um caos e não possuem nenhuma coerência, a ciência está sendo banida como as bruxas, e o senso comum está governando através de medidas que ganham visibilidade pela popularidade de queixas anteriores sem fundamento ou prioridade. É a lama. São as trevas. 

E nessa lama, nesse caos, nos vemos sem energias, absorvidos por tudo e por todos. estamos exaustos pelas indignações diárias, pela violência e pela intolerância. Estamos petrificados, sem saber como agir e como estaremos amanhã com as novas pedradas. 

Os pequenos que estão na base das estruturas encontram dificuldades incomensuráveis para interferir nessa formação estrutural, pois o poder está nas mãos dos capitalistas, isso é fato. O poder de interferir nas leis, de defini-las, criar diretrizes, controlar o tal mercado, formatar a cultura e criar uma realidade.  O poder está nas mãos destes grandes capitalistas, todo o poder. O povo só terá a chance de mudar as estruturas, se a maioria dos indivíduos for capaz de criar consciência de sua condição e abandonar seus deuses em busca de uma nova realidade, quebrando essas estruturas nas quais se assentam confortavelmente com suas migalhas. E é essa a grande arma que estão nos tirando, mais uma vez, na fogueira dos livros.


As formas de capitalismo que imperam em sociedades que se dizem socialistas possuem maior interferência do Estado, que, geralmente, implementam políticas públicas com a intenção de criar um sistema considerado ideal; algumas conseguem um bom resultado de desenvolvimento econômico e social, e, em muitos exemplos, o que aconteceu é que o poder do capital se concentrou nas mãos de governantes, que se tornaram ditadores ao tentar impor uma estrutura para a sociedade. Na teoria, a economia não existiria para gerar lucro, mas bem estar social e tudo o mais. Bem, complexo para o momento e carece de dados.

Talvez esse período fique conhecido como o período Matrix, pois todos estão vivendo suas vidas virtuais enquanto as máquinas, que criaram esse modelo supostamente digerível de vida, continuam sugando todas as energias de seus hospedeiros a fim de sustentar um sistema. É. O que faremos amanhã, cérebro?

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