quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Quase cheia


Eu sou livre. Livremente complexa  em minha liberdade.

A minha mente está sempre cheia demais e atada a assuntos demais, futuros, presentes e passados, que não é possível que me ate a muitas coisas e pessoas que passaram. Não que elas não me sejam importantes, sei bem quem é cada um e de seus valores; mas é que infelizmente, ou felizmente,  não mais espero de ninguém (apenas espero que também não esperem de mim), que eu seja ponto fulcral de suas vidas e que por mim estejam sempre a espera, consternados, ansiosos e saudosos. Espero apenas que todos estejam muito bem, pacificamente, em bem aventurança, como disse Ieshua. Espero que TODOS vivam felizes. Se eu puder contribuir para a felicidade de alguns, bom também. 

Mas... sou cheia de minhas próprias desolações. Não é culpa minha. Sempre assim o fui. Mas nunca me consumi de mim mesma, nunca abandonei as causas que me pertencem. Jamais deixei aos outros os fardos que a meus ombros pertencem. Embora não seja simbiótica, não nego o apoio de quem me oferece, assim como apoio a quem me solicita. Mas eu sou quase inteira. Faltam pedacinhos de onde ficaram extremas emoções.Talvez esse seja o problema, todo o meu apego foi concentrado em alguns itens. Talvez essa seja a minha paixão, a religião que nunca tive, o futebol que nunca apreciei. 

Não temo mais, como outrora, ser quem sou. Ambígua, as vezes feia, maluca, libertária e ás vezes moralista, como quiserem. Mas não me nego e nunca farei tipo para agradar ao aceitável ou ao que fora imposto como belo. Não ligo aos rótulos. Só os temo pelos que me importam. Mas, nunca mais serei algo que não venha de dentro de minhas entranhas. Se me incomoda, incomoda, se gosto, gosto, se não, não. Não apoio ou exalto o que não quero para mim ou tenha medo de ensinar aos meus filhos. Isso não quer dizer que pense que todos os outros tenham que ser como eu. Que gostem e façam o que quiserem. Cada um em seu corpo, seu ser, sua existência.


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O cálice - por que estamos vivendo esse caos?


Estamos vivenciando um fenômeno de grande valor histórico para a nossa sociedade brasileira, quando a intolerância chega a um grau tão elevado que tornam-se naturais todas as formas de agressão e expressão de ódio, como o desejo de exterminar o outro literalmente por ser diferente ou adotar opiniões que não expressam os mesmos ideais. Estamos assistindo a cidadãos comuns vociferando em todos os tipos de ambiente, reais ou virtuais, exaltando grandes ditadores da história e admirando-lhes suas estratégias de matança de inimigos. Pessoas que se dizem defensoras da família estão saindo para as ruas e para as portas das universidades com o claro interesse de humilharem e ameaçarem àqueles que representem o que eles negam e odeiam, como a homossexualidade, o socialismo, e a luta pelos direitos de raça e escolha de gênero. Essas pessoas estão se sentindo no direito de determinar o que o outro deve ser e como deve pensar, querem ditar regras para a sociedade, impô-las, nem que para isso seja necessário matar a todos que possam representar risco para a tal "sociedade ideal". Essa não é a primeira vez e provavelmente não será a ultima que esse fenômeno ocorrerá (até que o ser humano finalmente se extermine da face da terra), e não me canso de me perguntar sobre como a situação chega a um ponto onde os seres humanos, por não tolerarem as diferenças, passam a tolerar barbaridades como a tortura e o assassinato de outros. Obviamente, cada fenômeno desse se relaciona com o seu momento, com a história e a cultura da sociedade, mas é interessante notar como as sociedades se desenvolvem dialeticamente e seguem aparentemente os mesmos padrões. No caso específico do Brasil, penso que há algumas questões a serem consideradas para a tentativa de compreensão do que estamos vivenciando, e aqui as coloco:

A questão da memória

O nosso país não é ainda um país que prioriza a memória. Didaticamente houve mudanças, de acordo com os parâmetros curriculares, que se tornaram mais interdisciplinares e passaram a valorizar mais a questão das minorias, ou seja, daqueles que estavam por baixo na história oficial, como os indígenas e os africanos que foram escravizados. A própria mudança na maneira de nos referirmos a essas pessoas, que antes eram tratadas apenas como  "os escravos", mostra-se como uma mudança semântica de grande importância para para a caracterização desses seres humanos, que não são escravos, mas foram escravizados. A história da ditadura também é ensinada nas escolas, assim como a pré-história e a Idade Média, ou seja, não há uma enfase nessa parte tão significativa da nossa história na educação, assim como não está muito presente em outras manifestações sociais, como acontece em outras sociedades. Os torturadores não foram condenados, documentos desapareceram, a ditadura não foi maciçamente reconhecida como tal, ou seja, como algo que não deveria ter acontecido em uma sociedade democrática. Dessa forma, é possível que se questione o teor dos fatos, dos ditos, dos escritos, dos contados, é possível dizer que não houve golpe, que não houve ditadura, que não existiu tortura, é possível ainda dizer que os torturados eram vagabundos e baderneiros que mereciam tal punição se  ela tiver existido. Essa questão não foi devidamente finalizada e apesar de existirem inúmeros materiais sobre o assunto, está desaparecendo da memória. Aliás, estamos assistindo às pessoas dizerem que o passado já passou e que não é importante. A memória está morrendo nessa era digital, por vários motivos: 

_ O desinteresse das instituições;
_ O desinteresse familiar (ninguém mais se senta para contar histórias)
_ O desinteresse gerado pela velocidade das informações novas e que fazem com que tudo pareça velho e desatualizado, deixando-nos obcecados pelo presente.

Porém, devemos lembrar que sem memória, não há identidade, não há como nos situarmos no mundo, no tempo e no espaço, tornamo-nos vulneráveis à qualquer outra forma de identificação que nos possa envolver, ou seja, desenvolvemos uma identidade frágil e volúvel.

A questão da identidade

Como disse Stuart Hall, a identidade na pós modernidade é fragmentada e plural, e como diria Goffman, estamos sempre representando nas diversas circunstancias de nossas vidas. As representações nos servem para a aceitação social, ou seja, para a preservação do "eu", para que a nossa integridade identitária seja preservada, para que o eu esteja a salvo, o eu físico e o eu social. Esse sentimento tão primário e vital da preservação do "eu" é demonstrado de diversas formas, considerando que para sobrevivermos nesse mundo plural e fragmentado nós necessitamos de ferramentas diversas, que nos protejam e nos projetem tanto fisicamente como socialmente. A questão dos grupos é uma dessas ferramentas primárias, quando podemos nos identificar, ser identificados, nos projetar e nos fortalecer, assim com legitimar nossos discursos; fazer parte de grupos é vital para a existência física, social e, virtual. Se conectar de grupos significa fazer parte de algo, se tornar algo, algo diferente de outras coisas que são representadas por outros grupos. Ser uma coisa, se reconhecer como pertencente de algo é reconhecer que não faz parte de outra coisa, é negar outra coisa. Isso diz muito em nossos tempo, aliás, em todos os tempos. O outro grupo poderá conviver ou representar  algo que mereça ser eliminado.

A questão da mediação

O Facebook deu voz a todos, aos ricos, aos pobres, aos semi-analfabetos, aos letrados. O Facebook e todos os outros meios virtuais, os blogs, o Instagram e as caixas de comentários das notícias. A velocidade de informações e o volume se tornou incontrolável e a necessidade de consumo também, e nessa velocidade, perdemos a noção de tempo e a necessidade da legitimidade. Junto com tudo isso, veio o questionamento escancarado 'dessas legitimidades', ou seja, das instituições e das autoridades. Tudo e nada passou a ser confiável, a autoridade passou a não importar, o que importa são as ideologias contidas nas notícias e não a origem delas. Qualquer um poderia ter a legitimidade para dizer o que quisesse, dessa forma,  surge uma crise de realidade e a tendencia de haver recusa do que não parece ser favorável ou agradável.

A questão da autoridade

Aconteceu na sociedade brasileira a desqualificação das entidades educacionais, ou seja, houve a construção negativa imagem da profissão do professor, assim como das instituições acadêmicas. Corroborado pela fala de Fernando Henrique Cardoso, "não sejamos vagabundos num país de miseráveis", o tratamento do professor pela população, passou de respeito ao detentor de saber para raiva por um "vagabundo privilegiado que trabalhava meio dia e tinha duas férias por mês". As universidades passaram a ser "centros de degenerados" que "não tinham mais o que fazer". E assim foi-se destruindo a imagem de autoridade científica daqueles que faziam parte do mundo acadêmico. A imagem da imprensa também foi dilacerada (não sem razão real e histórica), as grandes autoridades passaram a ser vistas como centros elitizados ou que guardavam interesses espúrios, ou seja, não confiáveis e não representativos. No lugar dessas instituições foram colocadas quaisquer outras coisas que pudessem dizer o que fosse agradável, palatável e compreensível ou que representasse discursos que há muito foram calados e que agora poderiam ter uma voz, uma autoridade.

Bem, dito isso, podemos perceber que o cenário estava totalmente propício para o caos que estamos vivendo. Nossa sociedade não preserva a memória, não conhece a história, não acredita em fatos, sente a ameaça do "eu" e, consequentemente, dos grupo a que pertence, e encontrou outras autoridades que deram legitimidade aos preconceitos que há muito andavam escondidos e que agora se levantam com toda a força contra a ameaça do discurso hegemônico que estava sendo ameaçado pela crescente onda de lutas por direitos das ditas minorias.  Nossa sociedade, hoje, está mostrando toda a podridão que estava guardada, todo o ódio, o preconceito e a intolerância, a ponto de pretender eleger um candidato sem nenhum preparo, que prega o ódio, a intolerância, diz que o passado não importa,que as minorias devem se curvar e que devemos matar quem não concordar com suas regras. A nossa sociedade está aceitando que as leis não sejam respeitadas e que a força seja utilizada para punir a todos que pensarem de forma diferente. A nossa sociedade está doente e não sabemos ainda quando virá o remédio. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Mulheres modernas


Eu queria ser dessas que vão ao salão de beleza todos os fins de semana e ficam horas infindáveis puxando, esticando e colando cabelo, pintando as unhas com florzinhas, pintando a sobrancelha com henna para ficarem iguais a um desenho animado de vampira; também gostaria de ser daquelas que gostam de cavalos, rodeios, praias de Copacabana, carros luxuosos, música sertaneja e roupinhas coladinhas, tudo no Instagram. Ainda me satisfaria ser daquelas outras que vivem a caça de protestos, ações, campanhas, que se vestem de feministas metralhando postagens militantes, tudo no Facebook, enquanto os filhos estão perdidos no mundo e sozinhos em casa. Talvez fosse bom também ser dessas que se desfazem de suas próprias vidas em proteção aos filhos, protegendo-os do crescimento e deixando-os desprotegidos para sobreviverem. Seria ótimo planejar a minha semana pensando no fim dela, quando poderia encontrar-me com amigos e desconhecidos para beber e ficar muito louca para enfrentar a próxima semana. Quem sabe, seria ótimo se eu tivesse encontrado um milionário nojento para que pudesse me fornecer viagens caríssimas, jóias e todo o luxo que uma mulher acha merecer? Talvez, eu devesse fazer uma lipo e tirar essa barriguinha ridícula que ficou depois das cesarianas, fazer escova progressiva de três em três meses e colocar uns siliconinho pra valorizar. Talvez eu seria mais bem vista se chamasse a todos de amor, querido, vem cá amado, dá um beijo, ou se ligasse para todos os que conheci até hoje regularmente, para relatar a minha rotina. Quem sabe eu fosse mais legal se largasse sempre o que estivesse fazendo para ir ajudar a todos que me solicitassem, distribuindo os meus dotes. Pode ser que, tornando-me importante academicamente, as pessoas comessem a me tratar de maneira diferente, só por eu aparecer em um tablado e falar ao publico com autoridade talvez cientifica, sobre coisas que não importam a mais que uma meia dúzia de interessados. Talvez, assim, me chamem de intelectual, por supostamente estar usando o meu intelecto de maneira superior aos demais mortais e mudando a realidade das teorias que não sairão do papel, ou dos arquivadores digitais. Quem sabe eu devesse, só quem sabe, largar a mão de ser besta e de pensar demais e apenas viver o meu pequeno universo diário? Quem sabe?

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O blog morreu


O blog morreu. Espero que os blogueiros ainda continuem vivos, e devem estar, espalhando seus falares por outras mídias, ou desistiram de vociferar pela internet. Eu continuo aqui,  uma escrevente firme, escrevo para o vento e os ecos soam de minhas próprias vozes para os meus ouvidos.

No início o blog era um diário, as pessoas utilizavam para falar ao mundo de suas rotinas e sentimentos, como fazem hoje no Facebook e Instagram. Algumas pessoas gostavam de postar coisas engraçadas, outras o transformaram em sites de notícias, vendas, e reflexões, como eu. Os blogueiros se liam, ou liam algumas partes para estarem aptos a comentarem algo sobre a postagem e deixarem seu link para que os blogueiros visitados também os visitassem. Era uma troca interessante de conteúdos e só ficava quem realmente se interessava pelos escritos. Foi através de minhas postagens que encontrei algumas ótimas pessoas, inteligentes e sensíveis, mas praticamente todas já abandonaram o ofício bloguístico. Eu sou uma das poucas sobreviventes que preferem se expressar escrevendo textos fechados que discutindo em comentários. Continuo firme, até que me expulsem, como fizeram com o meu blog do UOL, o meu saudoso "Vassoura da bruxa".

Escrever é uma necessidade; organizo-me e exorcizo-me. Se um caboclo chegar até aqui, nesses tempos de burrice desenfreada e preguiça, e conseguir ler alguma coisa, é como ganhar na loteria. Basta-me.

E sigo. Capengando. Amém.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O ser humano evoluiu?


A raça humana não evoluiu, no sentido biológico e divino da evolução. Fisicamente, não poderia dizer se as características do cérebro são as mesmas que encontraríamos na época de Sócrates, por exemplo, mas pela complexidade dos pensamentos da época, não parece ter havido muita mudança. O que significaria evoluir biologicamente para os seres humanos, que necessitam basicamente dos poderes cerebrais para sobreviver nessa terra árida? Talvez o cérebro evoluiria no sentido de que o ser humano pudesse nascer preparado para conviver com os outros seres humanos, por que nenhuma espécie pode sobreviver e proliferar totalmente isolada de seus pares biológicos, e essa é uma condição para o ser humano. Então, a evolução da humanidade deveria consistir em se nascer com mecanismos cerebrais que nos possibilitassem sobreviver com os outros. 

Quando estuda-se a humanidade, as áreas do conhecimento se emprestam, às vezes se complementam, mas, na maioria das vezes, se ignoram. Como pensar em estruturas sociais, em sociologia macro, micro, em teorias sobre o movimento da história, se ignorarmos o indivíduo com suas características biológicas e psicológicas? Como ignorar a neurociência? Como podemos imaginar ou supor que os acontecimentos  são por eles mesmos ou por estruturas que os organizam, originam, sequenciam ou culminam, e apenas isso? Parece mais religioso que o contrário.

Naquela época lá do behaviorismo, algumas experiências secretas foram realizadas culminando em catástrofe para suas cobaias, como a experiência onde um dos gêmeos foi levado a "ser" mulher, ou a dos outros três gêmeos que foram separados, colocados em famílias totalmente diferentes e monitorados secretamente. Eu não sei o que foi provado com aquilo além de que seja muito sério tentar manipular vidas de seres humanos e de que as pessoas nem sempre são fruto de imposições ambientais. Há também o caso daquela menina que foi criada com cães; se ela não tiver nenhum problema mental seria indício de, como afirmam alguns cientistas, que se o ser humano não tem contato com linguagem e outros tipos de conhecimento até os cinco anos, ele não será mais capaz de se desenvolver normalmente.

Não sei até onde essas "pesquisas" são verdadeiras ou não, elas apenas nos mostram como ainda sabemos pouco sobre nós mesmos, sobre nosso cérebro e sobre como nos relacionamos e desenvolvemos. Estou a dizer isso porque penso no que aconteceria se, de repente, houvesse um cataclismo e toda a fonte de conhecimento e de desconhecimento, como a internet, se fossem para sempre. Os seres humanos restantes talvez voltariam a viver como no tempo das cavernas e teriam que recriar todos os seus mitos e tecnologias, de uma maneira que não podemos imaginar; acabaria toda a suposta evolução da raça humana. Ou seja, a humanidade evolui de duas maneiras: individualmente (cada um através de sua própria vida, com suas experiências com o mundo, e assim, contribuindo com ele), e socialmente (através da manutenção do conhecimento produzido, armazenado e disseminado). Seria, como gostam os pesquisadores de dizer, uma evolução sincrônica e outra diacrônica. Assim sendo, se não houver mais nada do que chamamos de evolução lá fora, o ser humano será apenas um animal que precisará refazer sua trajetória através de seu cérebro diferentemente preparado em relação ao dos outros animais.

Então, caríssimos, mesmo que filósofos, pensadores e cientistas notáveis, com cérebros mais preparados ainda, e que tivessem acesso a grande parte do conhecimento já produzido, conseguissem desenvolver teorias riquíssimas que poderiam transformar a vida humana de maneira benéfica (porque é pra isso que os grandes pensadores pensam, em sua maioria), nada disso teria valor se o conhecimento não fosse disseminado, aceito e retransmitido. Muitas teorias podem ter sido destruídas em queima de livros, seja por acidente ou por livre intenção daqueles que não conhecem ou que não estão aptos a conhecer a profundidades de tais proposições ali contidas. Assim foi e sempre será. Como proteger a suposta evolução que já conseguimos através do acúmulo e da transformação de conhecimentos gerados por todos esses séculos?

Com o que vemos acontecer hoje no mundo, com o radicalismo e o ódio tornando os seres humanos irracionais e destrutivos, competitivos e cruéis, conseguimos perceber quão frágil é a nossa existência nesse planeta, e quão a merce de nossos instintos de sobrevivência estamos.  O tal instinto de preservação do eu, do qual falei aqui, e que abarca vários aspectos da vida humana, não demanda sempre de reflexões lógicas. As tais da ética e da moral, que criamos para viver socialmente, não dão conta das complexidades humanas. Ter razão deixou de ser racional. 

Imaginemos um individuo que jamais leu um texto completo, consegue  decodificar apenas manchetes de jornais e sempre teve uma vida tomada por atribulações pesadas de uma rotina exaustiva; esse individuo não será capaz de compreender proposições complexas, porque para esse tipo de processamento leva-se anos de muito consumo de informações o que esse individuo não teve e agora, talvez, não queira e não seja capaz de ter. Além do próprio vocabulário, que poderá ser totalmente desconhecido para ele, todas as definições que vem com ele e as conexões intertextuais que esse individuo poderia fazer em relação a história e até mesmo a procedimentos práticos relacionados a esse vocabulário são algo inacessível ou inexistente. O nível de compreensão desse individuo será, consequentemente, diferente do de alguém que cursou faculdade e passou a juventude lendo tratados de economia, literatura clássica e livros sobre filosofia. Não há como as duas pessoas enxergarem as mesmas coisas, simples assim.

Outra consideração a ser feita é sobre o tipo de ideologia que essa pessoa abraçou de acordo com os princípios éticos que recebeu desde sua tenra idade. A ideologia também modifica a maneira como as proposições são apresentadas por um individuo e como o individuo vai se portar no mundo; muitas vezes a agressividade poderá ser tolerada quando em relação ao que representar um inimigo, ou seja, quando o individuo abraçar ideais que para nós são inadmissíveis, dentro da ética de nossa sociedade. mais uma vez surge o instinto de preservação do eu, das minhas ideologias, do que represento e quero representar.

Não estou aqui falando de perigos reais, ou seja, como sobre a condenação de assassinos em série que representem risco verdadeiro à sociedade, falo sobre a intolerância a tudo o que é contrário ao que abraçamos como certo para a nossa sociedade e para as nossas vidas. Nessas horas, quando talvez a parte biológica fale mais alto, podemos agir até mesmo de maneira semelhante àqueles que representam aquilo que não queremos, nesse momento mostramos como somos todos parecidos. A responsabilidade pela evolução da humanidade está em quem decide se temos o direito sobre o ser do outro, ou seja, quem tem o poder de decidir sobre o que o outro deve ser, ou até mesmo se o outro deve viver. Esse tipo de comportamento, o de se sentir responsável pelo julgamento em relação à individualidade alheia, desequilibra a sociedade, porque interfere diretamente sobre o ser do individuo e cria  parâmetros de riscos sociais baseados em ideologias. Não é como se existisse um leão capaz de acabar com a vida de outro ser humano e que deveria ser exterminado, qualquer coisa poderia ser um leão e qualquer comportamento poderia ser uma ameaça. A subjetividade das ameaças do "eu" são criadas e recriadas a todo momento de acordo com o tamanho das informações que possuímos, nossas experiências e a capacidade de reflexão que foi desenvolvida. 

Há muito o que se refletir... Mas eu não penso que a humanidade possa dizer que tenha evoluído. Não com o que os meus olhos vêem a cada minuto.