quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Futebol: o culto ao culto


Tenho falado um pouco sobre o futebol e o que percebo agora, mais claramente, é que se construiu a cultura de se cultuar o próprio culto ao futebol, ou seja, é considerado meritoso se descabelar, sofrer e dar a alma pelo time de futebol, cultua-se essa paixão descabida e desenfreada; o verdadeiro torcedor seria aquele que faz parte de torcidas organizadas, que paga mensalidades para o clube, que frequenta estádios assiduamente, que veste a camisa, que desqualifica o adversário, que chora, grita e se desespera, e isso seria uma grande qualidade, segundo os apaixonados por esse esporte.

Esse culto ao fanatismo foi se criando em nossa cultura com grande ajuda da mídia, obviamente, como podemos ver nas capas de todos os jornais. Futebol sempre é destacado como a coisa mais séria e importante em nosso país, como poderíamos duvidar? Os jornais retratam o que é importante para o povo, ou criam necessidades e "importâncias"? Bem, essa é outra discussão.

Quando se fala sobre fanatismo em outras esferas, isso geralmente é visto com negatividade, como no caso do fanatismo religioso, mas ao contrário, no caso do futebol, parece que é obrigação para os amantes de tal esporte. Alguns admiram-se em assistir crianças sofrendo profundamente com a derrota de um time, admiram o "amor" doído e a escravidão servil, a devoção a uma camisa, uma bandeira e a jogadores milionários. 

Não, eu nunca entenderei que as pessoas realmente levem a sério o futebol, e quando digo levar a sério, refiro-me a alterar todo o comportamento por causa de campeonatos. Jamais entenderei a alegria desmesurada em ver um time vencer outro. Entendo apenas que essa é uma forma que as pessoas encontraram para dar sentido às suas vidas e de saírem de suas capas protetoras da civilização, e por esse lado, até que gostaria de ter uma paixão que me fizesse sair de minha armadura e me permitisse  ser mais humana do que gente civilizada, arrancando tudo o que fica doente de dentro da alma. Mas, ainda não tenho.

Só acho que tudo o que escraviza, transforma as relações, gera stress e ansiedade, não pode ser algo saudável. Sim, é um culto, por que trata-se de religião e de fé, de veneração e paixão, e, mais que isso, de submissão diante de um ser sagrado. Nunca tive religião. Talvez isso que me falte para compreender e ser mais humana. Ou não.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Sonho sinistro


Chegaram bêbados do aniversário da Mariazinha, mãe da Bete, e colocaram a Laurinha para dormir na cama. A menina de três anos veio dormindo no táxi e nem percebeu que seu corpo havia passado do colo cambaleante do pai para o conforto de seu colchão. Pai e mãe se livraram das roupas e se deitaram na cama, no quarto que ficava no mesmo corredor que o da menina. A cama ficava encostada na parede com os pés ao lado da porta, que ficou entreaberta para possíveis requisitadas da filhinha. O sono foi imediato, mal o casal se deitou e se entrelaçou e caíram nos braços de Morfeu. Não se pode precisar o tempo passado, mas em um determinado momento, a mãe acordou repentinamente, como se alguém a tivesse chamado. Logo pensou na menina, e, com muito esforço, levantou-se, sentou-se na beirada do pé da cama, e olhou pela porta para ver se a menina dava algum sinal. Estava escuro, e Bete sonolenta, com os olhos pressionados, na escuridão, conseguiu visualizar o vulto de um bebê de fraldas com as duas mãozinhas na parede, virado para ela. Apertou mais os olhos para tentar ver melhor, mas o sono foi maior, voltou para o travesseiro e fechou os olhos, supondo que deveria ter visto a menina, e, se fosse ela, voltaria logo a dormir ou viria chama-los. Porém, algo a incomodava em seu lento raciocínio alcoólico, aquilo parecia um bebê de aproximadamente um ano, não parecia sua filha. A dúvida e a sonolência brigavam e ela não conseguia se decidir entre a conferencia e a sonolência. Nesse momento, o pai também teve o mesmo gesto,  levantou-se, deitou-se, incomodou-se ao ver o vulto,  mas não conseguiu tomar decisão sobre a dúvida. Dormiram mal nessa noite.

No dia seguinte, tiveram a impressão de terem tido um sonho sinistro e a sensação de que algo maléfico pairava no ar daquela casa. Não comentaram um com o outro, mas sentiam.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Esse mundo cansa


Eu não entendo nada.
Eu não entendo como um pai pode dar laxante para os filhos e postar na internet para ganhar curtidas. Cansei de ver pessoas futicando perfis de conhecidos e criticando-lhes fotos, postagens, e relacionamentos. Cansei de ver comentários maravilhosos em fotos terríveis e comentários terríveis por trás das telas. Os postadores sequer imaginam quem no universo tem acesso às imagens, mas não se importam em deixá-las públicas para que as pessoas as analisem de todas as formas. O importante é ser famoso no mundo do Facebook e Instagram, ser popular e receber mais de 500 curtidas. Isso é o significado da vida pós-moderna. Quantas coisas você curtiu hoje, e de quais você se lembra? E das curtidas de ontem e da semana passada? Talvez se lembre da foto em que sua prima estava com uma sobrancelha horrível, ou que sua cunhada estava sensualizando para enciumar o namorado. Talvez se lembre daquela foto da amante do ex da sua amiga que foi vasculhada de cima a baixo. Talvez. Literalmente, cansa a beleza. Cansa tanta exposição, tanto ego, tanta gente sem o que fazer na vida real, que se maquia para tirar 50 fotos dentro de casa, ou que fica analisando os melhores cenários de cada festa. Cansa postagens militantes, cansa mensagens religiosas, de bom dia, boa noite, boa vida. Cansa corrente supersticiosa, alimentícia e política; cansa pedido de petição. Cansa briga em grupos, videos engraçadinhos, e montagens com candidatos. Cansa imagens de gente descolada. Cansa. Cansam ainda mais esses meus textos cansativos reclamando na internet sobre o que acontece na internet. Esse nosso mundo, cansa.

sábado, 28 de julho de 2018

Gente besta


Gente é gente em qualquer lugar.
Hobbes não ficou no século passado,
Subjugado pelo suposto pensar, 
Que condenou-o ultrapassado.

"Só sei que nada sei", disse o amigo,
E de  nada sabe esse humano
Que corre para o abrigo
Fazendo ciência nos panos.

Se um camaleão muda de cor,
Se o pássaro sabe de seu ninho
De seu caminho,
Se abelhas fazem o mel,
Formigas suas cidades,
Sem alardes,
Você, humano, não é natural?
Não nasce sendo nada?
Vida dominada?

O mal é a idolatria,
O teatro das superioridades,
Que nivela, cria
Castas de verdade.

O rei, o doutor, o super star,
Vão estar,
Todos,
Com as formigas.

Os "ismos", e "istas" são,
Na verdade,
Extremos 
Para egoístas.

Não há igualdade
E nunca haverá.
Mas diferença
Não é
Diploma de Deus,
Ou de Zeus,
Ou de juíz do supremo,
Que de supremo,
Tem nada.

Bestas!
Idólatras!
Egocêntricos!
Estripadores!
Humanos!

Fadados ao fracassado mundo
Das Castas,
Das classes,
Dos níveis,
Das séries,
Dos condomínios,
Dos conjuntos "Minha casa minha vida",
Dos pontos no Lattes,
Dos likes nas redes,
Dos números de notificações,
Da cegueira seletiva,
Das teorias sem prática,
Das práticas sem teoria,
Do ódio ao diferente,
Do amor à própria imagem,
Da idolatria,
Tudo o que o "animal" nasce sem,
E tão cedo não terá.

Amém.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Telefone celular: a porta do inferno


Estava eu em uma lanchonete, quando involuntariamente tomei consciência de um assunto discutido atrás de mim. A moça perguntava à sua amiga sobre o andamento de uma tal desconfiança que ela estaria vivenciando com o seu parceiro, era algo relacionado a mensagens no Whatsapp. Segundo a desconfiada, parecia que o camarada era inocente, por que, "apesar de ela não gostar", ela possuía a senha dele, pois ele mesmo a havia dado, e lera algumas mensagens. Relatou ainda que a moça danada era uma menina muito jovem, e que havia mandado mensagem agradecendo por algo, não entendi bem o que era, e que diversas vezes, mandava-lhe mensagens a fim de introduzir assunto, elogiando, flertando. Fiquei pensando sobre isso.

Há certos códigos no mundo e em nossa cultura que são bem claros,  e nenhum papo em relação à defesa da privacidade, da educação, ou seja lá do que for, vai mudar. A pessoa quando está interessada em algo a mais com outra, arranja desculpa para entrar em contato, pega no pé, mesmo quando não tem intimidade nenhuma com o tal que receberá toda a atenção e tentação. Se alguém manda mensagens todos os dias ao perceber que o outro está online, de manhã cedo, tarde da noite, se a todo o momento manda coisas que fizeram lembrar de algo que comentaram, se manda mensagem do tipo: Só passei para deixar um oi (não existe mensagem mais inútil e reveladora nesse mundo), se manda mensagens implicando de alguma forma em tom de brincadeira, não há dúvidas de que há segundas intenções. Nós só nos comunicamos de forma parecida com amigos muito íntimos, e não cobramos atenção (a pessoa pode responder só no outro dia que será normal), e nunca passamos "apenas para deixar um oi", já entramos com a fofoca. Mesmo assim, quando o amigo é do sexo oposto e não há nenhum interesse, falamos com ele de vez em quando, quando há algo importante, não ficamos horas teclando e falando abobrinhas, diariamente, tarde da noite.

Eu sou mulher e já passei por diversas fases na vida, conheço as fases e conheço as mulheres. Eu sei que, se dermos asas para ver onde a cobra pode chegar por vaidade em relação a nossos poderes sedutores, ela vai longe e vai parar onde não queremos. Sei também que, quando um não quer, dois não brigam. Dessa forma, considero que as pessoas deveriam pensar mais sobre essa questão dos assédios facilitados pelas tecnologias. Existem no mundo artifícios como deletar e bloquear. Se alguém permite que o outro o assedie, mesmo depois de deixar claro que não quer nada, e, principalmente, depois de ter assumido um compromisso de fidelidade com outra pessoa, essa pessoa, na verdade, gosta e deseja ter esse tipo de assédio e manter as possibilidades abertas. Educação tem limites, e o limite é quando alguém, que não possui relevância na vida de outro, está diretamente interferindo na vida deste. Não há nada que nos obrigue a dar acesso direto a nós mesmos, à nossa intimidade, a outras pessoas que não fazem parte dela, a não ser que desejemos esse tipo de assédio.

Sendo assim, dane-se essa menina que mandava mensagem para o camarada, ele é quem deveria ter tomado atitude de impedir que esse fato inoportuno continuasse acontecendo, seja bloqueando, ou falando francamente sobre a atuação inadequada dela. As pessoas só se aproximam de quem deixa espaço para isso. Não é só por que todos possuem contas nas redes sociais que são obrigados a se abrirem e deixarem que pessoas inoportunas adentrem em suas intimidades, chamando-as a todo o momento, mesmo quando estão com os que amam. Esse, sim, é o limite da privacidade. Não é só por que todos podem agir de certa forma é que essa forma estará certa, e não é por que alguém quer me incomodar que eu permitirei.

Concordo que a idade altera esse tipo de comunicação e interferência, pois quando mais jovens e livres, tendemos a passar mais tempo em interações desse tipo, como uma maneira de compartilhar, conhecer, experimentar e entreter, mas depois de uma certa idade, tal maneira de passar tempo torna-se enfadonha e sem sentido. Se você é um homem ou uma mulher formada, que tem ocupações e preocupações reais, que possui uma família, que já conhece o suficiente sobre um bando de coisas, e se mesmo assim sendo, ainda fica passando horas papeando com jovens adolescentes, ou com pessoas que claramente desejam interferir em sua vida forçando intimidade e desrespeitando os limites,  repense sobre suas prioridades. Fim.