terça-feira, 17 de julho de 2018

Por que homem só fala de futebol?


Durante algum tempo, todos os dias, a qualquer momento em que eu me atrevesse a parar para prestar atenção à conversa dos homens que trabalhavam na rua, a conversa era sempre a mesma: futebol. Essa não é uma mera questão que versa sobre a tal "paixão nacional", ou sobre supostos gostos masculinos, mas é algo que nos faz pensar sobre muitas coisas que aí estão envolvidas. Essas pessoas falam sobre futebol, não apenas como alguém fala do tempo, para introduzir conversa ou se aproximar de outro, mas falam de futebol para tudo.O futebol é como se fosse também uma grande metáfora da vida, de suas vidas, que funciona como instrumento de identificação e de argumentação.

A primeira coisa que me vem é a questão sobre grupos, e sempre digo que essa questão é fundamental para a humanidade, pois explica muita coisa. Pensemos que antes da necessidade de se identificar, se diferenciar, ou seja, de pertencer a algum grupo, vem a necessidade de preservação da vida; essa necessidade é que move tudo mais, é que transforma e forma, é que cria a ação. É através dessa necessidade natural e animal de preservação da própria vida, do próprio EU, é que tudo mais existe; o medo, a manutenção do medo, ou seja, a utilização do medo como arma de manipulação, nada mais é que a afirmação da necessidade da preservação do EU. É essa necessidade que faz com que as pessoas se submetam, se agridam, se excluam, e essa necessidade é que também cria grupos.

Em relação à identidade, eu posso dizer que sei quem sou em comparação ou em contraste com o outro. Eu sei que eu sou eu, porque eu não sou o outro, ao mesmo tempo que encontro pontos de congruências com o outro, e ao mesmo tempo também que gostaria de ser como o outro; se o outro é, ou possui algo que eu não possuo, isso pode me levar a desejar ter ou ser o outro. Dessa forma, quando a identificação ou a falta dela se torna extrema, podem surgir sentimentos e ações que visem destruir o que enxergamos no outro, seja o que queremos ou o que odiamos; assim acontece com grupos radicais que visam o extermínio daqueles que representam tudo o que odeiam (como por exemplos negros, homossexuais ou judeus), ou a destruição do que amam, como acontece com alguns fãs que assassinam seus ídolos. É como se o EU estivesse ameaçado pela diversidade do outro, pelo o que o outro tem de melhor e de pior que nós mesmos.



Desde muito cedo, precisamos pertencer a grupos, fortalecer nossa identidade através das características que esses diversos grupos possuem e as quais nos agradam e nos seduzem. O que seduz e agrada a cada um, vai depender de diversas questões, que abrangem as áreas sociais, culturais, históricas, biológicas e psicológicas. A verdade é que o ponto mais importante é a relação que vamos construindo com as pessoas e com a sociedade através de nossas vivencias e emoções, que vão ressaltando características do outro e de nós mesmos, as quais vamos tentando moldar ao longo da vida, de acordo com essas inúmeras questões ditas anteriormente. Tudo isso diz do que somos, do que nos tornamos, ou do que escolhemos nos tornar. Então, fazer parte de um grupo como o do futebol, diz muita coisa.

Em nossa cultura, assim como em muitas outras, a importância do futebol cresceu de maneira notável. Nasceu como um esporte simples e barato, foi cultuado pela media e pelos governos, criou ídolos, trouxe emoção, ópio para os simples mortais que precisam descarregar sua agressividade e estress oprimidos pela cotidianidade; em uma partida de futebol, é permitido expressar-se livremente, aliás, é até esperado que nos comportemos dessa maneira, é algo que aprendemos com nossos pares; é como se fosse uma espécie de carnaval que dura 90 minutos, uma válvula de escape e uma fonte de fortes emoções para os torcedores. Quem não gostaria de fazer parte de um grupo desses? Muitas vezes, o fanatismo pelo futebol é visto como uma qualidade e os extremos são elogiados, o que dá mais liberdade e potencializa a demonstração extrema de paixão e as próprias emoções. Se é conveniente, bom ou ruim, não é a questão. A questão é que o futebol se transformou em um grande evento, em todos os sentidos, um ritual familiar querido e aguardado, e por isso não costumamos questionar as transações milionárias, o marketing e tudo que hoje também faz parte do futebol. É uma religião.

Essa religião, o futebol, com seus diversos times, dão aos mortais uma chance de pertencerem a um grupo que pode ser vencedor, como os soldados que vão para as guerras por sua pátria. Quando os torcedores falam das vitórias de seus times, dizem "nós", como se estes realmente fizessem parte de uma legião, daquele time, como se suas vontades e superstições fossem influenciar de alguma forma no resultado de suas partidas, eles realmente "vestem a camisa", e muitos ainda contribuem financeiramente com doações a fim de "ajudar" o time milionário. O futebol deixou de ser apenas uma fonte de entretenimento para passar a ser um ritual religioso e sagrado, intocável e inquestionável. Fazer parte de um grupo como esse reforça as características favoráveis da identidade do indivíduo que se torna, por tabela, também um vencedor, por que é parte do grupo, e por torcer, contribuiu com a vitória.



Além de todo esse lance sobre grupo e identidade, falar sobre futebol seria uma maneira de se expressar superficialmente, não tratando especificamente de si mesmo, mas assumindo para si características de seu grupo, ou seja, fazer parte de um grupo que torce para um time, automaticamente significaria assumir características atribuídas aos torcedores daquele time, assim como pegar para si as suas vitórias e, com justificativas, suas derrotas. O embate dialógico se daria em nível metafórico e trataria aparentemente sobre "o outro", o time, mesmo que o debatente se identifique e se refira ao time como "nós". Dessa vez, é o time que fala por ele, ou ele que fala pelo time, os méritos, as vitórias, os vexames, as derrotas, são parte dele, mas não totalmente atribuídos a ele. Então, esses torcedores, desde os mais fanáticos aos que apenas utilizam os episódios para entretenimento sem sofrer muito, podem passar horas falando sobre os lances, discutindo os passes, o carácter dos jogadores, os títulos, sem que precisem falar deles mesmos, ao mesmo tempo que falam deles mesmos através de suas argumentações. É nesse diálogo, onde cada um defende o seu time, que eles se identificam como indivíduos que fazem parte de um grupo maior, o dos amantes de futebol, daí a camaradagem na maioria das discussões.

Não, não é assim com mulheres (ou homens) falando sobre novela, ou sobre qualquer outra coisa. Quando falo sobre mulheres e novelas, é porque existe um estereótipo sobre homens e futebol, e mulheres e novelas. A questão não está relacionada diretamente a gênero, pois, embora, culturalmente, a predominância de interesse por novela seja de mulheres e o engajamento por futebol seja de homens, vemos que o contrário ocorre cada vez mais. A novela, os personagens, os acontecimentos, são apenas fatos que as pessoas trazem à tona e discutem, concordando ou discordando; fazem conjecturas, mas, em geral, todos tem a mesma opinião e torcem para os mesmos personagens, porém, as histórias da novela não fazem parte da identidade, e da cotidianidade como o futebol parece fazer. Podemos, talvez nos identificar com personagens, imitá-los e roubar-lhes alguma característica, mas não sofremos desmesuradamente por suas perdas, não idolatramos o programa, não o santificamos (salvo alguns fanáticos). A novela é apenas mais uma fonte de entretenimento que tem seu início, meio e fim, sabemos que é ficção e pronto. Nós não fazemos parte de um grupo de noveleiros, ou filme-maníacos, fanáticos por séries, ou algo parecido, esses hábitos não criam grupos definidos e coesos. O futebol parece ser parte da vida dos indivíduos, parte integrante de sua identidade, ao menos em sociedades que idolatram o futebol, como a nossa. Embora o título sugira, não é só homem (embora seja a maior parte, e embora a maior parte do assunto tratado por eles, em geral, seja futebol) que fala de futebol.

Bom, eu não sou fã de futebol, assisto de vez em quando para entretenimento e não gosto de fanatismo de nenhuma espécie, mas não posso negar que o futebol se tornou algo importante e é parte da identidade de muitos brasileiros; também é notório que o futebol rende muito assunto para ser discutido, muito além dos lances futebolísticos.




segunda-feira, 9 de julho de 2018

Os vira-latas do mundo


Depois de ver pelas ruas e internets da vida algumas jovens que estão de "saco cheio" de muitas atitudes machistas, resolvi falar um pouco sobre relacionamentos, mais especificamente, sobre pessoas que não amadureceram a ponto de saber que escolhas tem consequências, e que quando envolvemos outras pessoas em nossas escolhas, somos responsáveis pelo mal que esse envolvimento possa causar-lhes. Já falei inúmeras vezes sobre isso, e, longe de ser uma expert em relacionamentos, sou apenas uma observadora reflexiva da realidade. Cada qual deveria procurar viver da maneira mais aprazível, mas o prazer é algo que pode apresentar muitas nuances. Geralmente, se não sofremos de nenhuma fobia ou outra coisa que nos diferencie da maioria, sentimos prazer em satisfazer nossas necessidades básicas, que são, por exemplo, a de saciar a fome, a sede, o sono, e os desejos sexuais; porém, podemos escolher qual a melhor maneira de satisfazer essas necessidades, e cada um sabe, ou deveria querer saber de si. Há pessoas que desejam uma vida repleta de emoções, variedades e prazeres transitórios, e há outras, que sentem prazer em eleger pessoas e compartilhar pequenos prazeres, e há muitas variações disso. O problema é quando as regras do jogo não estão claras e envolvemos pessoas que não estão dispostas a participarem de determinados joguinhos. O problema é quando temos a ciência de que estamos envolvendo alguém em nossas redes e esse alguém não tem ciência das reais intenções do jogador. Isso é cruel, infantil e desonesto.

Existem pessoas que pensam estar em um patamar superior e que o seu jogo é o jogo de todos, onde o vencedor é sempre o mesmo, ou seja, elas mesmas. Não respeitam laços, contratos, nem os seus, nem os dos outros, e saem pelo mundo a ferir almas quase inocentes que se enrolam nas artimanhas da jogatina. Geralmente, mas não é regra em nosso mundo contemporâneo, o grande jogador é o homem, que sai pelo mundo enredando as pobres almas, sem se dar conta das consequências. Há alguns, que mesmo quando firmam contrato com alguma pobre desinformada, saem por aí atirando suas balas como se o tal contrato não existisse, ou seja, o jogador quer levar tudo, "The winnwer takes it all". Para livrarem-se de suas culpas, lançam mão de frases feitas, como: Cão de raça sempre tem dono", "segurem suas cabritas que o bode está solto", ou outro ditado machista, demonstrando o seu sentimento de superioridade sobre eles mesmos, que supostamente os isentaria da culpa de enganar moiçolas, pois essas já deveriam saber que tal mercadoria, tão exuberante, já estaria arrematada, ou que tem direitos de nascença.

Bem, resumindo, não são apenas os homens que jogam sujo, que não respeitam contratos, que não reconhecem-se a eles mesmos, que subjugam e que ferem, mas ainda em nossa cultura, eles fazem esse papel de predador insensível que precisa caçar suas presas descartáveis. É uma pena que as relações estão ainda longe de amadurecerem e que as pessoas estejam ainda longe de serem leais e verdadeiras com os outros e com elas mesmas.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Loucura apaixonada


Nós somos loucos, ele e eu, caminhantes quase errantes que se encontraram no caminho.

Loucos, é o que nos dizem, cada um com sua loucura, destoantes, e concordantes na essencialidade.

Loucos, um pelo outro e pelo que sonhamos em construir juntos, antes mesmo de nos conhecermos; loucos nesse mundo, ele ainda espera, eu, esperei e cansei, nós, vivendo na demência e nos consolando.

Loucos, porque amamos apaixonadamente e não nos importamos com as conveniências e modelos contemporâneos.

Sonhamos como adolescentes e brincamos como crianças na seriedade de ser quem somos. Amamo-nos como anciões que já sabem de tudo.

Assim vamos, na loucura boa de viver o que sentimos de verdade, e na verdade de ser quem somos. Conhecemo-nos, assim supomos, e enquanto assim pensarmos, será eterna a loucura e apaixonado o amor.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Não estou aqui para agradar



Cansei de ser besta e tentar pertencer a grupos com os quais não me identifico. Nunca mais vou sorrir se não quero, vou dizer sim, se o desejo é de não. Não me importarei com os que dizem que o meu cabelo fica mais bonito quando liso, pois esse cabelo não é meu. Não vou usar algo torturante e desconfortável por que salto é sexy. Não vou ficar contando piadas de sexo para parecer descolada e moderninha, porque jamais entendi qual é a graça e não vejo sentido em piadas de sexo. Não vou usar maconha aos 41 anos, porque sempre fui careta e não vejo mais a necessidade dessa experiência. Não vou sair por aí com uma trupe de artistas, porque também não vejo sentido ou prazer nesse estilo de vida. Não vou sair transando com um monte de gente, por que não me apraz. Não vou me fingir de boazinha, nem ser legal, por que eu sou chata mesmo, se ser chata significar dizer não e vá se ferrar quando alguém me desrespeitar. Vou dormir até a hora que eu quiser, porque Lafargue estava certo em seu ensaio sobre a preguiça, e não quero mais carregar essa culpa cristã idiota. Não preciso ficar noitando nos fins de semana, ficar em casa no cobertor, com um vinho e um amor, me satisfazem muito mais na atualidade. Mas, não abro mão de conhecer lugares, sabores, cheiros e sensações novas. Vou escrever o que eu quiser e quando quiser, e não para encher linguiça, prateleiras academicistas empoeiradas e Lattes. Não vou a festas, se não quiser, e quem me ama me entende. Ou não. Não farei mais papel de mim mesma, a não ser quando não tiver realmente escolha, mas não ganharei nenhum Oscar. Amanhã as cortinas se fecham, e o espetáculo da vida dura pouco tempo para desperdiçar com tudo o que não quero e não sou.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O que somos e o que poderíamos ser - seres biológicos ou sociais?


Quando menina, eu não chorava, não. Não me lembro exatamente quando parei de chorar ou o porquê, mas tenho vagas lembranças de ter sido taxada como pirracenta, se não estiver enganada. Também tenho vagas sensações de ter sofrido humilhações por demonstrar meus sentimentos, minhas fraquezas. Tentava ser sempre justa com os amiguinhos, e quando os argumentos pareciam-me relevantes, mudava a minha defesa, diziam-me para que escolhesse meu lado. Sempre fui muito silenciosa e observadora. Não era uma pessoa de amplas relações, mas a situação da humanidade deixava-me deprimida. Não conseguia me expressar.

Cresci e forcei-me a ser diferente. Compreendi que as pessoas gostavam de falar de si mesmas e que déssemos atenção genuína, demonstrando interesse por suas façanhas, conquistas e desastres. As pessoas também sentem-se confortáveis se dividimos algum tipo de aparente intimidade, e se evitamos a falar mal dos ausentes, isso gera maior confiança e cria um clima propício para compartilhamento de informações. As pessoas gostam que olhemos para elas, que falemos coisas agradáveis e que sejamos sinceros com extrema polidez. E gostam que não falemos muitas verdades dolorosas. A maioria gosta de gente que as faça rir. Embora, muitas vezes eu me sinta desanimada de me envolver em qualquer discussão já discutida bilhões de vezes e que, sabidamente, não dará em nada, forço-me a me interessar. Mas, procuro não cansar-me muitas vezes ao tentar tagarelar mesmices ou a argumentar sobre assuntos que os interlocutores não dominam igualmente, o que exigiria um esforço estupendo de ambas as partes e, também, não levaria a nenhum lugar.

Nunca tive muito apoio. A minha família era desestruturada, vivi em uma pobreza horrorosa.  Algumas vezes, procurei loucamente por algo para matar a fome dentro de um armário que sabidamente estava vazio, no qual já havia procurado alguns minutos antes; Não conseguia falar com o meu pai, tamanha mágoa que nos causou, e não o culpo por suas heranças machistas de nossos antepassados. Não me lembro de ter parado para conversar com nenhum deles na infância. 

Eu pensei que jamais veria um avião na vida, e não sentia que era digna de entrar em locais que eram frequentados por pessoas que possuíam maior poder financeiro que o meu. O meu cabelo não era liso, as minhas pernas eram finas, a minha testa era grande. Eu gostava de me sentar na horta sozinha e imaginar aventuras, ou deitar na calçada olhando a imensidão do universo e a minha pequenez..

Casei-me jovem demais, quando ainda tinha vergonha de pegar ônibus ou comprar pão. A minha presença não era desejada, eu era, de novo, parte da herança maldita de nossa sociedade machista. Nunca tive sonhos de ser mãe, mas fui e sou, e de nada arrependo-me, porém, pagamos por nosso despreparo e fazemos com que paguem igualmente, transmitindo as heranças. Fiquei só com os filhos, e eu era-lhes o exemplo, o arrimo. Não poderia ser fraca, não poderia chorar, não poderia passar insegurança. Fui dura, seca, humana. Reboquei e pintei casa, que quase caiu sobre nossas cabeças, fui trabalhar, estudar, ninguém me apoiava para "ir para a gandaia", "sua separada", "pariu Mateus, que balance". Fui.

Eu não me arrependo de nada, e só penso nessas questões quando penso em mim mesma, sobre o que sou hoje e como poderia ser. Talvez poderia ser mais doce e amável, mais calma e polida. Sim, talvez eu pudesse mentir, dizendo que sinto saudades, ou dizer que amo, amando ou não. Talvez as palavras sirvam mais que os atos, talvez.Talvez eu pudesse me abrir mais e oferecer mais, ou não. Cada um oferece o que é capaz de oferecer.

Mas, apesar da dureza e da aspereza, a minha consciência é livre. Não recusei os papeis sociais, ou os papeis relacionais, mesmo que abrindo mão de mim mesma, na maioria das vezes.  Assim sou por causa de tudo o que vivi. Posso ser melhor, mas isso será quando e se eu tiver a oportunidade de sê-lo. Mas, jamais serei medíocre ou colocarei os outros abaixo ou acima de mim. Sou apenas mais um ser nesse mundo efêmero, e essas são apenas mais algumas palavras ao vento da internet. Daqui a pouquinho, não mais estarei aqui, e espero que, mesmo com a minha dureza e a minha aspereza, eu tenha conseguido transmitir os valores que considero justos.