domingo, 13 de junho de 2021

O caos imobiliário de Ouro Preto

 

Comprar um imóvel na cidade de Ouro Preto nunca foi uma tarefa fácil, especialmente para quem não tem condições de realizar muitas escolhas dentro das condições existentes, ou seja, a maioria das pessoas que não ganharam na megasena, não são empresários ou simplesmente aqueles que possuem um emprego “normal”. Além da crise imobiliária e tudo o mais, podemos listar alguns problemas que dificultam o direito de morar em Ouro Preto:

Chevrolet Impala
Casa à venda, 3 quartos, Vila dos Engenheiros – Ouro Preto/MG – 1800,000,00 (um milhão e oitocentos mil). Parece não possuir documentação.*

_ A maioria dos imóveis não possui documentação regularizada, o que impede o financiamento bancário;

_ Ouro Preto é uma cidade incomum, patrimônio mundial da humanidade, o que faz com que o preço dos imóveis vá para as alturas;

_ Ouro Preto também é uma cidade universitária, sendo assim, os melhores e maiores imóveis transformam-se em repúblicas (ou moradias estudantis), onde diversos alunos dividem as despesas, o que também eleva exorbitantemente os preços de venda e de locação de imóveis;

_ Além de os preços serem exorbitantes, os imóveis, geralmente, estão em péssimas condições, muitos precisam de restauração, o que dobra as despesas já impagáveis para um pobre mortal;

_ Muitas casas estão em escadarias, becos, têm paredes comuns com outros imóveis, não possuem garagem, não tem iluminação natural, tem infiltrações e mofo, embora isso não diminua o seu valor;

_ Endinheirados que procuram viver ou apenas ter um imóvel na “cidade histórica” compram casas com preços exorbitantes e os deixam vazios ou alugados na maior parte do tempo, ou, algumas vezes, os transformam em comércio “gourmetizado”.

Chevrolet Impala
Casa à venda, 5 quartos, 3 suítes, 10 vagas, Antônio Dias – Ouro Preto/MG – 1.500.000,00 (um milhão e quinhentos) – parece não possuir documentação.

O povo nativo expandiu a cidade pelos morros através da famosa invasão de barrancos, alguns tiveram sorte de encontrar terrenos em locais menos arriscados e mais próximos do centro; mas, não há mais quase nenhum barranco para ser invadido, e os descendentes desses nativos são obrigados a viver com a família, fazer puxadinhos arriscados, ou a mudarem-se para uma cidade que possa oferecer condições mínimas para um cidadão. Enquanto isso, o centro torna-se espaço de comércio, estudantes esporádicos(o que alimenta uma rusga antiga entre nativos e estudantes), turistas e gente endinheirada.

Chevrolet Impala
Casa à venda, 6 quartos, Alto da Cruz – Ouro Preto/MG – 450.000 (quatrocentos e cinquenta mil- Este imóvel possui escritura, mas parece ter problemas de infiltração e ventilação em alguns de seus cômodos.

Caminhando pela cidade, vemos inúmeras placas de vende-se por todo o canto, placas que aumentaram com o passar da pandemia, mas, praticamente nenhum morador que procura imóvel pode comprar tais casas, essa é a realidade. Enquanto isso, casarões importantíssimos para a história estão caindo, sem que haja nenhuma atitude dos donos ou das autoridades, como é o caso do imóvel do “Vira Saia”, personagem da história ouropretana.

Resumindo, é praticamente impossível que um cidadão comum tenha condições de comprar um imóvel na cidade de Ouro Preto, enquanto isso, imóveis ficam vazios ou caindo pelo chão e o centro da cidade vai se transformando em museu, vendo as pessoas sendo expulsas para um canto qualquer onde as caiba. Triste

*Informações sobre os imóveis foram retiradas do site da Imobiliária Itacolomi.

Professor, você não é um super-herói, nem tem que salvar coisa nenhuma!

 

Estes tempos estão tirando a minha vontade de escrever e até a força das minhas indignações, não que não as viva e reviva intensamente e diariamente, mas a sensação de impotência tem me deixado cada vez mais mumificada diante de tantos absurdos que temos presenciado nos últimos tempos. Mas, embora pareça inútil, não posso deixar passar em branco a última matéria que vi no Jornal Nacional.

Todos os dias temos longas conversas em família sobre diversos assuntos, e um deles é sobre como as pessoas deixam-se levar por situações desfavoráveis por medo, ignorância, preguiça ou comodismo. Outro, é sobre como os professores no Brasil assumiram um papel quase que sacralizado na sociedade, como se a docência fosse um sacerdócio. Os dois assuntos estão intimamente ligados.

Antes de mais nada, por favor, leiam o livro do Paulo Freire que fala sobre as implicações de se assumir um papel de “tia”, ou seja, de assumir um papel de membro familiar no trabalho de docência. Resumindo, quando um professor assume esse papel de parentesco, ou maternal (que muitos professores, especialmente professoras, assumem em relação aos seus alunos), eles estão assumindo deveres que são atribuídos a esses familiares. Sabemos, por exemplo, que o papel da maternidade é considerado ainda como um dever sagrado em nossa sociedade, a mãe é vista como um ser que precisa estar sempre disponível, presente, amorosa e abrir mão de si própria pelos filhos; quando um professor assume para si esse papel em sua profissão, está assumindo também estas imposições sociais, o profissional veste-se de “santidade materna” que deve lutar com todas as garras pelas suas crias, ou melhor, seus alunos. Assim sendo, os professores são cobrados pela sociedade e por suas próprias consciências todo o tempo, como se nunca fizessem o suficiente, e não fazendo, sentem-se indignos, em falta, como se fossem pecadores.

Educação é coisa séria demais, e complexa demais. A educação existe para instruir e consolidar valores, o que é tido como dever primário da família para com os seus jovens, e, muitas vezes, delegado às instituições públicas e privadas. O professor, neste papel de educador, também é um educando, pois precisa estar aberto para as possibilidades de aprendizagem que a interação com o diferente oferece. O professor precisa ser sensível às necessidades de seus alunos, às suas peculiaridades, precisa saber interagir com afeto e interesse genuíno de maneira que possa ajudar a construir o conhecimento e a capacidade de reflexão confiante e dialética. O professor precisa ter sabedoria suficiente para criar um clima agradável, amistoso e propício para que seus educandos sejam aptos a refletirem sem pressões desnecessárias. Um professor precisa ser um indivíduo confiante, confiável, sensível e comprometido com a educação, mas um professor não é um parente. Um professor NÃO tem que abrir mão se sua vida, sua privacidade, seu tempo pessoal para atender o tempo todo aos seus alunos. Um professor NÃO tem que fazer sacrifícios, NÃO tem que tirar do próprio bolso, NÃO tem que fazer loucuras, um professor NÃO é um santo. Um professor é um profissional que passou anos em uma faculdade estudando para ajudar pessoas a se tornarem pessoas. A profissão do professor é, provavelmente, a profissão mais importante da sociedade, pois é a profissão que influencia diretamente na construção e no desenvolvimento cognitivo e social dos indivíduos, e não há nada mais importante e capaz de mudar o mundo.

Quando alguém assume esse papel de mártir, de santo, está abrindo mão de direitos e de lutar por outra realidade. Quando um professor “dá um jeito”, abre mão de sua vida, de seu dinheiro, de sua privacidade, como se não fosse mais que sua obrigação, está dando permissão de ser tratado como capacho pela sociedade e pelos governos. A importância do papel do professor não pode ser barateada e transformada em peregrinação em rumo a beatificação.

Vamos à reportagem. Inicia-se com a volta parcial de alguns alunos da rede municipal do Rio para as escolas, em seguida, é dito que uma das preocupações de uma professora é fazer com que todos se sintam presentes:

“_Eu gravo vídeo, eu mando áudio, eu escrevo, usando as ferramentas da prefeitura (…) e o WhatsApp, que está sendo uma das ferramentas mais importantes pra gente no momento”.

Pensemos no que implica essa fala, resguardando as condições atuais que são de pandemia e tudo o mais: para a professora, é dever utilizar de todos os meios, além dos que são oficiais e criados para o trabalho, para fazer com que o aluno não se sinta desamparado, como se fosse o dever individual de cada profissional. O professor precisa ficar disponível todo o tempo (não apenas em seu tempo de trabalho), para amparar os seus filhos, digo, alunos, utilizando, muitas vezes, seu meio de comunicação individual e privado, o WhatsApp.

O momento em que estamos vivendo é impar, e o acolhimento é necessário, pois há muito estresse e sofrimento. É preciso novas maneiras de pensar e de se trabalhar, mas como acolher sem ser invadido?

Em seguida é dito que outra escola percebeu que os alunos estavam precisando de atenção, afeto e até de comida, foi quando os profissionais se mobilizaram para realizar uma campanha para arrecadar alimentos. A escola, como todos dentro da sociedade, precisam estar inseridos e atuantes nesta sociedade e não há nada de mais em se realizar campanhas para que o os alunos dessa escola tenham melhores condições de vida, mas de quem seria, prioritariamente, esse papel de fornecer ajuda emergencial em uma crise como essa?

Temos ainda a fala de uma professora com 30 anos de serviço:

_ “O celular passou a ser veículo de trabalho, eu atendo o celular o dia inteiro, e às vezes é, simplesmente para um bate-papo, por que o aluno sente falta disso.”

Em seguida, outra professora, ligando para aluno:

_ “Oi Joice, bom dia, tudo bem? E… já acordou, já está bem? Manda uma resposta aqui pra mim, que eu estou aguardando você. Beijo.”

E outra:

_”Oi pessoal, tudo bom? e aí, já fizeram a atividade de hoje?”

A reportagem termina com outra professora dizendo que temos que estabelecer uma afetividade, uma humanidade, porque senão, nada resolverá. Como foi dito acima, sim, o professor precisa ter sensibilidade, afetividade e disponibilidade, mas não a cada segundo de sua vida, como se sua vida resumisse-se em trabalhar. Não levanto aqui o mérito de quem sente prazer em ajudar o próximo, em ser útil, ou tem o trabalho por ele mesmo como um valor grandioso, ou que não tenha coisa mais valiosa para preencher o tempo, essa não é a questão; a questão é a normalização da submissão indiscriminada e irreflexiva, a servidão rebaixada, transvestida de santidade, o que impede com que os profissionais vão em busca de melhores condições para eles, e, para esses alunos, os quais tentam ajudar individualmente ao invés de lutarem por uma realidade melhor para todos. Quando cada um assume para si esse papel de “melhorar a educação” ou “ajudar um aluno” (não que muitas vezes não precise realmente ser feito)o professor vai tapando buraco, sendo a bucha do canhão, dando o sangue e recebendo desprezo da sociedade. Para finalizar, as professoras aparecem vestidas com camisetas de Mulher Maravilha. Há coisa mais significativa que essa?

Só para ser justa, acredito realmente no amor e na boa vontade dessas professoras, e não duvido que elas podem ter ajudado a muitos alunos, mas precisamos mudar a maneira como lidamos com a docência para que a sociedade mude a maneira como ela lida com o professor.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Especialista em nada, obrigada, de nada.



Eu sou especialista em nada. Eu não me lembro de datas, não me lembro das narrativas completas, nem sequer lembro-me dos autores e os relaciono às suas teorias. 

Eu tenho título de mestre, mestre dos magos, quisera eu, mas é mestre em linguística, mais especificamente, em Análise do Discurso; mas, não considero-me ainda uma analista do discurso, embora saiba analisar muito bem o que é dito e o que não é dito, e, por esse motivo, guardo fielmente palavras e elas me importam.

Não considero-me atriz, embora tenha feito cursos, atuado e sido considerada uma atriz satisfatória, mas não, não sou atriz.

Eu também não digo que sou desenhista, mesmo que meus desenhos tenham chamado atenção desde criança e mesmo que ainda hoje teime em traçar coisas.

Quem me dera ser escritora, não sou, mesmo que alguns tenham me dito que a minha escrita é boa, que sou boa com as palavras. Há anos escrevo uma história sem fim.

Não sou, também, fotógrafa, mesmo que veja sempre o novo nas mesmas paisagens e que meus retratos às vezes surpreendam a mim mesma.

Escrevo poemas, mas nem por isso teria a audácia de denominar-me poeta, ou poetiza. Apenas gosto de expressar-me indiretamente e intensamente.

Atrevo-me a cantar e leigos já se admiraram do meu canto, mas desafino, não entendo nada de regras musicais e nem eu mesma aguento me ouvir.

Até que eu dançava, mas nunca me dediquei a nenhum ritmo nem eduquei meu corpo, que com a idade só decaiu. 

Esforcei-me durante toda a vida a entender os padrões sociais, a comportar-me de maneira adequada nas situações, mas isso cansa. Não sou uma pessoa boa para se prolongar relacionamentos, a não ser que o outro goste realmente e entenda o meu ser ausente.

Não sou uma mãe como gostaria de ser, e por muito tempo não conseguia me ver em papel tão solene e sério; mas cá estou.

E aqui estou. Não sou especialista em nada, não sou grande em nada, não sou melhor em nada. Sou uma mulher. E digo que é um título bem difícil de carregar.


quinta-feira, 4 de junho de 2020

A palavra é viva


Querem moldar e emoldurar a palavra,
Fazer com que fique parada.
A palavra corre, pula, escapole,
A palavra só para se não for invadida.

Querem salvar a memória brava
Dos invadidos, maltratados, da mal amada,
De todos que fugiram da megalópole.
Mas a palavra se torna uma fugida.

Clamam dos túmulos os vândalos, os bárbaros, os judiados e os denegridos
Por justiça, por terem de volta o sentido de seus nomes.
Mas a palavra toma seu próprio rumo, esquecendo-se dos feridos
Elas são apropriadas, resignificadas, ficam insones.

Carpe diem a priori e a posteriori
Justice os injustiçados  e limpe suas memórias,
Porém, jamais ignore
Que a palavra depende do tempo e da história.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

A "re-volta" das escolas estaduais mineiras


Ninguém foi enganado quanto aos representantes políticos que elegeram, pois todos sempre deixaram escancarados os seus objetivos, dentre os quais estavam a privatização da educação e a retirada de direitos trabalhistas. 

Os professores da rede estadual já vinham sofrendo com atrasos de salários, que já são baixíssimos e não chegam ao teto estabelecido, além de toda a precariedade no trabalho da qual se fala diariamente há décadas no Brasil. O que também passou a fazer parte de todos os discursos é o ódio irracional que foi plantado para a classe docente, de todos os níveis, especialmente aos das universidades, que de indivíduos que detinham conhecimento passaram para vagabundos. A campanha de desmoralização dos educadores e das instituições educacionais servem muito ao propósito de grupos empresariais que acabaram perdendo muito com a possibilidade gerada pelos investimentos na educação pública, que lhes tiraram grande parte de "consumidores". 

Transformaram a imagem das universidades tornando-as espaços de depravação e desperdício de recurso público, transformando os profissionais da educação em pervertidos, elitistas e privilegiados; adjetivos que foram abraçados por grande parte que não faz ideia da importância das universidades publicas e por aqueles que não possuem a capacidade de entrar em uma delas, além daqueles que atribuem à todas as universidades públicas um viés político que desagrade, como se a universidade fosse uma coisa homogenia e andasse por ela mesma.

Então, vivemos em um mundo onde os valores foram invertidos e as pessoas passaram a adotar frases como "menos direitos e mais empregos". Os ignorantes, de todos os níveis, clamam por serem explorados, por terem uma educação que lhes proporcione apenas a capacidade de apertar botões, como se tivessem nascido em uma casta e não pudessem almejar ser outra coisa além de operários que trabalham fabricando coisas e ideias, pelas quais poucos empresários receberão fortunas e estes, os operários, receberão apenas um mínimo salário que não permite que ele consuma o que produz. E viva a reprodução de empregos para comprar o pão de milhões que sustentam o caviar de poucos!

O que esses poucos não vêem é que a educação é uma espécie de objeto ou espaço onde quem tem poder, quem é rico e manda em tudo, pode controlar as ideias, as pessoas, os discursos, o que as pessoas almejam; a educação pode fornecer valores aos indivíduos, e os valores são a base das formações sociais. Os valores que prevalecem hoje são os capitalistas, ou seja, valorizamos possuir coisas, sonhamos em ter as mansões dos jogadores de Free fire, do Felipe Neto, ter colares de ouro, fazer viagens luxuosas, comprar um Iphone, como se tudo isso fosse essencial para a vida. Esses são os nossos valores, e é por isso que todos nós adotamos os discursos que nos colocam onde estamos, na base da pirâmide do capitalismo, sonhando em passar para o topo.

Nossos governos estão sendo conduzidos por esses que estão no topo e que querem que o sistemas continue como está. Através de suas redes de comparsas políticos, almejam transformar as bases educacionais, formatando indivíduos incapazes de questionar, de ter pensamento crítico, mas prontos para trabalharem para o capital. Só estamos nos esquecendo de que as formas de trabalho também estão mudando, talvez não haja espaço para indivíduos incapazes de questionar e de pensar criativamente.

Pois bem, o plano de governo do tal Zema era claro. Vamos analisar alguns pontos:

 ● É necessário trazer soluções do sistema de ensino privado às escolas estatais; 

De que tipo de soluções estamos falando? Como a escola privada se equipara às escolas públicas? 

 ●Conferir maior liberdade às escolas e aos indivíduos, priorizando apenas conteúdos básicos essenciais, como português e matemática; 

O que acontece é o inverso, pois o governo implantou um sistema unilateral, onde não há conversa com a entidade escolar. Quando ele diz que a escola e os indivíduos precisam de liberdade, ele quer relegar a responsabilidade e a maturidade para realizar escolhas na educação à crianças e adolescentes. Quando ele diz "priorizar" português e matemática, propõe uma estrutura de ensino que forma operários capazes de ler, escrever e somar, não de pensar criticamente e tomar escolhas conscientes de seus direitos e de seu papel social;


● Quanto menor a interferência estatal, melhor é o desempenho das escolas; 

Está claro! privatização escolar!

● Realocar de forma inteligente os recursos, a fim de aumentar o resultado médio do estado no desempenho educacional; 

Podemos entender aqui, depois de tudo o que foi dito, que a intenção é a de realocar investimentos para o domínio privado, ou seja, privatização!

 ● Os alunos devem ter maior liberdade no aprendizado; 

Aqui sugere que o aluno não precisa estar no espaço escolar e deve ser o seu agente da aprendizagem, ou seja, ensino a distância para crianças e adolescentes;

● A carreira dos professores deve ser pautada por indicadores de desempenho e satisfação dos pais; 

Agora serão os pais "profundos conhecedores das teorias educacionais" que avaliarão os professores, se não gostarem do que acham que deveria ser o ensino, podem dar nota zero para a escola e para o professor;

● Os diretores devem ser escolhidos tecnicamente; 

Eleições indiretas e indicadas pelo governo;

● Ensino rural personalizado e de qualidade com a utilização da expertise e da capilaridade de entidades públicas e privadas;

Dinheiro público para a esfera privada.

Portanto, se você é professor de escola pública e votou nesse indivíduo, é no mínimo desinformado.

Pois bem, as coisas iam vindo de mal a pior, professores sem receber, sem direitos, muitos em greve e outros também caminhavam para a greve, quando no dia da paralisação, dia 18 de março, entramos todos em quarentena por causa do Covid-19. Depois de dois meses, sem que houvesse uma conversa com as escolas, os professores, os pais, ninguém que interessasse, o governo de Minas determinou a volta às aulas. Nem mesmo os diretores estavam cientes de tal decisão, vindo saber através da imprensa. Então, na segunda feira, botaram aulas na internet, na televisão, fizeram apostilas terríveis e mandaram que os alunos imprimissem, e recomeçaram as aulas. Mandaram que alunos e professores acessassem um aplicativo que não tem nada e pronto. Teoricamente, os alunos da rede estadual estão tendo aulas. Os professores não possuem um canal de comunicação, não receberam informações, só foi escrito que o aplicativo teria uma nova funcionalidade para essa comunicação com os alunos, o que não aconteceu. Resumindo, o professor e a escola são desnecessários nesse sistema de educação online, embora tenham que fazer relatórios de suas atividades inexistentes por falta de orientação e estrutura.

O problema é que os profissionais da educação são obrigados a criarem alternativas para entrarem em contato com os alunos e tentarem oferecer o mínimo de auxilio possível, mas muitos também não dominam as ferramentas da internet e nem tampouco possuem os contatos de seus diversos alunos de diversas classes. Alguns disponibilizaram seus números pessoais para entrarem em contato com os alunos. O que isso quer dizer?

Primeiramente, o professor está sendo obrigado a criar recursos, gastar sua internet, e principalmente, perder sua privacidade e doar todo o seu tempo para o trabalho, ou seja, o professor passou a pertencer ao trabalho, não mais apenas aquelas horas que foram designadas. O problema é que, a partir do momento que o professor cria essa prática, ela torna-se regra.  Mas, além de tudo isso, é clara a impossibilidade de que a maioria dos alunos tenham acesso a internet, às informações, e administrarem seus próprios estudos, como querem. O IBGE diz que 30% dos domicílios não tem internet no Brasil. A realidade é ignorada.

Os poucos que possam ter essa possibilidade e essa capacidade serão beneficiados, enquanto que os outros continuarão onde estão.

E, conspirando, imagine se daqui a algum tempo eles "comprovem" que esse sistema foi efetivo, o que será que acontecerá com a educação? Qual será o motivo para continuar gastando dinheiro com prédios e funcionários se a educação pode ser feita em casa, pelos pais, enquanto que os fundos vão para organizações privadas que ficarão a cargo de gerir a educação?

O governo comemora mais de um milhão de visualizações nas videoaulas. Parabéns.

Enquanto os professores, que outrora foram chamados de sábios e mestres, perdem a dignidade, a privacidade e o tempo de vida, ganhando uns míseros reais, a educação de nossos filhos caminha por uma estrada escura, igual aos tempos em que vivemos. Está na hora de se ligar!


quinta-feira, 30 de abril de 2020

Sou uma velha caquética e cansada


Os velhos sempre temem o presente pelo futuro e idolatram o passado,
Dormem no travesseiro da juventude e descansam na cadeira da infância.
Os velhos temem as novidades e os novos modos de vida,
que sempre são novos depois que crescemos.
Os velhos e os jovens, insatisfeitos, sonham com uma realidade que os agrida menos,
que os conforte, uma realidade mais sabida.
Sinto-me velha. Sinto-me exausta.
Não é por causa da quarentena que nos confinou, não é por causa da ignorância que nos assola;
não é por causa do número de coisas e gentes,
não é de hoje que estou velha.
Aterrorizam-me o presente e o futuro. Sinto muito ódio. Ódio do que vivemos.
Tenho vontade de pegar uma carroça e ir para um tempo em que a internet era uma ferramenta,
não matéria mais importante que água. 
Não suporto mais ver todos acoplados a seus celulares, incapazes de defecarem ou lavarem um prato sem segurá-los ao mesmo tempo; parece que ninguém tem paz na vida, todos estão em constante busca,
todos estão drogados, e procurando mais e mais pela droga.
Por que ninguém consegue mais sentar-se consigo mesmo, ou com o outro, sem pensar em recorrer ao aparelho?
Por que a memória ou as suposições tem que ser o tempo todo interrompidas e reafirmadas por mídias cibernéticas? Tudo é desculpa para um naco de droga.
Sou velha porque também já fui drogada. Já perdi no mínimo uns cinco anos da minha vida dependendo da internet para levar o meu dia. Fui encantada com as possibilidades de comunicação, entretenimento e de conhecimento, mas fui inundada pelo lixo. Há anos em minha vida dos quais não tenho lembranças; estava viciada na frente de uma tela.
Preciso de cuidado. É muito fácil, mesmo sendo velha, sucumbir a uma droga tão poderosa, que traz e dá tudo, ao menos é o que pensamos. Quando vemos, já estamos deixando os "fatos pelos acontecimentos".
Profundidade e intimidade carecem de tempo, atenção e ócio. Estamos cada vez mais distantes do mundo real, o "de pegar", e gostamos disso.
Sou uma velha e tenho ódio. Ódio porque não posso controlar e temo ser obrigada a sucumbir ao vicio por causa da luta solitária. Ou viro uma velha ermitã que quando morrer, não deixará nada escrito, a não ser essas tolas e "inlidas" palavras nesse tolo e ultrapassado blog.
E, mesmo longe de nossos trabalhos e das ruas, a mudança é pouca, porque não estávamos lá. E não sei se algum dia voltaremos.



quinta-feira, 9 de abril de 2020

A memória é que salva

Desfile de Moda - Incêndio Hotel Pilão MG | Kickante


A memória tornou-se assunto favorito, especialmente nos meios acadêmicos, sendo atribuídos a ela diversos objetivos e funções individuais e coletivos. As experiências que vivenciamos são responsáveis por "formatar" a espécie de ser humano que somos e seremos, assim como também fazem as memórias coletivas, ou seja, as histórias que ouvimos contar, os discursos existentes em nossa sociedade são responsáveis por criar identidades individuais e também coletivas, nos oferecem motivos de engajamento, sentimento de pertencimento, sentido de vida. A preservação ou a manutenção das memórias coletivas, são, então, importantes para a composição de valores, para o reforçamento ou fortalecimento das identidades grupais, e para o direcionamento de condutas individuais.

Pelos motivos citados, vídeos como o criado pelo IFMG de Ouro Preto são capazes de nos emocionar por trazerem a tona imagens, as quais jamais vimos, mas que sabemos pertencerem à nossa história, à história de nossos antepassados, nos fazendo, assim,  viajar no tempo e nos possibilitando pisar no mesmo solo que "nossa gente" pisou há mais ou menos 300 anos. Esse sentimento, o de pertencer à cidade e de ter a cidade pertencente a nós próprios, é um sentimento muito forte entre ouropretanos, o que pode ser evidenciado pela revolta geral que sempre é causada quando, geralmente alguém que não é da cidade, pixa uma igreja ou um prédio centenário. Eu experimentei esse sentimento quando vi as labaredas consumirem o casarão do antigo hotel Pilão na Praça Tiradentes; sentimos uma dor tão profunda, como se um pedaço de nós estivesse se incendiando também, assistimos, junto aos pedaços que caiam, as lágrimas de dezenas de pessoas que correram para a praça a fim de ver com os próprios olhos a morte de uma parte deles mesmos. 

Há acontecimentos que são marcantes, e as imagens que são formadas e reconstruídas a cada momento, quando rememoramos os acontecimentos trazem sempre alguma forma das emoções que experienciamos no momento em que tais fatos ocorreram. São essas imagens reinvocadas que a todo momento reconstruímos, resignificamos, é que nos ajudam a nos manter unidos socialmente, nos possibilitam projetar novas imagens para o futuro, com a intenção de evitar ou de reviver as mesmas emoções, ou emoções que  essas imagens introduzidas em nosso repertório imagético e identitário sobre determinadas questões, acontecimentos, lugares e pessoas são capazes de possibilitar.

A memória nos diz quem fomos e nos impele também para um futuro ideal, baseado em reminiscencias do passado. Embora saiba do papel da memória em minha vida, eu não sou uma pessoa saudosista, como a maioria se torna com o passar do tempo. Na experiência individual, prefiro entender que todos os acontecimentos tem o seu momento, e se consideramos que algum tempo foi ou será melhor, não passa, ao meu ver, da supervalorização de uma memória resignificada de imagens idealizadamente projetadas para o futuro, reconfiguradas por situações do passado, com a finalidade inconsciente de dar significado à uma existência que momentaneamente possa estar sem sentido, ou seja, é a busca do tempo perdido, a busca de uma construção de uma máquina do tempo que nos leve para um tempo alternativo e sem lugar. A memória individual tem tempos diferentes da memória coletiva; a memória coletiva parece ser como uma lenda sobre a origem de tudo, ao mesmo tempo que é o sagrado, a verdade existencial; a memória individual, ou seja, a experienciada e não a aprendida pelos discursos presentes, nos guiam sobre escolhas mais pontuais e nos dizem sobre a identidade construída durante as fases da vida.

Valorizar a memória não quer significar viver de memória. Idealizar um namorico do passado quando tudo parece caótico, teimar em viver as mesmas experiências as quais geraram sensações extremas na adolescência, mas  que o corpo atual não suporta, buscar o mesmo padrão de beleza do passado, não aceitar rugas, não aceitar que não há mais tempo para alguns antigos projetos, pensar sempre nas travessuras da infância, chorar pelo tempo maravilhoso nos bailes da vida e se recusar a dançar hoje é viver de memória,  é se guiar não através dos aprendizados, mas das sensações geradas pela memória e desejadas como se fossem objetos a serem resgatados.

Não significa, também, e porém, que devamos nos esquecer dos lugares e das pessoas que lá estavam, ou que não tenhamos o direito de revisitar de vez em quando sentimentos nostálgicos e que nos fizeram bem; tudo o que vivemos, nossas memórias, é parte do que nos tornamos, é o que somos. Algumas situações e pessoas continuam em nossos caminhos, talvez para sempre, mas, tudo o mais sai do lugar e tem sua própria estrada e rede de memórias. Talvez esses sejam os principais papeis da memória, o de nos situar em algum lugar e o de nos possibilitar escolher os lugares para onde queremos ir (ou ficar). E assim, rememorando, resignificando as memórias, ocultando-as, preservando-as ou colocando-as em locais especiais, vamos salvando (ou destruindo) a sociedade humana.






quarta-feira, 18 de março de 2020

Já estávamos em quarentena



Estou sozinha com o Corona lá fora. Na minha infância, tinha certeza de que o futuro seria exemplar, as coisas pareciam correr bem, existiam propagandas na televisão que ensinavam cidadania e aulas que ensinavam noções de higiene; as pessoas deixaram de jogar lixo nas ruas, leis de trânsito foram melhoradas, parecíamos que estávamos indo em direção à paz e à prosperidade. Passamos períodos difíceis na economia, faltou carne, faltou dinheiro, parei de estudar, porém, a pobreza começava a ficar menos pobre.

Tenho vergonha em dizer que eu, assim como a maioria dos brasileiros, fui criada por um canal de televisão. Ficava deitada no pequeno sofá da sala, comendo um tomate e assistindo a filmes, era esquisita, eu sei. Aliás, não é sem motivo que me autodenomino "Mulher Alienígena". O meu sonho na adolescência era ter uma calça jeans. A minha casa tinha dois cômodos, sem rebocos, eu ficava na escada para que os amigos não entrassem. Parecia mal educado, mas acho que eles compreendiam.

Apesar da pobreza, que melhorou com o tempo, o mundo era promissor, eu acreditava nas leis. Pobre coitada. Hoje, vivemos um caos parecido ao que acompanha guerras, catástrofes, tempos que levam ao fundo do poço e geram mudanças. Hoje não há leis, não a garantias, não há verdades, aliás, há verdades incrivelmente velhas e ultrapassadas. O Brasil, assim como outros países do mundo, está sendo governado por uma pessoa totalmente despreparada e que a todo o momento coloca em risco a soberania e o povo, tomando medidas baseadas em senso comum sem nenhum fundamento e que contradizem o conhecimento científico. Estamos perdendo conquistas históricas, direitos de todos os tipos, credibilidade internacional. Este homem incita a violência e a intolerância com seu discurso de ódio e dissemina falsidades que captam os ingênuos que estão em busca de segurança e de um herói. Além de estar tudo indo ladeira abaixo, igual a mulher quando entra na menopausa, aparece essa pandemia de corona vírus. 

Parece que o fim está próximo. Tudo parado, medo, violência, intolerância, desigualdade, miséria humana. Há muito não tinha forças para escrever nesse humilde diário, tão ultrapassado quanto, talvez, minhas ideias. Mas aqui estou eu, com os meus suspiros restantes.

Ficaremos em quarentena por 15 dias, por enquanto. Se não bastasse tudo o que o mundo se tornou (e creio que, nessa etapa da dialética histórica há um agravante, que é a internet), temos que ficar trancados em nossas casas com medo de que uma doença fatal nos alcance e caiamos mortos no chão, parados, assistindo a noticiários infindáveis contando-nos sobre esse caos e aguentando os gritos das crianças jogando Freefire. Eu não sei o que é pior.

A destruição está em nossas casas e chegou lentamente. O apocalipse zumbi é now, minha gente. A besta está no comando, a pestilência está por toda parte, o desespero, a decadência, e para completar, todos estão parados dentro de casa, sentados por 24 horas segurando um dispositivo eletrônico. O mundo começou a acabar quando começamos a pensar que um telefone celular é parte integrante de nosso corpo e que sem ele não somos capazes de abrir a porta da geladeira. É através dele que obtemos nossas informações, opiniões, alegrias, satisfações, tudo. Não se iludam, somos todos dependentes, viciados em internet. Todos nós, tanto que fingimos que essa questão não é séria para que não precisemos tomar iniciativas em relação aos outros e a nós mesmos, para que possamos continuar sentados, olhando para uma tela. Triste.

O fim já chegou. A semente já foi plantada, a semente do ópio que envenenou tudo, brotando ódio e frutificando alienação. O ovo da serpente está prestes a se quebrar.




quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

O mar salva o Rio


No fim de semana passado eu fui ao Rio. Fui de bate e volta, como dizem. Confesso que tenho um pé atrás com essa cidade, por vários motivos, um deles é pela disseminação midiática dentro e fora do Brasil sobre a "sobrenaturalidade" dela. Eu não gosto de hipérboles. Eu não gosto de senso comum, nem de unanimidades, apesar de saber da importância dessa cidade para a nossa história e cultura. O centro do poder se instalou lá, e de lá e por lá se fizeram grandes "evoluções" desde a sua descoberta e, sobretudo, a vinda da família real. O conjunto de morros com o mar também é belíssimo, concordo. Ótimo para se visitar. Museus maravilhosos, paisagens, arquiteturas, cenários de filmes, história, Cristo, multiplicidade, biscoito Globo, tudo maravilhoso.

O calor é terrível. O vapor sobe do concreto por baixo de nossos pés e nos assa, sem contar o cheiro terrível de esgoto que vem de todas as partes, assim como o da urina dos sem-teto pelos chãos, que se lavam pela manhã e deixam tudo molhado. Ninguém se importa com os miseráveis coisificados em meio aos "internados" que vão para as empresas. Em Copacabana a areia é suja, tanto lixo que aquelas máquinas não dão conta de limpar e, parece que pela existência delas, não se importam em jogar tudo pelas areias. As pessoas... Essas são lindas, como todas as pessoas do Brasil. Falam sem rodeios e chiam os "esses", lutam, trabalham como podem e com o que podem, nas praias, nas ruas, nos comércios, nas empresas. Uma cena nos chamou a atenção, a de um rapaz com o seu rádio, fazendo uma "live", cantando sucessos sertanejos na areia e mostrando como estava feliz. Milhares de ambulantes cruzavam o horizonte. O sol se punha.

O mar. O mar é o que salva essa gente.O mar enleveia a vida dessas pessoas da cidade de pedra, das desigualdades. O mar traz a brisa e a noção de como somos pequenos e de como a natureza é gigante, nos conectando a ela; ele nos limpa apenas em olhar para ele. O mar salva esse povo.

Assim como as montanhas, por vezes, sufoca a nós mineiros, prendendo-nos em uma ambiente limitado, sem horizontes, deixando-nos encolhidos e acabrunhados, e, no caso de Ouro Preto, mofando-nos, o mar vem e liberta-nos a alma.

Muitos, talvez, não gostarão das negatividades que apontei aqui. Mas, em todos os cantos do mundo há negatividade, como em São Paulo. São Paulo, ao menos a pequena parte que vi, é triste, pesada e fria. As ruas estão apinhadas de moradores que nada possuem, vivem para o agora. São Paulo não tem mar. Eu não sei o que salva aquela gente. Deve haver algo. Não sei.

Ouro Preto Também não tem mar. É mofada, úmida, às vezes triste e melancólica. Ouro Preto não tem horizonte, mas também tem muita gente boa, é colorida e diversa; ainda não conseguiu se tornar pesada, nem fria, nem dura. A juventude da alegria e a velhice da fé é que salvam Ouro Preto.

Na verdade, o que salva o povo é a fé, a alegria, a esperança e a conexão com algo superior. O mar tem essa capacidade, pois quando com ele nos deparamos, nos damos conta do nosso verdadeiro tamanho e de nossa impotência diante do universo; sua beleza e sua grandiosidade nos fazem refletir sobre tudo o que existe, sobre a natureza, sobre nossa própria existência, isso nos traz fé. A experiência disso tudo nos traz alegria. O nosso contato com essa instancia nos faz sentir que estamos conectados com tudo o mais, com a natureza, com o universo, ou com Deus, como queiram. 

As cidades não são maravilhosas, mas ainda há beleza nelas. E, nessa aridez em que nos encontramos, espero que ainda haja mares lindos e despoluídos para nos salvar por muito tempo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

Não há mais tempo





Não há mais tempo!
Madrugo-me a correr, e para isso, pago,
Gastando minutos, suores, paramentos,
Lutando contra o glúteo flácido.

Não há mais tempo!
Preciso preparar o alimento saudável,
Sem glúten, lactose, lipídeos, carboidratos,
Deixando a saúde estável.

Não há mais tempo!
As crianças precisam do meu amor,
Da minha atenção, correção, sustento,
Da minha presença sem dor.

Não há mais tempo!
A dissertação precisa ser terminada
Para que eu seja reconhecida no mundo,
Mesmo que signifique nada.

Não há mais tempo!
O trabalho cobre quase todo o dia,
Produzindo produtos e produções
Que ao cérebro causam atrofia.

Não há mais tempo!
As atualizações precisam ser feitas,
Os sorrisos,  as comidas, e as viagens
Devem passar pelas gretas.

Não há mais tempo!
O marido precisa de alegria,
Do fogo, da compreensão e da liberdade,
Da perfeição, da maestria!

Não há mais tempo!
Atenções precisam ser dadas,
Família e amigos, ouvidos e visitados,
Pessoas do universo, amadas!

Não há mais tempo!
As manifestações precisam de minha presença,
As opiniões, da minha voz,
Os inimigos, de minha ofensa!

Não há mais tempo!
Não há mais!
Não há!
Não!

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O Brasil tem o preconceito de cor, não o de origem


Eu não sabia, mas por ter nascido com a pele um pouco mais clara, eu não pensava profundamente sobre o racismo. Na infância, eu considerava ser o cúmulo quando ouvia a vizinha dizer frases como "negro quando sobe em tijolo, acha que é palanque", ou  "preto quando não caga na entrada, caga na saída". Ninguém que ouvia demonstrava pensar que aquilo fosse algo fora da normalidade, ou que pudesse se referir a algum deles. Já adulta, fiz curso de informática em uma sala em que se encontravam pessoas de diversas origens, e lá ouvi um menino negro falar mal de negros. Ninguém o repreendeu. Uma vez, aqui em Ouro preto, estava em um bar frequentado majoritariamente pela população local. Era show de Skank na cidade e vieram forasteiros de todos os cantos; um desses forasteiros desceu as escadas e quando se deparou com a população "baronil" exclamou em alto som (mas nem tanto) ao seu colega: _"Credo, vamos embora daqui, aqui só tem preto!" Pois é. 

Eu comecei a perceber mais claramente as diferenças entre ser branco e preto depois que me casei com um homem branco  e de olhos claros. Tenho dois filhos negros e ele tem três filhos brancos. Ele pode entrar em qualquer lugar que todos sorriem para ele, ele é sempre bem tratado, todos tem paciência para falar com ele. 

Uma vez, fomos a um evento, eu, meu marido, meu filho e a namorada dele. Havia revista no portão de entrada. Eu e meu marido paramos esperando para sermos revistados, o homem e a mulher, que por sinal eram negros, nos olharam com sorrisos sem graça e ficaram esperando que passássemos. Quando olhei para trás, lá estavam eles revistando meu filho black power e a namorada dele. Meu marido disse que nós somos velhos, mas não acho que esse seja o motivo pela não suspeitabilidade.




O meu filho mais novo diz que quer ser médico, desde pequeno. Ele estuda como louco, tira as melhores notas. Ele não gosta de sair de chinelos e de bermuda.

Os filhos do meu marido não se importam em sair de chinelos, seja para viajar, entrar em bancos ou lojas; ninguém nunca olhou para eles como se eles fossem marginais. Eles não sabem porque precisariam calçar sapatos para sair de casa. Hoje eu sei porque eu sei disso.

Um dia estávamos falando sobre alguém que se dizia médico, eu disse que o tal indivíduo não tinha cara de médico, meu filho: _ Por quê? Você acha que eu vou ter cara de médico? _ Eu pensei sobre aquilo. As pessoas pretas não tem cara de médico, de gerentes, de agropecuários, de juízes, porque é raro que existam negros nesses ambientes. Quando entramos em algum local, julgamos imediatamente qual papel essa ou aquela pessoa ocupa naquela estrutura, e nosso julgamento é baseado em nossas experiências, e nossas experiências nos dizem que não há negros em níveis hierárquicos superiores. Eu disse ao meu filho: _ Forme-se médico e mude o que é ter cara de médico.

Eu não era totalmente a favor da cota para negros, por vários motivos. Eu não sabia se a cota era para  justiçar descendentes de pessoas que foram escravizadas e depois deixadas à própria sorte, transmitindo seu legado de miséria e dor aos seus. Se fosse esse o caso, bastaria a cota para os pobres, porque a maioria estaria contemplada, mas não é só isso. No Brasil existe, não o preconceito de origem, mas o de cor. Não importa se toda a sua família tem pele escura, se você tiver a pele um pouco mais clara, você não sentirá o peso do preconceito. Quanto mais escura for sua pele, mais marginal você será. Você é suspeito apenas por existir com sua pele escura, e não há nada que você possa fazer para reverter isso, ainda não. É uma dor sem fim e sem remédio.

Nessa gama de cores, poucos querem cruzar a linha tênue da negritude, a ponto de negros não aceitarem ser negros e de até mesmo odiarem negros. Quem sabe dizer a partir de qual tonalidade passa-se a ser negro,  qual nível de encaracolamento é de cabelo de preto, ou que largura das narinas são de origem negra? Quais os parâmetros de negritude? 

Onde ser preto significa ser marginal, naturalmente, ninguém quer ser marginal, e preto. Ninguém quer ter que andar sempre preocupado com suas roupas, seus chinelos, em não parecer suspeito tocando nas mercadorias da loja, cochichando, fazendo uma corrida na rua. Ninguém quer ser a escória da sociedade.

Dito isso, os que lutam pela consciência negra e que já se aceitaram, precisam lutar pela auto-aceitação de tantos outros; precisam lutar, como vem lutando, para que os negros tenham cara de tudo, para que possam usar o que quiser e estar em todos os lugares, para que não sejam toleradas piadas que depreciem as pessoas por sua cor, que citem a cor como argumento para qualquer característica negativa. Isso não pode ser naturalizado. Ser negro não é ruim, e é isso o que todos temos que internalizar, todos os brancos e negros que não sabem que são negros, mesmo sofrendo com o que sua cor traz.

Não há dor maior que pensar que seu filho poderá sofrer por toda a sua vida porque sua cor é mais escura, e nada pode mudar sua cor, não que sua cor deva ser mudada; o fato é que não há o que se fazer para tirar o ódio que as pessoas poderão sentir por ele ser do jeito que é, ao menos em tão pouco tempo. Mas podemos não aceitar mais piadas, não tolerar injustiças, não repetir expressões racistas, exigir políticas sociais que promovam a igualdade e aceitar de uma vez por todas que todos nós temos o mesmo direito de estarmos aqui e de aproveitarmos tudo o de melhor que essa existência possa oferecer, seja lá de onde venhamos e seja lá o que nos torna o que somos. Devemos ser anti-racistas, como teria dito Ângela Davis, não podemos tolerar que seres humanos sejam tratados de maneira humilhante, degradante, violenta, que sejam subjugados e animalizados por  causa da cor de sua pele.