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segunda-feira, 8 de abril de 2019

O vício da internet deve ser encarado como natural?




Estou a ponto de me render. Eu já nem sei se tenho coerência, ou se sou velha demais, uma velha como todas as velhas de todos os tempos que reclamam da mudança de seus tempos e da maneira como os jovens levam suas vidas. Seria a mesma reclamação que os velhos fizeram com a chegada do rádio, com a velocidade dos telegramas e das notícias de jornais que os atormentavam com a enxurrada de notícias a cada semana? Os velhos que reclamavam da fissura dos jovens pela televisão ou pelos videogames. Talvez eu seja essa velha. Talvez. Mas...

As cartas levavam meses para chegar, os telegramas  chegavam no mesmo dia, dependendo da eficiência dos integrantes da emissão, o rádio e a televisão eram imediatos. As cartas traziam notícias de alguém querido que estava distante, era a personificação de uma saudade, um capítulo de uma vida, um carinho na alma; o telegrama servia apenas para urgências, caríssimo, abreviado e breve. O rádio, servia para muita coisa, nos trazia notícias do mundo todo, curiosidades, prestava serviços, interagia com seus ouvintes. Quando ligávamos um rádio, introduzíamos um companheiro que ficava conosco enquanto íamos cuidar da vida, um companheiro que nos surpreendia com músicas e fatos novos. A televisão servia para reunir a família e até mesmo os que não tinham TV, e ficavam pela janela dos outros espiando. A televisão não nos tira do mundo, ela nos traz o mundo aberto e nos traz entretenimento grupal. Os videos games são coisas viciantes, mas são experiências fechadas, possuem começo, meio e fim, e podem ser compartilhados com o seu amigo real ou virtual. A internet nos dá tudo, nos tira do mundo e nos vicia. 

Sinto que estou no mundo errado quando vejo todos dormindo com seus celulares nas mãos, quando deles não podem se afastar por um segundo sequer, e mesmo não se afastando, gostam de que eles fiquem emitindo sons para sentir a adrenalina de notificações; sinto que estou no mundo errado quando todos sentam-se na mesa com seus celulares, comem olhando qualquer coisa e não o largam nem para lavar os talheres! Penso que nada mais faz sentido quando saio de casa para trabalhar, e ao voltar, as pessoas continuam na mesma posição, olhando seus celulares e computadores. Enlouqueço quando tudo é motivo para consultar o Google, não podemos mais ficar apenas nas memórias e convicções, sem tirar a prova a todo segundo e atrapalhando o fluxo de uma conversa que poderia ser muito mais profunda e produtiva.



"Apequenamo-nos". Tornamos o centro do universo limitado por uma tela. Não temos contato com o resto do universo (real), não olhamos mais para a natureza, para o céu estrelado, para os animais, como se tudo isso fosse só uma paisagem do Instagram. Deixamos de enxergar como somos minúsculos no universo, e nesse apequenar, agigantamos nosso ego e criamos a ilusão de que somos o centro do mundo. A nossa percepção de mundo mudou radicalmente.

Mas, todos acham esse comportamento normal e louvável, e ainda admitem serem viciados, como se fosse grande mérito. A internet usa a todos, chupa tudo e deixa só o bagaço, aproveita-se da vaidade e necessidade das pessoas por atenção e transforma tudo em matéria de consumo, todos sabem, mas não se importam. São os craqueiros que imploram por mais uma dose e exaltam a vida miserável que levam, se prostituindo por mais uma viagem.



Não, isso não é a mesma coisa que aquilo foi. Isso é muito grande, muito poderoso, muito sério e muito alienante. Talvez não haja como mudar a maneira como estamos vivendo agora, talvez nosso futuro esteja condenado. Ou talvez haja uma revolução e as coisas mudem. Mas eu não gosto de viver como estou vivendo e não consigo aceitar essa dependência da qual eu também faço parte. Estamos perdidos.

quinta-feira, 28 de março de 2019

Se for de peito aberto, não seja hipócrita!



Ultimamente venho sentindo medo de me posicionar sobre questões delicadas, pois estamos enfrentando uma época de enxurrada de informações e polarização de opiniões, o que também intensifica a intolerância, tendo em vista que encontramos e selecionamos as informações que fazem eco às nossas opiniões e empurramos para debaixo do tapete todas as outras. O excesso de informação pode ser prejudicial à nossa capacidade de raciocínio, reflexão e memorização, ou seja, em linguagem mais simples, pode nos emburrecer, além de nos exaurir. 

Muitas vezes não sei quem fala em mim, se os meus preconceitos, a minha moral ou a minha crítica. Oh, não se enganem, TODOS possuem sua moral, mesmo a contestação de que tudo o que existe, até mesmo sobre se há verdade, muitas vezes, é  baseada por conceitos morais profundos. Somos seres humanos.

Vou tentar falar sobre algo complicadíssimo (já que todos se sentem no direito de dar sua opinião), que é o feminismo. A minha opinião é apenas mais uma no meio dessa enxurrada, pode interessar a pouquíssimos (literalmente), irritar a muitos e trazer xingamentos pessoais, como é moda na internet hoje em dia, mas todos tem direito a sua opinião e às suas escolhas (ou não); eu ainda estou tentando entender sobre esse tema, que, só  sei que, não só por alguém ser mulher, obrigatoriamente se encaixaria em seus parâmetros, pois, como sabemos, o que mais tem nesse mundo são mulheres machistas.

Quadro de Oksana Shachko (fundadora do movimento Femen)

Creio que na maior parte das culturas,  a trajetória da mulher dentro da sociedade tenha acontecido de forma similar, ou seja, a sociedade reservava para ela um lugar de submissão perante o homem; isso significa que quase sempre as mulheres foram consideradas incapazes intelectualmente, sendo desconsideradas em tomadas de decisões e tolhidas de direitos que eram dados aos homens, como o de ir e vir, e o de escolhas sobre a própria vida. às mulheres também eram destinados os afazeres domésticos, considerados como naturalmente femininos e inferiores, e os cuidados com a criação dos filhos. 

Uma forma de controle e de submissão  é a objetificação da mulher, ou seja, a transformação de seu corpo em um objeto que serve apenas para os deleites sexuais dos homens. Seu corpo foi pintado em outras épocas, fotografado, e exposto para a apreciação dos homens que culturalmente só enxergam esse tipo de relação com as mulheres, como se elas não fossem seres humanos. Parecem apenas palavras, mas já constatei diversas vezes que muitos homens realmente tem certeza de que são superiores às mulheres, mesmo não encontrando motivos claros para a sustentação de tais opiniões. Eles tinham a certeza, e essa constatação me foi assustadora. 

A maneira como o corpo da mulher fora objetificado pela história carece de mais estudos, que não possuo. Também não tenho a capacidade para falar sobre sexualidade humana ou sobre a importância do sexo para a humanidade e sobre os motivos que o sexo, vira e mexe, é demonizado pelas sociedades, dialeticamente. Também não tenho arcabouço teórico para analisar sobre o papel da mulher dentro dessa formação de seu próprio papel na sexualidade, pois nem sempre a mulher foi passiva e nem sempre o sexo foi tabu, ou a mulher fora privada dessa sexualidade, servindo apenas como objeto. Não sei dizer por que usualmente é a mulher que se torna objeto; não sei se isso é uma característica social, cultural ou biológica, não sei se a mulher não gostaria de um homem objeto, mesmo sendo mulher. Enfim, só posso dizer sobre o que assisto hoje, fato não totalmente desprovido de contexto reflexivo.

O feminismo seria um movimento, hoje não mais homogêneo, de luta pelos direitos de equidade para as mulheres e contra o machismo.Uma luta para que possamos ter, dentro da sociedade, o direito de sermos ouvidas, de termos escolhas e domínio sobre nós mesmas, sobre nossas ideias, direção e corpos. A luta de termos nossa intelectualidade reconhecida, individualidade e integridade respeitadas. Luta para que o trabalho que fazemos seja considerado pelo seu valor, e não pelo gênero de quem o realiza. Luta para não sofrermos assédio como se fôssemos um corpo desprovido de humanidade. Luta por termos também nossas diferenças biológicas reconhecidas como naturais e complementares, nunca como fator de submissão ou de desqualificação, mas que essas diferenças, como tantas outras de diversas complexidades, possam ser admitidas para que também possam ser tratadas com as devidas medidas para que ainda haja essa equidade, e não privilégios. Luta para que as mulheres consigam entender a complexidade dessas relações e armas de dominação a que elas são submetidas e da qual fazem parte, perpetuando sua situação de submissão. Para mim, isso é feminismo.

Quanto aos parâmetros de beleza, esses sempre existirão, sejam ditados por homens, por mulheres, ou pela tal indústria cultural. Quanto à exploração dos corpos, isso também sempre existirá, desde que haja alguém ou algo disposto a se submeter a isso, porque isso faz parte da complexidade que é a sexualidade humana (mesmo que os corpos sejam virtuais/cibernéticos/mecânicos). Mas, o que me intriga em nossos tempos, é a hipocrisia e a dissonância discursiva que existe nas redes sociais, e é sobre o que falarei agora.

Como já falei anteriormente nesse blog, inspirada por reflexões e teorias diversas, é obvio que os seres humanos possuem necessidades sociais de reconhecimento e pertencimento, e isso pode ser obtido de diversas formas, como com a associação a grupos diversos, conquista de títulos, aplausos, menções, paparicações e por aí vai. Isso nos dá a certeza de que existimos e de que somos reconhecidos, de que temos algum valor, alguma importância, de que "somos foda". Nessa era virtual, essa sensação banalizou-se e tornou-se acessível a todos indiscriminadamente, através de interações em redes sociais e seus números. É uma ferramenta viciante de massagem de ego (a postagem e o recebimento de interações) que os idealizadores dessas redes souberam utilizar perfeitamente, são traficantes que cobram de seus viciados todas as informações de suas vidas, e esses pagam com prazer para continuarem existindo. Na busca por essa droga catártica, utilizam de diversos discursos que tomam e bebem conforme a música toca.

Charge machista contra as sufragistas


Pensando sobre tudo isso, considerando o feminismo, essa luta tão nobre, digna e necessária, que é também contra a objetificação do corpo da mulher, que poderíamos considerar por um ponto, que é a luta contra a exposição sexualizada do corpo da mulher para fins de prazer masculino, capitalizados, adotando padrões muitas vezes irreais e antinaturais, ou seja, afirmando o lugar da mulher como o de um objeto sexual, pergunto-me sobre a posição que algumas mulheres adotam nessa luta que é a de exatamente exporem seus corpos de maneira sensual em redes sociais. 

Talvez a posição seja a de exposição do corpo para que ele não mais seja visto como tabu, ou o desejo de resinificação, ou a tomada da significação natural do corpo que é o de ser apenas um corpo e não um objeto. Talvez o sentido seja o de desmistificar a sexualidade, de mudar paradigmas sociais. Talvez choque, e sabemos que muitas vezes precisamos do choque para chamar a atenção para uma situação que precisa ser notada e transformada. Tudo é válido na luta por direitos, desde que não agrida a ninguém, nem ao sagrado do outro, que é a mesma coisa. 

A luta é válida. Mas, mulheres, só não é válido ser hipócrita. Não vale abraçar discursos sem entender o significado e acabar se transformando exatamente naquilo que combatem, ou seja, tornando-se um objeto sexualizado nas redes sociais a fim de suprir o vício de "ser foda" e de fazer um papel da moda que é o de  "militante" de araque; por que ser feminista não implica necessariamente em "causar" na internet para projetar a si mesmo, que disso, gente que causa, a internet já está saturada. Ser feminista, ao meu ver, é utilizar de armas inteligentes para se fazer ouvir, e que as vezes pode ser o corpo também, com inteligencia e coerência. Ser feminista é ter um discurso condizente com as atitudes, e é lutar por direitos humanos. Ser feminista é agir no dia dia, ensinando os filhos, no trabalho, na comunidade, discutindo, interagindo e propondo coisas reais e práticas. Ser feminista não é, de maneira nenhuma, ser contra os homens, contra o sexo, não é ser rude, não é ser violenta, como muitos pensam. Ser feminista é lutar para que as mulheres sejam tratadas com respeito, equidade e atenção, como todo o ser humano deveria ser tratado. Creio que o ensejo maior do feminismo não é o de querer chamar atenção para sua beleza, charme ou corpo sexy. Se é para exigir respeito ao corpo nu, que seja verdadeiro, a mulher tem que ser o que ela quiser, mesmo que queira ser sexy, desejada, cortejada, ou muçulmana com sua burca. Utilizar a nudez como artifício torto para conquistar adeptos pode ser uma necessidade natural, mas não é condizente com o discurso feminista, pois trata-se de uma prática oposta ao que se prega, que é a  de não objetificação do corpo. Se o objetivo é esse,  o de ficar popular pelos atributos físicos, que seja, não é errado também, só é hipócrita se é levantada a bandeira do feminismo. É hipócrita utilizar do esquema opressor de objetificação e sexualização do corpo como se estivesse reivindicando o oposto. E pobre. as pessoas tem que ser o que quiserem. Só não deveriam ser hipócritas e oportunistas. Falei.







terça-feira, 19 de março de 2019

A lama que invade Ouro Preto


Eu me lembro da primeira vez em que fui ao cinema em Ouro Preto, fomos todos da família assistir a Lua de Cristal. O filme era horrível, mas a experiência foi ótima, um programa familiar com pipoca e sorrisos. Lembro-me também da vez, que talvez seja a última, em que estive lá; fui assistir a saga de Crepúsculo. O cinema lotou, tinha adolescentes espalhados pelo chão, uma loucura! Não dava para ouvir nada do filme, era uma gritaria sem fim, pipoca voando, gente fazendo graça. A cena interessante foi quando o tal do Jacob, o lobisomem, aparecia sem camisa; as meninas pareciam as beatlemaníacas, e os meninos se mordiam de ciúmes. Quando veio a tona o vampiro do mal, um rapaz negro e com cabelos rastafári, os meninos vociferaram: Grita agora, cambada! Achei injustiça e racismo, o vampiro do mal também era bonitão, mas, coisas da nossa sociedade, ainda, infelizmente.

Não temos mais cinema na região. A UFOP agora é responsável pelo Cine Villa Rica, e de vez em quando, lá passavam uns filmes fora do circuito, mas ninguém ia. Hoje, esses filmes são passados no Anexo do Museu, não sei por que, gostaria de saber mais... Mas o cinema morreu.



Quando me mudei para Ouro Preto, apreciava  um caminho estranho que ficava perto da rodoviária, não tinha ideia do que era aquilo. Após muitos anos, reinauguraram o que seria o Horto Botânico. Que lugar maravilhoso! Imagine que o Horto Botânico de Ouro Preto foi um dos primeiros do Brasil, inaugurado em 1799, antes mesmo do Rio de Janeiro! O povo começou a se apropriar do espaço, faziam shows piquenique, diversas manifestações artísticas, mas... Fechou-se na mudança de governos e hoje está decadente. Não podemos mais passar lá. Acabou. Fim. De novo.

Ah, novamente falarei dos concursos de papagaios que aconteciam no Morro da Forca! Lembro-me de que meu pai fez um papagaio de vampiro (a ideia era a de um pássaro, mas saiu um vampiro mesmo), e o meu tio fez um cavalo alado tridimensional. Se o cavalo alado tivesse voado, teria ganhado o primeiro lugar, mas não decolou. O vampiro ganhou o segundo lugar, a graninha foi bem vinda na época de vacas magérrimas. O céu ficava todo colorido, as famílias iam até lá brincar, havia brinquedos para as crianças. Hoje lá virou um lugar abandonado, decadente e mal assombrado por fantasmas e marginais. Ninguém tem coragem de subir o Morro da Forca sozinho.

Que pobreza! Que miséria! Que mundo em que vivemos! 

Os valores da nossa sociedade se transformaram de tal maneira que voltamos a viver com as convicções da idade média. O conhecimento não é mais reconhecido como tal, a ciência está sendo rechaçada e substituída por achismos, superstições, religião, as pessoas só crêm no que querem, não usam o cérebro para mais nada! A cultura e o lazer foram jogados para debaixo do tapete, como se fossem elementos de degradação humana, quando que na verdade, a arte e o lazer salvam vidas! Que lixo de tempo é esse em que estamos vivendo? Que trevas!

Devolvam o nosso cinema, os nossos espaços, a nossa natureza, a nossa história! Devolvam a nossa tranquilidade e a nossa capacidade de refletir! Devolvam-nos a luz, porque está "osso" demais viver nessa lama! 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

A mulher tem data


A mulher tem prazos e fases bem definidas. A mulher tem data. Qual mulher não se lembra da data em que se tornou uma mulher? Da noite para o dia, pronto, é capaz de procriar, não é mais uma menina. Todos os meses, em uma data aproximada, vai sofrer, sentir dores, mudar o humor e ter que lidar com o sangramento, até que vença o prazo de validade e se torne seca e improdutiva. Essa é a data da velhice. A data em que a mulher não serve mais para a reprodução. 

Qual mulher não se lembra de seu primeiro e traumatizante fio de cabelo branco? A data dao início da decadência? E quando o cabelo branco é de outras partes que não do couro cabeludo, mais depressão.

A evolução da mulher é marcada pelas datas. O homem não tem datas, a não ser as convencionadas para a juventude, maturidade e velhice, mas ele não tem a assinatura do seu corpo afirmando que aquilo é aquilo mesmo e pronto. O homem é uma linha contínua de progressão (ou regressão) suave, a mulher é uma linha decadente e tortuosa, como uma montanha russa e seus pontos de quedas.

O homem caminha pela vida, talvez, como se não se desse conta de sua progressão. Just walk. A  mulher é lembrada a todo momento de que não manda em nada, não controla nada, seu corpo é quem manda (pesar de todas as pílulas mágicas que nos auxiliam). Quando o corpo diz que a hora chegou, não tem disfarce ou escapatória, é hora de pular para o próximo nível. A mulher muda de nível, vira um outro avatar. O homem é o mesmo avatar com alguns acessórios dos quais às vezes nem se dá conta. Ou sem outros acessórios que vão caindo pelos caminhos.

A mulher é assim. Fatos da vida real. O homem é assado. Fatos Freudianos.




quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O climatério do mundo


Quando as propagandas que aparecem no seu navegador são de algum produto relacionado à incontinência urinária, é sinal de que a coisa anda feia. E a coisa anda feia mesmo.

Para todos os lados que olho, vejo apenas destruição e ignorância. Estamos em um cenário de guerra, o caos está em todos os lugares, as pessoas estão soterradas pelo barro da ganância do capitalismo, e o urubus não deixam os restos mortais e os entes lastimosos descansarem em paz, não! Há de se ganhar com a indenização que os sofredores receberão dos assassinos de seus pais e mães. 

O incrível é que as pessoas tem tanta fé em suas ideologias que chegam a se tornar ingênuas quanto a validade prática delas, sejam ideologias da esquerda ou da direita, dentro da imensidão de gama de cores. Alguns acreditam realmente que o livre mercado trará a igualdade, e outras, que o Estado fará esse papel, como se a humanidade não fosse criada por indivíduos grupais, com características biológicas que tentamos negar a todo momento, uma humanidade que tenta há séculos entender alguma coisa sobre si mesma. O ser humano continua cheio de fé.

Então, olho para um lado, vejo o caos de um mundo sem lei, de ódio, de intolerância, de egoísmo, olho para outro e vejo as estruturas em ruínas, pessoas mortas e pessoas querendo matar. Não podemos confiar na polícia, nos governantes, nos engenheiros, nos médicos, nos padres, nos pastores, nas bancas de examinação, em nada. Não sabemos se na velhice teremos amparo, se teremos emprego, se teremos educação e saúde. Não sabemos se nossos filhos terão escola gratuita para estudar e se teremos dinheiro para comer e pagar o aluguel. Não sabemos se poderemos não crer mais em Deus. Não sabemos o que é o hoje e o que é o século XVI. Não sabemos se amanhã entraremos em uma guerra que não nos diz respeito. Estamos em meio a um caos, e no caos, nada brota.

E no meio desse caos, o desespero, talvez gerado por ele, stress sem fim. Trabalho, família, marido lutando pelo doutorado e eu lutando com o mestrado, e nessa "fúria maratônica", pego me perguntando, "de que vale tudo isso", como diria o "Robertinho"? De que vale toda essa correria frenética? De que valem essas minhas atormentações de palavras? 

Jamais imaginei viver dias tão horríveis. Talvez seja a idade em que as pessoas acordam da utopia sobre a humanidade, talvez realmente estejamos num inferno anunciado, talvez eu esteja com crise de climatério, e talvez seja tudo junto, que potencializa o sofrimento. Mas, hoje li sobre o epicurismo, e penso que realmente precisamos aprender a lidar com nossos sentimentos que são baseados em nossos preceitos morais, porque apenas isso podemos mudar, nada mais. Não temos poder sobre nossa reputação (ao menos controle pleno), não temos controle dos acontecimentos passados, das instituições, do nosso corpo ou do pensamento dos outros. O que tiver de ser, será, e isso preciso aprender. Urgente!

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Morrer rolando o mouse - reféns de um psicopata


O negócio é o seguinte, só de existirem instituições sérias fazendo pesquisas sobre a influência da rede social Facebook na vida das pessoas, já é indício de uma situação incontestável.

As regras do modo de se viver e de se relacionar mudam de acordo com a evolução das tecnologias, é verdade. É verdade também que não sabemos ainda como a nossa sociedade será afetada pela dependência que criamos da internet, especialmente das redes sociais; mas, será que podemos parar um pouquinho para pensar sobre o que nossas vidas eram, o que são agora, como chegamos a isso, e como as novas gerações estão vivendo? Podemos parar e refletir sobre como nós todos nos tornamos mais ou menos livres? Mais ou menos presentes? Mais ou menos reflexivos? Pacientes? Tolerantes? 

Façamos um exercício imaginativo agora: 
Vivemos em uma era totalmente dependente da internet, especificamente da rede Facebook.  O que é o Facebook? Uma armadilha criada por um nerd psicopata que odiava todos os colegas da faculdade, a ex namorada, o mundo todo, e, ao mesmo tempo, conhecia muito bem os desejos ocultos dos seres humanos, as necessidades imaculadas e as pérfidas. Ele criou um lugar onde as pessoas poderiam ir e ficar acompanhando todas as vidas que quisessem, as dos amados, as dos odiados, as dos ridículos. Poderíamos entrar em contato com  qualquer um, até mesmo com os antes inalcançáveis artistas. Poderíamos dizer e nossas vozes poderiam ser ouvidas por dezenas, quiçá, milhares? Poderíamos conhecer pessoas de outros lugares, manter contato diariamente com elas, saber de suas peculiaridades. Não era como o Orkut, podíamos stalkear livremente, sem que ninguém soubesse. Ver tudo o que os ex faziam, se estavam bem, bonitos, ricos, pobres, felizes, infelizes, e localizá-los na vida real. Podíamos nos tornar famosos e ganhar elogios de outras pessoas. Podíamos ser notados, fazer parte de um grupo e sermos importantes. Podíamos infernizar a vida das pessoas, humilhando-as, destruindo-as publicamente. Podíamos arruinar relacionamentos; tudo era possível!

Outros benefícios foram oferecidos, como a possibilidade de se fazer negócios através da plataforma, de se publicizar trabalhos, eventos e opiniões, o que foi muito bem utilizado  pelos que podiam "pagar". Parecia o paraíso.

O tempo foi passando e as pessoas se tornaram cada vez mais dependentes do Facebook. Quem não tinha o perfil no Facebook, não existia. Prontamente, todas as informações pessoais foram entregues, como número de telefone,  opiniões, gostos, localização, tudo. O Facebook fez ligações com diversos tipos de empresas, e essas também tinham acesso às informações de usuários. Tudo o que comprávamos, o que pesquisávamos, o que desejávamos mais intimamente, onde estudávamos, trabalhávamos,  pra onde viajávamos, os livros que líamos, as opiniões políticas que tínhamos, nosso filhos, relações de parentescos, nossas conversas mais íntimas, segredos mais escabrosos, tudo estava à disposição, nós oferecemos nossas vidas de bandeja. Tudo está na internet, para sempre, até quando os computadores existirem. Tudo de bom grado.

Mas... A ilusão de que poderíamos alcançar o mundo acabou. Não somos nós quem controla onde  e como nossas publicações vão aparecer, mas o Facebook. Não adianta montar um discurso se a plataforma não o faz aparecer nas páginas de seus "amigos", não mais que de uns dez indivíduos. A não ser que seu conteúdo seja realmente bom (ridículo, engraçado, polêmico, escandaloso, revelador e curto) e os amigos passem a compartilhá-lo, pode até ser que a plataforma tenha menos autonomia sobre o paradeiro, mas, geralmente, e, especialmente se você gerencia uma página, você terá que pagar para que seu conteúdo apareça para um determinado número de uma audiência. Fato. Então, amigos, a verdade é que é o próprio Facebook quem decide se nossas publicações serão vistas ou não, e fim.

O usuário não controla nada, somos todos joguetes do capitalismo. E da política. Deram-nos uma droga e não podemos mais viver sem ela, e sempre encontramos justificativas válidas para permanecermos em nossos vícios.

Então o Facebook incorporou o Instagram, o Whatsapp, as outras duas maiores redes do mundo. Agora mais informações são coletadas, além de amigos e contatos online, há os telefônicos. Não há mais nada desconhecido para o Facebook. As pessoas começaram a realizar tudo através dessas redes, absolutamente tudo. Relações sociais e profissionais, relações de amor e de ódio. Relações políticas. Tudo.

Então o mundo se torna refém de um psicopata. "Nhem nhem nhem, teoria da conspiração", dirão uns. Mas é fato. O mundo está nas mãos de um psicopata. Ele ainda não conquistou a China, apesar da esposa chinesa. Ainda.

Resumindo é isso. As pessoas se tornarão viciadas, medrosas, apáticas, tímidas, robôs buscando felicidade em imagens na tela, presas dentro de um apartamento no subúrbio de uma São Paulo qualquer, olhando para o mundo colorido enquanto lá fora é escuro, fedorento, os pneus queimam e os craqueiros morrem de outra droga. 

Rolando a porra do mouse.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

As mulheres não são amigas


O título é uma generalização, mas o que percebo, sendo mulher, é que existe uma eterna rivalidade entre as mulheres, uma disputa infinita e infindável. Simone de Beauvoir disse que não se nasce mulher, que se torna mulher, mas eu não consigo precisar até onde as influências e o universo em que nascemos nos tornam o que somos, ou se existe algo biológico que nos impele a ser como somos. Eu precisaria de vidas de estudos antropológicos, sociológicos e biológicos para precisar algo, e, como não disponho de tantas vidas e muito menos de tantos estudos, posso apenas relatar algumas experiências dessa vidinha medíocre que venho levando.

Quando era criança tinha poucas amigas. Gostava mais dos meninos, porque eles eram sempre mais claros, sinceros e falavam de coisas mais interessantes, como sobre o sentido da vida ou os cantos das cigarras. Eu tinha uma amiguinha, um dia ela recebeu outras amiguinhas de visita, juntou-se a elas e juntas se riram ironicamente por eu não saber dançar. Eu tinha outra amiga, até nos dávamos bem. Depois de longos anos sem nos falarmos, a encontrei na internet, mas ela sequer respondeu as minhas mensagens. Éramos melhores amigas.

Eu tive boas amigas, fiéis, inteligentes e engraçadas.Essas são como gotas no oceano. Na adolescência, minhas amigas disseram para não andar com elas porque iria estragar o esquema delas, elas pensavam que eu fosse mais bonita que elas e os pretendentes iriam ignorá-las. Outra amiga ficava se insinuando e competindo comigo.

No trabalho, tive algumas chefes. Aliás, penso que todas eram mulheres. Pegavam no meu pé, chamavam a atenção na frente dos outros, enquanto que os funcionários machos dormiam na banheira do banheiro. Uma colega de trabalho vivia me julgando com aquele olhar de cobra pecaminosa, e quando eu dizia que não gostava de cozinhar, a fala dela era: nunca vi mulher, mãe, e não gostar de cozinhar. Só tenho uma coisa a dizer para ela: PNC.

Vejamos as meninas nas escolas. Quando uma aluna nova chega, ela é hostilizada por quase todas, especialmente se for bonita ou tiver algo que chame a atenção. A maioria das brigas entre mulheres se dá pelos mesmos motivos: inveja ou ciúmes. Por quê?

Talvez o mundo nos tenha ensinado que precisamos estar sempre acima das demais para atrair um macho, sem o qual supostamente não poderíamos viver. A mulher tem que ser linda, prendada, carinhosa, amável, esforçada, trabalhadora, se quiser conquistar o melhor homem. Talvez seja isso. Ou talvez conheçamos as nossas capacidades de observação, reconhecimento e manipulação a ponto de ficarmos sempre alertas.

As mulheres precisam ser mais inteiras, inclusive eu. Inteiras e unidas. A primeira coisa que deveríamos aprender é respeitar umas as outras. Talvez haja uma eterna baixa auto-estima entre nós, talvez damos valor demais aos olhares dos outros. Talvez devêssemos começar a pensar sobre como nos relacionamos com as outras, e com os homens. Quais são nossos valores? 

Algumas reflexões:

Mulheres, não subjuguem umas as outras. Estejam de peito aberto para ouvir e se interessar verdadeiramente pelo que as outras possam oferecer, suas experiências, seus conhecimentos, vamos compartilhar;

Mulheres, solidarizem-se! Nós sabemos como ainda é difícil e pesada a carga para as mulheres, por que não podemos nos ajudar para que todas possam ter um apoio e um caminhar mais suave?

Mulheres, não sejam hipócritas! Não sejam escravas dos padrões e das opiniões. Não faz sentido algum ser feminista, lutar por direitos iguais, por respeito, e ao mesmo tempo implorar por atenção através dos atributos sexuais nas redes sociais.

Mulheres, não se submetam! Se não gostam de algo ou situação, não se submeta a ela, e apoie a quem faz o mesmo!

Mulheres, sejam sinceras! Não façam elogios falsos, não fofoquem, não conspirem contra as outras mulheres apenas por elas representarem uma ameaça imaginária.

Mulheres, respeitem os limites! Respeitem os relacionamentos das outras, não estamos em uma competição por machos, além do mais, o que mais tem é homem nesse mundo. Acolhamos um código de ética e acabemos com essa eterna disputa. Não façam com as outras o que não gostariam que fizessem com vocês, ok?

Biologia ou cultura, não sei dizer, mas o nosso comportamento explica muito sobre os motivos de nossa longa submissão.



Postagem em destaque

A revolução começa em casa