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quinta-feira, 27 de junho de 2019

Ser ouropretano é...




Ser ouropretano raiz é morar nas periferias, nas quebradas, é ter aquela vista maravilhosa do Pico do Itacolomi da janela e ver aquelas nuvens que começam a escurecer para jogarem seus trovões nos morros. Nasci aqui, fui embora e voltei aos 11 anos de idade, e aprendi cedo que ser ouropretana é falar "cadê mãe", "isso é de mãe, isso é de pai", e não "isso é da mãe, isso é do pai", como eu falava. Quem vive nessas terrinhas descobre logo que mofo é um troço que faz parte da atmosfera, nada resolve. Tudo cheira a mofo e tem cor de mofo. 

Quem é dos tempos das vacas magras vai se lembrar muito bem do fubá suado, café com farinha, dos fogões a lenha, dos galinheiros e chiqueiros que faziam parte das casas. Vai se lembrar da diversidade de toques de sinos, dos quebra-queixos, das amêndoas da Semana Santa. Não há de fugir da memória também os escorregões por essas ladeiras, que faziam as calças se rasgarem. 


A minha família é mais que raiz, veio do mais longínquo solo. A minha mãe e tias, dizem que iam até o Pico do Itacolomi buscar lenha para cozinharem. Comiam o tal do fato de boi, a casa era um barraco se despedaçando. O meu avô, dizem, era um senhor ruim que nem capeta (fique em paz, vovôzinho). Do outro, por parte de pai, não sei quase nada. Na verdade, não conheci nenhum avô, os dois se suicidaram quando meus pais ainda eram bebês.

Aliás, ser ouropretano é saber ou conhecer alguém que já chegou ao desespero de tentar a própria morte. Esse é um fato terrível, ao qual não devemos fazer apologias, mas também não podemos ignorar ou esconder, como querem fazer com a mal assombrada Volta ou Curva do Vento. Não há um ano em que ao menos um pobre indivíduo atormentado não pule de lá. Ouropretanos, não vão para lá quando estiverem tristes! A vida é bela e Ouro Preto não é só mofo e neblina, há muita luz e eferverscência nessa cidade! Dêem-se a chance de conhecer uma nova vida, que sempre nos surpreende, se permitirmos.


Ser ouropretano é conhecer as histórias de fantasmas, como a da mulher de branco e a da Mãe do Ouro; é se esbaldar com os forasteiros no carnaval e depois fazer penitencia, participando de todas as procissões. Ah, é chamar turista, estudante e gente que comprou os casarões antigos e milionários de forasteiros, e os nascidos aqui de nativos. 

Antigamente, a guerra entre nativos e estudantes era grande, mas, parece que estão aprendendo a conviver de uma melhor maneira. Talvez, pelos acontecimentos antigos que os nativos presenciavam, como os trotes humilhantes, as festas que desrespeitavam as tradições religiosas, e o apartheid que existia entre essas duas categorias, o clima fosse tão ruim no passado. Hoje, felizmente, estamos convivendo melhor, até porque muitos nativos agora se tornaram universitários também.


Ser ouropretano é ter ido ao menos uma vez no Manso, no Tripuí, ou nadado nessas cachoeiras por aí. É falar "vai lá em casa", "depois vou lá", sendo que todos os envolvidos sabem que ninguém vai em lugar algum. Ser ouropretano raiz é fazer um churrasquinho com cerveja e chamar os amigos, seja na laje, na garagem, ou na varandinha. 

Infância em Ouro Preto, tem que ter uma escorregada na graminha do parque do Centro de Convenções, uns chup-chups nas vizinhas, uns papagaios no outono. Antes tinha queimada na rua, birosca, pega-bandeira, cobrinha de pano pra assustar os passantes. Hoje, tem nada não, só uns "menino mexeno no celular".


Ser ouropretano é ter ao menos um artista na família. Conta a lenda que Sônia Braga, quando gravava aqui "Luar sobre Parador",  disse: _Que cidade esquisita, aqui a gente anda na rua e ninguém vem pedir autógrafo. _ um guia turístico teria dito: _ Ah, minha filha, aqui em Ouro Preto, todo o mundo é artista. _ E é vero. Todos tocam violão, cantam, fazem teatro, e se equilibram nessa vida.

Ser ouropretano é ficar P da vida quando viaja e, ao encontrar um desconhecido, que fica sabendo que você é de Ouro Preto, ouvir dele (imagine isso com voz irritante): _ Nossa, Ouro Preto, Loucura aquela cidade, sexo, drogas e rock and roll. Seu Toba, é o que fico com vontade de dizer.

Uma chatice de ser ouropretano, é que para você viajar e gastar pouco, torna-se muito difícil, porque as únicas opções que temos são cidades com atrações barrocas e montanhas, do que estamos mais que servidos todos os dias e com magnificência. Então, quando sem grana, a gente fica aqui mesmo.


Outra chatice, são as poucas opções para as famílias de Ouro Preto, que desacostumadas a serem contempladas, ficam em casa e muitos não aproveitam as atrações destinadas especialmente a turistas, como festivais de cerveja a 15 reais o copo. As autoridades não priorizam as gentes de Ouro Preto, é como se o povo não precisasse das mesmas coisas que precisam os que vivem em cidades comuns, não turísticas.

Ser ouropretano é estar tão acostumado com tantas atrações acontecendo ao mesmo tempo e sempre, ao ponto de se perder as que mais deseja, como shows de artistas queridos. É morar em uma cidade muito pequena, movimentada, cosmopolita, em que podemos ver tudo, todo o tipo de gente, todo o tipo de atividade, e voltar para as nossas casas tranquilas de interior. Doideira. Por isso é difícil viver em outro lugar depois de Ouro Preto, nunca há o equilíbrio como há aqui, nesse sentido, de certo modo.



Ser ouropretano é falar taruíra, camofa, ganhão, arreda, falazada. Ser ouropretano é sonhar com as casas do centro que jamais poderemos comprar. Ser ouropretano é sentar na roda dos aposentados na Barra nos fins de semana, tomar umas ali nos bares que não existiam, é xingar turista parado no meio do caminho, é correr daquele povo  que fica na Rua São José e que fica querendo pegar dados do cartão de crédito, dizendo que é da Anistia, ou vendendo doces e canetas pelos lares de drogados. É ouvir os músicos que ficam alí de vez em quando, comprar um sorvetinho de máquina, ver a exposição na Casa dos Contos, fazer uma leitura das mãos com a cigana, ou saber do futuro com o cartomante; é cumprimentar o Tio Vicente Gomes pelas ruas, é fazer tapete de Semana Santa, cheio de polêmica. É sonhar em passar no IF, antiga Escola Técnica. 



Ser ouropretano é assistir a todos os dias, sem cansar, o pôr do sol entre as igrejas, que a cada dia, cada dia, é uma paisagem mais maravilhosa e única, e ainda se emocionar e amar essa cidade. É conversar com uma senhorinha no meio da rua, comprar umas jabuticabas, falar "e aí, beleza?". É ser meio acabrunhado, cismado, mas adorar um cafezinho e um papo. É ver o congado, as bandas, as fanfarras, as escolas de samba, o Zé Pereira, e sentir que isso é nosso. Ser ouropretano é ser mineiro raíz, de corpo e alma, sem escapatória e sem arrependimentos. 


Para ver imagens da Ouro Preto, cidade viva, acesse o link: Mulher Alienigena
Para ouvir um Podcast (meu marido não gosta de chamá-lo assim) sobre os sons dos sinos, acesse: Paisagens Históricas: Os sinos de Ouro Preto

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Hoje eu vi um zumbi


Hoje eu vi um zumbi.

Eu corri para pegar o ônibus, estava quase atrasada. Fiquei em pé no ponto, juntamente com outras pessoas, quando ele se aproximou mendigando. Era um rapaz moreno, camisa preta desbotada, calças de moletom, furadas nos fundilhos, chinelos, cabelos sem corte, sujos, ele estava sujo inteiro. Pedia dinheiro, qualquer coisa, 50 centavos para comprar comida, segundo ele. Olhei seus dedos, todos com pontas queimadas, negros e feridos. Cacei 50 centavos e dei-lhe. Uma senhora que lá também estava disse, "Você vai é pra Vila daqui a pouco comprar craque, eu sei". Ele não ouviu, não ligou, não deu a mínima e continuou pedindo. Foi até o outro lado da rua e voltou para pedir para os novos esperantes de ônibus. Desta vez, ele pedia dez reais, insistia, dizia que a comida custava isso. Quando ele havia ido para o outro lado, pude observar uma lata de refrigerante em seu bolso e o isqueiro em suas mãos. Agora seu corpo tremia. Ele não via nada, nem tampouco se importava. Ele não tinha alma. Ele não era gente.

Senti um vazio na alma, se a tenho. Tenho algo que aquele zumbi não tinha, porque a ele nada importava neste mundo, a não ser a urgência que sentia de saciar a todo custo seu vício. Ele pedia, mas seria capaz de qualquer coisa. Qualquer coisa. 

Para aquele individuo, futuro não é algo que exista em sua mente ou projeto. Laços, talvez não saiba mais o sentido. Aquele individuo estava no fundo do poço da inexistência. É a coisa mais triste que já vi.

Pensar que isso está em Ouro Preto, pensar que todos sabem o que acontece, e nada é feito. Todos sabem. Todos.

Pensar que um indivíduo pode perder-se, perder a alma, assim, sem que nem se dê conta. De repente, está com amigos, ou inimigos, ou rodeado por fantasmas, e, de repente, de brincadeira, começa a trilhar o caminho da escuridão e nunca mais volta. Coisas como se limpar, comer, namoro, família, deixam de existir.

Aquele zumbi roubou um pedaço de mim. Que deus nos proteja.

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