terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sonhos de uma mestranda - sobre memória e identidade



Quando estamos imersos em um trabalho de pesquisa e o objeto de estudo, assim como as teorias que se relacionam a ele, passam a fazer parte fundamental de nossa existência, encontramo-nos em um estágio emblemático em que muitas reflexões podem surgir de diversas maneiras; permito-me a mencionar um sonho que tive em uma dessas noites agitadas e que, ao acordar, nomeei-o de “sonho sobre a identidade”. Além de ser um dos sintomas do quão se torna perturbador e profundo o processo de pesquisa, a narrativa de um sonho tem muito a nos dizer sobre nossos medos, desejos e sobre reflexões em andamento, as quais surgem de maneira simbólica, como nos revelou Freud em seus escritos.

Esse foi um dos sonhos mais belos que já tive, esteticamente falando; iniciou-se em plano aberto, mostrando algumas casas de alvenaria em terra árida. O clima e a iluminação nos remetiam ao oriente médio, mas, em meu sonho, tratava-se da cidade em que cresci, Ipatinga. Eu estava lá para fazer um documentário sobre um grupo de jovens que se destacou pela originalidade da música. Juntamente com algumas pessoas da comunidade, sentei-me na beirada do asfalto e de lá observávamos, por entre pedras, os jovens negros e bem produzidos, produzindo um videoclipe; eles se divertiam na areia da praia, com o mar ao fundo (em Ipatinga). Ouvíamos o som da música que misturava reggae e Luiz Gonzaga. Passamos para outro plano, como se estivéssemos em um filme; agora estamos no meio de uma ruela escura, onde mal podemos distinguir os itens da paisagem negra. Uma menina vestida com short e mini blusa, sem seios, descabelada e suja, nos fala. Ela seria a possível informante que nos ligaria aos personagens do grupo. Sua fala era triste para nós, mas era apenas a realidade para ela; contou-nos sobre seus filhos, que estavam esperando sozinhos e por isso tinha pressa; disse que um dos integrantes tinha ido para a França e esquecido a família na favela, que outro tinha irmãos presos, e ainda, que um terceiro, deixava os pais passarem fome. O filme do sonho agora mostrava um barraco escuro e entulhado, onde os integrantes do grupo chegavam, alegres e falantes, e, rapidamente, tiravam seus sapatos e tênis de luxo para calçarem os confortáveis e baratos chinelos e sandálias. Não precisavam mais representar, podiam ser eles mesmos e ficar com suas próprias identidades. A última cena de meu sonho, antes de ser acordada pelo sair do meu filho para a escola, foi a de um outro barracão escuro, onde uma japonesa com o rosto pintado de branco e vestida de gueixa sentava-se a espera de seu marido, um rapaz negro do grupo musical. Ele aproximou-se dela e disse algumas poucas palavras em português, ela sorriu e disse sim, com a compreensão de seu mundo às palavras do mundo dele. Jamais falariam a mesma língua. Acordei pensando sobre o que aquele sonho queria me dizer e sobre o que eu teria a dizer sobre aquele sonho.

Os integrantes podiam sair da favela, mas a favela nunca sairia deles, no sentido que suas identidades estariam eternamente ligadas ao que eles vivenciaram em seu processo de crescimento e formação individual e coletiva. O ato de retirar os sapatos quando se encontravam em seu ambiente familiar, onde se sentiam confortáveis, onde tinham permissão para serem o que o interiormente sentem que são, nos faz pensar sobre os papéis que precisamos representar em nossas rotinas, ou sobre as identidades que desejamos ou precisamos adquirir. O mesmo acontece com alguém que é habituado a comer frango com as mãos e precisa adotar uma forma de agir diferente do que lhe é natural quando come em um restaurante, ou quando precisamos ser polidos ao perceber que o atendente de um local é alguém de quem não gostamos. Trata-se do controle do corpo a que se referia GIDDENS(2002), quando o corpo age controladamente a fim de representar um papel de acordo com os comportamentos aprendidos socialmente. Nesse ponto, a memória e a identidade estão intimamente ligadas, pois é através da memória das práticas sociais, e de todos os elementos que fazem parte da memória coletiva e social de uma comunidade, é que as identidades são construídas e significam.

Mais reflexões a posteriori.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Futebol: o culto ao culto


Tenho falado um pouco sobre o futebol e o que percebo agora, mais claramente, é que se construiu a cultura de se cultuar o próprio culto ao futebol, ou seja, é considerado meritoso se descabelar, sofrer e dar a alma pelo time de futebol, cultua-se essa paixão descabida e desenfreada; o verdadeiro torcedor seria aquele que faz parte de torcidas organizadas, que paga mensalidades para o clube, que frequenta estádios assiduamente, que veste a camisa, que desqualifica o adversário, que chora, grita e se desespera, e isso seria uma grande qualidade, segundo os apaixonados por esse esporte.

Esse culto ao fanatismo foi se criando em nossa cultura com grande ajuda da mídia, obviamente, como podemos ver nas capas de todos os jornais. Futebol sempre é destacado como a coisa mais séria e importante em nosso país, como poderíamos duvidar? Os jornais retratam o que é importante para o povo, ou criam necessidades e "importâncias"? Bem, essa é outra discussão.

Quando se fala sobre fanatismo em outras esferas, isso geralmente é visto com negatividade, como no caso do fanatismo religioso, mas ao contrário, no caso do futebol, parece que é obrigação para os amantes de tal esporte. Alguns admiram-se em assistir crianças sofrendo profundamente com a derrota de um time, admiram o "amor" doído e a escravidão servil, a devoção a uma camisa, uma bandeira e a jogadores milionários. 

Não, eu nunca entenderei que as pessoas realmente levem a sério o futebol, e quando digo levar a sério, refiro-me a alterar todo o comportamento por causa de campeonatos. Jamais entenderei a alegria desmesurada em ver um time vencer outro. Entendo apenas que essa é uma forma que as pessoas encontraram para dar sentido às suas vidas e de saírem de suas capas protetoras da civilização, e por esse lado, até que gostaria de ter uma paixão que me fizesse sair de minha armadura e me permitisse  ser mais humana do que gente civilizada, arrancando tudo o que fica doente de dentro da alma. Mas, ainda não tenho.

Só acho que tudo o que escraviza, transforma as relações, gera stress e ansiedade, não pode ser algo saudável. Sim, é um culto, por que trata-se de religião e de fé, de veneração e paixão, e, mais que isso, de submissão diante de um ser sagrado. Nunca tive religião. Talvez isso que me falte para compreender e ser mais humana. Ou não.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Sonho sinistro


Chegaram bêbados do aniversário da Mariazinha, mãe da Bete, e colocaram a Laurinha para dormir na cama. A menina de três anos veio dormindo no táxi e nem percebeu que seu corpo havia passado do colo cambaleante do pai para o conforto de seu colchão. Pai e mãe se livraram das roupas e se deitaram na cama, no quarto que ficava no mesmo corredor que o da menina. A cama ficava encostada na parede com os pés ao lado da porta, que ficou entreaberta para possíveis requisitadas da filhinha. O sono foi imediato, mal o casal se deitou e se entrelaçou e caíram nos braços de Morfeu. Não se pode precisar o tempo passado, mas em um determinado momento, a mãe acordou repentinamente, como se alguém a tivesse chamado. Logo pensou na menina, e, com muito esforço, levantou-se, sentou-se na beirada do pé da cama, e olhou pela porta para ver se a menina dava algum sinal. Estava escuro, e Bete sonolenta, com os olhos pressionados, na escuridão, conseguiu visualizar o vulto de um bebê de fraldas com as duas mãozinhas na parede, virado para ela. Apertou mais os olhos para tentar ver melhor, mas o sono foi maior, voltou para o travesseiro e fechou os olhos, supondo que deveria ter visto a menina, e, se fosse ela, voltaria logo a dormir ou viria chama-los. Porém, algo a incomodava em seu lento raciocínio alcoólico, aquilo parecia um bebê de aproximadamente um ano, não parecia sua filha. A dúvida e a sonolência brigavam e ela não conseguia se decidir entre a conferencia e a sonolência. Nesse momento, o pai também teve o mesmo gesto,  levantou-se, deitou-se, incomodou-se ao ver o vulto,  mas não conseguiu tomar decisão sobre a dúvida. Dormiram mal nessa noite.

No dia seguinte, tiveram a impressão de terem tido um sonho sinistro e a sensação de que algo maléfico pairava no ar daquela casa. Não comentaram um com o outro, mas sentiam.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Esse mundo cansa


Eu não entendo nada.
Eu não entendo como um pai pode dar laxante para os filhos e postar na internet para ganhar curtidas. Cansei de ver pessoas futicando perfis de conhecidos e criticando-lhes fotos, postagens, e relacionamentos. Cansei de ver comentários maravilhosos em fotos terríveis e comentários terríveis por trás das telas. Os postadores sequer imaginam quem no universo tem acesso às imagens, mas não se importam em deixá-las públicas para que as pessoas as analisem de todas as formas. O importante é ser famoso no mundo do Facebook e Instagram, ser popular e receber mais de 500 curtidas. Isso é o significado da vida pós-moderna. Quantas coisas você curtiu hoje, e de quais você se lembra? E das curtidas de ontem e da semana passada? Talvez se lembre da foto em que sua prima estava com uma sobrancelha horrível, ou que sua cunhada estava sensualizando para enciumar o namorado. Talvez se lembre daquela foto da amante do ex da sua amiga que foi vasculhada de cima a baixo. Talvez. Literalmente, cansa a beleza. Cansam tanta exposição, tanto ego, tanta gente sem o que fazer na vida real, que se maquia para tirar 50 fotos dentro de casa, ou que fica analisando os melhores cenários de cada festa. Cansam postagens militantes, cansam mensagens religiosas, de bom dia, boa noite, boa vida. Cansam correntes supersticiosas, alimentícias e políticas; cansa pedido de petição. Cansam briga em grupos, videos engraçadinhos, e montagens com candidatos. Cansam imagens de gente descolada. Cansa. Cansam ainda mais esses meus textos cansativos reclamando na internet sobre o que acontece na internet. Esse nosso mundo, cansa.