quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Mulheres Maravilhosas: Cláudia Elaine





Pessoas maravilhosas não precisam estar na TV, elas estão por toda a parte, uma delas pode estar ao seu lado. Essa pessoa que se apresenta hoje é Cláudia Elaine, alguém que tem muita coisa a dizer e a ensinar. 

1-      Qual o seu nome e como gosta de ser chamada?
Cláudia Elaine, a família me chama de Ninha.

2-      Quando e onde nasceu?
Nasci em 22 de setembro de 1979, na cidade de Mariana, Minas.

3-      Qual a sua escolaridade?
Segundo grau completo.

4-      Qual a primeira lembrança que você tem na vida? 
A minha infância foi dividida entre médicos casa de vó.



5-   Como você descreveria a sua infância e quem foram seus melhores amigos?
A minha infância, a maioria foi em consultas médicas e internação, mas lembro das brincadeiras com os meus primos, era muito divertido, e mesmo com as limitações sempre existiam brincadeiras que eu poderia participar. A melhor amiga da infância era uma prima, e na escola, a Mônica Angélica e a Jussara. Hoje, infelizmente não tenho contato com nenhuma delas, a não ser nas redes sociais.

6-      Qual é a sua doença?
AME (amiotrofia espinhal tipo 3), é uma doença degenerativa que vai fazendo com que os músculos enfraqueçam com tempo.

7-      Como foi lidar com as suas limitações?
Eu não sei como é não estar doente, então as minhas limitações são normais para mim até o momento em que eu bato com o preconceito das pessoas.

8-      Como foi a sua adolescência? 
Como para toda adolescente, foi rebelde, inseguranças e paixonites; também sofri bullying, mas tive sorte de conhecer amigos que eu trouxe para vida toda.



9-   Do que mais sentiu falta e do que mais gostou?
Senti falta do meu pai, daquela frase que toda adolescente diz: “ tenho que pedir o meu Padre”...  O que eu mais gostei foi a época de escola.

10-     Quais as maiores loucuras que fez na vida? 
Kkkk…. Foram muitas mas vou ficar com as mais leves...kkkk…. Fiz um book sensual, ( o que para uma sociedade com conceito formado sobre deficientes físicos é uma loucura), voei de paraglider sem conhecimento de família, e viajei um dia todo sem destino com o namorado, sem conhecimento de todos sobre onde eu estava.

11-   Quais são as pessoas que representaram  muito em sua e vida, e por quê?
Em primeiro lugar a minha mãe, que com toda diferença de opiniões e conceitos é a minha fortaleza a minha vida…. E os meus amigos que nunca me trataram com diferenças e sempre me fazem sentir útil quando confiam em mim.

12-   Quais sonhos ainda tem?
Eu sinceramente não tenho a não ser desejar que Termine os meus dias com saúde.

13-   Qual a sua maior tristeza ou decepção? 
Ver nas pessoas um preconceito e um pré conceito sobre o que eu posso e o que eu não posso fazer. A minha maior decepção foi a covardia e falta de coragem das pessoas que entraram na minha vida, usando o sentimento de precaução, cuidados e amor para que eu parasse  de ser feliz.



14-   O que você aprendeu sobre a vida e as relações até hoje?
Aceitar as mudanças adaptando-me a ela, não lutar contra o questionar, isso é perder tempo; viver cada momento sem pensar no futuro ou lamentar o passado.


15-   Gostaria de deixar algum recado?
Além da resposta da pergunta número 13 viver a cada dia sem medo

Filme favorito


Música favorita



Cláudia Elaine


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

As crianças que matamos


Gente é um troço engraçado. nascemos e começamos a interagir com os que nos rodeiam. Crianças pegam no seu cabelo se tiverem vontade, mesmo que seja a primeira vez que o vejam. Crianças correm e abraçam seus amiguinhos quando estão com saudades, crianças choram quando magoadas, crianças demonstram admiração quando uma pessoa bonita se aproxima e até pedem colo; crianças dançam quando ouvem música, mesmo que estejam dentro de um supermercado, e dançam com a alma, não apenas remexem os membros. Seres humanos em seu estágio primário de desenvolvimento não sabem o que é adequado, educado, polido. Apenas são quem são.

Um dia alguém vem e diz: Não pode dançar na rua, que ridículo! Não é educado falar da aparência das pessoas! Você tem que parecer forte, não chore por nada! Endireite esse corpo! Você não sabe dançar, nem tem corpo para isso! Não demonstre tanto que está apaixonado, se valorize! Não pareça ridículo! Então, você cresce.


Para viver adequadamente, precisamos conhecer as regras que nos tornem seres toleráveis dentro da sociedade. Se quisermos ser tolerados, não devemos fazer ou dizer tudo o que pensamos, se assim fizermos, o mundo se transformará em caos. Para nos adequarmos, vestimos máscaras frias e sorridentes e vamos também tolerando os intoleráveis da vida, desmanchando nossas vontades e reescrevendo as verdades.


Nesse reescrever, nos subscrevemos nos moldes rígidos e afastamo-nos do que nascemos para ser, é a sociedade. Não sabemos mais se sentimos e contemos tudo o que possamos desejar genuinamente, e isso se reflete em nossa maneira de agir e sentir. Tornamo-nos robôs movidos pelas necessidades criadas e programados pelas regras sociais da aceitação.

Chega um momento em que começamos a sentir falta de algo, de nós mesmos, e isso vai crescendo até que não possamos ignorar. Essa falta de nós vai nos incomodando, nos cutucando, até que torna-se uma ferida aberta impossível de não ser vista. Quando não mais a suportamos, vamos em busca de remédios que aliviem essa ferida de contenção do ser, pensando que há algo fora de nós que vai nos resgatar a nós mesmos. Alguns viajam até a Índia em busca do sagrado, outros vão ser possuídos em terreiros de umbanda, alguns caem nas igrejas através dos gritos de seus pastores, uns se entregam ao samba, muitos se acabam no funk, ou na biodanza. Há também os que escolhem o teatro como maneira de se libertar das amarras sociais, a música, ou qualquer outro tipo de arte. Há quem caia no encanto de drogas alucinógenas,  algumas sacralizadas como o Santo Daime. Cada uma dessas pessoas encontra esse momento para liberar o que não pode ser liberado cotidianamente e ser o que falta. Ser humano, com impulsos, desejos, carências e expressão. Reaprender a sentir, movimentar, tocar, se expressar acima de tudo. As pessoas precisam reinventar técnicas para ser de novo crianças e rever o mundo com olhos virgens e interessados, por alguns instantes, ou para o resto da vida.


Há muito sobre nós que não sabemos e talvez, nunca saberemos. Sabemos que existem coisas que os nossos sentidos ainda não estão aptos a captar, como as ondas de rádio e tantas outras coisas das quais nem podemos saber da existência. Há mistérios não desvendados e que passaram a ser ignorados, e há perguntas das quais nos esquecemos. Esquecemos-nos de notar o milagre que é um ser vivo emitir luz ou mudar a cor de sua pele, ou até mesmo, produzir eletricidade. Esquecemos de observar que uma abelha já nasce sabendo construir sua colmeia e uma tartaruga, que tem que correr para o mar. Animais nascem sabendo, e nós ainda somos animais. Mas, sabemos apenas que o pouco que podemos captar através de nossos sentidos é capaz de causar alterações em nosso cérebro e nos levar para outro estágio de consciência, como os sons e as imagens. sabemos que as palavras possuem poderes, pois elas são a representação do real e torna real suas representações. Sabemos que a fé transforma, qualquer tipo de fé, pois ela move e comove. Dessa forma, artifícios sociais que fogem das rotinas sociais (antagônico?), servem bem ao seus propósitos, ajudando-nos e permitindo-nos a ser e a transcender com suas teorias, promessas ou perguntas. Nesse espaço permitem-nos e permitimo-nos a ser tudo e a liberar tudo, para depois re-vestir a máscara dura, boazinha, profissional e sorridente, sem toda a tensão causada pela ferida aberta.


Quem dera pudéssemos ser, apenas. Mas a sociedade nos distorce e depois precisamos de artifícios para relembrar quem éramos. 

Ignorando os charlatanismos, o moralismo, os supostos efeitos nocivos que alguns elementos possam causar, os modismos e tudo o que possa parecer negativo, é bom que existam estratégias para que nossas armaduras de robôs não se explodam e para que sejamos capazes de tolerar o teatro que criamos para nós mesmos.


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Cortando os laços do passado


Nossas vidas seguem trajetórias e dentro delas vamos construindo parâmetros de comportamentos e de personas com as quais interagimos diariamente, por isso a família é tão importante. Quem nunca, inconscientemente, trocou os nomes das pessoas com as quais conviviam em uma segunda situação familiar, referenciando-se a alguém como se fosse outra persona de sua família original, atribuindo-lhe o lugar inconsciente de mãe, pai ou irmãos? A infância é a fase crucial quando o nosso mundo é criado, formado e transformado, é quando definimos o que é certo e errado e quem faz o quê.

Mas formação de parâmetros não termina com a infância, embora essa seja determinante;  a não ser para os que aceitam que a infância seja a realidade absoluta para os parâmetros e que vivem em uma vida de círculos que nunca se fecham.

Ciclos precisam terminar.  A não ser que desejemos permanecer ad eternum em situações que podem nos fazer mal e limitar todas as nossas expectativas e experiências.

Nossas bases sempre estarão conosco, e todas as nossas experiencias nos servem para formar nosso caráter e definir nossos parâmetros, mas há coisas que precisam terminar, e em muitos casos, relações precisam ser definitivamente cortadas para que uma verdadeira e nova experiência possa tomar lugar, sem que seja eternamente contaminada pela referenciação, ou presença real do passado, especialmente quando se trata de relacionamentos amorosos.

Quando entramos em uma relação amorosa, nossas vidas se transformam e todos os nossos planos se unem aos planos de outra pessoa; criamos uma nova rotina, conhecemos novas pessoas, vivemos uma nova vida. Não cabe nessa nova vida alguém que possa trazer do passado resquícios de algo que não cabe mais na nova realidade. O passado não pode ser apagado, nem tampouco as experiencias deixarem de ter suas consequências, mas é necessário que cada questão ocupe o seu verdadeiro lugar. Para se viver uma nova e real experiencia, é preciso estar livre e não carregar os fardos de um relacionamento passado, como se esse nunca tivesse se findado. 

Mesmo em relação a amigos e familiares, muitas vezes, esses não nos fazem mais bem e podem impedir que levemos uma vida tranquila e sempre renovada. precisamos Distinguir o que é bom e o que é ruim para levarmos uma vida plena e tranquila. É preciso ter coragem, somo os únicos responsáveis pelo tempo em que passamos na Terra.

É preciso fechar ciclos. Se ciclos não são fechados, a vida paira num eterno nimbo de situações as quais não desejamos. É preciso ter coragem para fazer escolhas conscientes numa vida que é tão breve; é preciso saber que parâmetros podem ser reconstruídos, e que novos ciclos podem acontecer.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O que você dirá quando perguntarem sobre a sua infância?



Quando perguntam-me sobre a minha infância, digo:

Levantávamos cedo e íamos para a escola caminhando. Nós, as mães e os colegas da rua, íamos conversando e planejando as próximas brincadeiras. A escola era rígida, não podíamos entrar sem as camisinhas de botão brancas e as sainhas ou calças de tergal azuis. Muitos de nós, na pobreza mais pobre daquela época, levávamos nossos materiais em sacolas de feiras ou sacos de plástico de arroz. A minha merendeira também era de plástico e levava café com leite e pão com manteiga; tinha estojo de madeira que amava e meus lápis duravam a vida toda.

Uma vez vivemos uma epidemia de piolhos.Todos tinham muitos, muitos piolhos, em alguns, víamos os piolhos nadando até às sobrancelhas e os cabelos pareciam estar cheios de farinha. As mães passavam óleo de soja com fubá, arruda e até Detefon, veneno de matar insetos peçonhentos. sobrevivemos.


Eu e minha amiga inventávamos muita moda. Brincávamos de fazer comida, a cozinhadinha, de fazer peça de teatro, de fazer festinha. Brincávamos com os brinquedos, com os jogos da memória, com os resta-um. Aprendi a tocar flauta sozinha olhando as instruções, mas aprendi com as mãos trocadas. Brincávamos com os meninos de futebol, de birosca, discutíamos, pegávamos cigarras e as prendíamos nos vidros, fazíamos pulseirinhas com linha e coisinhas que caíam das árvores, das quais não sei o nome até hoje. Brincávamos também de roda, corda, elástico, arco, carro feito de cabo de vassoura, tampa de cera e rodinhas de carrinhos. Brigávamos um monte, ao ponto de meu irmão causar um ferimento na sobrancelha de um colega e precisar de pontos.

Mais tarde, me dediquei a limitada biblioteca do meu pai, onde havia um compendio de literatura e umas enciclopédias sexuais bastante ultrapassadas. deitávamos nas calçadas durante as quentes noites de verão e ficávamos a ver as estrelas e a pensar na nossa infimidade, fazendo pedidos às estrelas cadentes. Comprávamos fichas telefônicas e ligávamos para as rádios para pedir música do RPM em programa de música sertaneja. Dançávamos ao som de Menudos, fazíamos aula de Jazz, as mais mais velhas faziam permanente, descoloriam os pelos e inventavam cremes mirabolantes de cenoura, beterraba e óleo para se bronzearem. Eu chorei por que não podia ter um bebezinho careca. A bisnaga de pão era deliciosa com a manteiga derretendo, não era pão cheio de fubá como hoje. Aliás, aprendi na vida que as coisas ruins sempre tem fubá, maisena e TNT.



Pegávamos peixinhos na lagoa e levávamos para a casa, brincávamos com o cachorrinho, rodávamos bambolê. Aprendi a andar de bicicleta, mas só sabia virar para o lado esquerdo. Dançávamos lambada com a vassoura. Comíamos gelatina rosê, apostávamos corrida, criávamos cenários, tínhamos uma caverninha secreta e andávamos de carrinho de rolimã. Corríamos a léguas quando víamos os paquerinhas vindo lá embaixo na rua e ouvíamos histórias de assombração. Ensaiávamos quadrilha e fazíamos a festa junina, líamos quadrinhos; fazíamos cobrinhas de meia para assustar os transeuntes (que palavra old!) e brincávamos de queimada. E olha que nós tínhamos uma vida bem monótona, sem familiares na cidade, não saíamos da rua Carmem Miranda.


Quando no futuro perguntarem a esses nossos filhos como foi a infância deles, eles dirão:

Ficava deitado mexendo no celular, jogando vídeo game ou mexendo no computador, enquanto meus pais ficavam livres pra fazer a mesma coisa. O meu corpo é atrofiado assim por que nunca movimentei muito, e essa corcunda já é desde aquela época.  Eu ganhava muitos likes das pessoas nas coisas que postava, pode olhar lá no histórico. Aprendi muita coisa sobre o mundo no Google. Meus ídolos eram os irmãos Neto e o Whindersson. Rebuliiiço! Livros? Odeio. Pra quê perder tempo se está tudo na internet? Amigos? tenho uns 5000 no Facebook. Planos? Sei lá, só tenho 37 anos. Por enquanto está bom assim.

Apocalipse zumbi.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Sou mãe de "Vidas Secas"


Eu não sou mãe de Margarina, sou de Vidas Secas, por que minha vida sofreu de secura adocicada, de proteção com agruras e assim me tornei, agridoce.  Desde cedo aprendi a controlar o meu choro para não deixar que se derramassem todas as minhas fraquezas diante dos inimigos e dos amigos, e sofri  afogamento. Afoguei-me tantas vezes, que o meu peito parecia explodir, estufado com tantas amarguras, tristezas e alegrias contidas, espremiam o coração. A rudeza da minha verdade pareceu mais seca que o agreste, mas edificava obras reais nos corações, não castelos de areia ou paraísos utópicos. Assim sou mãe.

Sou a mãe que se preocupa se a comida vai dar, se a luz irá se acender, se o caderno acabou. Sou mãe que não promete, diz que vai pensar, mas se der, é sim. Sou mãe que quer que os filhos voem, com suas próprias asas, e que aprendam a economizar os seus lápis, porque custam dinheiro e recursos, e que na vida real, se não cuidarmos de nossas coisas, não virá alguém para nos repor a todo momento. Sou mãe que diz a verdade, mesmo que seja tabu, por que contra fatos, não há argumentos. Sou mãe que pratica a maldade de exigir que o filho enfrente as consequências de seus atos, que limpe sua sujeira e que aprenda que ninguém é seu escravo. Não sou mãe de "I love you, Barney", eu sou mãe de, vá em frente e enfrente!

Faltam-me beijinhos nas bochechas, talvez abraços, e "eu te amo". Falta-me abrir o meu peito e deixar sair tudo o que está enterrado desde a infância, e que me sufoca, mas rasgar o peito de uma vez não é nada fácil. Falta-me um pouco mais de açúcar e pimenta. Não que não os tenha em estoque, mas por que habituei-me a outros sabores. Mas não faltam-me o compromisso, a presença, a orientação e o incentivo. Não falta-me o amor, mesmo que em linhas tortas.

Eu sou mãe. Não por vocação, talvez por acidente ou escolha. Sou mãe que, uma vez sendo, não foge da raia. Sou mãe que sabe que talvez ser não seja o suficiente e que talvez o trabalho realizado também não seja. Sei que posso não ser compreendida ou aceita, sei que talvez não seja a mãe ideal. Mas sou essa mãe. Uma mãe real do dia dia, das agruras, das doçuras, das dores e dos bonecos e deveres de escola. Sou mãe que só quer contribuir, mas que não aceita ser menos que mãe.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

saiam de seus guetos!


É difícil ficar calada quando o circo está pegando fogo, mas no caso do Brasil e do mundo atual, o circo parece que já está quase em cinzas.  Não, quando penso no ano que está por vir, sei que ainda há muito mais pela frente, e quando digo muito mais, é muito mais negatividade, infelizmente.

Vou tentar não ficar na teorização e partir logo para os fatos:

- Quando há na universidade eventos para discutir questões como dislexia, esses eventos ficam completamente esvaziados de estudantes, mas esses lotam eventos para discutir questões como as de gênero;

- Há poucos anos, estudantes saíram às ruas para protestar contra o aumento da passagem, e, no caso de Ouro Preto (mas não só), protestar também sobre uma infinidade de coisas, como o preço do bandejão, além de manifestarem-se com reinvindicações como mais "camofas" nas festas. Vi placas "Não é por 20 centavos", quando aqui na cidade o aumento seria de 30 centavos. Emocionou-me ver o povo junto, mas sabia que era modismo.

- Derrubaram uma presidente eleita democraticamente (até onde podemos considerar democracia as manipulações políticas), e estamos vivendo um dos períodos mais críticos da história, mas ninguém parece se importar com todo o retrocesso que está acontecendo;

- Dezenas de funcionários terceirizados foram demitidos em meu local de trabalho, a jornada de trabalho foi reduzida juntamente com o salário, mas o trabalho aumentou;

- O aumento salarial que teríamos no próximo ano parece ter sido cancelado, e houve aumento de tributação, o que significa queda de salário;

- O dinheiro destinado à educação sofreu enorme baixa, e, nesse último mês, o tal do Banco Mundial publicou que o Brasil deveria acabar com as universidades públicas;

- Regionalmente, a Samarco anunciou a demissão de 600 funcionários;

Uma filósofa americana foi agredida no aeroporto por ter vindo palestrar no Brasil, como se ainda estivéssemos na idade média;

- Intolerâncias racial, religiosa, ideológica crescem ferozmente a cada dia.

E tantos outros fatos que não tenho tempo, nem paciência para citar... O que significa tudo isso?

Significa, que a tal identidade líquida, ou a  identidade descentralizada, ou fragmentada, como disse Stuart Hall, está nos tornando, ao contrário do que pareceria, alienados e egocêntricos. São tantas as possibilidades de identificação, que a cada dia surgem novas categorias de humanos que reivindicam espaços. Ao mesmo tempo, podemos nos identificar com tantas delas, que acabamos por perder, talvez, essa mesma identidade.

O negócio é o seguinte, o que é melhor para mim, para o outro, e para a humanidade? Supostamente, a minimização de danos individuais, sociais e o bem estar geral. Como conseguir isso? Cada um tem suas convicções e teorias. Há como não tomar partido? Não?  Como resolver essa bagaça então? Tentando impor a concepção ideal de mundo aos outros, ou seja, o modelo de educação, economia, governo, a fim de alcançar o bem estar social? Talvez. De que forma? Violência? Novamente, talvez. Contra certezas, não há argumentos.

Porém, o bem estar social está embargado por uma infinidade de particularidades.  Como resolver as pequenas questões de uma infinidade de grupos a fim de proporcionar a igualdade?

Só tem um jeito: Deixar de ser alienado, saber o que é a realidade geral, não permitir que questões morais governem, ou seja, deixar de querer julgar e condenar comportamentos alheios que não interferem diretamente em nosso bem estar, ou causem dano direto a nossa vida, e compreender que, em sociedade, é preciso que haja igualdade de condições, do contrário, sempre existirá conflito, guerra, danos.

Resumindo objetivamente:

Quando assumimos uma determinada identidade e concentramo-nos em defendê-la acima de qualquer coisa, tornamo-nos intolerantes em relação aos outros e esquecemos de defender as necessidades sociais básicas para lutar por questões que são importantes, mas segregam e enfraquecem as lutas em favor da sociedade como um todo. Enquanto minorias lutarem contra as outras, ou excluindo algumas outras, a mudança será apenas em relação a quem assumirá o posto de capitão do mato, nunca haverá mudanças verdadeiras, profundas e duradouras;

mesmo que alguns digam que a desconstrução de tudo nos fez perder os parâmetros, pensar que não existem verdades absolutas, que escolhemos o que para nós parece melhor, e que, consequentemente, o outro tem o mesmo direito de escolha que nós, permite que nos tornemos mais tolerantes. Mas, devemos ter a consciência de que parâmetros são necessário para que não haja o caos, porém, esses, os parâmetros, não são absolutos.

Vamos parar de nos preocupar com o que o outro faz em sua particularidade, com como ele se veste, do que gosta, como fala e anda, com quem e como faz sexo, pois essas questões não dizem respeito à sociedade. O que diz respeito a sociedade, é que mais de 50% dos brasileiros ganha menos que um salário mínimo. O que diz respeito à sociedade é que apenas 7,9% dos brasileiros tem graduação, é que pessoas sofrem violência por pertencerem a esse ou aquele grupo. O que interessa é saber se as crianças estão sendo desamparadas, se lhes faltam comida, higiene, atenção e educação. Interessa saber  se um deficiente físico (pessoa com deficiência), um negro (ou preto, sei lá), uma mulher, um homossexual, uma mulher deficiente, negra e homossexual possuem os mesmos direitos, os direitos de serem quem quiser e de serem amparados pela sociedade de maneira igualitária. Saiam de seus guetos e defendam a humanidade ao invés de lutarem com o diferente.

A alienação está por toda a parte, não se enganem. Está nas favelas, mas está nas academias também. Em uma, por falta de teoria, em outra, por excesso. Numa falta o ideal, noutra, a realidade nua e crua. 

Enquanto cada um defender o particular e apenas enxergar o mundo de dentro de uma redoma, a decadência continuará a ser inevitável.