sexta-feira, 23 de março de 2018

Reflexão dos 40 e poucos.


Meus contornos já não são tão retilíneos e quando me vejo, me assusto com a pessoa que é retratada, não sou eu! Eu ainda me sinto com dezoito anos, embora exausta, sonolenta e insone, se possível, e com os fios que insistem em branquear. A barriga, há muito se desfigurou, assim pensava, hoje, não. A barriga é a barriga de um ser humano que já teve filhos, linda. Se é uma bola, como dizem algumas crianças sinceras, ou caída, isso quer dizer que ainda vivo e ela está lá. Em breve, muitos mais fios brancos aparecerão e terei que tomar a escolha de assumi-los ou passar por torturas periódicas (pois é assim que vejo o salão de beleza). Oh, meu Jesus, que mal eu fiz para ficar decadente?

Serei ainda amada e desejada, enquanto que esqueletos esbeltos e serelepes continuam a nascer e a se proliferar sobre a terra? Quantas madeixas volumosas, quantas peles de pêssego ainda virão enquanto murcho e definho. Os olhos já não vêem e a mente, capenga. A postura se desconfigura e a frescura se esvai.

Por quê? Oh, existência cruel!

Caminho, achando-me adolescente e contrariando-me com a imagem refletida. Não sou aquela. Não tenho aquilo. Não sou aquilo. Ou, talvez eu não esteja enxergando direito o que vejo! Talvez, aquela imagem seja a mais bela que eu já tive, a mais rica e decidida, a mais cuidada e nobre. Talvez eu esteja míope ou cega pelas palavras alheias, pelas ideias distorcidas. Talvez eu seja a mais bela que já fui, hoje, agora, com a minha mente eternamente desejosa, e o meu corpo plenamente desperto.

Oxalá, eu me torne um vinho, ou um queijo provolone, velha, mofada e gostosa. Piadinha sem graça, eu sei, mas tem gente que gosta.

segunda-feira, 19 de março de 2018

O pêndulo e a maçã


Como já disseram muitos, a sociedade vive sobre um pendulo que é movido pelas necessidades humanas e sociais  que vão, lentamente, modificando as relações, em tese. Na história, podemos comprovar como a moral humana vai sendo transformada e sendo conduzida por esse pendulo, até que esse chegue ao seu extremo e retroceda. Estávamos vindo de uma onda progressista, quando as minorias estavam tomando novas posições e recebendo mais direitos, até que essa onda se radicalizou, quebrou a hegemonia do discurso dominante,  e esses donos do discurso se rebelaram. Hoje, podemos ouvir claramente, não apenas no Brasil,  os berros dos descontentes reivindicando o direito de ter uma sociedade conservadora, como havia sido até então; e o pêndulo está avançando, de novo, para outra direção, lentamente.

Por esse pêndulo, e pela "dialetice" da história, como diz meu marido, podemos perceber que até hoje a sociedade não se acertou em relação às suas regras de existência, ou seja, ainda não sabemos qual é a melhor maneira de vivermos dentro dela. Desnecessário falar sobre as infinitas infinidades de peculiaridades individuais e coletivas de cada nicho cultural, ou sobre a suposta evolução humana, seja lá o que isso queira dizer, já que a sociedade só não é a mesma da época das cavernas por que existem a linguagem e a transferência dos costumes e do conhecimento através das gerações, ou seja, já nascemos no mundo como ele é, se somos mais "evoluídos" que os egípcios eram por causa da longitude temporal em que estamos, já é outra questão.

A minha filosofia é a seguinte: viva e deixe viver! Ou seja, cada um que cuide de si e de sua intimidade e deixe que o outro cuide da dele. Respeitemos o que é sagrado para o outro, lutemos para que haja paz e que todos possam ter as mesmas oportunidades, por que isso traz paz e bonança para a sociedade, e nos juntemos aos que nos agradam e queiram ter a mesma intimidade que nós. Toleremos as diferenças e aceitemos que o outro possa ter as certezas dele, mesmo que sejam diferentes das nossas (isso é o mais difícil, por que certezas, obviamente, são excludentes). Por toda complexidade e dificuldade de se agir dessa forma, creio que a humanidade ainda está a léguas da "evolução".  

E eu? estou aqui, nessa ambiguidade desse pêndulo, que hora está lá e hora cá. No fundo, só quero continuar vivendo "um amor tranquilo, com sabor de fruta nova", sem mentiras, sem sacanagens, um lar aconchegante e prazeres diários, sem que ninguém venha atormentar a minha paz escolhida.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Coisas sem sentido


Há muitas coisas que não entendo nesse mundo, como:

- Todo dia acontece um eclipse, uma super lua, uma lua azul, uma lua vermelha, que são os últimos em 80 anos;

- Há dez anos, pais colocavam limites de tempo para que os filhos usassem a internet, além de bloquear sites impróprios, hoje, os filhos ficam 24 horas conectados, vendo todos os sites existentes do universo;

- Não posso dizer em trabalhos acadêmicos que "eu" fiz isso, "eu" penso aquilo, sempre devo usar um nós ou um índice de indeterminação do sujeito, mesmo que esteja óbvio em todos os estudos da área de humanas que o trabalho é resultado de um olhar individualizado de um enunciador;

- A maioria dos mamíferos não menstruam, só a mulher;

- Não existe um cadastro único do cidadão, por esse motivo temos que provar a todo tempo quem somos, o que temos, onde trabalhamos, etc.

- A educação básica é a mais importante para a sociedade, mas é a mais desvalorizada;

- Poucas pessoas ganham bilhões de "dinheiros", dos quais não precisam, enquanto a maioria da população vive miseravelmente (precisar pode ser relativo, troquemos por necessita);

- Esquerda e direita no Brasil;

- Racismo no Brasil (ignorância de origem, no mínimo);

- Sofrer por jogo de futebol;

- Certeza de que a bíblia é a verdade (como se não existissem outros livros, até mais antigos, e tão sagrados quanto);

- Escolher o bombom de banana para que os outros peguem o Serenata de Amor, sempre;

- Gostar de queijo mofado;

- Gostar da cena de uma hora de psicodelismo de Uma odisseia no espaço;

- Gostar de Bossa Nova;

- Gostar de ouvir funk (dançar é outra coisa);

- Intervenção teatral sempre com nudez (mais pobre e menos criativa forma de protesto atualmente);

- Homossexual querendo se casar na igreja (por quê??? Se a igreja é contra tudo o que ele representa?);

- Osso de galinha na coxinha;

- Fingimento;

- Azeitona na empada;

- Ovo colorido com kisuco;

- Açúcar na fruta;

-Ovo de páscoa mais caro que dez barras de chocolate;

- Holi no Brasil;

- Papai Noel no verão, ou qualquer outra época;

- Mãe do ouro;

- Certezas de que isso ou aquilo é o melhor do mundo, classificado por "especialistas";

- Eu e minha chatice infinita.

E você?




segunda-feira, 12 de março de 2018

sexta-feira, 9 de março de 2018

Agradecimentos na dissertação de mestrado


Em primeiro lugar, gostaria de quebrar o protocolo e agradecer a mim mesma; agradecer por ter insistido em estudar, mesmo que meus familiares não considerassem que isso fosse importante. Felizmente, voltei à escola depois de tê-la abandonado na quinta série por não ter dinheiro para pagar o livro didático de português que os professores indicaram. Casada e com um filho pequeno, deixava-o na escola e saía para terminar o ensino médio; foi lá que comecei a sonhar com o curso superior. Fiz vestibular e passei, na época em que era quase impossível que um "nativo" de Ouro Preto entrasse na universidade da própria cidade. Vivi dificuldades pessoais, me separei, e por falta de renovação de matrícula, fui desligada do curso de Letras no último período, recurso negado. Fiz novo vestibular e passei novamente, recomecei. Trabalho, dois filhos, depressão, segui, demorei, me formei. Fui selecionada pelo mestrado e aqui estou, feliz por não ter desistido quando cansada o filho dizia que eu estava fazendo tudo isso por que queria. Feliz por não ter me importado quando alguém dizia que estudar muito fazia endoidar. Feliz por ter seguido. Então, já que é permitido agradecer a Deus, não vejo problema em agradecer a mim mesma, já que, em minha concepção, ainda em formação sobre a divindade, eu e todo o resto fazemos parte de algo incognoscível que poderíamos chamar de Deus, e como disse Gregório de Matos:

O todo sem a parte não é todo; 
A parte sem o todo não é parte; 
Mas se a parte o faz todo sendo parte, 
Não se diga que é parte, sendo todo.

Então, agradeço a mim que, como todas as Meninas da FEBEM, de quem falo em meu trabalho, não desistimos em nossa feminina luta, que existe indiferente da concepção e da consciência de feminismo. Não sou mais que elas, nem menos, mas todas nós merecemos respeito e felicitações por não termos desistido em um mundo que ainda não é um bom anfitrião para as mulheres.

As outras felicitações virão em minha dissertação real, se Deus, o incognoscível, assim permitirmos. Amém.

quinta-feira, 1 de março de 2018

Xulispa!


Eu e meus colegas criamos um novo verbo, "hipocrisar". Eu não hipocriso com ninguém e nem hipocrisarei. Eu não gosto de todo mundo e nem gostarei. Ninguém gosta de tudo, por que eu gostaria? Eu gosto de viver em paz, cada macaco no seu quadrado. Não gostar de alguém não significa odiar alguém, lamento. Não gostar é não ter coisas em comum, não concordar com métodos, atitudes, caráter e modos. Não gostar de alguém é reconhecer também que a presença do outro me fez, faz, ou poderá fazer mal, e não sou obrigada. Eu não desejo aos não gostados a morte ou o sofrimento. O que desejo para, e deles, é que fiquem muito bem distantes de mim, apenas isso. Vão contaminar outras esferas dos seus iguais, não a mim. Deixem que eu seja contaminada pelos iguais a mim, seja lá o que formos.

Eu não sou obrigada, e espero nunca ser. Tenho idade para escolher do que gostar ou de quem gostar, e querer ficar a léguas do que me incomoda. Xulispa.



Gandhi, madre Tereza, Jesus, são pontos no infinito. E, há controvérsias! Não entrarei no mérito de seus méritos, só sei que não tenho vocação para ser aquele que escolhe o bombom de banana para agradar aos demais. Se eu tivesse a certeza da reencarnação, ou da vida eterna, mesmo assim não seria besta de viver qualquer minuto de existência, mesmo post mortem, sob condições intoxicantes apenas por querer ser "legal" e por que a religião diz que devemos amar a todos. Amar a todos é o "caguete"!

Hipocriso, não.