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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

A casa dos meus tios


Os meus tios moram no centro de Ouro Preto; lembro-me bem dos primeiros dias que passei naquela casa, quando vinha a passeio de Ipatinga, dos momentos em que minha tia nos dava papeis e tintas e ficávamos no chão a criar desenhos que eram sempre lindos para ela. A casa antiga tinha um segundo andar com pisos de tábuas velhas, e podíamos ver pelos buracos o andar de baixo, morria de medo de vazar para lá. Lembro-me dos biscoitinhos quebra-queixo, derretiam na boa, nunca mais comi biscoitinho tão gostoso! Era sempre aconchegante, gostoso, e mágico, a cidade me encantava. 

Com onze anos eu me mudei definitivamente para Ouro Preto e as lembranças são das visitas frequentes de todos os familiares na casa dos meus tios. Já que eles moravam no centro, ou na Rua, como gostamos de dizer, sempre que alguém ia resolver uma pendencia, fazer compras ou passear, inevitavelmente passava na casa dos meus tios, sem aviso prévio. Eu não sei bem se eram as vacas magras, mas todo o mundo adorava ir até lá tomar um café da tarde ou filar uma bóia. Eram papos que não se acabavam, bença tia e tio, relação de verdade. Eu não sei se gostavam ou não, mas éramos todos muito bem recebidos. 

Outra vantagem para os parentes é que a casa deles fica em um ponto estratégico, onde muitas coisas acontecem, então, na Semana Santa, por exemplo, a parentaia se empoleira até hoje, um pouco menos,  nas sacadas e janelas para assistirem aos festejos. Enquanto aos meus tios, não sei se algum dia puderam assistir aos acontecimentos de suas próprias casas, mas sempre estão com um sorriso e um café.

Mas, ao que tudo indica, ninguém mais, ou poucos, passam lá para filar rango ou puxar uma prosa. As janelas, que antes ficavam cheias de meninos debruçados e brincando com turistas que lhes tiravam fotos, estão quase sempre vazias. Não sei se ainda há o pãozinho quentinho com manteiga, os bolos, o biscoitinho, o café com leite, mas o carinho, ainda está lá. O que aconteceu com a parentaia? Envelheceu, se desuniu, encheu a pança e perdeu a vontade de assistir à rua e passar boas horas de boa conversa? 

O que aconteceu é que não é mais necessário ir até a casa das pessoas, ao acordar, mandamos figurinhas de bom dia para todos no Whatsapp, feliz aniversário do dia, fotos de bebês, de convalescentes e pronto, nos atualizamos. Acabou a prosa, as risadas, o tempo de exclusividade, comilança simples e gostosa, as memórias, as bênçãos, os abraços. Acabou tudo. Ficamos com as telas e sem lembranças.

Ouça esse texto.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Brasil do futuro


Zezinho nasceu na favela do Taquara. O pai vivia bêbado pelas calçadas das ruas, dizendo gracejos para as meninas e para os postes, pois não existia diferenciação naquela situação. A mãe segurava a família de cinco filhos, trabalhando em casa de médicos  e cuidando de seus três filhos. Na casa dela, os maiores cuidavam dos menores. Zezinho tinha que ir para a escola de manhã e ajudar a tomar conta dos irmãos à tarde, quando não tinha que fazer algum serviço para ganhar uns trocadinhos ou ir pegar o pai na sarjeta. Era a vida, não nascera granfino. Na escola, as coisas da matemática não entravam na cabeça, a fome gritava demais nos ouvidos, assim como os gritos do pai descendo as escadas na madrugada passada que anunciavam mais uma noite de desespero. Era chamado de negrinho do pastoreiro e excluído dos grupos, odiava aquela escola mais que a própria vida, não vingou nela. Cresceu e foi trabalhar como entregador de compras, carregava caixas pesadas o dia todo para ganhar um salário mínimo. Um dia, sem mais nem menos, o patrão o demitiu para cortar gastos. Ele não recebeu nada. Ele não podia ir até o ministério da justiça, porque já não existia. Desse jeito, de acordo com a reforma da previdência, nunca teria tempo suficiente para se aposentar. Ele ficou imaginando que o patrão não gostara do pedido de aumento, ele queria comprar enxoval para o filho. De acordo com as novas leis, os acordos deveriam ser feitos entre empregador e funcionário, não através de sindicatos. Zezinho saiu e lá estavam na fila desesperados aceitando ganhar menos que ele, e se ele fosse recorrer, sem advogados, e perdesse da empresa milionária, ele teria que arcar com todos os custos, e ainda corria o risco de ser marcado como "aquele que recorria" e não conseguir mais emprego. Ficou quieto. Disseram que o mercado seria capaz de trazer justiça por ele mesmo, mas o mercado visa lucro, não visa justiça. Zezinho caiu na bebedeira, e caiu cantando o tchan. Pensaram que ele fosse gay e meteram-lhe um tiro na cara no meio da rua depois de uma briga; era normal qualquer homem de bem, gay ou não, ter arma para defender a sua família das ameaças comunistas e homossexuais negras. Morreu atrapalhando o tráfego. Seu filho, estará no círculo, mas não terá direito a escola, vai ter que estudar através de um computador. Aham. É o fim.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Perdedor


Eu não ganhei na Mega sena,
Nem vou cantar com Paul McCartney,
Meu artigo não estava nas normas,
Os meus poemas não venceram o concurso.

O programa de pontos nunca existiu,
A Black Friday também não,
As passagens aéreas dobraram no fim,
Não ganhei na promoção do Epa.

Fizeram dancinha pro tal eleito,
Perderam todos os direitos,
E continuam dançando
Quando deviam estar chorando.

Falo grego com brasileiros,
As antas estão no poder;
Com anta não se dialoga,
Com anta, é só se foder.

Com que ânimo devo levantar-me e pegar no trabalho
Que parece ridículo diante de um universo desmoronante,
De uma geração perdida?

Enquanto isso, os zumbis comem, bebem, e dormem
Rindo-se sozinhos como dementes, juntos a uma multidão
Que não sabe sair para comprar pão.

Humanidade patética, escrava, e pestilenta,
Que aos poucos se condena à extinção
Virulenta,
Podre, decrépita, fétida, com telefone na mão.





quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Mais daquela


Aquela que depois dos 40 ainda sopra e sacode todos os dentes de leão,
Mas que esconde as lágrimas, todas elas, de dores e de prazeres.
Aquela que vê com olhar diferente, todos os dias, sem distinção,
As mesmas paisagens, que despertam diferentes quereres.

Aquela que ama intensa e insanamente
E que sofre doída como um cão.
Aquela que às vezes parece dormente
Quando já não aguenta o coração.

Aquela que escreve poemas,
Mas de lê-los, gosta não.
Mente cheia de problemas,
Todos sempre vãos.

A que não aceita
Se insatisfeita,
A que é
Mulher.


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