segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Ouro Preto às moscas

Morro da forca, quase "enforcado" pelo descaso
É difícil ser morador de uma cidade como Ouro Preto, por que trata-se de uma cidade atípica. Exemplificando, sempre que me encontro com pessoas de outras cidades e digo que sou de Ouro Preto, os comentários são: "Nossa, Ouro Preto, loucura lá hein! Sexo, drogas e rock'n roll, uhuuu!" Isso é muito irritante e demonstra uma das peculiaridades que fazem parte da cidade.

Primeiramente, Ouro Preto são muitas. Ouropretano é aquele que mora nas periferias, que vai trabalhar no comércio, na universidade, na prefeitura e nas mineradoras, sofrendo com os altos preços para turistas, desde alimentação até o mais sério, a moradia.

Além de "nativos", como se denominam, há os estudantes: eterna pendenga, nativos e estudantes. As republicas são inúmeras, grande parte pertencente à UFOP e gerida pelos próprios estudantes, que também cuidam do processo de seleção, cujos critérios, só cada uma das repúblicas sabe. Estão alojadas nos melhores casarões da cidade. Os motivos para as animosidades entre moradores e estudantes são inúmeros e de senso comum; moradores estão sempre reclamando da "folgança" dos estudantes "forasteiros", que  "moram nas melhores casas, sabem apenas vir para a cidade encher a cara, não se importam com as tradições, não respeitam os costumes", e por aí vai. As reclamações tomam corpo no carnaval, quando em alguns locais falta água por causa do excesso de gente, a maioria alojada em repúblicas, que fazem pacotes carnavalescos para seus blocos. A questão das republicas estudantis é um caso antigo, onde a UFOP não está a fim de colocar a mão, pois, afinal de contas, e apesar de questionamentos sobre a forma de seleção dos moradores, que não inclui nenhuma participação da UFOP e nenhum quesito sócio-econômico, os casarões estão sempre bem preservados pelos próprios estudantes, sem falar no peso da tradição estudantil.

Sobre o turista: quem vem de vez em quando, seja para festas pagãs ou religiosas, podemos dizer que, além dessas próprias festas e do casario, que por si só, já valeria a pena, não encontra nada mais. A cidade é turística, mas é totalmente morta durante as noites e fins de semanas. Passear pelo centro nesses períodos é como caminhar no antigo velho oeste. Não há vida no centro.

Depredação no Morro da Forca


Em relação aos moradores, apesar da situação estar mudando, ficam totalmente largados à sua própria sorte. Até existem poucas políticas municipais ou mesmo elaboradas pela universidade de inclusão e assistência a esses moradores, mas são pequenas brisas no deserto. Há poucas alternativas de lazer em Ouro Preto;  agora cheguei ao ponto.

Os parques da cidade, locais onde supostamente as famílias poderiam ir nos fins de semanas, além dos turistas, que teriam opções diversificadas e motivos para permanecerem por mais tempo  na cidade, estão sucateados e mortos! Pontuando:

Morro da Forca

Havia uma gangorra ali...


Lembro-me que na minha infância era um local agradável e vivia sempre cheio de crianças, pois era bem cuidado, seguro, e possuía brinquedos. Como eram lindos os festivais de papagaios que aconteciam lá! Várias pessoas, inclusive meu pai, faziam pipas maravilhosas e coloriam o céu da cidade, todos podiam ver o grande numero de pipas de vários formatos. Hoje, o local virou sinônimo de decadência, poucas pessoas se atrevem a ir até lá por medo de delinquentes que possam estar escondidos.

Parque do Itacolomi

em agosto fomos até lá no fim de semana para fazer piquenique, mas não estava funcionando! Depois voltamos, e o que vimos no Museu do Chá, deu tristeza! O museu estava morto, decadente, as luzes apagadas, jogado às traças. A história do chá é importantíssima para a cidade, o parque deveria ser um dos pontos turísticos mais divulgados e visitados da nossa região.

O Horto Botânico

Na minha infância e na minha ignorância, nem imaginava que aquele lugar existia. Foi reaberto, mas não durou muito. Deve estar fechado Há uns três anos ou mais, e não sei o motivo. Um lugar lindo e repleto de história está enterrado, é menos uma atração para o povo, que já começava a se apropriar do espaço, realizando diversas intervenções; perdem moradores e perdem turistas. Por que está fechado?

Outros parquinhos

No centro de convenções, e em outros lugares da cidade, está tudo sucateado. O que existia, foi retirado ou está em ruínas. O que os meninos fazem, é escorregar no papelão no que resta de grama. O que o morador e o não morador tem para fazer nessa cidade?

Lixo no Morro da Forca

Ouro Preto são muitas, mas Ouro Preto não é só festa, drogas e rock, como pensam muitos que só passaram pelas festas. Ouro Preto tem gente e tem tradições seculares, tem nativo, tem estudante, tem turista, tem empresário que veio viver aqui, mas não podemos nos esquecer de que é uma cidade de gente. Ouro preto não é só um monumentos, um patrimônio material, não é só um conjunto arquitetônico. Temos famílias, crianças, gente que está se qualificando, gente que vem conhecer, precisamos harmonizar e agregar os interesses. A cidade é feita de pessoas, suas diferenças e necessidades, e nesse ponto, com toda a sua historia, desde os Jacubas e os Mocotós, Ouro Preto é única, com todas as suas peculiaridades.

O que era pouco, se acabou...

Espero que quem tem o poder de realização, realize obras que edifique o povo, a estrutura econômica e social, e não somente  visem preservar o conjunto arquitetônico que não é nada por ele só.

Acorda, Ouro Preto!


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Mundo de gente falsa


Existem pessoas que são a falsidade em carne, ossos e apliques.   As sobrancelhas são pintadas com hena e transformam-se em duas coisas pretas, muitas vezes totalmente destoante do resto do rosto, algumas vezes dão à expressão um ar carregado e carrancudo; para empoderar-se, os cabelos são tingidos de louro, também para disfarçar os brancos. Aos naturais tingidos são ainda adicionadas algumas camadas de cabelo comprado, o que se percebe ao se conviver mais intimamente com a pessoa, quando são acariciadas placas ao invés de couro cabeludo. Seios normais são desvalorizados, o belo são duas bolas enormes e descoladas dentro da pele. Algumas ainda passam por cirurgias para retirada das costelas, outras, cortam e esticam a barriga, aspiram as gorduras, colocam mais bolas nas náfegas e nas coxas, e muitas tomam substancias para que o corpo se transforme naquilo que se diz ser harmonioso, o que o corpo não é naturalmente. Os lábios são preenchidos  tornam-se proeminentes, e às vezes, até mesmo as bochechas fofinhas são retiradas! Artifícios de beleza, como sempre. 

A beleza é cada vez mais necessária e exposta para a apreciação universal dos dedos para cima. Temos que ser belos, legais e falsos. Temos que dizer o que parece ser legal, vestir o que é descolado, ir para onde está em alta, e todos os dias, para que invejem nossas fotos de viagem. Temos que parecer insanamente felizes e ativos, recebendo rajadas de ódio e inveja disfarçados de elogios amáveis e extremados; assim vamos estabelecendo o que é real e relevante em nossa existência.

debaixo da loiridão e do Botox a falsidade ainda é maior do que a que se é perceptível. O ativismo, a preocupação, a prontidão, a piedade, a inteligencia, a ira, e principalmente a felicidade são representações das representações representadas. Tudo falso. A falsidade é tão gritante e universalmente endêmica que me contamino e em seguida vomito. Enojo-me com as dissimulações e enojo-me por estar presa nesse pandemônio. Morri e fui para o inferno.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Prece moderna


Oh, Deus!

Livrai-me dessa ansiedade constante e dessa necessidade de estar de posse de um objeto,
Objeto que tornou-se meu corpo, meu ser, minha alma, meu capataz, meu vampiro,
E que não me deixa dormir!
Livrai-me dessa dependência feroz que não me permite descansar relaxada comigo mesma,
Que não me deixa livre para os outros,
Nem olhar para as faces enquanto garimpam por minha atenção,
Até desistirem e partirem para o mesmo caminho que eu...

Senhor!

Que eu celebre os momentos e não os encene a todo momento, com a intenção de conseguir mais ópio, mais aprovação, mais palavras ridiculamente falsas,
Não me deixe escravizar!
Que eu entenda que minhas palavras não atingem mais ninguém
E que só servem para tumultuar, passam batidas como a enxurrada de palavrórios que Estão no mesmo lugar!

Oh, pai!

Faça-me livre, mesmo que tenha que ficar na solidão do presente, mas que eu tenha Lembranças reais, e não um amontoado de escritos e imagens em alguma rede.
Livrai-me da tentação do vício, da impossibilidade de ter as mãos livres para o mundo por Estarem sempre ocupadas pelo ópio.

Que eu seja lúcida, real e completa,
Até a morte,
Ou até que não seja mais possível.

Amém.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

O mundo só vai mudar quando cada um lavar o seu próprio banheiro


As coisas só vão mudar quando cada um lavar o seu próprio banheiro; isso quer dizer que enquanto houver alguém que pense que outro precise limpar o local onde ele faz suas necessidades naturais, considerando tal trabalho algo indigno de sua santidade, o papo de igualdade não vai deixar de ser papo. Ave, as revoluções e seu legado, mas a revolução verdadeira é mais embaixo.

Igualdade, fraternidade e liberdade, palavras que serviram bem para redesenhar o mundo e acabar com privilégios eternos e divinos, mas financiando a igualdade, havia interesses dos burgueses capitalistas. Mudou? Claro. Mas a igualdade, cadê?

Podemos dizer que nos países europeus há outras politicas e culturas que promovem a melhor distribuição de renda, e que muitas pessoas lavam o seu próprio banheiro, obrigado, Jesus! Mas cultura é um troço complexo. Na Índia, por exemplo, as indianas não gostam que outra pessoa cozinhe seu alimento, não por pensar que todos devam cozinhar, mas por não confiarem nos empregados, que geralmente são de castas inferiores. A metáfora de lavar banheiro significa que as pessoas precisam se ver como iguais, e que não deveria haver níveis ou castas, ou seja, que ninguém deveria ter privilégios a ponto de pensar que limpar a própria merda é algo que apenas pessoas indignas, pobres, ignorantes e amaldiçoadas devem fazer. A questão é o lugar que cada um pensa pertencer na hierarquia da raça humana. É uma questão de hierarquia social que engloba diversos fatores. Assim como os velhos reis pensavam, políticos, burgueses, médicos, advogados, professores, comerciantes, grandes empresários e líderes religiosos, podem julgar pertencerem a uma casta superior dentro da raça humana e que possuem o direito de ter privilégios. Vão lavar seus banheiros, cambada!

A questão não é a de poder pagar por um serviço que eu não quero realizar, pois qualquer trabalho tem o mesmo valor no equilíbrio social, a questão é pensar que eu não posso lavar o banheiro por que simplesmente não posso, pois o trabalho não é digno de quem eu sou, a ponto de possuir a certeza de que outra pessoa deveria limpar toda a minha sujeira. A questão é essa, a certeza de que somos diferentes e de que alguém nasceu pra limpar as merdas que eu fizer.

Enquanto isso não mudar, não creio que haverá igualdade, se é que isso seja possível, apesar e além de todas as revoluções.