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sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Decisão de amar


Acordarmos e gostarmos de quem está ao lado, mesmo em dias de tempestades internas e caos na humanidade, e com ternura, desejar cuidar e acariciar as sobrancelhas desarrumadas; sentir o desejo de espremer a pessoa até sentir todos os seus contornos e amar todas as formas, considerando-as perfeitas, assim como a brancura dos cabelos, e qualquer coisa que se possa socialmente ser considerada imperfeição.

Irritar-me profundamente com opiniões e gestos que pareçam incoerentes e irracionais, mas esforçar-me em lembrar de todos os motivos que nos levaram a querer nos levar pela vida, assim como lembrar que eu também pareço irracional e incoerente muitas vezes e que, mesmo assim, queremos estar de mãos dadas. 

Darmos muitas risadas, especialmente à noite antes de dormirmos, nos abraçando, virando de lados muitas vezes, até finalmente nos declararmos e dormirmos grudados. E querer estar assim.

Esforçarmo-nos por falar calma e carinhosamente, mesmo quando um está fora de controle, e sabermos no fim que tudo fora bobagem e que não vale a pena ficarmos longe. Amar o calorzinho, o cheirinho, o gostinho, a luz do olhar, o sorriso e tudo.

Ficarmos horas discutindo sobre questões filosóficas, políticas, artísticas, essas coisas que todos consideram chatíssimas, aprender todos os dias e depois falar muitas bobagens bregas e caipiras. Cozinhar, limpar e cuidar, morrer de cansaço e pensar que vale a pena por que aqui estamos.

Cuidarmos todos os dias para não deixar que as humanices nos torne exigentes demais, intolerantes demais e egoístas demais, e saber que muitas vezes não é possível e que isso é normal. Perdoar e tentar ser melhor, e fazer melhor.

Planejarmos cultivar uvas, fazer vinho, fazer pastel, ser alfaiate, fazer rádio, programas, escrever mil artigos, viajar pelo mundo todo, sabendo que nem tudo será, mas que tudo pode ser. Lembrarmos das bizarrices da infância, saber das tristezas, dos sonhos, das alegrias.

Darmos as mãos todos os dias e levantar com ânimo para os dias, o dia todo, sem desistir do que queríamos no começo e para o sempre. Essa é a decisão de amar.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Mulheres são de marte


Eu não sei como é ser homem, mas não é nada fácil ser uma mulher; não sei se essa agrura sempre foi como é, não saberia dizer o que teria sido ser mulher em outras épocas e culturas, se a mulha-sapiens também vivenciava os mesmos sentimentos, como saber? Mas a verdade é que a mulher sempre meteu pavor nos homens, tanto pavor que atribuíram-na toda a culpa da danação humana, quando aquela filha de uma égua da Eva tentou e atentou contra Adão e a humanidade, fazendo-o comer uma fruta que Deus havia colocado lá propositadamente para testar o nível de submissão de sua criação, e desde então, o mundo sofre tudo o que sofre, como o homem (e nesse caso me refiro ao gênero mesmo), que teve que começar a trabalhar para comer e sustentar os outros. A mulher então passou a ser uma bruxa, literalmente, que deveria ser queimada nas fogueiras por causa de seus poderes malignos, ou por ter olhos tortos ou qualquer outra coisa que desagradasse o poder vigente. Ah, mulher, tratada como um ser inútil, incapaz de pensar, de trabalhar, de tomar decisões, de votar. As coisas sérias, como fazer guerras e orgias deveriam ser privilégios dos homens, e das mulheres mais sujas ainda, as com que eles realmente queriam estar, mas nunca poderiam estar. 

Concentremo-nos então apenas na atualidade. A menina nasce, bem disse Simone de Beauvoir, e começa a ser feita menina. Apresentam-na o mundo feminino, as atribuições femininas, o que ela deve ser e do que deve gostar. Na verdade, eu não tenho certeza sobre até que ponto gostamos do que nos é atribuído, ou do que escolhemos por essa ou aquela ração, até mesma a ração da atribuição. Se assim fosse, apenas atribuição, os meninos não seriam gays desde crianças, e são, porque já vi muitos. O ser não se torna gay, ele é, e não sei dizer se ter mais afinidades com coisas do mundo ditas pertencentes ao universo feminino tem a ver com o que ele é, biologicamente, ou com o que ele sente  fazer parte. E lá vou eu me perdendo nas reflexões de gênero e sexualidade, mas, enfim: temos um mundo criado para nós, e não é o de protagonistas.

Hoje ainda ouço homens dizendo que mulher não sabe de nada.  Jamais disse que homens e mulheres são absolutamente iguais, mas isso não diz sobre a capacidade intelectual, pois, como podemos perceber, há jumentos e jumentas nesse mundo.  Somos diferentes em vários outros aspectos. Primeiramente, temos essa coisa terrível que Deus criou que são as mudanças hormonais. Pra quê essa palhaçada?  Vejamos a galinha. Nós, seres humanos, vivendo nas cidades, nos esquecemos de que existe um universo ainda misterioso para nós, que é o dos animais. A galinha bota seus ovos, e do nada (obviamente devem existir mecanismos biológicos que orquestram) fica choca. A galinha fica insuportável! A galinha fica agressiva, muda de personalidade e necessita de ovos para chocar. O ser fica lá, parado, durante 21 dias, se não me engano, e o seu calor faz gerar filhotes! E os pássaros? Sabem que tem que construir seus ninhos, as abelhas sabem que tem que construir suas colmeias e fabricar o mel, os peixes sabem que tem que ir correnteza acima e as tartarugas sabem que tem que ir botar na praia. Simplesmente, sabem. As pessoas pensam. Pensam que sabem. Então, a mulher nasce e passa por esse temporal de hormônios todos os meses, se não ficar grávida. Se ficar grávida, é outra história. O corpo se transforma, estica, muda, e depois, de dentro, sai um ser humano. Tudo muda para sempre. A mulher não pode andar na rua sozinha á noite sem sentir medo. a mulher não pode cumprimentar os homens com um sorriso, porque já consideram um flerte. Quando a mulher está separada, ela não é convidada para festas, às vezes, nem as de família. Quando não tem um macho que tome conta dela e a faça ser séria, ela não é vista como confiável. Que a mulher se mate de trabalhar, normal. Se sair à noite, vagabunda.

Lembro-me que uma vez comentei que a mulher separada ainda era vista com maus olhos, e alguém disse: "Que é isso, as coisas não estão mais assim, mudaram". Hoje estamos assistindo ao vivo e a cores as "mudanças" orquestradas por Bolsonaro, Daciolo e seus seguidores. A sociedade está de parabéns. E mulher é mulher.

Muitos nos vêem como bibelôs, como guerreiras, como ameaças, como manipuladoras, feiticeiras e loucas. A maioria nos vêem como objetos. Ainda.

Nem eu sei o que sou. Só sei que esse mundo não parece ter sido feito pra mim. A mulher Alienígena.

domingo, 16 de setembro de 2018

As inutilidades do Facebook


Cada vez eu entendo menos o compartilhamento no site do Facebook, e cada vez eu sinto mais decadente tal plataforma, apesar de ainda ser a mais utilizada para tudo o que se imaginar; talvez seja a minha antipatia pelo site, pelo tempo que já perdi naquilo e pelos desgostos que aquilo me trouxe é que me façam vê-lo cada vez com mais irritação e incompreensão. Mas, pensemos analiticamente e nos atentemos para as seguintes questões:

😳Por que as pessoas sentem a necessidade de postar todos os dias, e diversas horas por dia, fotos delas mesmas, que dizem sobre como estão felizes, se divertindo, estão belas ou, estão deprimidas?

Porque, como ouvi ontem, "todos querem ser famosos", ou seja, todos querem ser reconhecidos como belos, capazes, felizes, bem sucedidos, ou desejam que alguém venha consolá-los, e a internet permitiu isso a todos através de uma mãozinha, um coraçãozinho e umas palavrinhas que querem dizer mais aos leitores do amigo que ao amigo. Já falei muito sobre isso em outras postagens.

😳Por que as pessoas compartilham notícias?

Por que pensam ser interessante e querem que seus amigos tenham acesso à mesma informação, ou por que querem estar ligados à opinião divulgada na notícia de alguma forma. Quando abrimos o site, somos bombardeados por várias versões da mesma postagem e de notícias que não estamos interessados, como sobre onde fica o fiofó da cobra. De vez em quando encontramos algumas pérolas, mas na maioria das vezes, perdemos horas de nossas vidas ao invés de pesquisarmos diretamente sobre o que gostaríamos de saber, ou visitássemos diversos sites de notícias que considerássemos confiáveis.

😳Por que as pessoas compartilham coisas sobre política?

Porque simplesmente querem disseminar os ideais que consideram importantes, para fazerem campanha, militarem. Porém, essa estratégia é extremamente inútil pelos seguintes fatos:

1- Normalmente, a maioria de nossos amigos comungam dos mesmos ideais que nós, sendo assim, essas pessoas só farão eco comentando, recompartilhando, elogiando, dando likes.

2- Os poucos amigos que não compartilham das mesmas ideias, não estão interessados em ver as  postagens de quem quer militar para o lado oposto,  da mesma forma que quem quer militar não quer ver as postagens do outro, ou seja, será bloqueado, excluído ou receberá comentários atrevidos que não levarão a lugar nenhum, a não ser ao desgaste mental e social.

3- De acordo com os tais algorítimos do próprio site, haverá um número limitado de contatos que verão a publicação, geralmente são os com quem mais interagimos. Clube da Luluzinha trocando as mesmas figurinhas de sempre.

😳Por que as pessoas ainda comentam em publicações?

Porque querem interagir com as pessoas, por que não querem deixar o amigo no vácuo, porque realmente acharam interessante e quiseram dizer algo que não acrescentará nada a coisa nenhuma, porque querem fazer algum tipo de brincadeira pública, e diversos motivos. Mas a verdade é que comentários são mais inúteis que uma bicicleta para um peixe, tanto os comentários de aprovação quanto os de ódio. Nunca acrescentam absolutamente nada, é como se fossem uma enorme lista de paráfrases do senso comum.

😳 Porque as pessoas divulgam suas vidas, rotinas e tudo o mais na internet?

Compartilhar coisas boas com amigos e familiares é uma delícia, mas publicizar a vida para o mundo tem a ver com a primeira pergunta. Só digo que as pessoas deveriam criar mais memórias no cérebro do que nas redes sociais. É só a minha opinião, obrigada, de nada.

O site tem suas utilidades, como encontrar pessoas mais facilmente e saber de eventos... Mas essas são coisas que fazemos quando precisamos, utilizando-o como uma ferramenta, e não oferecendo ao mundo tudo sobre nós como estamos fazendo. Aquilo não é vida real. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Uma empregada para chamar de sua


A minha mãe era empregada doméstica. A primeira vez que eu provei estrogonofe, foi quando ela trouxe as sobras da casa da patroa; de vez em quando, trazia também roupas de parentes dos patrões, lembro-me bem do cheiro dessas roupas, nunca era o mesmo que o das nossas. Algumas vezes também apareciam alguns produtos de beleza dos anos 60 ou bugigangas que recebíamos com alegria. Uma vez eu fui até a casa da patroa da minha mãe, uma senhora distinta, que morava sozinha e estava sempre elegante. Mesmo sozinha o tempo todo, a minha mãe colocava a mesa, tudo bonitinho, com as louças, talheres e toalhas de linho. A dona era uma pessoa ótima, uma vez me emprestou dinheiro para fazer o telhado de casa, que estava a ponto de desabar, nunca aceitou de volta. Mas algo não estava certo.

A minha mãe ficava sempre apreensiva na casa dos patrões, cochichava e agia como se aquelas pessoas fossem seres superiores, de outro mundo, seres que possuíam algum tipo de direito divino e que habitavam em um mundo cercado por uma linha intransponível, e que nós estávamos mortalmente do outro lado. Não era uma questão de hierarquia, somente, mas era uma questão de identidade, ou seja, a maneira de se ver e de se colocar no mundo.

Eu nunca seria uma boa empregada doméstica. O Brasil é o país que possui mais empregados domésticos no mundo, e isso diz muito. O hábito ou desejo de ter alguém para nos servir e fazer toda aquela chatice e sujeira que não queremos fazer, é parte da alma brasileira. Eu também gostaria de chegar em casa e não ter que limpar o chão ou cozinhar diariamente, lavar toneladas de louça suja, levar o lixo para fora, arrumar o meu próprio guarda-roupa; gostaria de ter  todo o meu tempo para ler, estudar, viajar, fazer trabalhos que me agradem e que me deem visibilidade, ou ter tempo para ficar dormindo a tarde toda. Gostaria de ficar assistindo as séries no Netiflix e fazendo tudo  o que é curso que aparecesse. Talvez seria bom também que outra pessoa, com outra cultura, outra educação, outros valores, educassem os meus filhos, os levasse para a escola e aguentasse as suas chatíssimas e infinitas birras. Só que não.

Há diferenças entre contratar alguém para prestar algum serviço esporádico de limpeza e ter uma empregada doméstica. A casa é o espaço privado e íntimo, onde a família vive, briga, planeja, cresce, se desenvolve, não é uma empresa. Ter uma pessoa estranha e desconhecida dentro da casa, da família, para servir, como se fosse um móvel, parece-me uma das coisas mais degradantes. Como eu poderia educar meus filhos dando-lhes uma vida onde uma pessoa existisse dentro de casa para arrumar suas camas, lavar seus pratos sujos e limpar a sujeira que derramassem no chão? Como um indivíduo pode ser completo e compreender as relações e os seus deveres como seres humanos, se aprendessem desde cedo que alguns nascem para servir, e que eles não são esses alguns? Como um indivíduo pode crescer sem lavar a sua própria cueca e limpar o que suja? Como um elemento tem a capacidade de sujar algo e jogar para que o outro limpe?

Muitos defendem a opção por manterem empregados domésticos, pois estariam oferecendo emprego aos que precisam, e argumentam que não há nada de errado em pagar para que alguém faça o trabalho chato e sujo que não querem fazer. Boas argumentações, mas se vivêssemos em uma sociedade mais evoluída, não precisariam existir pessoas que se sujeitassem a trabalhar, muitas vezes em condições humilhantes, fazendo o que os outros não querem fazer por eles mesmos, e depois, fossem para suas casas caindo aos pedaços para fazerem por elas mesmas os mesmos trabalhos "humilhantes".  Se vivêssemos em uma sociedade igualitária, todos poderiam sair para trabalhar em coisas interessantes e ter tempo para cuidar de suas próprias vidas e filhos. E, quando não quisesse fazer, pedisse comida em casa ou mandasse a roupa para a lavanderia.

Um dia, no programa de esporte, que, aliás é só sobre futebol, vi uma mãe já idosa indo visitar o filho nos treinos com o netinho. O engraçado era que o bebê estava o tempo todo com a babá, mas nada foi mencionado sobre ela, era como se ela fosse invisível. Falavam da vovó dedicada, do papai amável, mas nenhuma palavra sobre a mulher invisível que estava carregando e cuidando da menina.

Ter um empregado doméstico é como ter uma coisa, um bem. Eu não conseguiria ser uma nem conviver com uma me servindo dentro de casa, justamente por que não a vejo como um móvel, mas como uma pessoa completa e igual a mim. 

Quando penso na relação da minha mãe com os patrões, enxergo uma escrava submissa aos mandos dos donos. Eu não gosto disso. Eu não gosto de elevadores de serviço; eu não gosto de ver babás, principalmente quando elas usam uniformezinhos brancos; eu não gosto de fila VIP; eu não gosto de "serviço braçal ou intelectual"; eu não gosto de machismo, racismo, elitismo; eu não gosto de Boçalnaro.

Posso parecer radical, mas não há igualdade de oportunidades verdadeira onde as pessoas desejam ter empregados domésticos dentro de casa. Não me parece certo pagar alguém para que limpe nossa sujeira, nossas calcinhas encardidas, o barro dos nossos pés no chão, nossa cama suada, e os pratos cheios de comida dentro da pia. Enquanto esse pensamento escravocrata e burguês prevalecer, não adianta fingir que nos tratamos igualitariamente, nem que já somos crescidos o suficiente. 


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