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Mostrando postagens de Junho, 2016

É essa a minha identidade brasileira?

O Brasil é um país que por muito tempo se sustentou por mitos: O mito da alegria, da fraternidade, da tolerância, da aceitação das multiplicidades, e por este sentido correm longe as lendas da utópica Terra Brazilis. Outras características, também muito aclamadas, mas não tão positivas, falam sobre o caráter do povo, eternizado e glorificado em um dos personagens de nossa história, o Zé Carioca, assim como  o malandro do Rio, e como tantos malandros representados e aclamados pelos cinemas nacional e internacional, que formataram, modelaram a personalidade recém nascida e já decadente de uma nação. 
Parece que tudo em nossa "nação" foi fabricado para ser como tal, até mesmo as representações populares mais legítimas se transformaram em produto e arma de manipulação. Vejamos a paixão insana da maioria dos brasileiros por futebol, por exemplo. A  midia, criada, e usada, acima de tudo, e antes de tudo, como arma de manipulação, foi a grande orquestradora e construtora das paixões…

Personagens de Ouro Preto - 5 - Raimundo Bichão

Há algum tempo, passeava pelas ruas um senhor negro, de corpo avantajado, roupas sujas e barba por fazer, assim como tantos outros personagens maluquetes que sobem e descem as ladeiras, sem rumo nenhum, apenas por vontade de se deslocar, na falta de ofício de gente "normal". Chamavam-no de Bichão, creio que por causa de sua aparência desleixada e trajes fedorentos. Certa vez, passou a andar com a cabeça torta, um eterno torcicolo, incurável, ninguém sabe por que, ou como. Sempre olhando para o céu, na lateral. Pensei que aquelas fuças nunca mais voltariam ao normal, mas eis que um dia, sem mais nem menos, o vejo com a cabeça direitinha por cima dos ombros! Não sei que ziguezira aconteceu, mas ele estava normalzinho, como Deus o fez. 
Bem, faz tempo que não o vejo, nem com a cabeça direita, nem com ela torta... Suponho que já tenha partido para outros planos. Fique em paz, Bichão!

Ciúmes

Ele não a ama, mas a foto ainda está lá,
Mostrando o que foi, e queria ter sido,
Mas, não mais será.

Ele não ama a outra, mas ainda persistem
As palavras e doces apelidos
Que se riem e insistem.

Tantos são os "amores queridos",
Que sou mais um "amor querido"
Entre todas as queridas do mundo.

Um amor que, não dando certo,
Saem os pares de perto
Mesmo se dizendo "profundo".

De tanto amar, perco a razão
Mesmo estando com ela
Dentro de minhas mãos.

De tanta razão, perdes o tato
E não vês a sequela
Que advém  de cada fato.

Perdendo-me, perco tudo,
A paz, a razão, a sanidade, 
Sem fazer mistério.

Amando-me, esqueces tudo,
mas não esqueças a verdade,
E o critério.






Personagens de Ouro Preto - 4 - A vizinha da falazada

Vizinhança é sempre algo complicado, pois,  a não ser que você more em uma ilha deserta, ou em um condomínio super luxuoso  com vários metros de propriedade, você terá que lidar com esse problema social que, muitas vezes, destrói amizades, sanidades e propriedades.
Em um local místico da cidade, onde a neblina mora, existe uma vizinha conhecida até por não vizinhos, pois sua voz é audível há quilômetros (permitam-me o recurso hiperbólico, novamente). Os que mais sofriam, obviamente, eram os vizinhos mais próximos. A metralhadora de palavras incompreensíveis disparava logo pela manhã, bem manhã, lá pelas seis. Alguma coisa acionava o gatilho e a mulher começava a falar com aquela voz grave, palavra em cima de palavra, em uma altura que incomodava até mesmo os passageiros dos ônibus que passavam pela rua. Os assuntos, só Deus sabia, apenas era possível compreender algumas poucas expressões, como "conta de luz", "cadeia", "cu", "fedaputa", "tra…

Personagens de Ouro Preto - 3 - A Volta do Vento

Hoje o personagem de Ouro Preto não é uma pessoa, mas um local. Os que não estão familiarizados com as histórias e a nominação do lugar, acham o nome poético, mas tendem a trocar as bolas, chamando-o de Rota dos Ventos, Curva dos Ventos e similares. Quem imagina, ao ouvir tais denominações, que o lugar se trata de um exemplo de expressão romântica divina, se decepciona ao saber dos acontecimentos que marcaram a história e a memória do povo. Poético, podemos dizer que é, pois o trágico, a dor e a angústia são matérias mais ricas para os poetas, e mais admiradas pelos (raríssimos) consumidores de poesia, porém, não há arco-íris na situação. 
A Volta do Vento é uma estrada abismenta que sai da Barra e vai parar lá em Saramenha. Não seria nada de espetacular, se não fossem o número de acidentes, e, principalmente, o número de suicídios acontecidos no local. Eu perdi a conta na minha curta e avoada memória de quantos suicídios tive notícia desde que me mudei para a cidade. Geralmente, na ma…

O dono do mundo

Imagine que alguém inventasse uma maneira de coletar dados sobre todas as pessoas do mundo, saber a que horas elas acordam, dormem, onde vivem, onde estudam e trabalham, onde vão aos fins de semana e com quem falam. Imagine se esse alguém soubesse de todas as suas conversas com todos os seus amigos, desde as mais inocentes até as mais pecaminosas; imagine se essa pessoa pudesse identificar qualquer um, em qualquer parte do mundo, apenas pelas características matemáticas faciais do indivíduo. Imagine se esse ser todo poderoso soubesse quem são seus filhos, quais suas inclinações políticas, seus medos, seus desejos e anseios mais íntimos. Imagine que todo esse conhecimento fosse oferecido de graça ao senhor todo poderoso, em troca de prazeres instantâneos e momentâneos, de bom grado, através de uma magia capaz de segurar por todos os lados aquele que quisesse se libertar. Imagine o poder que o detentor de todos esses dados teria... Seria o dono do mundo! Ele poderia manipular cada um, o…

Dia de fúria

Há dias em que sou doce, "meu mel não diga adeus", e há dias em que sou uma leoa, como os meus irmãos me chamavam na infância, apesar de estarem se referindo ao cabelo. Há dias em que não ligo, mas há dias em que o não ligado torna-se insuportável e urge por uma resolução. Há dias em que deixo pra lá, mas há dias em que nada escapa. Há dias em que, mesmo sem ter o hábito, tenho vontade de esbravejar os mais terríveis palavrões e mandar todo o mundo ir se foder, e que se fodam se estiverem se fodendo para essa expressão. Mas odeio palavrões. 
Há dias em que aguardo pacificamente, mas há dias em que não quero. Há dias em que quero fazer o que deveria ter feito, e o caldo engrossa. Há dias em que a verdade se torna mais verdadeira e cortante, e não quer ficar guardada. Há dias em que sei o que pode ou não destruir, e não quero fingir que não sei. Há dias em que não posso ser doce, pois vomito todo o amargo que estava se decantando silenciosamente. Há dias em que a discrição e a …

Personagens de Ouro Preto - 2 - O homem e seu smartphone

Esse é mais um dos personagens peculiares, reais ou imaginários, que povoam a nossa mística e mofada Ouro Preto. Subindo por estas ladeiras destes morros, onde vive a maioria dos nativos (como se autodenominam os nascidos em Ouro Preto), existem diversos personagens que se destacam. Este homem, em particular, já com mais de seus 40 anos, sempre no mesmo horário, saía de casa carregando seu smartphone. Um homem comum, de cabelos já grisalhos e seus óculos que lhe conferiam um ar de "nerdice". Quem o percebia, não percebia que por trás daquele ato comum poderia haver algo além do comum (ou não). Porém, não conseguia achar sentido para que ele saísse de casa e ficasse perambulando por alí, ou sentado em uma meia calçada barulhenta e nada confortável. Um dia passei por ele e percebi que ele parecia conversar com uma mulher. No início, pensei que estivesse assistindo a algum filme, não entendi muito bem. Por que estaria conversando com alguém naquele local, ainda em viva voz? Por…

Personagens de Ouro Preto -1 - A solitária da Rua Direita

Não digo se é verdade ou se é mentira, mas nos tempos de minha adolescência, e já se vão uns 20 anos, embora eu me considere sempre com 18 (é o que digo aos filhos), os jovens não tinham muitas opções a não ser se dirigirem para a Rua Direita, que fica n centro da cidade, e ficarem observando o ir e vir de pessoas. Naquele tempo, quase ninguém tinha telefone em casa, não preciso nem dizer que não existia celular, portanto, se você estivesse interessado em alguém que havia encontrado na Rua Direita, a única forma de manter ou criar uma relação era ir para a mesma rua na semana seguinte, com a esperança de reencontrar a pessoa por quem estivesse interessado. Era um sobe e desse sem sentido, pessoas encostadas pelos carros, nas paredes, em frente ao Bar Barroco, e só. Nós sempre saíamos em grupo, mas havia uma mulher enigmática que sempre saía só. Ela tinha um olhar estranho, e um penteado que lembrava aqueles moldados por rolinhos dos anos 80. Ela subia e descia, solitária, todos os fin…