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Mostrando postagens de Fevereiro, 2013

Tímida

Quando eu comecei a estudar, na antiga primeira série, eu era uma menininha muito tímida e não tinha nenhum amigo, ficava sempre no meu canto com as minhas coisas. Sempre tive problema com autoridades, nunca me dirigia aos professores, era uma muda dentro da sala de aula; uma vez, tive enxaqueca, embora não soubesse disso na época. Eu estava escrevendo, e a minha visão começou a ficar turva,  comecei a sentir muita dor de cabeça, mas pensava que tinha que terminar a lição de qualquer maneira, mas não suportei, vomitei e acho que devo ter desmaiado, por que depois disso só me lembro de minha mãe chegar e eu estar na secretaria.
Eu tinha tanta vergonha de me expressar que parecia insensível. Quando meu pai comprou o seu fusca, os meus irmãos saiam correndo, pulavam, gritavam empolgados, eu fingia que não estava me importando e que aquilo era super normal, mas por dentro eu queria correr e ver o tal fusca.
Adolescência foi um inferno. Tinha pouquíssimas amigas, sempre me aproximava das pes…

Relacionamentos -Os despedaçados

O que mais sei é me despedaçar, tanto que aprendi a reconhecer os despedaçados, os que arrastam correntes, os que carregam fardos, o que esqueceram de sair do passado, os que estão nos escuro. Sinto quando alguém deixou algum pedaço para trás e não está conseguindo viver bem sem ele, sinto quando alguém não tem o olhar no que está acontecendo, quando foge, quando se esconde. eu sinto os despedaçados.
Por ser uma despedaçada, aprendi a acalentar os outros incompletos, a lhes dar uma palavra de conforto; aprendi a entender e a não julgar, aprendi a acalentar, embora que momentaneamente, os escalavros dos outros. E neste acalentar, as minhas feridas vão se tornando expostas, e os meus pedaços vão se perdendo cada vez mais por estas ruas sombrias onde o vento barulhento faz a curva. Como a Curva do Vento de Ouro Preto.
Os despedaçados, muitas vezes, são atraídos por outros despedaçados, na ilusão de que se completarão... Mas a verdade é que despedaçados não podem se completar, não podem seq…

Persépolis e Retalhos

Trabalhar em biblioteca tem suas vantagens, você acaba encontrado jóias escondidas em meio a livros velhos e empoeirados, e foi assim que encontrei duas biografias em quadrinhos, duas Graphic Novels, Persépolis e Retalhos.
Persépolis
A autora, que é a protagonista e ilustradora, Marjane Satrapi, conta a história de uma menina, filha de pais liberais, nascida no Irã e que se vê obrigada a enfrentar uma revolução e as suas consequências. Apesar de todo o terror que ela vivenciou, da perda de seu tio querido e dos amigos, a menininha nunca abandonou o seu espírito revolucionário e questionador; desde cedo, foi uma leitora assídua e faminta por grandes filósofos, mantinha o espírito livre, incentivada por seus pais. Aos 14 anos foi morar na Áustria e enfrentou muitas situações adversas por estar sozinha experimentando uma cultura totalmente diferente. Usou drogas, viveu por um período nas ruas, quase morreu de pneumonia. Voltou para o Irã, mas teve uma crise de identidade; deprimida e julga…

Música portuguesa -Canção que desperta a saudade

Algumas coisas tem o poder  de nos causar sensações, nos despertar emoções, lembranças de algo que nem sabemos bem o que é. Saudades de um sentimento que está enraizado, que mora tão longe que nos fogem as objetividades, só temos a certeza de que toca em algo profundo e nos traz à tona algo adormecido...
Um cheiro e, de repente, uma emoção da infância, um rosto, uma cor, um momento doce; uma palavra ou um sabor, e o aconchego de um lar reaparece com todas as suas nuances. sentidos despertados que trazem os sonhos da inocência, a sensação de bem estar que eles nos causavam quando ainda éramos puros e confiávamos no destino. Um amigo querido, alguns planos, uma brincadeira, uma paixão, um carinho... Saudades.
Quando ouvi a composição deCarlos Paredes, tocada por José Oliveira e Daniel Gomes, dois jovens e talentosos portugueses, ela me trouxe alguns sentimentos saudosos, um aconchego, uma melancolia, mas que não sei bem onde nasceram; talvez sejam sentimentos herdados de meus antepassados…

Medo

As pessoas querem tudo, querem demais, sonham, desejam ardentemente, mas existe algo entre o desejar e o realizar; é algo que paralisa, que ameaça, que destrói possibilidades ainda em desenvolvimento, e essa coisa se chama MEDO.
Todos querem os prazeres, a realização, a felicidade, mas não querem arcar com as consequências que o caminho escolhido para alcançar tais objetivos possa trazer. Não querem a dor, as responsabilidades que virão de suas escolhas e as inúmeras possibilidades de transformação que suas escolhas possam trazer. Muitas vezes é mais confortável permanecer no "quentinho" aconchegante da mesmície, se contentar com as nesgas de ilusão, com os prazeres dos delírios, do que se arriscar na realidade e sofrer as mudanças. Isso é ser COVARDE!
O pior da covardia é não se prender e nem se soltar. Arrastam as correntes de sua indecisão ao longo da vida, e neste arrastar, amarram diversas pessoas que ficam presas neste ser sem ser, nesta realidade ilusória, neste nada de…

Coisas de Ouro Preto: Senhor Jair - O homem da palavra

Quando trabalhei na Secretaria de Assistência Social, lá encontrei um senhor chamado Jair, ele era faxineiro, um faz tudo do lugar. Eu o cumprimentava, de vez enquanto trocava algumas palavras, mas nunca paramos para conversar. Passado algum tempo, o senhor Jair saiu da Secretaria e algumas vezes eu o via sentado na porta do cinema ou ali nas redondezas. De vez em quando parava pra conversar e ele me contava longos casos, alguns eu entendia, outros nem tanto, mas lhe dava atenção. Eu falava quase nada, o meu papel era o de ouvinte.
Um dia eu comentei que havia passado no concurso em primeiro lugar, mas  que eles ainda não tinham me chamado e isso estava me deixando muito chateada. O seu Jair disse: _ Não se preocupa não, em janeiro eles vão lhe chamar! _ E não é que me chamaram mesmo!
As histórias que o senhor Jair mais gosta de contar é sobre o seu dom mediúnico, suas capacidades de prever as coisas e de pressentir. Eu fiquei pensando no que ele havia dito, mas deixei pra lá, devia ser…

Beirut - Elephant Gun

Eu já sabia

Eu  já sabia o fim desde o começo,
Que o começo não era o início 
E que o fim seria certo,
Desde o princípio.

Lutei contra a correnteza,
Mas as águas tem o seu destino.
Eu sou uma sardinha
E perdi.

Carreguei todas as montanhas,
Atravessei os sete mares,
Pedi a todos os Deuses,
Quase morri.

Descobri que ninguém me acompanhava
Estava só na caminhada
Desde o início
Até o fim.

Morri tantas vezes na batalha,
Que o sangue secou
E dentro das veias
Só o pó ficou.

A morte matou tudo o que havia,
As trevas me roubaram de mim
Talvez da escuridão, agora surja
Do fim, um início.