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Mostrando postagens de Março, 2015

Os piolhos

Na tenra idade, diziam que eu tinha ombros largos demais e que meus pés eram tortos, como os das modelos quando paravam. Os moleques infernais chamavam-me testão brilhante, leoa, magricela. Houve uma época em que ter piolhos era normal, e eu tinha, muito. Eu via os piolhos andarem nas sobrancelhas de uns e escorrerem pelos pescoços dos outros. A vizinhança se reunia na catação de piolho, filhos entre as coxas das mães, fraldas brancas para aparar os insetos, pentes finos e unhas. Colocaram óleo com fubá na minha cabeça e de muitos outros, mas era uma epidemia.  Algumas mães colocavam Detefon, aquela latinha amarela com veneno em pó para pulgas, nada dava jeito. A infância dos anos 80 foi piolhenta.
Diziam que eu era um bicho do mato, cara de bunda, emburrada. Disseram também que eu era metida, pirracenta e nojenta. Eu liguei na época, mas agora, rio do alto da pirâmide.
Disseram que eu nunca conseguiria emprego e se conseguisse, não seria capaz de permanecer em um. Riram de mim, me mand…

O que significa essa manifestação do dia 15 de março?

É a primeira vez em minha vida que vejo os brasileiros tão enfurecidos e claramente divididos em dois blocos em relação a política, e isso é assustador. Nos tempos do Collor, a população tinha uma só visão do que estava acontecendo, o da media corroborada pelos bolsos vazios, todos foram levados por uma onda em busca de mudanças que culminou com o impeachment do então primeiro presidente eleito democraticamente, um marco histórico. Eu me lembro muito bem daquela época, quando eu parei de estudar porque as escolas publicas não ofereciam livros didáticos, e não possuindo dinheiro para pagar, por que o governo confiscou toda a poupança e a inflação estava galopante, eu fiquei com vergonha de continuar estudando. Lembro-me muito bem do custo das coisas, de como faltou carne, de como foi preciso contratar mais pessoas para operarem as máquinas rotuladoras, e de como nós éramos milionários e miseráveis ao mesmo tempo. Lembro-me da primeira vez que prestei vestibular na UFOP, quando ainda er…

Depois dos 30

 Imagem do blog da Ila Depois dos trinta dividimos as lembranças e as cicatrizes das cirurgias, as de varizes, tireoides, cesarianas, enxertos ósseos, retiradas de terçol, redução de estômago, vasectomia, e afins. Nessa época não nos envergonhamos tanto pelas celulites, estrias, gordurinhas, manchas e imperfeições, pois raramente há perfeição. Depois dos trinta, aprendemos a valorizar o que preenche, não o que cobre; o que preenche uma conversa, o silêncio, os espaços, as carências, as necessidades, o sorriso, a vida. É neste momento que estamos quase prontos, prontos para aceitar, relaxar, sentir, sorrir, chorar e nos levantarmos. Depois dos trinta, temos muito mais a carregar, mas muito mais a oferecer; temos muito a dividir, assim como muito a aceitar. É na idade da crise que descobrimos nossa identidade, é aí que nos preparamos para sermos livres de todas as amarras supérfluas e ilusórias. Temos muito a levar, mas temos muito mais a conquistar. Depois dos trinta, estamos maduros pa…