terça-feira, 22 de maio de 2018

Pequena análise discursiva de um suposto texto do padre Fábio de Melo



Hoje eu recebi uma mensagem atribuída ao Padre Fábio de Melo, que me fez refletir sobre como as mensagens são disseminadas e são interpretadas por seus receptores. A mensagem era essa:

Eu cresci comendo a comida que minha mãe podia colocar na mesa, sempre respeitei minha mãe e as pessoas mais velhas... Tive TV com 3 canais e não mexia para não quebrar, e antes de sair para escola arrumava a minha cama... 

Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalço, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador... 
Ajudava minha mãe nas tarefas de casa, e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir.

Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação. Notas baixas era castigo, apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!!

E não sou revoltado, não faço analise em médico, e não falta nenhum pedaço em mim.
Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando!

Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor...
Por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres!

Se você também faz parte dessa elite, COPIE E ENVIE para mostrar que sobreviveu. 

Padre Fábio de Melo

Depois de algumas reflexões sobre a mensagem, pesquisei para ver se o autor teria mesmo sido o tal padre, e, de acordo com esse site, não era. Bem, o autor então seria desconhecido, e sem a autoridade aclamada de um padre. Qual seria a intenção de distribuir uma mensagem como essa, dando-lhe uma legitimidade que não tem? Talvez, o autor só quisesse ver seu texto famoso, como os que atribuíram os seus textos ao Luis Fernando Veríssimo e à Cecília Meireles, ou talvez, o autor e os que concordam com o que diz a mensagem, gostariam de fortalecer a ideologia que tinham sobre a criação de filhos. Mas, o que diz a mensagem? Vamos por partes:

Eu cresci comendo a comida que minha mãe podia colocar na mesa, sempre respeitei minha mãe e as pessoas mais velhas... Tive TV com 3 canais e não mexia para não quebrar, e antes de sair para escola arrumava a minha cama... 

No primeiro parágrafo, o autor, ao dizer sobre a comida que a mãe podia colocar, utilizando a mãe, e não o pai, como seria comum ao se referir ao provedor quando falamos de um passado não muito distante, revela que ele poderia viver apenas com a mãe, e que essa era quem  colocava a comida que era possível colocar no momento, e ele, comia. Ao dizer que sempre respeitava as pessoas mais velhas, podemos nos atentar ao não dito, ou o que poderia ter sido dito no lugar, parafraseando sua fala; o autor poderia ter dito que nunca desrespeitou os mais velhos, mas, preferiu reforçar a sua conduta positiva. Em seguida, diz que a televisão tinha apenas três canais; ao numerar os canais, poderia estar fazendo alusão à quantidade de canais que as televisões possuem à disposição hoje em dia.Diz ainda, que não mexia para não quebrar; "para não quebrar" explica uma regra e o motivo pelo qual não mexia. Ao dizer que arrumava a cama antes de sair, isso não representa apenas um encadeamento de fatos, mas é uma exposição de como era a ação normal para o seu dia.


Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalço, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador... 
Ajudava minha mãe nas tarefas de casa, e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir.

Nessa parte, o autor exalta alguns hábitos, como fazer juramento à bandeira. O "fazer juramento à bandeira" levanta uma memória discursiva que nos leva ao tempo do militarismo, da "moral e cívica", da ditadura, quando todos eram obrigados a idolatrar os símbolos nacionais e saber todos os hinos. Esse hábito destoa um pouco semanticamente dos outros que são citados a seguir, como andar descalço e beber água da torneira (hábitos de quem tinha poucas posses ou vivia com a meninada pelas ruas) e ter roupas de marca, celulares, tablet e computador (o que nos leva a pensar que atualmente as crianças exigem tais consumos). Quando ele diz que ajudava a mãe nas tarefas e não achava ser exploração infantil, faz alusão aos discursos dos jovens atuais, que se queixam em fazer as tarefas das casas onde moram; ao dizer que tinha horário para dormir, deixa claro que tinha regras e que elas eram cumpridas, sugerindo que hoje não é assim que acontece.

Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação. Notas baixas era castigo, apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!!

Nesse trecho ele fala sobre a rigidez do tratamento dos pais com os filhos, que colocavam como regra o bom desempenho na escola, e quando descumpriam essa regra, as crianças eram castigadas com agressões físicas. Então entra a parte polêmica que questiona a lei da palmada, que pode punir os agressores legalmente. Segundo o seu discurso, corrigir os filhos com castigos físicos seria legítimo e até mesmo necessário. Quando ele diz que "não ganhava presentes", faz alusão à maneira como as crianças e adolescentes são gratificadas por fazer o que, segundo suas palavras, seria cumprir as regras estabelecidas.



E não sou revoltado, não faço analise em médico, e não falta nenhum pedaço em mim.
Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando!

Aqui, expõe as consequências da educação que recebeu, justificando que a maneira rígida que fora tratado não teria causado nele algum trauma ou lhe prejudicado de alguma forma. Segue clamando por disciplina e menos "frescura". "Frescura" estaria fazendo referência ao contraste da forma como ele fora tratado na infância, quando os pais eram mais rígidos com os filhos, em relação a geração atual, que precisaria de incentivos para cumprir as regras impostas pelos pais. A palavra disciplina também aciona a memória discursiva que faz referência ao período militar, quando as palavras do momento eram disciplina, ordem e progresso. Segundo o autor, as crianças de hoje precisam das regras e da disciplina que existia no tempo em que ele era criança.

Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor...
Por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres!

Aqui aparecem novamente as palavras que acionam a memória discursiva relativa ao período ditatorial, que são a ordem e a disciplina, assim como a obediência.Parafraseando a frase seguinte, ele poderia ter dito que este mundo, para os filhos de hoje, só lhes dão direitos, e não deveres.O autor coloca ainda atributos como bondade, educação, respeito e amor no mesmo balaio dos outros conceitos ensejados por ele. 

Conclusão:

Cada discurso fala de seu tempo e suas formações discursivas, assim como acionam memórias discursivas de outras formações, mesmo que o locutor não tenha ciência dos significados por trás do que diz; como diz Pêcheux,  o enunciador tem dois esquecimentos, e um deles é esquecer-se de que o que diz já foi dito, ou seja, ele pensa ser a origem de tudo o que diz. No momento em que vivemos, quando vemos uma polarização de opiniões e de posições, não apenas no Brasil, a nossa interpretação desse pequeno texto reproduzido e distribuído através das redes sociais, pode gerar diversas reações. O assunto gera polêmica por diversas questões, a primeira delas fala sobre a educação de filhos, sobre a maneira que os pais deveriam lidar e interagir com eles, e sobre a aplicação de castigos físicos às crianças; a outra questão diz sobre a suposta apologia à ideologia que existia na época da ditadura militar no Brasil, o que aparece nas entrelinhas, quando palavras que remetem aos discursos ditatoriais fazem parte das justificativas do autor. Há ainda a discussão sobre os valores adotados pela geração atual de crianças e adolescentes, que agiriam como se os pais existissem para serví-los, ou seja, de acordo com a argumentação do autor, presenteando-os quando cumprissem com suas regras, suprindo-lhes as exigências consumistas, alem de eximi-los de tarefas domésticas. 

Como um textinho tão besta pode gerar tantas interpretações e reações? A resposta está nas memórias discursivas que são acionadas, assim como nas visões políticas e pedagógicas, que estão bastante polarizadas atualmente. O importante aqui foi perceber como a linguagem e os discursos podem tomar diversas proporções e servirem para diversos propósitos. A bíblia que o diga.



quinta-feira, 17 de maio de 2018

Como vou me virar com a questão dos gêneros?


Está só um pouquinho complicado viver nesse mundo de hoje, mas eu penso que isso não é de agora. Essas invencionices humanas, desde que a linguagem se criou, se formatou ou se liberou,  essas invencionices de nomear e significar, de fazer sentido, discursar, são o que fazem de nós o que somos, seres humanos. Uma palavra não se descola de seu tempo, mas, saindo de seu tempo, pode ser reinventada, resignificada, por diversos motivos e circunstancias, e é por isso que é tão difícil decifrar, traduzir textos que não são contemporâneos. A memória discursiva despertada por uma palavra, o que ela invoca em nosso cérebro e o que ela liga em nossa memória semântica, as conexões e as operações cognitivas que ela permite operar, são, às vezes, indescritíveis. 

Para não discriminar, inventaram a moda de trocar por "x" a letra que designa gênero no português, que são o "o" e o "a". Até mesmo em palavras comuns de dois gêneros, como estudantes, tacaram um x e ficou estudantxs. Em nossa língua, que, segundo esse raciocínio sobre as maneiras de designar, é machista, é regra colocar no masculino a palavra que se encontrar no plural, como "alunos", esteja se referindo a apenas homens, ou a homens e mulheres. Em algumas línguas, há desinências que diferenciam plural só de mulheres, só de homens e de ambos, assim como nomes específicos para cada membro da família e por aí vai, mas não em português.  Em outras, o plural não é marcado pelo "s", mas por outra letra. Em inglês, até onde sei, geralmente não há essas desinências de gênero, mas palavras femininas, masculinas e neutras.

Quando dizemos "a cobra", a palavra cobra é um substantivo epiceno, mas a palavra pode ser considerada como pertencente ao gênero feminino por que ela solicita o artigo definido ou indefinido feminino, e termina em "a"; isso não quer dizer que ela, a cobra, seja uma fêmea. É possível dizer "o cobra", mas a expressão já carrega outro sentido. O mesmo acontece com janela, folha, quati e tudo o mais.

Pois então, gênero, na gramática, não quer dizer sexo, tem a ver com as desinências, concordâncias e esses parangolés gramaticais. Agora, gênero, no cotidiano, quer dizer muitíssima coisa, e como tudo faz parte dos discursos, ou, os discursos fazem parte de tudo, ou, os discursos nos mostram quem somos e onde estamos, as palavras fogem da gramática e clamam por resignificar, ou, por significar o que não pareciam significar até então. A maior discussão é que as pessoas podem não se sentir pertencentes ao gênero sexual que seu corpo disse ser ao nascer, de acordo com as definições de feminino e masculino que temos, ou seja, ter pênis ou vagina, e assim sendo, reivindicam o direito de serem o que elas sentem ser, e assim, serem nominadas de acordo. Isso, na prática, se torna complexo.

Confesso que me perdi nas classificações dos grupos que não se denominam apenas como homem ou mulher, de acordo com as condições de nascimento. Além da questão de não se sentirem pertencentes ao sexo escrito na certidão de nascimento, há a questão da sexualidade, ou seja, a pessoa pode ou não se sentir homem ou mulher, de acordo ou não com o gênero sexual original, mas ainda assim, pode querer, desejar, ou ter nascido para se relacionar com pessoas de sexo diferente, mesmo sexo, ou com todos eles, ou ainda, com nenhum deles e dezenas de variações. Então, a questão é sobre a identidade e sobre a sexualidade.

Essa ideia de colocar o "x" como desinência pode ser interessante para a militância, mas não é nada prática. Primeiramente, não há como pronunciar essa bagaça; outra coisa, impede a leitura eficiente para os programas de acessibilidade para deficientes visuais. É apenas simbólico e denota a posição de quem escreve a mensagem. Então, como conversar, nominar, chamar por alguém sem ofender? Devemos clamar por Alah para que nos mostre as designações, as desinências e os substantivos apropriados? Como saber se a pessoa que está entrando no banheiro feminino, mas que possui trajes, corte e trejeitos considerados socialmente como masculinos, deveria entrar naquele banheiro ou  não, e se a pessoa gostaria de ser tratada como "a" ou "o"? Deveria existir um banheiro "x"? São questões que a sociedade precisa tentar resolver.

Alguns nos dizem para evitarmos usar palavras que precisem de designações de gênero, que usemos palavras genêricas, ou substantivos sobrecomuns, como "pessoa", que utilizei acima. Outros dizem para perguntarmos diretamente para a pessoa como ela gostaria de ser tratada, mas sabemos que isso não é um troço fácil de se fazer em nossos dias. Só por eu estar questionando esse uso do "x" poderia ser acusada e apedrejada por intolerância, quando o meu intuito é refletir sobre a intolerância e as ações atuais. Não está fácil saber como lidar com as peculiaridades, como nunca foi. Um dia, em um seminário, um rapaz apresentava o seu projeto que iria falar sobre pessoas transsexuais que possuíam canais no YouTube; quando me atrevi a comentar que um rapaz  da pós graduação da minha universidade faria um trabalho sobre a travesti Pabllo Vittar, ele quase me fuzilou com suas palavras artificialmente polidas, dizendo que Pabllo Vittar era travesti e uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Obrigada por me informar.

Então, meu povo, a discussão é essa: O que faremos para tratar dessa questão de designações, desinências e intolerâncias? Não faço a menor ideia.



segunda-feira, 14 de maio de 2018

Confissão


Nego-me a confessar os desejos mais íntimos,
Aqueles a quem todos pertencem,
Mas que negam-se a expressar,
Ao menos os loucamente apaixonados...
Pudera, eu, guardar-te em uma redoma
Como fizera o principezinho com sua rosa,
Regando-te diariamente com o meu amor!
Gostarias, mas com o tempo,
Sufocarias, perderias o ar e o viço;
Com o passar, passaria tua beleza,
Despetalarias, murcharias enegrecido.
Lutarias pelo ar, mas acabarias por acostumar-te
Com a visão de dentro da redoma.
Talvez, assim, depois de perderes o brilho,
Eu abriria a redoma e deixaria que fosses,
Ou talvez, com o sentir de superioridade,
Deitaria em tuas raízes algumas gotas de água,
Para que de mim dependesses.
Assim, toda a beleza e a alegria
Que me encantaram um dia,
Morreriam...
E com elas, eu iria, atrás delas, ou de ti.
Ciente da escuridão desse egoísmo, escondo de mim mesma,
De ti, do mundo,
E convenço-me de que a beleza é melhor que a morte!
A morte da beleza, do amor, da alegria.
E ensino-me,
Todos os dias,
Sobre o que é amar,
E sobre como cultivar uma rosa livremente,
Como se não dependesse dela para respirar.



sábado, 5 de maio de 2018

Sobre o direito à preguiça e a sociedade do cansaço



"A moral capitalista, lamentavelmente paródia da moral cristã, fulmina com o anátema o corpo do trabalhador; toma como ideal reduzir o produtor ao mínimo mais restrito de necessidades, suprimir as suas alegrias e as suas paixões e condená-lo ao papel de máquina entregando trabalho sem trégua nem piedade." Já dizia Paul Lafargue, genro do tal do Marx em O direito à preguiça

Não me considero Marxista, socialista, ou comunista, na verdade ainda não compreendi totalmente e profundamente essas teorias que falam sobre a maneira que o capital deveria ser gerido e o papel do Estado em tudo isso. O que eu sei é que hoje, e desde há muito, nós estamos nos tornando escravos de nós mesmos, de nosso medo da imperfeição e da nossa vontade de ser sempre estimado e super-estimado. Temos medo de não sermos bons o bastante, de que a nossa reputação se destrua rapidamente, com a mesma velocidade que recebemos informações inúteis de todos os lados. 

Mesmo que, teoricamente, a igreja não interfira no Estado (apenas teoricamente, por que, aff, já sabemos), a ideologia cristã que nos impõe a culpa pelo ócio e trata a preguiça como um dos sete pecados capitais, é um discurso que está entranhado em nossa cultura, em nosso ser, em nossa maneira de viver. É um dizer que fala antes de nós e em nós, e que o tal do capitalismo se apropriou exultantemente para nos convencer de que o trabalho é o objetivo e o que dá sentido à vida. "Deus ajuda a quem cedo madruga".

Amigos, não digo que devemos ficar deitados na calçada a espera de esmolas de transeuntes ou do governo, o que eu digo é que não deveríamos nos sentir mal em apenas aproveitar os momentos, desligados dos trabalhos que se dizem produtivos, mas que não acrescentam nada além de stress. Jesus disse "Olhai os lírios do campo". Jesus destruiu o comércio no templo. Contemplemos os lírios! 

Imaginemos que agora, depois de ter lido isso, saiamos para comprar algo no mercado e nos aconteça algo que nos leve a morte, será que estaremos satisfeitos com a vida que vivemos? Será que o tempo foi suficiente e as atenções foram bem divididas? Será que valeu a pena todos os "nãos" que deixamos de falar? O que é desperdiçar tempo, afinal? 

Há um ensaio que fala sobre essa questão, A sociedade do cansaço. Vale a pena refletir sobre essas questões, pois são nelas que nossas vidas estão baseadas, são elas o que dizem o que é importante.

Vamos refletir!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Ouro Preto aos leões - O caso do Parque do Itacolomi


Eu já relatei aqui um acontecimento do ano passado, quando fomos comemorar o aniversário da minha enteada fazendo um piquenique no Parque Estadual do Itacolomi que, em pleno fim de semana, encontrava-se fechado. Voltamos totalmente frustrados em perceber que em Ouro Preto há poucas opções para que a família ouropretana possa aproveitar os momentos de descanso, e as que existiam, não funcionavam direito. Depois de alguns meses, o parque voltou a funcionar, mas nos entristecemos ao perceber as condições. O museu estava às moscas, museu que conta historia importantíssima da presença do chá na cidade. As luzes estavam todas apagadas e as atividades interativas não funcionavam. A Casa Bandeirista estava às traças. Mas, aproveitamos.

No dia 1° de maio, ontem, feriado nacional, voltamos ao parque para comemorar o aniversário do outro enteado, mas, quando chegamos lá, ficamos sabendo que agora está sendo cobrada uma taxa de 20 reais, inclusive para moradores! Quase tivemos um ataque. 

É um absurdo a privatização de parques públicos, é um absurdo cobrar entrada de  nós, moradores, para prestigiarmos o parque que faz parte de nossa história, que é nosso! Aos turistas, sim, penso que deveria ser cobrada uma pequena taxa, por que  é necessária a manutenção do parque, e turistas viajam preparados para os gastos que terão ao tirar proveito de bens de outros locais, mas aos moradores?



Fomos deixar nossa indignação com a coordenação, e nos disseram que, quando solicitado, o povo ouropretano não apresentou nenhuma proposta, não deu nenhum apoio, que por esses motivos, seria justa uma cobrança, e que o parque tem melhorado muito, está todo limpo e precisa pagar funcionários, e tals. Sugeriram que as depredações ocorridas no parque foram causadas por ouropretanos e que o parque tem se tornado um "produto"... Quando disseram essa palavra, ficou clara a visão mercadológica da nova gestão do parque.

Muitas coisas que aconteceram e continuam acontecendo em Ouro Preto me fazem pensar que quem administra e tem o poder na cidade, tem a intenção de tirar o "nativo", sumir com ele, como se a cidade fosse uma maquete que deveria ser preservada, um monumento morto como as pirâmides do Egito. Aqui tem gente, pô! Aqui tem história, tem povo, tem artista, a cidade é nossa, é do povo! Não temos o direito de visitar um espaço que faz parte do que somos? 

Consertem o Morro da Forca, reabram o Horto Botânico, revitalizem as praças! Aqui tem gente, que tem história, tem família e tem necessidades! É para cuidar dos interesses do povo, dos que também não tem condição e não deveriam pagar, que existem os governos, os gestores públicos! 

Acorda Ouro Preto! Nós queremos uma cidade, não um produto do qual somos totalmente excluídos!

Cada vez mais abismada com o rumo das coisas.