terça-feira, 17 de outubro de 2017

Há um monstro em mim todos os meses


Muitas vezes eu me recuso a aceitar que nós somos movidos apenas pela livre associação de hormônios, como se fôssemos algum tipo de máquina ou de poção mágica, que colocando um pouquinho de adrenalina e dosando com dopamina, estrogênio ou outro, podemos destruir o mundo ou aperfeiçoá-lo. Não quero aceitar que somos um amontoado de carne sem controle, personalizados por componentes químicos; porém, quando vejo ao longo de um mês as modificações que as mudanças hormonais causam em mim, penso que isso só pode ser obra do demo. Ainda não encontrei sentido para essa montanha russa de emoções que vivemos periodicamente, e que para muitas mulheres, quase faz acabar o mundo delas e dos outros.

Quando era mais nova, eu não acreditava que existia a tal da TPM, pensava ser tudo invenção. Depois que amadureci e passei a me conhecer melhor e a observar o meu ciclo, percebi que o troço é uma coisa de doido e é batata. São reações incontroláveis e muitas vezes, insuportáveis. Obviamente, as reações são diferente para cada uma, mas poucas são as que não conhecem as mudanças femininas.

Não é só a mulher que pode constatar as mudanças causadas pelos hormônios, os psiquiatras são doutores no assunto, literalmente. Os consultórios estão repletos de pessoas a procura de um remedinho da felicidade que irá resolver magicamente todos os problemas.

Alguns preferem insistir em medidas alternativas, mudança de vida, meditação, que também alteram os níveis de hormônios e a maneira de ver a vida. Até quando os hormônios comandam quem somos e como enxergamos o mundo? Será  que não temos controle nenhum sobre quem gostaríamos de ser?

Não sei. Só espero poder controlar e domar essa fera que sai de mim todos os meses.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pensar demais


Acho que estou virando uma velha coroca e chata, e os meus textos estão cada vez mais chatos que eu, se é que isso seja possível. Não sou boa para escrever textos científicos ou cientificistas, prefiro tentar utilizar as palavras dando-lhes sensações e transmitindo sensações, sem que alguém precise se esforçar enquanto lê, e sem precisar colocar notinhas de rodapé e referências explicitas. Mas esse meu pensar e essas minhas sensações, e esse meu descobrir diário e ininterrupto, me levaram a pensar sobre a procura do ser humano pelo conhecimento. Parece que, na verdade, tudo o que tem a capa de científico é na verdade uma maneira de descrever ou reescrever algo que poderia, ou que, na verdade, consideram místico. Quando um pensador falou sobre a natureza humana, supôs que todos os seres humanos teriam algo incomum e dissociável de sua raça, uma essência natural. Existe algo mais poético que sugerir que algo possua uma essência, uma característica imutável que surge com cada ser? A essência de uma pedra é ser dura e imóvel, mas do que se trataria a essência de um ser humano? Seria sua alma? Ou seriam características naturais que fazem parte da raça humana, como a maldade? Seria o "homem o lobo do homem"?

Quando negamos a essência humana, e assumimos que o ser humano vai se construindo de acordo com suas escolhas e que essas escolhas dependem de sua vivência, tornando-o o único responsável por seu destino, ainda assim, estamos em busca de uma explicação sobre a humanidade e sobre o que nos torna especiais, ignorando a infinidade de outras espécies existentes apenas no planeta Terra e que não se tornam, nascem. Parece, simplisticamente, uma maneira de mistificar contraditoriamente e racionalmente a humanidade,  negando a sua naturalidade, sua animalidade. Só para polemizar, nesse caso, seria possível a cura gay?


A própria afirmação de que existiria uma ética universal parece algo místico, é como se Deus tivesse criado uma ética e a escolhido como tabua de comportamento adequado para todos os homens da Terra. Dizer que seria possível a existência de uma ética universal, é dizer que os homens possuem uma essência e que são naturalmente isso ou aquilo, o que contradiz muitas outras coisas e teorias.

O mesmo pensamento me ocorre quando penso em estruturas sociais. Muitas vezes parece que se referem a elas como algo que existe além e independentemente da vontade humana ou individual, como se fosse algo pré determinado e necessário, algo que paira sobre o universo. 

Teorias sobre verdade e liberdade, são inúmeras. Cada um abraça a que mais seja compatível com a sua linha de pensamento, mas atreladas a elas, parece que sempre está o direito universal do ser humano. Quem nos deu esse direito, Deus? O universo? A nossa magnitude e superioridade humana? 

Preciso ler mais filosofia, ou talvez, não! Acho que devo gastar o meu tempo com momentos que fazem bem à mente e à minha suposta alma. Talvez essa seja a forma de concluir tudo o que nunca se concluirá, e de tentar encontrar a chave do que chamam de essência humana.



Seres humanos: Interesses individuais ou coletivos?


O homem, na concepção antiga de humanidade, nem sempre se viu da mesma forma, nem sempre se sentiu do mesmo modo.  se no período clássico ele se via como parte do cosmo, na idade moderna passou a se ver como centro do mundo, e isso significou grandes mudanças e desenrolares (não estou bem certa sobre a palavra "avanços") de teorias sobre os diversos aspectos sobre a humanidade e a sociedade. Quem sou eu para ficar aqui divagando sobre questões filosóficas? Apenas uma mulher que possui rudimentos de conhecimentos e uma mente a mil por hora.

Pois bem, o homem descobriu a subjetividade de seu mundo, e o colocou aos seus pés e disposição; ele (o homem) não era mais uma parte de um todo, de uma natureza divina, mas era o ser que poderia moldar seu próprio universo. Apesar de já ter criado Deus à sua imagem há milhares de anos atrás, ainda se via  como um ser totalmente impotente diante da incontestabilidade dos desígnios desse Deus e de sua divindade. Na modernidade, passou a ser o centro das discussões sociais, políticas e filosóficas.

Surgiram então as novas definições sobre justiça e liberdade, as concepções sobre Estado também sofreram modificações. O Estado, escolhido para representar e defender as necessidades do povo, deveria cuidar da segurança desse. O homem viveria então sob o intenso medo da morte, e por esse medo viveria em constante tensão. O indivíduo passa a ser visto como anterior a sociedade, e suas necessidades individuais, a auto realização e a experimentação pelos sentidos passam a ser a base do pensamento. Alguns pensadores, influenciados obviamente pelo seu tempo, colocavam seus argumentos sobre a convivência em sociedade, seja defendendo a propriedade, a manutenção da vida, a liberdade ou a igualdade. A individualidade é a base para esses pensamentos, o ser humano se volta para ele mesmo enquanto indivíduo pensante e desejante. 

Pois é, depois vem o tal do Marx, do qual muitos falam, mas poucos leram suas obras inteiramente, inclusive eu. Ele vem com uma nova visão sobre a vida em sociedade, sobre as estruturas sociais e seu funcionamento. As lutas de classes seriam responsáveis pelas mudanças históricas e dessas estruturas, a história se moveria através dessas lutas, ou seja, da insatisfação das classes massacradas, desfavorecidas e subjugadas que decidiriam mudar a ordem da bagaça.

Pois bem, dizer que as classes são diferentes, já significa individualizar. Eu não luto por outras classes, eu luto pela classe a que pertenço, com a qual me identifico, a classe que fornece as minhas estruturas dentro da sociedade. A classe que define a minha individualidade. A classe que me diz quem eu sou. 

O que interessa aqui, não é como as estruturas agem sobre, ou definem o indivíduo, o que interessa nessa breve reflexão, talvez rasa, é sobre  a individualidade, a subjetividade, e sobre como ela interfere nas estruturas.

Quando falamos de estruturas, nos vem à mente algo rígido. Eu imagino um armário, cheio de prateleiras e gavetas, onde as pessoas são colocadas e levam suas vidas com suas rotinas todas definidas e imutáveis. Em cada compartimento estaria uma classe, unida e separada das demais. As camadas de que se concentram na base seriam a estruturan( no sentido de construção civil) que sustentaria todo o resto. Uma hora, essa prateleira não suportaria mais o peso e se quebraria, dando início a uma nova estrutura. O grupo que ali estava assume, então, nova posição, levando o armário todo a se reformular e reconstruir seus compartimentos.  Nessa reformulação, teriam que ser chamados novos carpinteiros que tentariam rever o funcionamento e tratariam da manutenção.Talvez essa seja uma visão um tanto simplista, mas essa é a imagem que me vem.

Pois bem, os desejos do coletivo, digamos, de uma delimitada coletividade,  seriam a base das mudanças históricas, das evoluções e das revoluções, como se existisse algo inconsciente pairando no ar inalado pelos indivíduos de uma classe que a levasse a se unir e a agir em determinado momento; seria um descontentamento geral e unificado e um "nada mais a perder" que levaria a classe a se levantar em busca de uma situação melhor, para as classes em questão, obviamente.

Ninguém quer ser oprimido. Muitos são encabrestados para se sentirem bem na opressão, para não se revoltarem com seu pertencimento a castas inferiores. Mas, voltando à questão da natureza humana, se é que existe a tal essência, seria pertencente ao ser humano, ou natural, gostar de ser subjugado? Ou a maioria não possui capacidade de desenvolver reflexão sobre sua posição e sobre as tais estruturas que os colocam em seus lugares? Ou ainda, quem prefere o pior, o menos, o menor?

Penso que o sentimento de revolta pela repressão, deva ser, antes de tudo, um sentimento individual. Quando um individuo luta por sua classe, ele quer melhores condições para o seu pertencimento, ele luta por seus interesses. O interesse da classe não se sobrepõe ao individual, mas faz parte deste, pois trata-se da identidade do ser individual que é também coletivo. 

Podemos e, ao meu ver, deveríamos desejar uma sociedade justa para todos, com igualdade e paz. E, de acordo com o meu pensamento, a maneira de se conseguir isso, seria tentar oferecer as mesmas oportunidades a todos. Muitos devem pensar como eu, por que parece obvio que, onde há diferenças extremas, há violência, e isso representa um perigo constante para todos os indivíduos. Todos desejam viver em paz e em bonança. São desejos individuais, mas que parecem que só poderão ser concretizados se forem realizados coletivamente. Se vivemos em uma sociedade, com as tais estruturas, com oprimidos e opressores, a felicidade individual parece estar ameaçada pelas desigualdades, e os indivíduos compartilham de sua insatisfação com outros que pertencem ao mesmo lugar.

O que quero dizer com essa breve reflexão é que as classes existem, mas elas não são um ser que se move por si só. As classes são grupos formados por indivíduos com desejos e necessidades individuais equivalentes e fazem parte da identidade desses. Os indivíduos se movem por interesses próprios e das classes às quais pertencem em busca de satisfazer suas necessidades. Indivíduos é que tomam a voz, que insuflam, que convocam a coletividade. indivíduos é que manipulam, que usam da identidade compartilhada para realizar as movimentações, e não alguma força superior e quase sobrenatural. Indivíduos tomam decisões e se revoltam. Indivíduos desejam manter as estruturas e seus privilégios, assim como os privilégios dos que pertencem ao seu grupo.

Talvez eu esteja falando muitas besteiras, e, obviamente, preciso de muitas informações e reflexões. Mas na minha visão, indivíduos fazem a história através de seus interesses e dos interesses dos que fazem parte de seu grupo, de sua identidade, e não algo além ou aquém deles. Tanto, que as mudanças só acontecem através desses movimentos, o das classes, dos indivíduos que agem por seus interesses, interesses de uma determinada individualidade dentre outras.


quarta-feira, 13 de setembro de 2017

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Que diabo é ética?


Ética.

Primeiramente, não existe uma ética universal. Supor que exista uma ética universal é corroborar o naturalismo, dizer que o ser humano nasce assim ou assado. Por outro  lado, supor que não somos naturais e ignorar que ainda não sabemos quase nada sobre nossa natureza, é negar a obviedade que explode sob nossos olhos e que está presente em perguntas infantis das quais nos esquecemos quando crescemos. Como o João-de-Barro constrói sua casa sem nenhuma aula de arquitetura? Como as abelhas sabem produzir o mel e organizar suas colmeias? Como os animais sabem o que é e como cruzar e sabem cuidar de seus filhos? Não é por observar e copiar a ação do outro, mesmo que isolado, saberá o que fazer. Há algo, chamemos, como chamaram, de instinto. Não, não nascemos sabendo o que é bom ou ruim, nascemos sabendo o que devemos fazer para sobreviver e procriar, grossamente. Porém, a humanidade se complexificou, e o que precisamos saber/fazer para sobreviver, mais ainda. Inventamos desejos que vão além das necessidades básicas, as comunidades cresceram e as dificuldades em se viver nelas, mais ainda. Normas, leis, esquemas,estruturas foram criados. A ética também.

Escolhemos a ética e ela nos escolhe. Ela nos escolhe quando nascemos em uma sociedade em que ela está inserida. Nós a escolhemos quando analisamos um determinado conjunto de ética e preferimos um universo a outro. É o que acontece quando um jovem ocidental decide que matar pessoas e se matar por uma causa é algo legítimo. Ética é escolha e hábito.

Alguns teóricos definem ética com base na sociologia e Marx; para esses, a ética deveria se basear no bem comum da sociedade, na aceitação de que devemos tratar a todos como a nós mesmos, pois só dessa forma, haverá harmonia e igualdade dentro da sociedade. Não digo que isso seja correto ou errado, concordo até com essa afirmação, digo apenas que é um ponto de vista, como tudo. Considerando que o objetivo individual seja que a sociedade viva em paz, e que essa paz seja benéfica para o individual e para a humanidade, definimos certas regras que poderiam levar a esse estágio de sociedade ideal. É uma escolha baseada em uma lógica. Quando falamos de lógica, não quer dizer que as considerações sejam inquestionáveis como o resultado de uma equação matemática, mas que o ponto em questão possui um concatenamento de ideias que leva a uma certa conclusão aparentemente lógica. Cada teoria possui sua lógica, até mesmo a de Hitler, tanto que convenceu a milhares.

A lógica é construída através de argumentos que movem e comovem, já diria Socrátes com seu pathos, logos e ethos, que no fim não se dividem, mas trabalham conjuntamente.

Deixando essa discussão sobre o que seja ética de lado, o que me levou a escrever mais essa postagem que ninguém lerá, é o enjoamento crescente que sinto com a hipocrisia e a falta de ética, a corrente em nossa sociedade, de alguns seres viventes.

A mentira é algo exclusivamente humano, obviamente, por depender da linguagem. A mentira consiste em criar fatos, situações, identidades, sentimentos, que não existem e nunca existiram. O mentiroso encena, finge, engana, com a intenção de levar alguma vantagem, seja de espécie material ou social. Para mim, o mentiroso fede e é antiético, dentro da ética que escolhi.  

Em alguns casos, a mentira pode ser considerada ética, como quando contada para salvar uma vida. Esse também é o papel da ética, ponderar em que situações é permitido um determinado comportamento. Porém, como podemos perceber no mundo real, ética serve muito mais para teatro que para regra a ser cumprida.

Talvez, um psicopata que tenha vendido o seu filho para o amante e depois escrito em redes sociais o quanto ama esse filho, mais que tudo nesse mundo, tenha a sua lógica que faz parte de sua ética.  Uma pessoa que engana a própria mãe, que a rouba, explora, e tira fotos com ela no hospital, acha que está correta dentro de sua ética individualista.  Outra que carregue bandeiras de lutas sociais, e dentro de casa humilha seus entes, usa da lógica de manter o seu próprio bem estar. Aquele que fura fila quando encontra amigos, aquele que faz e aceita suborno em autoescolas, aquele que quer pegar mais docinhos nas festas, aquele que pensa que os outros são obrigados a manter seus luxos, trabalham sob uma ética, uma lógica. A ética do individualismo, do foda-se todo o mundo.

Ética é escolha. Escolha social e pessoal. Eu escolho ser eu mesma, não ser escrava da opinião alheia, não ter ídolos. Eu escolho não ferir e não enganar. Eu escolho tentar fazer com que a ética de minha família leve em consideração esses pontos. Que sejamos pessoas naturais, reais e humanas. Que respeitemos o outro exatamente da mesma forma que desejamos ser respeitados. Que cada um vá e lute por sua sobrevivência e não vá se escorar no outro; que escolham a ética da realidade e da liberdade.

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