terça-feira, 18 de setembro de 2018

Mulheres são de marte


Eu não sei como é ser homem, mas não é nada fácil ser uma mulher; não sei se essa agrura sempre foi como é, não saberia dizer o que teria sido ser mulher em outras épocas e culturas, se a mulha-sapiens também vivenciava os mesmos sentimentos, como saber? Mas a verdade é que a mulher sempre meteu pavor nos homens, tanto pavor que atribuíram-na toda a culpa da danação humana, quando aquela filha de uma égua da Eva tentou e atentou contra Adão e a humanidade, fazendo-o comer uma fruta que Deus havia colocado lá propositadamente para testar o nível de submissão de sua criação, e desde então, o mundo sofre tudo o que sofre, como o homem (e nesse caso me refiro ao gênero mesmo), que teve que começar a trabalhar para comer e sustentar os outros. A mulher então passou a ser uma bruxa, literalmente, que deveria ser queimada nas fogueiras por causa de seus poderes malignos, ou por ter olhos tortos ou qualquer outra coisa que desagradasse o poder vigente. Ah, mulher, tratada como um ser inútil, incapaz de pensar, de trabalhar, de tomar decisões, de votar. As coisas sérias, como fazer guerras e orgias deveriam ser privilégios dos homens, e das mulheres mais sujas ainda, as com que eles realmente queriam estar, mas nunca poderiam estar. 

Concentremo-nos então apenas na atualidade. A menina nasce, bem disse Simone de Beauvoir, e começa a ser feita menina. Apresentam-na o mundo feminino, as atribuições femininas, o que ela deve ser e do que deve gostar. Na verdade, eu não tenho certeza sobre até que ponto gostamos do que nos é atribuído, ou do que escolhemos por essa ou aquela ração, até mesma a ração da atribuição. Se assim fosse, apenas atribuição, os meninos não seriam gays desde crianças, e são, porque já vi muitos. O ser não se torna gay, ele é, e não sei dizer se ter mais afinidades com coisas do mundo ditas pertencentes ao universo feminino tem a ver com o que ele é, biologicamente, ou com o que ele sente  fazer parte. E lá vou eu me perdendo nas reflexões de gênero e sexualidade, mas, enfim: temos um mundo criado para nós, e não é o de protagonistas.

Hoje ainda ouço homens dizendo que mulher não sabe de nada.  Jamais disse que homens e mulheres são absolutamente iguais, mas isso não diz sobre a capacidade intelectual, pois, como podemos perceber, há jumentos e jumentas nesse mundo.  Somos diferentes em vários outros aspectos. Primeiramente, temos essa coisa terrível que Deus criou que são as mudanças hormonais. Pra quê essa palhaçada?  Vejamos a galinha. Nós, seres humanos, vivendo nas cidades, nos esquecemos de que existe um universo ainda misterioso para nós, que é o dos animais. A galinha bota seus ovos, e do nada (obviamente devem existir mecanismos biológicos que orquestram) fica choca. A galinha fica insuportável! A galinha fica agressiva, muda de personalidade e necessita de ovos para chocar. O ser fica lá, parado, durante 21 dias, se não me engano, e o seu calor faz gerar filhotes! E os pássaros? Sabem que tem que construir seus ninhos, as abelhas sabem que tem que construir suas colmeias e fabricar o mel, os peixes sabem que tem que ir correnteza acima e as tartarugas sabem que tem que ir botar na praia. Simplesmente, sabem. As pessoas pensam. Pensam que sabem. Então, a mulher nasce e passa por esse temporal de hormônios todos os meses, se não ficar grávida. Se ficar grávida, é outra história. O corpo se transforma, estica, muda, e depois, de dentro, sai um ser humano. Tudo muda para sempre. A mulher não pode andar na rua sozinha á noite sem sentir medo. a mulher não pode cumprimentar os homens com um sorriso, porque já consideram um flerte. Quando a mulher está separada, ela não é convidada para festas, às vezes, nem as de família. Quando não tem um macho que tome conta dela e a faça ser séria, ela não é vista como confiável. Que a mulher se mate de trabalhar, normal. Se sair à noite, vagabunda.

Lembro-me que uma vez comentei que a mulher separada ainda era vista com maus olhos, e alguém disse: "Que é isso, as coisas não estão mais assim, mudaram". Hoje estamos assistindo ao vivo e a cores as "mudanças" orquestradas por Bolsonaro, Daciolo e seus seguidores. A sociedade está de parabéns. E mulher é mulher.

Muitos nos vêem como bibelôs, como guerreiras, como ameaças, como manipuladoras, feiticeiras e loucas. A maioria nos vêem como objetos. Ainda.

Nem eu sei o que sou. Só sei que esse mundo não parece ter sido feito pra mim. A mulher Alienígena.

domingo, 16 de setembro de 2018

As inutilidades do Facebook


Cada vez eu entendo menos o compartilhamento no site do Facebook, e cada vez eu sinto mais decadente tal plataforma, apesar de ainda ser a mais utilizada para tudo o que se imaginar; talvez seja a minha antipatia pelo site, pelo tempo que já perdi naquilo e pelos desgostos que aquilo me trouxe é que me façam vê-lo cada vez com mais irritação e incompreensão. Mas, pensemos analiticamente e nos atentemos para as seguintes questões:

😳Por que as pessoas sentem a necessidade de postar todos os dias, e diversas horas por dia, fotos delas mesmas, que dizem sobre como estão felizes, se divertindo, estão belas ou, estão deprimidas?

Porque, como ouvi ontem, "todos querem ser famosos", ou seja, todos querem ser reconhecidos como belos, capazes, felizes, bem sucedidos, ou desejam que alguém venha consolá-los, e a internet permitiu isso a todos através de uma mãozinha, um coraçãozinho e umas palavrinhas que querem dizer mais aos leitores do amigo que ao amigo. Já falei muito sobre isso em outras postagens.

😳Por que as pessoas compartilham notícias?

Por que pensam ser interessante e querem que seus amigos tenham acesso à mesma informação, ou por que querem estar ligados à opinião divulgada na notícia de alguma forma. Quando abrimos o site, somos bombardeados por várias versões da mesma postagem e de notícias que não estamos interessados, como sobre onde fica o fiofó da cobra. De vez em quando encontramos algumas pérolas, mas na maioria das vezes, perdemos horas de nossas vidas ao invés de pesquisarmos diretamente sobre o que gostaríamos de saber, ou visitássemos diversos sites de notícias que considerássemos confiáveis.

😳Por que as pessoas compartilham coisas sobre política?

Porque simplesmente querem disseminar os ideais que consideram importantes, para fazerem campanha, militarem. Porém, essa estratégia é extremamente inútil pelos seguintes fatos:

1- Normalmente, a maioria de nossos amigos comungam dos mesmos ideais que nós, sendo assim, essas pessoas só farão eco comentando, recompartilhando, elogiando, dando likes.

2- Os poucos amigos que não compartilham das mesmas ideias, não estão interessados em ver as  postagens de quem quer militar para o lado oposto,  da mesma forma que quem quer militar não quer ver as postagens do outro, ou seja, será bloqueado, excluído ou receberá comentários atrevidos que não levarão a lugar nenhum, a não ser ao desgaste mental e social.

3- De acordo com os tais algorítimos do próprio site, haverá um número limitado de contatos que verão a publicação, geralmente são os com quem mais interagimos. Clube da Luluzinha trocando as mesmas figurinhas de sempre.

😳Por que as pessoas ainda comentam em publicações?

Porque querem interagir com as pessoas, por que não querem deixar o amigo no vácuo, porque realmente acharam interessante e quiseram dizer algo que não acrescentará nada a coisa nenhuma, porque querem fazer algum tipo de brincadeira pública, e diversos motivos. Mas a verdade é que comentários são mais inúteis que uma bicicleta para um peixe, tanto os comentários de aprovação quanto os de ódio. Nunca acrescentam absolutamente nada, é como se fossem uma enorme lista de paráfrases do senso comum.

😳 Porque as pessoas divulgam suas vidas, rotinas e tudo o mais na internet?

Compartilhar coisas boas com amigos e familiares é uma delícia, mas publicizar a vida para o mundo tem a ver com a primeira pergunta. Só digo que as pessoas deveriam criar mais memórias no cérebro do que nas redes sociais. É só a minha opinião, obrigada, de nada.

O site tem suas utilidades, como encontrar pessoas mais facilmente e saber de eventos... Mas essas são coisas que fazemos quando precisamos, utilizando-o como uma ferramenta, e não oferecendo ao mundo tudo sobre nós como estamos fazendo. Aquilo não é vida real. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Uma empregada para chamar de sua


A minha mãe era empregada doméstica. A primeira vez que eu provei estrogonofe, foi quando ela trouxe as sobras da casa da patroa; de vez em quando, trazia também roupas de parentes dos patrões, lembro-me bem do cheiro dessas roupas, nunca era o mesmo que o das nossas. Algumas vezes também apareciam alguns produtos de beleza dos anos 60 ou bugigangas que recebíamos com alegria. Uma vez eu fui até a casa da patroa da minha mãe, uma senhora distinta, que morava sozinha e estava sempre elegante. Mesmo sozinha o tempo todo, a minha mãe colocava a mesa, tudo bonitinho, com as louças, talheres e toalhas de linho. A dona era uma pessoa ótima, uma vez me emprestou dinheiro para fazer o telhado de casa, que estava a ponto de desabar, nunca aceitou de volta. Mas algo não estava certo.

A minha mãe ficava sempre apreensiva na casa dos patrões, cochichava e agia como se aquelas pessoas fossem seres superiores, de outro mundo, seres que possuíam algum tipo de direito divino e que habitavam em um mundo cercado por uma linha intransponível, e que nós estávamos mortalmente do outro lado. Não era uma questão de hierarquia, somente, mas era uma questão de identidade, ou seja, a maneira de se ver e de se colocar no mundo.

Eu nunca seria uma boa empregada doméstica. O Brasil é o país que possui mais empregados domésticos no mundo, e isso diz muito. O hábito ou desejo de ter alguém para nos servir e fazer toda aquela chatice e sujeira que não queremos fazer, é parte da alma brasileira. Eu também gostaria de chegar em casa e não ter que limpar o chão ou cozinhar diariamente, lavar toneladas de louça suja, levar o lixo para fora, arrumar o meu próprio guarda-roupa; gostaria de ter  todo o meu tempo para ler, estudar, viajar, fazer trabalhos que me agradem e que me deem visibilidade, ou ter tempo para ficar dormindo a tarde toda. Gostaria de ficar assistindo as séries no Netiflix e fazendo tudo  o que é curso que aparecesse. Talvez seria bom também que outra pessoa, com outra cultura, outra educação, outros valores, educassem os meus filhos, os levasse para a escola e aguentasse as suas chatíssimas e infinitas birras. Só que não.

Há diferenças entre contratar alguém para prestar algum serviço esporádico de limpeza e ter uma empregada doméstica. A casa é o espaço privado e íntimo, onde a família vive, briga, planeja, cresce, se desenvolve, não é uma empresa. Ter uma pessoa estranha e desconhecida dentro da casa, da família, para servir, como se fosse um móvel, parece-me uma das coisas mais degradantes. Como eu poderia educar meus filhos dando-lhes uma vida onde uma pessoa existisse dentro de casa para arrumar suas camas, lavar seus pratos sujos e limpar a sujeira que derramassem no chão? Como um indivíduo pode ser completo e compreender as relações e os seus deveres como seres humanos, se aprendessem desde cedo que alguns nascem para servir, e que eles não são esses alguns? Como um indivíduo pode crescer sem lavar a sua própria cueca e limpar o que suja? Como um elemento tem a capacidade de sujar algo e jogar para que o outro limpe?

Muitos defendem a opção por manterem empregados domésticos, pois estariam oferecendo emprego aos que precisam, e argumentam que não há nada de errado em pagar para que alguém faça o trabalho chato e sujo que não querem fazer. Boas argumentações, mas se vivêssemos em uma sociedade mais evoluída, não precisariam existir pessoas que se sujeitassem a trabalhar, muitas vezes em condições humilhantes, fazendo o que os outros não querem fazer por eles mesmos, e depois, fossem para suas casas caindo aos pedaços para fazerem por elas mesmas os mesmos trabalhos "humilhantes".  Se vivêssemos em uma sociedade igualitária, todos poderiam sair para trabalhar em coisas interessantes e ter tempo para cuidar de suas próprias vidas e filhos. E, quando não quisesse fazer, pedisse comida em casa ou mandasse a roupa para a lavanderia.

Um dia, no programa de esporte, que, aliás é só sobre futebol, vi uma mãe já idosa indo visitar o filho nos treinos com o netinho. O engraçado era que o bebê estava o tempo todo com a babá, mas nada foi mencionado sobre ela, era como se ela fosse invisível. Falavam da vovó dedicada, do papai amável, mas nenhuma palavra sobre a mulher invisível que estava carregando e cuidando da menina.

Ter um empregado doméstico é como ter uma coisa, um bem. Eu não conseguiria ser uma nem conviver com uma me servindo dentro de casa, justamente por que não a vejo como um móvel, mas como uma pessoa completa e igual a mim. 

Quando penso na relação da minha mãe com os patrões, enxergo uma escrava submissa aos mandos dos donos. Eu não gosto disso. Eu não gosto de elevadores de serviço; eu não gosto de ver babás, principalmente quando elas usam uniformezinhos brancos; eu não gosto de fila VIP; eu não gosto de "serviço braçal ou intelectual"; eu não gosto de machismo, racismo, elitismo; eu não gosto de Boçalnaro.

Posso parecer radical, mas não há igualdade de oportunidades verdadeira onde as pessoas desejam ter empregados domésticos dentro de casa. Não me parece certo pagar alguém para que limpe nossa sujeira, nossas calcinhas encardidas, o barro dos nossos pés no chão, nossa cama suada, e os pratos cheios de comida dentro da pia. Enquanto esse pensamento escravocrata e burguês prevalecer, não adianta fingir que nos tratamos igualitariamente, nem que já somos crescidos o suficiente. 


terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sonhos de uma mestranda - sobre memória e identidade



Quando estamos imersos em um trabalho de pesquisa e o objeto de estudo, assim como as teorias que se relacionam a ele, passam a fazer parte fundamental de nossa existência, encontramo-nos em um estágio emblemático em que muitas reflexões podem surgir de diversas maneiras; permito-me a mencionar um sonho que tive em uma dessas noites agitadas e que, ao acordar, nomeei-o de “sonho sobre a identidade”. Além de ser um dos sintomas do quão se torna perturbador e profundo o processo de pesquisa, a narrativa de um sonho tem muito a nos dizer sobre nossos medos, desejos e sobre reflexões em andamento, as quais surgem de maneira simbólica, como nos revelou Freud em seus escritos.

Esse foi um dos sonhos mais belos que já tive, esteticamente falando; iniciou-se em plano aberto, mostrando algumas casas de alvenaria em terra árida. O clima e a iluminação nos remetiam ao oriente médio, mas, em meu sonho, tratava-se da cidade em que cresci, Ipatinga. Eu estava lá para fazer um documentário sobre um grupo de jovens que se destacou pela originalidade da música. Juntamente com algumas pessoas da comunidade, sentei-me na beirada do asfalto e de lá observávamos, por entre pedras, os jovens negros e bem produzidos, produzindo um videoclipe; eles se divertiam na areia da praia, com o mar ao fundo (em Ipatinga). Ouvíamos o som da música que misturava reggae e Luiz Gonzaga. Passamos para outro plano, como se estivéssemos em um filme; agora estamos no meio de uma ruela escura, onde mal podemos distinguir os itens da paisagem negra. Uma menina vestida com short e mini blusa, sem seios, descabelada e suja, nos fala. Ela seria a possível informante que nos ligaria aos personagens do grupo. Sua fala era triste para nós, mas era apenas a realidade para ela; contou-nos sobre seus filhos, que estavam esperando sozinhos e por isso tinha pressa; disse que um dos integrantes tinha ido para a França e esquecido a família na favela, que outro tinha irmãos presos, e ainda, que um terceiro, deixava os pais passarem fome. O filme do sonho agora mostrava um barraco escuro e entulhado, onde os integrantes do grupo chegavam, alegres e falantes, e, rapidamente, tiravam seus sapatos e tênis de luxo para calçarem os confortáveis e baratos chinelos e sandálias. Não precisavam mais representar, podiam ser eles mesmos e ficar com suas próprias identidades. A última cena de meu sonho, antes de ser acordada pelo sair do meu filho para a escola, foi a de um outro barracão escuro, onde uma japonesa com o rosto pintado de branco e vestida de gueixa sentava-se a espera de seu marido, um rapaz negro do grupo musical. Ele aproximou-se dela e disse algumas poucas palavras em português, ela sorriu e disse sim, com a compreensão de seu mundo às palavras do mundo dele. Jamais falariam a mesma língua. Acordei pensando sobre o que aquele sonho queria me dizer e sobre o que eu teria a dizer sobre aquele sonho.

Os integrantes podiam sair da favela, mas a favela nunca sairia deles, no sentido que suas identidades estariam eternamente ligadas ao que eles vivenciaram em seu processo de crescimento e formação individual e coletiva. O ato de retirar os sapatos quando se encontravam em seu ambiente familiar, onde se sentiam confortáveis, onde tinham permissão para serem o que o interiormente sentem que são, nos faz pensar sobre os papéis que precisamos representar em nossas rotinas, ou sobre as identidades que desejamos ou precisamos adquirir. O mesmo acontece com alguém que é habituado a comer frango com as mãos e precisa adotar uma forma de agir diferente do que lhe é natural quando come em um restaurante, ou quando precisamos ser polidos ao perceber que o atendente de um local é alguém de quem não gostamos. Trata-se do controle do corpo a que se referia GIDDENS(2002), quando o corpo age controladamente a fim de representar um papel de acordo com os comportamentos aprendidos socialmente. Nesse ponto, a memória e a identidade estão intimamente ligadas, pois é através da memória das práticas sociais, e de todos os elementos que fazem parte da memória coletiva e social de uma comunidade, é que as identidades são construídas e significam.

Mais reflexões a posteriori.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Futebol: o culto ao culto


Tenho falado um pouco sobre o futebol e o que percebo agora, mais claramente, é que se construiu a cultura de se cultuar o próprio culto ao futebol, ou seja, é considerado meritoso se descabelar, sofrer e dar a alma pelo time de futebol, cultua-se essa paixão descabida e desenfreada; o verdadeiro torcedor seria aquele que faz parte de torcidas organizadas, que paga mensalidades para o clube, que frequenta estádios assiduamente, que veste a camisa, que desqualifica o adversário, que chora, grita e se desespera, e isso seria uma grande qualidade, segundo os apaixonados por esse esporte.

Esse culto ao fanatismo foi se criando em nossa cultura com grande ajuda da mídia, obviamente, como podemos ver nas capas de todos os jornais. Futebol sempre é destacado como a coisa mais séria e importante em nosso país, como poderíamos duvidar? Os jornais retratam o que é importante para o povo, ou criam necessidades e "importâncias"? Bem, essa é outra discussão.

Quando se fala sobre fanatismo em outras esferas, isso geralmente é visto com negatividade, como no caso do fanatismo religioso, mas ao contrário, no caso do futebol, parece que é obrigação para os amantes de tal esporte. Alguns admiram-se em assistir crianças sofrendo profundamente com a derrota de um time, admiram o "amor" doído e a escravidão servil, a devoção a uma camisa, uma bandeira e a jogadores milionários. 

Não, eu nunca entenderei que as pessoas realmente levem a sério o futebol, e quando digo levar a sério, refiro-me a alterar todo o comportamento por causa de campeonatos. Jamais entenderei a alegria desmesurada em ver um time vencer outro. Entendo apenas que essa é uma forma que as pessoas encontraram para dar sentido às suas vidas e de saírem de suas capas protetoras da civilização, e por esse lado, até que gostaria de ter uma paixão que me fizesse sair de minha armadura e me permitisse  ser mais humana do que gente civilizada, arrancando tudo o que fica doente de dentro da alma. Mas, ainda não tenho.

Só acho que tudo o que escraviza, transforma as relações, gera stress e ansiedade, não pode ser algo saudável. Sim, é um culto, por que trata-se de religião e de fé, de veneração e paixão, e, mais que isso, de submissão diante de um ser sagrado. Nunca tive religião. Talvez isso que me falte para compreender e ser mais humana. Ou não.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Sonho sinistro


Chegaram bêbados do aniversário da Mariazinha, mãe da Bete, e colocaram a Laurinha para dormir na cama. A menina de três anos veio dormindo no táxi e nem percebeu que seu corpo havia passado do colo cambaleante do pai para o conforto de seu colchão. Pai e mãe se livraram das roupas e se deitaram na cama, no quarto que ficava no mesmo corredor que o da menina. A cama ficava encostada na parede com os pés ao lado da porta, que ficou entreaberta para possíveis requisitadas da filhinha. O sono foi imediato, mal o casal se deitou e se entrelaçou e caíram nos braços de Morfeu. Não se pode precisar o tempo passado, mas em um determinado momento, a mãe acordou repentinamente, como se alguém a tivesse chamado. Logo pensou na menina, e, com muito esforço, levantou-se, sentou-se na beirada do pé da cama, e olhou pela porta para ver se a menina dava algum sinal. Estava escuro, e Bete sonolenta, com os olhos pressionados, na escuridão, conseguiu visualizar o vulto de um bebê de fraldas com as duas mãozinhas na parede, virado para ela. Apertou mais os olhos para tentar ver melhor, mas o sono foi maior, voltou para o travesseiro e fechou os olhos, supondo que deveria ter visto a menina, e, se fosse ela, voltaria logo a dormir ou viria chama-los. Porém, algo a incomodava em seu lento raciocínio alcoólico, aquilo parecia um bebê de aproximadamente um ano, não parecia sua filha. A dúvida e a sonolência brigavam e ela não conseguia se decidir entre a conferencia e a sonolência. Nesse momento, o pai também teve o mesmo gesto,  levantou-se, deitou-se, incomodou-se ao ver o vulto,  mas não conseguiu tomar decisão sobre a dúvida. Dormiram mal nessa noite.

No dia seguinte, tiveram a impressão de terem tido um sonho sinistro e a sensação de que algo maléfico pairava no ar daquela casa. Não comentaram um com o outro, mas sentiam.

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Esse mundo cansa


Eu não entendo nada.
Eu não entendo como um pai pode dar laxante para os filhos e postar na internet para ganhar curtidas. Cansei de ver pessoas futicando perfis de conhecidos e criticando-lhes fotos, postagens, e relacionamentos. Cansei de ver comentários maravilhosos em fotos terríveis e comentários terríveis por trás das telas. Os postadores sequer imaginam quem no universo tem acesso às imagens, mas não se importam em deixá-las públicas para que as pessoas as analisem de todas as formas. O importante é ser famoso no mundo do Facebook e Instagram, ser popular e receber mais de 500 curtidas. Isso é o significado da vida pós-moderna. Quantas coisas você curtiu hoje, e de quais você se lembra? E das curtidas de ontem e da semana passada? Talvez se lembre da foto em que sua prima estava com uma sobrancelha horrível, ou que sua cunhada estava sensualizando para enciumar o namorado. Talvez se lembre daquela foto da amante do ex da sua amiga que foi vasculhada de cima a baixo. Talvez. Literalmente, cansa a beleza. Cansam tanta exposição, tanto ego, tanta gente sem o que fazer na vida real, que se maquia para tirar 50 fotos dentro de casa, ou que fica analisando os melhores cenários de cada festa. Cansam postagens militantes, cansam mensagens religiosas, de bom dia, boa noite, boa vida. Cansam correntes supersticiosas, alimentícias e políticas; cansa pedido de petição. Cansam briga em grupos, videos engraçadinhos, e montagens com candidatos. Cansam imagens de gente descolada. Cansa. Cansam ainda mais esses meus textos cansativos reclamando na internet sobre o que acontece na internet. Esse nosso mundo, cansa.

sábado, 28 de julho de 2018

Gente besta


Gente é gente em qualquer lugar.
Hobbes não ficou no século passado,
Subjugado pelo suposto pensar, 
Que condenou-o ultrapassado.

"Só sei que nada sei", disse o amigo,
E de  nada sabe esse humano
Que corre para o abrigo
Fazendo ciência nos panos.

Se um camaleão muda de cor,
Se o pássaro sabe de seu ninho
De seu caminho,
Se abelhas fazem o mel,
Formigas suas cidades,
Sem alardes,
Você, humano, não é natural?
Não nasce sendo nada?
Vida dominada?

O mal é a idolatria,
O teatro das superioridades,
Que nivela, cria
Castas de verdade.

O rei, o doutor, o super star,
Vão estar,
Todos,
Com as formigas.

Os "ismos", e "istas" são,
Na verdade,
Extremos 
Para egoístas.

Não há igualdade
E nunca haverá.
Mas diferença
Não é
Diploma de Deus,
Ou de Zeus,
Ou de juíz do supremo,
Que de supremo,
Tem nada.

Bestas!
Idólatras!
Egocêntricos!
Estripadores!
Humanos!

Fadados ao fracassado mundo
Das Castas,
Das classes,
Dos níveis,
Das séries,
Dos condomínios,
Dos conjuntos "Minha casa minha vida",
Dos pontos no Lattes,
Dos likes nas redes,
Dos números de notificações,
Da cegueira seletiva,
Das teorias sem prática,
Das práticas sem teoria,
Do ódio ao diferente,
Do amor à própria imagem,
Da idolatria,
Tudo o que o "animal" nasce sem,
E tão cedo não terá.

Amém.

terça-feira, 24 de julho de 2018

Telefone celular: a porta do inferno


Estava eu em uma lanchonete, quando involuntariamente tomei consciência de um assunto discutido atrás de mim. A moça perguntava à sua amiga sobre o andamento de uma tal desconfiança que ela estaria vivenciando com o seu parceiro, era algo relacionado a mensagens no Whatsapp. Segundo a desconfiada, parecia que o camarada era inocente, por que, "apesar de ela não gostar", ela possuía a senha dele, pois ele mesmo a havia dado, e lera algumas mensagens. Relatou ainda que a moça danada era uma menina muito jovem, e que havia mandado mensagem agradecendo por algo, não entendi bem o que era, e que diversas vezes, mandava-lhe mensagens a fim de introduzir assunto, elogiando, flertando. Fiquei pensando sobre isso.

Há certos códigos no mundo e em nossa cultura que são bem claros,  e nenhum papo em relação à defesa da privacidade, da educação, ou seja lá do que for, vai mudar. A pessoa quando está interessada em algo a mais com outra, arranja desculpa para entrar em contato, pega no pé, mesmo quando não tem intimidade nenhuma com o tal que receberá toda a atenção e tentação. Se alguém manda mensagens todos os dias ao perceber que o outro está online, de manhã cedo, tarde da noite, se a todo o momento manda coisas que fizeram lembrar de algo que comentaram, se manda mensagem do tipo: Só passei para deixar um oi (não existe mensagem mais inútil e reveladora nesse mundo), se manda mensagens implicando de alguma forma em tom de brincadeira, não há dúvidas de que há segundas intenções. Nós só nos comunicamos de forma parecida com amigos muito íntimos, e não cobramos atenção (a pessoa pode responder só no outro dia que será normal), e nunca passamos "apenas para deixar um oi", já entramos com a fofoca. Mesmo assim, quando o amigo é do sexo oposto e não há nenhum interesse, falamos com ele de vez em quando, quando há algo importante, não ficamos horas teclando e falando abobrinhas, diariamente, tarde da noite.

Eu sou mulher e já passei por diversas fases na vida, conheço as fases e conheço as mulheres. Eu sei que, se dermos asas para ver onde a cobra pode chegar por vaidade em relação a nossos poderes sedutores, ela vai longe e vai parar onde não queremos. Sei também que, quando um não quer, dois não brigam. Dessa forma, considero que as pessoas deveriam pensar mais sobre essa questão dos assédios facilitados pelas tecnologias. Existem no mundo artifícios como deletar e bloquear. Se alguém permite que o outro o assedie, mesmo depois de deixar claro que não quer nada, e, principalmente, depois de ter assumido um compromisso de fidelidade com outra pessoa, essa pessoa, na verdade, gosta e deseja ter esse tipo de assédio e manter as possibilidades abertas. Educação tem limites, e o limite é quando alguém, que não possui relevância na vida de outro, está diretamente interferindo na vida deste. Não há nada que nos obrigue a dar acesso direto a nós mesmos, à nossa intimidade, a outras pessoas que não fazem parte dela, a não ser que desejemos esse tipo de assédio.

Sendo assim, dane-se essa menina que mandava mensagem para o camarada, ele é quem deveria ter tomado atitude de impedir que esse fato inoportuno continuasse acontecendo, seja bloqueando, ou falando francamente sobre a atuação inadequada dela. As pessoas só se aproximam de quem deixa espaço para isso. Não é só por que todos possuem contas nas redes sociais que são obrigados a se abrirem e deixarem que pessoas inoportunas adentrem em suas intimidades, chamando-as a todo o momento, mesmo quando estão com os que amam. Esse, sim, é o limite da privacidade. Não é só por que todos podem agir de certa forma é que essa forma estará certa, e não é por que alguém quer me incomodar que eu permitirei.

Concordo que a idade altera esse tipo de comunicação e interferência, pois quando mais jovens e livres, tendemos a passar mais tempo em interações desse tipo, como uma maneira de compartilhar, conhecer, experimentar e entreter, mas depois de uma certa idade, tal maneira de passar tempo torna-se enfadonha e sem sentido. Se você é um homem ou uma mulher formada, que tem ocupações e preocupações reais, que possui uma família, que já conhece o suficiente sobre um bando de coisas, e se mesmo assim sendo, ainda fica passando horas papeando com jovens adolescentes, ou com pessoas que claramente desejam interferir em sua vida forçando intimidade e desrespeitando os limites,  repense sobre suas prioridades. Fim.




terça-feira, 17 de julho de 2018

Por que homem só fala de futebol?


Durante algum tempo, todos os dias, a qualquer momento em que eu me atrevesse a parar para prestar atenção à conversa dos homens que trabalhavam na rua, a conversa era sempre a mesma: futebol. Essa não é uma mera questão que versa sobre a tal "paixão nacional", ou sobre supostos gostos masculinos, mas é algo que nos faz pensar sobre muitas coisas que aí estão envolvidas. Essas pessoas falam sobre futebol, não apenas como alguém fala do tempo, para introduzir conversa ou se aproximar de outro, mas falam de futebol para tudo.O futebol é como se fosse também uma grande metáfora da vida, de suas vidas, que funciona como instrumento de identificação e de argumentação.

A primeira coisa que me vem é a questão sobre grupos, e sempre digo que essa questão é fundamental para a humanidade, pois explica muita coisa. Pensemos que antes da necessidade de se identificar, se diferenciar, ou seja, de pertencer a algum grupo, vem a necessidade de preservação da vida; essa necessidade é que move tudo mais, é que transforma e forma, é que cria a ação. É através dessa necessidade natural e animal de preservação da própria vida, do próprio EU, é que tudo mais existe; o medo, a manutenção do medo, ou seja, a utilização do medo como arma de manipulação, nada mais é que a afirmação da necessidade da preservação do EU. É essa necessidade que faz com que as pessoas se submetam, se agridam, se excluam, e essa necessidade é que também cria grupos.

Em relação à identidade, eu posso dizer que sei quem sou em comparação ou em contraste com o outro. Eu sei que eu sou eu, porque eu não sou o outro, ao mesmo tempo que encontro pontos de congruências com o outro, e ao mesmo tempo também que gostaria de ser como o outro; se o outro é, ou possui algo que eu não possuo, isso pode me levar a desejar ter ou ser o outro. Dessa forma, quando a identificação ou a falta dela se torna extrema, podem surgir sentimentos e ações que visem destruir o que enxergamos no outro, seja o que queremos ou o que odiamos; assim acontece com grupos radicais que visam o extermínio daqueles que representam tudo o que odeiam (como por exemplos negros, homossexuais ou judeus), ou a destruição do que amam, como acontece com alguns fãs que assassinam seus ídolos. É como se o EU estivesse ameaçado pela diversidade do outro, pelo o que o outro tem de melhor e de pior que nós mesmos.



Desde muito cedo, precisamos pertencer a grupos, fortalecer nossa identidade através das características que esses diversos grupos possuem e as quais nos agradam e nos seduzem. O que seduz e agrada a cada um, vai depender de diversas questões, que abrangem as áreas sociais, culturais, históricas, biológicas e psicológicas. A verdade é que o ponto mais importante é a relação que vamos construindo com as pessoas e com a sociedade através de nossas vivencias e emoções, que vão ressaltando características do outro e de nós mesmos, as quais vamos tentando moldar ao longo da vida, de acordo com essas inúmeras questões ditas anteriormente. Tudo isso diz do que somos, do que nos tornamos, ou do que escolhemos nos tornar. Então, fazer parte de um grupo como o do futebol, diz muita coisa.

Em nossa cultura, assim como em muitas outras, a importância do futebol cresceu de maneira notável. Nasceu como um esporte simples e barato, foi cultuado pela media e pelos governos, criou ídolos, trouxe emoção, ópio para os simples mortais que precisam descarregar sua agressividade e estress oprimidos pela cotidianidade; em uma partida de futebol, é permitido expressar-se livremente, aliás, é até esperado que nos comportemos dessa maneira, é algo que aprendemos com nossos pares; é como se fosse uma espécie de carnaval que dura 90 minutos, uma válvula de escape e uma fonte de fortes emoções para os torcedores. Quem não gostaria de fazer parte de um grupo desses? Muitas vezes, o fanatismo pelo futebol é visto como uma qualidade e os extremos são elogiados, o que dá mais liberdade e potencializa a demonstração extrema de paixão e as próprias emoções. Se é conveniente, bom ou ruim, não é a questão. A questão é que o futebol se transformou em um grande evento, em todos os sentidos, um ritual familiar querido e aguardado, e por isso não costumamos questionar as transações milionárias, o marketing e tudo que hoje também faz parte do futebol. É uma religião.

Essa religião, o futebol, com seus diversos times, dão aos mortais uma chance de pertencerem a um grupo que pode ser vencedor, como os soldados que vão para as guerras por sua pátria. Quando os torcedores falam das vitórias de seus times, dizem "nós", como se estes realmente fizessem parte de uma legião, daquele time, como se suas vontades e superstições fossem influenciar de alguma forma no resultado de suas partidas, eles realmente "vestem a camisa", e muitos ainda contribuem financeiramente com doações a fim de "ajudar" o time milionário. O futebol deixou de ser apenas uma fonte de entretenimento para passar a ser um ritual religioso e sagrado, intocável e inquestionável. Fazer parte de um grupo como esse reforça as características favoráveis da identidade do indivíduo que se torna, por tabela, também um vencedor, por que é parte do grupo, e por torcer, contribuiu com a vitória.



Além de todo esse lance sobre grupo e identidade, falar sobre futebol seria uma maneira de se expressar superficialmente, não tratando especificamente de si mesmo, mas assumindo para si características de seu grupo, ou seja, fazer parte de um grupo que torce para um time, automaticamente significaria assumir características atribuídas aos torcedores daquele time, assim como pegar para si as suas vitórias e, com justificativas, suas derrotas. O embate dialógico se daria em nível metafórico e trataria aparentemente sobre "o outro", o time, mesmo que o debatente se identifique e se refira ao time como "nós". Dessa vez, é o time que fala por ele, ou ele que fala pelo time, os méritos, as vitórias, os vexames, as derrotas, são parte dele, mas não totalmente atribuídos a ele. Então, esses torcedores, desde os mais fanáticos aos que apenas utilizam os episódios para entretenimento sem sofrer muito, podem passar horas falando sobre os lances, discutindo os passes, o carácter dos jogadores, os títulos, sem que precisem falar deles mesmos, ao mesmo tempo que falam deles mesmos através de suas argumentações. É nesse diálogo, onde cada um defende o seu time, que eles se identificam como indivíduos que fazem parte de um grupo maior, o dos amantes de futebol, daí a camaradagem na maioria das discussões.

Não, não é assim com mulheres (ou homens) falando sobre novela, ou sobre qualquer outra coisa. Quando falo sobre mulheres e novelas, é porque existe um estereótipo sobre homens e futebol, e mulheres e novelas. A questão não está relacionada diretamente a gênero, pois, embora, culturalmente, a predominância de interesse por novela seja de mulheres e o engajamento por futebol seja de homens, vemos que o contrário ocorre cada vez mais. A novela, os personagens, os acontecimentos, são apenas fatos que as pessoas trazem à tona e discutem, concordando ou discordando; fazem conjecturas, mas, em geral, todos tem a mesma opinião e torcem para os mesmos personagens, porém, as histórias da novela não fazem parte da identidade, e da cotidianidade como o futebol parece fazer. Podemos, talvez nos identificar com personagens, imitá-los e roubar-lhes alguma característica, mas não sofremos desmesuradamente por suas perdas, não idolatramos o programa, não o santificamos (salvo alguns fanáticos). A novela é apenas mais uma fonte de entretenimento que tem seu início, meio e fim, sabemos que é ficção e pronto. Nós não fazemos parte de um grupo de noveleiros, ou filme-maníacos, fanáticos por séries, ou algo parecido, esses hábitos não criam grupos definidos e coesos. O futebol parece ser parte da vida dos indivíduos, parte integrante de sua identidade, ao menos em sociedades que idolatram o futebol, como a nossa. Embora o título sugira, não é só homem (embora seja a maior parte, e embora a maior parte do assunto tratado por eles, em geral, seja futebol) que fala de futebol.

Bom, eu não sou fã de futebol, assisto de vez em quando para entretenimento e não gosto de fanatismo de nenhuma espécie, mas não posso negar que o futebol se tornou algo importante e é parte da identidade de muitos brasileiros; também é notório que o futebol rende muito assunto para ser discutido, muito além dos lances futebolísticos.




segunda-feira, 9 de julho de 2018

Os vira-latas do mundo


Depois de ver pelas ruas e internets da vida algumas jovens que estão de "saco cheio" de muitas atitudes machistas, resolvi falar um pouco sobre relacionamentos, mais especificamente, sobre pessoas que não amadureceram a ponto de saber que escolhas tem consequências, e que quando envolvemos outras pessoas em nossas escolhas, somos responsáveis pelo mal que esse envolvimento possa causar-lhes. Já falei inúmeras vezes sobre isso, e, longe de ser uma expert em relacionamentos, sou apenas uma observadora reflexiva da realidade. Cada qual deveria procurar viver da maneira mais aprazível, mas o prazer é algo que pode apresentar muitas nuances. Geralmente, se não sofremos de nenhuma fobia ou outra coisa que nos diferencie da maioria, sentimos prazer em satisfazer nossas necessidades básicas, que são, por exemplo, a de saciar a fome, a sede, o sono, e os desejos sexuais; porém, podemos escolher qual a melhor maneira de satisfazer essas necessidades, e cada um sabe, ou deveria querer saber de si. Há pessoas que desejam uma vida repleta de emoções, variedades e prazeres transitórios, e há outras, que sentem prazer em eleger pessoas e compartilhar pequenos prazeres, e há muitas variações disso. O problema é quando as regras do jogo não estão claras e envolvemos pessoas que não estão dispostas a participarem de determinados joguinhos. O problema é quando temos a ciência de que estamos envolvendo alguém em nossas redes e esse alguém não tem ciência das reais intenções do jogador. Isso é cruel, infantil e desonesto.

Existem pessoas que pensam estar em um patamar superior e que o seu jogo é o jogo de todos, onde o vencedor é sempre o mesmo, ou seja, elas mesmas. Não respeitam laços, contratos, nem os seus, nem os dos outros, e saem pelo mundo a ferir almas quase inocentes que se enrolam nas artimanhas da jogatina. Geralmente, mas não é regra em nosso mundo contemporâneo, o grande jogador é o homem, que sai pelo mundo enredando as pobres almas, sem se dar conta das consequências. Há alguns, que mesmo quando firmam contrato com alguma pobre desinformada, saem por aí atirando suas balas como se o tal contrato não existisse, ou seja, o jogador quer levar tudo, "The winnwer takes it all". Para livrarem-se de suas culpas, lançam mão de frases feitas, como: Cão de raça sempre tem dono", "segurem suas cabritas que o bode está solto", ou outro ditado machista, demonstrando o seu sentimento de superioridade sobre eles mesmos, que supostamente os isentaria da culpa de enganar moiçolas, pois essas já deveriam saber que tal mercadoria, tão exuberante, já estaria arrematada, ou que tem direitos de nascença.

Bem, resumindo, não são apenas os homens que jogam sujo, que não respeitam contratos, que não reconhecem-se a eles mesmos, que subjugam e que ferem, mas ainda em nossa cultura, eles fazem esse papel de predador insensível que precisa caçar suas presas descartáveis. É uma pena que as relações estão ainda longe de amadurecerem e que as pessoas estejam ainda longe de serem leais e verdadeiras com os outros e com elas mesmas.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Loucura apaixonada


Nós somos loucos, ele e eu, caminhantes quase errantes que se encontraram no caminho.

Loucos, é o que nos dizem, cada um com sua loucura, destoantes, e concordantes na essencialidade.

Loucos, um pelo outro e pelo que sonhamos em construir juntos, antes mesmo de nos conhecermos; loucos nesse mundo, ele ainda espera, eu, esperei e cansei, nós, vivendo na demência e nos consolando.

Loucos, porque amamos apaixonadamente e não nos importamos com as conveniências e modelos contemporâneos.

Sonhamos como adolescentes e brincamos como crianças na seriedade de ser quem somos. Amamo-nos como anciões que já sabem de tudo.

Assim vamos, na loucura boa de viver o que sentimos de verdade, e na verdade de ser quem somos. Conhecemo-nos, assim supomos, e enquanto assim pensarmos, será eterna a loucura e apaixonado o amor.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Não estou aqui para agradar



Cansei de ser besta e tentar pertencer a grupos com os quais não me identifico. Nunca mais vou sorrir se não quero, vou dizer sim, se o desejo é de não. Não me importarei com os que dizem que o meu cabelo fica mais bonito quando liso, pois esse cabelo não é meu. Não vou usar algo torturante e desconfortável por que salto é sexy. Não vou ficar contando piadas de sexo para parecer descolada e moderninha, porque jamais entendi qual é a graça e não vejo sentido em piadas de sexo. Não vou usar maconha aos 41 anos, porque sempre fui careta e não vejo mais a necessidade dessa experiência. Não vou sair por aí com uma trupe de artistas, porque também não vejo sentido ou prazer nesse estilo de vida. Não vou sair transando com um monte de gente, por que não me apraz. Não vou me fingir de boazinha, nem ser legal, por que eu sou chata mesmo, se ser chata significar dizer não e vá se ferrar quando alguém me desrespeitar. Vou dormir até a hora que eu quiser, porque Lafargue estava certo em seu ensaio sobre a preguiça, e não quero mais carregar essa culpa cristã idiota. Não preciso ficar noitando nos fins de semana, ficar em casa no cobertor, com um vinho e um amor, me satisfazem muito mais na atualidade. Mas, não abro mão de conhecer lugares, sabores, cheiros e sensações novas. Vou escrever o que eu quiser e quando quiser, e não para encher linguiça, prateleiras academicistas empoeiradas e Lattes. Não vou a festas, se não quiser, e quem me ama me entende. Ou não. Não farei mais papel de mim mesma, a não ser quando não tiver realmente escolha, mas não ganharei nenhum Oscar. Amanhã as cortinas se fecham, e o espetáculo da vida dura pouco tempo para desperdiçar com tudo o que não quero e não sou.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O que somos e o que poderíamos ser - seres biológicos ou sociais?


Quando menina, eu não chorava, não. Não me lembro exatamente quando parei de chorar ou o porquê, mas tenho vagas lembranças de ter sido taxada como pirracenta, se não estiver enganada. Também tenho vagas sensações de ter sofrido humilhações por demonstrar meus sentimentos, minhas fraquezas. Tentava ser sempre justa com os amiguinhos, e quando os argumentos pareciam-me relevantes, mudava a minha defesa, diziam-me para que escolhesse meu lado. Sempre fui muito silenciosa e observadora. Não era uma pessoa de amplas relações, mas a situação da humanidade deixava-me deprimida. Não conseguia me expressar.

Cresci e forcei-me a ser diferente. Compreendi que as pessoas gostavam de falar de si mesmas e que déssemos atenção genuína, demonstrando interesse por suas façanhas, conquistas e desastres. As pessoas também sentem-se confortáveis se dividimos algum tipo de aparente intimidade, e se evitamos a falar mal dos ausentes, isso gera maior confiança e cria um clima propício para compartilhamento de informações. As pessoas gostam que olhemos para elas, que falemos coisas agradáveis e que sejamos sinceros com extrema polidez. E gostam que não falemos muitas verdades dolorosas. A maioria gosta de gente que as faça rir. Embora, muitas vezes eu me sinta desanimada de me envolver em qualquer discussão já discutida bilhões de vezes e que, sabidamente, não dará em nada, forço-me a me interessar. Mas, procuro não cansar-me muitas vezes ao tentar tagarelar mesmices ou a argumentar sobre assuntos que os interlocutores não dominam igualmente, o que exigiria um esforço estupendo de ambas as partes e, também, não levaria a nenhum lugar.

Nunca tive muito apoio. A minha família era desestruturada, vivi em uma pobreza horrorosa.  Algumas vezes, procurei loucamente por algo para matar a fome dentro de um armário que sabidamente estava vazio, no qual já havia procurado alguns minutos antes; Não conseguia falar com o meu pai, tamanha mágoa que nos causou, e não o culpo por suas heranças machistas de nossos antepassados. Não me lembro de ter parado para conversar com nenhum deles na infância. 

Eu pensei que jamais veria um avião na vida, e não sentia que era digna de entrar em locais que eram frequentados por pessoas que possuíam maior poder financeiro que o meu. O meu cabelo não era liso, as minhas pernas eram finas, a minha testa era grande. Eu gostava de me sentar na horta sozinha e imaginar aventuras, ou deitar na calçada olhando a imensidão do universo e a minha pequenez..

Casei-me jovem demais, quando ainda tinha vergonha de pegar ônibus ou comprar pão. A minha presença não era desejada, eu era, de novo, parte da herança maldita de nossa sociedade machista. Nunca tive sonhos de ser mãe, mas fui e sou, e de nada arrependo-me, porém, pagamos por nosso despreparo e fazemos com que paguem igualmente, transmitindo as heranças. Fiquei só com os filhos, e eu era-lhes o exemplo, o arrimo. Não poderia ser fraca, não poderia chorar, não poderia passar insegurança. Fui dura, seca, humana. Reboquei e pintei casa, que quase caiu sobre nossas cabeças, fui trabalhar, estudar, ninguém me apoiava para "ir para a gandaia", "sua separada", "pariu Mateus, que balance". Fui.

Eu não me arrependo de nada, e só penso nessas questões quando penso em mim mesma, sobre o que sou hoje e como poderia ser. Talvez poderia ser mais doce e amável, mais calma e polida. Sim, talvez eu pudesse mentir, dizendo que sinto saudades, ou dizer que amo, amando ou não. Talvez as palavras sirvam mais que os atos, talvez.Talvez eu pudesse me abrir mais e oferecer mais, ou não. Cada um oferece o que é capaz de oferecer.

Mas, apesar da dureza e da aspereza, a minha consciência é livre. Não recusei os papeis sociais, ou os papeis relacionais, mesmo que abrindo mão de mim mesma, na maioria das vezes.  Assim sou por causa de tudo o que vivi. Posso ser melhor, mas isso será quando e se eu tiver a oportunidade de sê-lo. Mas, jamais serei medíocre ou colocarei os outros abaixo ou acima de mim. Sou apenas mais um ser nesse mundo efêmero, e essas são apenas mais algumas palavras ao vento da internet. Daqui a pouquinho, não mais estarei aqui, e espero que, mesmo com a minha dureza e a minha aspereza, eu tenha conseguido transmitir os valores que considero justos.


segunda-feira, 18 de junho de 2018

CONSIDERAÇÕES SUPREMAS


- As fofocas de porta em porta e as visitas da tarde foram substituídas por compartilhamentos no Whatsapp;

- Os segundos gastos rolando a bolinha do mouse na página do Facebook é geometricalmente proporcional às palavras que você deixa de escrever em sua monografia/dissertação/tese;

- Conte as horas, dias, meses e até anos que você passou em frente a uma tela na internet e tente recordar dos momentos vividos. Trate se sair e criar lembranças;

- Pesquisas dizem que opiniões mudadas através de discussões em redes sociais chegam próximo de 0,00000001%, mas o desgaste emocional, físico e social não são calculáveis;

- Evidências mostram que a geração seguinte será descendente do Quasímodo, terá forte grau de miopia e não saberá como segurar na mão dos namorados;

- 70% dos adolescentes erram a boca na hora de comer, o que causa sujeira na mesa, sala, cozinha, e, especialmente na cama;

- Já estamos em Matrix de 1984, num apocalipse zumbi.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Como ser uma feminista de araque


Manu foi criada por uma mãe super protetora que resolvia todos os seus problemas, participava de todas as reuniões, convocações, celebrações e vivia em função da pequena princesa. Quando algum amiguinho fazia algo que a contrariasse, a mãe era a primeira a colocar os pés na escola para tirar satisfações e deixar bem claro que "com a filha dela dela, não"! Sempre que tinha um arranhão, a mãe a levava para o hospital, tinha sempre um xarope na manga. Mas, apesar de todos os "zelos", sua alimentação era totalmente recheada por alimentos calóricos que a menina exigia sem encontrar resistência. Não tinha hora para comer, nem dormir, era livre.

Na adolescência, a mãe continuou limpando suas sujeiras e resolvendo seus problemas; nunca lavou um copo, passava os dias de pernas para o ar, se alimentando de teorias sobre liberdade, ativismo, e tudo o que consumia, teorias, nunca prática. Exigia dinheiro para a faculdade, para as baladas, para as viagens, fazia dívidas e dava o endereço da mãe. Viajava para participar de protestos pelas minorias, pelos animais, pelo comunismo, feminismo, chegava em casa e deixava a mãe lavar as suas calcinhas enquanto a pobre se recuperava de um tombo depois de vertigens na beirada da escada; de vez em quando, declarava o seu amor e admiração por sua mãe guerreira nas redes sociais, enquanto discutia com opinistas de outras ideologias.

Depois de participar de 352 manifestações, experimentar todas as drogas lícitas e ilícitas, queimar todos os soutiens, beijar todos os tipos de bocas que encontrou,  de viver toda a liberdade que quis viver, casou-se e teve filhos, que criou, quando podia, como se fossem pequenos adultos livres e capazes de decidirem tudo, desde se iriam de uniforme ou não para escola, até rasparem e pintarem o cabelo de lilás, com cinco anos. Para ela, não fazia muita diferença, estava muito ocupada lutando pelo mundo, não tinha tempo para comparecer às reuniões de pais, ou de preparar um jantar de vez em quando. Mas, pensava que era absurdo passar uma camisa para o marido, e mais absurdo ainda, não ser levada por ele de carro para onde bem entendesse. Tudo era absurdo, e tudo era exigência demais, separou-se. Libertou-se.

Foi viver a vida de protestos de Facebook e de liberdade total, livre de todas as responsabilidades; postava fotos contra o machismo de camisolinha sexy e maquiagem arrebatadora.  Eram 24 postagens por dia, desde declaração de amor aos filhos, a fotos de camisetinha vermelha no meio da multidão. Oferecia-se para cuidar dos filhos das mães solteiras, participava de projetos voluntários, mas ainda não pagava suas contas. Era uma grande feminista. Não era como a Maria do outro lado da rua, que sempre limpou o seu próprio banheiro e carregou seus filhos por onde quer que fosse, ensinando-lhes que não deveriam tratar mal e nem deixarem-se tratar mal. Maria ensinou-os a respeitar os outros, a assumir suas responsabilidades, a economizar, a cozinhar sua própria comida, os meninos e as meninas. Maria ensinou-os a serem solidários uns com os outros e a ajudarem-se no que um fosse mais fraco que o outro. Maria não aceitou que nenhum babaca entrasse em sua casa, mas gostava de ser livre quando podia. Usou e fez o que quis, mas deu limites aos filhos para que pudessem questioná-los quando fosse o momento certo, para que não se preocupassem com o que não fossem ainda capazes de resolver ou experimentar. Maria, sim, protegeu seus filhos. Ela encontrou um bom companheiro, com quem compartilhou muitas coisas, e que adorava cozinhar. Ela não se preocupava em ter que passar suas camisas, sempre passou melhor e mais rapidamente. Maria participava de mutirões no bairro, participava das reuniões na câmara e ajudava aos que precisavam. Maria não precisava provar nada. Maria era toda vermelha, não só a camisetinha sexy.


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Crise de pós-graduação


Qual o sentido?

Perguntinha cretina que existe desde que o homem é homem e a mulher é mulher. Contemporaneamente, qual o sentido da rotina angustiante que todos seguimos, correndo o tempo todo em busca de mais e mais, seja lá do que for? Por que estamos tão preocupados em saber todas as notícias, tudo o que alguém disse ou fez a cada milésimo de segundo, todas as novas piadas, desastres, memes, tudo, tudo, tudo? Por que temos que estar o tempo todo fazendo alguma coisa, por que o movimento é tão necessário, mesmo que ele não produza absolutamente nada?

Por que preciso provar o tempo todo para os meus pares que eu sou importante e sei fazer coisas importantes? Por que preciso agradar a todos e dizer sim para todas as requisições que me chegam? Por que preciso esquecer de mim, de quem eu sou, do que desejo?

Por que é importante escrever uma dissertação sobre os relatos das mulheres que moraram na FEBEM, se isso deverá ficar enfiado naquela parte empoeirada de dissertações do ICHS onde ninguém põe os pés, ou no máximo, em uma página da UFOP que pouquíssimos acessarão? Provavelmente, ninguém se importa com esse assunto, ou com muitos outros das ciências humanas, assunto que talvez possa vir a causar pequeno interesse em poucos escolhidos da área, mas não em pessoas "normais", a maioria com quem compartilhamos todos os momentos. Qual a relevância disso para os meus dias, ou seja, para a melhor vivência, se existe tal expressão?

Se eu morrer agora, terei aproveitado o meu tempo e dado atenção suficiente a quem me importava? Terei sorrido o bastante, falado bastante besteiras, dormido, sonhado, namorado, brincado, passeado, visto o bastante? Ou me arrependerei de ter perdido o único presente que O universo, Deus, ou seja lá o que for, me deu, que são os segundos de vida, diante de uma tela ridícula que me traria emoções de papel?

Crises existenciais em tempos pós modernos.

Amém. Não.



terça-feira, 5 de junho de 2018

Se queres seguir conselhos de amor

"O poeta é um fingidor..."


Se queres seguir conselhos,
Não sigas os dos poetas,
Só os tomes como modelos,
Se forem para patetas.

Palavras lindas, trágicas, fortes e cruas,
Servem-nos em momentos de lua,
Ou relembrando das carnes nuas.

Quem geralmente as profere
Nunca foi ou será perfeito;
Apenas servem ao que querem,
Esvaziar-lhes o peito.

Não sigas também os filósofos
Infelizes e agonizantes,
Quase sempre desejosos
De serem ignorantes;

De vidas quase sempre desastrosas,
Levam-na a questionar
E a negar certezas postas
Sem deixarem-se libertar.

Não sigas os romancistas, tampouco,
Esses burocráticos sonhadores
Que colocam-se pouco a pouco
Nas histórias de seus locutores.

Dos pintores, admires as artes
E seus dizeres gritantes,
Que falam de todas as suas partes,
Felizes, quentes, angustiantes.

Se queres seguir conselhos,
Esqueças do que eu digo,
Cuides de seus pentelhos
E eu cuido do meu umbigo.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Pequena análise discursiva de um suposto texto do padre Fábio de Melo



Hoje eu recebi uma mensagem atribuída ao Padre Fábio de Melo, que me fez refletir sobre como as mensagens são disseminadas e são interpretadas por seus receptores. A mensagem era essa:

Eu cresci comendo a comida que minha mãe podia colocar na mesa, sempre respeitei minha mãe e as pessoas mais velhas... Tive TV com 3 canais e não mexia para não quebrar, e antes de sair para escola arrumava a minha cama... 

Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalço, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador... 
Ajudava minha mãe nas tarefas de casa, e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir.

Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação. Notas baixas era castigo, apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!!

E não sou revoltado, não faço analise em médico, e não falta nenhum pedaço em mim.
Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando!

Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor...
Por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres!

Se você também faz parte dessa elite, COPIE E ENVIE para mostrar que sobreviveu. 

Padre Fábio de Melo

Depois de algumas reflexões sobre a mensagem, pesquisei para ver se o autor teria mesmo sido o tal padre, e, de acordo com esse site, não era. Bem, o autor então seria desconhecido, e sem a autoridade aclamada de um padre. Qual seria a intenção de distribuir uma mensagem como essa, dando-lhe uma legitimidade que não tem? Talvez, o autor só quisesse ver seu texto famoso, como os que atribuíram os seus textos ao Luis Fernando Veríssimo e à Cecília Meireles, ou talvez, o autor e os que concordam com o que diz a mensagem, gostariam de fortalecer a ideologia que tinham sobre a criação de filhos. Mas, o que diz a mensagem? Vamos por partes:

Eu cresci comendo a comida que minha mãe podia colocar na mesa, sempre respeitei minha mãe e as pessoas mais velhas... Tive TV com 3 canais e não mexia para não quebrar, e antes de sair para escola arrumava a minha cama... 

No primeiro parágrafo, o autor, ao dizer sobre a comida que a mãe podia colocar, utilizando a mãe, e não o pai, como seria comum ao se referir ao provedor quando falamos de um passado não muito distante, revela que ele poderia viver apenas com a mãe, e que essa era quem  colocava a comida que era possível colocar no momento, e ele, comia. Ao dizer que sempre respeitava as pessoas mais velhas, podemos nos atentar ao não dito, ou o que poderia ter sido dito no lugar, parafraseando sua fala; o autor poderia ter dito que nunca desrespeitou os mais velhos, mas, preferiu reforçar a sua conduta positiva. Em seguida, diz que a televisão tinha apenas três canais; ao numerar os canais, poderia estar fazendo alusão à quantidade de canais que as televisões possuem à disposição hoje em dia.Diz ainda, que não mexia para não quebrar; "para não quebrar" explica uma regra e o motivo pelo qual não mexia. Ao dizer que arrumava a cama antes de sair, isso não representa apenas um encadeamento de fatos, mas é uma exposição de como era a ação normal para o seu dia.


Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalço, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador... 
Ajudava minha mãe nas tarefas de casa, e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir.

Nessa parte, o autor exalta alguns hábitos, como fazer juramento à bandeira. O "fazer juramento à bandeira" levanta uma memória discursiva que nos leva ao tempo do militarismo, da "moral e cívica", da ditadura, quando todos eram obrigados a idolatrar os símbolos nacionais e saber todos os hinos. Esse hábito destoa um pouco semanticamente dos outros que são citados a seguir, como andar descalço e beber água da torneira (hábitos de quem tinha poucas posses ou vivia com a meninada pelas ruas) e ter roupas de marca, celulares, tablet e computador (o que nos leva a pensar que atualmente as crianças exigem tais consumos). Quando ele diz que ajudava a mãe nas tarefas e não achava ser exploração infantil, faz alusão aos discursos dos jovens atuais, que se queixam em fazer as tarefas das casas onde moram; ao dizer que tinha horário para dormir, deixa claro que tinha regras e que elas eram cumpridas, sugerindo que hoje não é assim que acontece.

Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação. Notas baixas era castigo, apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!!

Nesse trecho ele fala sobre a rigidez do tratamento dos pais com os filhos, que colocavam como regra o bom desempenho na escola, e quando descumpriam essa regra, as crianças eram castigadas com agressões físicas. Então entra a parte polêmica que questiona a lei da palmada, que pode punir os agressores legalmente. Segundo o seu discurso, corrigir os filhos com castigos físicos seria legítimo e até mesmo necessário. Quando ele diz que "não ganhava presentes", faz alusão à maneira como as crianças e adolescentes são gratificadas por fazer o que, segundo suas palavras, seria cumprir as regras estabelecidas.



E não sou revoltado, não faço analise em médico, e não falta nenhum pedaço em mim.
Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando!

Aqui, expõe as consequências da educação que recebeu, justificando que a maneira rígida que fora tratado não teria causado nele algum trauma ou lhe prejudicado de alguma forma. Segue clamando por disciplina e menos "frescura". "Frescura" estaria fazendo referência ao contraste da forma como ele fora tratado na infância, quando os pais eram mais rígidos com os filhos, em relação a geração atual, que precisaria de incentivos para cumprir as regras impostas pelos pais. A palavra disciplina também aciona a memória discursiva que faz referência ao período militar, quando as palavras do momento eram disciplina, ordem e progresso. Segundo o autor, as crianças de hoje precisam das regras e da disciplina que existia no tempo em que ele era criança.

Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor...
Por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres!

Aqui aparecem novamente as palavras que acionam a memória discursiva relativa ao período ditatorial, que são a ordem e a disciplina, assim como a obediência.Parafraseando a frase seguinte, ele poderia ter dito que este mundo, para os filhos de hoje, só lhes dão direitos, e não deveres.O autor coloca ainda atributos como bondade, educação, respeito e amor no mesmo balaio dos outros conceitos ensejados por ele. 

Conclusão:

Cada discurso fala de seu tempo e suas formações discursivas, assim como acionam memórias discursivas de outras formações, mesmo que o locutor não tenha ciência dos significados por trás do que diz; como diz Pêcheux,  o enunciador tem dois esquecimentos, e um deles é esquecer-se de que o que diz já foi dito, ou seja, ele pensa ser a origem de tudo o que diz. No momento em que vivemos, quando vemos uma polarização de opiniões e de posições, não apenas no Brasil, a nossa interpretação desse pequeno texto reproduzido e distribuído através das redes sociais, pode gerar diversas reações. O assunto gera polêmica por diversas questões, a primeira delas fala sobre a educação de filhos, sobre a maneira que os pais deveriam lidar e interagir com eles, e sobre a aplicação de castigos físicos às crianças; a outra questão diz sobre a suposta apologia à ideologia que existia na época da ditadura militar no Brasil, o que aparece nas entrelinhas, quando palavras que remetem aos discursos ditatoriais fazem parte das justificativas do autor. Há ainda a discussão sobre os valores adotados pela geração atual de crianças e adolescentes, que agiriam como se os pais existissem para serví-los, ou seja, de acordo com a argumentação do autor, presenteando-os quando cumprissem com suas regras, suprindo-lhes as exigências consumistas, alem de eximi-los de tarefas domésticas. 

Como um textinho tão besta pode gerar tantas interpretações e reações? A resposta está nas memórias discursivas que são acionadas, assim como nas visões políticas e pedagógicas, que estão bastante polarizadas atualmente. O importante aqui foi perceber como a linguagem e os discursos podem tomar diversas proporções e servirem para diversos propósitos. A bíblia que o diga.