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quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

A casa dos meus tios


Os meus tios moram no centro de Ouro Preto; lembro-me bem dos primeiros dias que passei naquela casa, quando vinha a passeio de Ipatinga, dos momentos em que minha tia nos dava papeis e tintas e ficávamos no chão a criar desenhos que eram sempre lindos para ela. A casa antiga tinha um segundo andar com pisos de tábuas velhas, e podíamos ver pelos buracos o andar de baixo, morria de medo de vazar para lá. Lembro-me dos biscoitinhos quebra-queixo, derretiam na boa, nunca mais comi biscoitinho tão gostoso! Era sempre aconchegante, gostoso, e mágico, a cidade me encantava. 

Com onze anos eu me mudei definitivamente para Ouro Preto e as lembranças são das visitas frequentes de todos os familiares na casa dos meus tios. Já que eles moravam no centro, ou na Rua, como gostamos de dizer, sempre que alguém ia resolver uma pendencia, fazer compras ou passear, inevitavelmente passava na casa dos meus tios, sem aviso prévio. Eu não sei bem se eram as vacas magras, mas todo o mundo adorava ir até lá tomar um café da tarde ou filar uma bóia. Eram papos que não se acabavam, bença tia e tio, relação de verdade. Eu não sei se gostavam ou não, mas éramos todos muito bem recebidos. 

Outra vantagem para os parentes é que a casa deles fica em um ponto estratégico, onde muitas coisas acontecem, então, na Semana Santa, por exemplo, a parentaia se empoleira até hoje, um pouco menos,  nas sacadas e janelas para assistirem aos festejos. Enquanto aos meus tios, não sei se algum dia puderam assistir aos acontecimentos de suas próprias casas, mas sempre estão com um sorriso e um café.

Mas, ao que tudo indica, ninguém mais, ou poucos, passam lá para filar rango ou puxar uma prosa. As janelas, que antes ficavam cheias de meninos debruçados e brincando com turistas que lhes tiravam fotos, estão quase sempre vazias. Não sei se ainda há o pãozinho quentinho com manteiga, os bolos, o biscoitinho, o café com leite, mas o carinho, ainda está lá. O que aconteceu com a parentaia? Envelheceu, se desuniu, encheu a pança e perdeu a vontade de assistir à rua e passar boas horas de boa conversa? 

O que aconteceu é que não é mais necessário ir até a casa das pessoas, ao acordar, mandamos figurinhas de bom dia para todos no Whatsapp, feliz aniversário do dia, fotos de bebês, de convalescentes e pronto, nos atualizamos. Acabou a prosa, as risadas, o tempo de exclusividade, comilança simples e gostosa, as memórias, as bênçãos, os abraços. Acabou tudo. Ficamos com as telas e sem lembranças.

Ouça esse texto.

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

O Brasil do futuro


Zezinho nasceu na favela do Taquara. O pai vivia bêbado pelas calçadas das ruas, dizendo gracejos para as meninas e para os postes, pois não existia diferenciação naquela situação. A mãe segurava a família de cinco filhos, trabalhando em casa de médicos  e cuidando de seus três filhos. Na casa dela, os maiores cuidavam dos menores. Zezinho tinha que ir para a escola de manhã e ajudar a tomar conta dos irmãos à tarde, quando não tinha que fazer algum serviço para ganhar uns trocadinhos ou ir pegar o pai na sarjeta. Era a vida, não nascera granfino. Na escola, as coisas da matemática não entravam na cabeça, a fome gritava demais nos ouvidos, assim como os gritos do pai descendo as escadas na madrugada passada que anunciavam mais uma noite de desespero. Era chamado de negrinho do pastoreiro e excluído dos grupos, odiava aquela escola mais que a própria vida, não vingou nela. Cresceu e foi trabalhar como entregador de compras, carregava caixas pesadas o dia todo para ganhar um salário mínimo. Um dia, sem mais nem menos, o patrão o demitiu para cortar gastos. Ele não recebeu nada. Ele não podia ir até o ministério da justiça, porque já não existia. Desse jeito, de acordo com a reforma da previdência, nunca teria tempo suficiente para se aposentar. Ele ficou imaginando que o patrão não gostara do pedido de aumento, ele queria comprar enxoval para o filho. De acordo com as novas leis, os acordos deveriam ser feitos entre empregador e funcionário, não através de sindicatos. Zezinho saiu e lá estavam na fila desesperados aceitando ganhar menos que ele, e se ele fosse recorrer, sem advogados, e perdesse da empresa milionária, ele teria que arcar com todos os custos, e ainda corria o risco de ser marcado como "aquele que recorria" e não conseguir mais emprego. Ficou quieto. Disseram que o mercado seria capaz de trazer justiça por ele mesmo, mas o mercado visa lucro, não visa justiça. Zezinho caiu na bebedeira, e caiu cantando o tchan. Pensaram que ele fosse gay e meteram-lhe um tiro na cara no meio da rua depois de uma briga; era normal qualquer homem de bem, gay ou não, ter arma para defender a sua família das ameaças comunistas e homossexuais negras. Morreu atrapalhando o tráfego. Seu filho, estará no círculo, mas não terá direito a escola, vai ter que estudar através de um computador. Aham. É o fim.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Perdedor


Eu não ganhei na Mega sena,
Nem vou cantar com Paul McCartney,
Meu artigo não estava nas normas,
Os meus poemas não venceram o concurso.

O programa de pontos nunca existiu,
A Black Friday também não,
As passagens aéreas dobraram no fim,
Não ganhei na promoção do Epa.

Fizeram dancinha pro tal eleito,
Perderam todos os direitos,
E continuam dançando
Quando deviam estar chorando.

Falo grego com brasileiros,
As antas estão no poder;
Com anta não se dialoga,
Com anta, é só se foder.

Com que ânimo devo levantar-me e pegar no trabalho
Que parece ridículo diante de um universo desmoronante,
De uma geração perdida?

Enquanto isso, os zumbis comem, bebem, e dormem
Rindo-se sozinhos como dementes, juntos a uma multidão
Que não sabe sair para comprar pão.

Humanidade patética, escrava, e pestilenta,
Que aos poucos se condena à extinção
Virulenta,
Podre, decrépita, fétida, com telefone na mão.





quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Mais daquela


Aquela que depois dos 40 ainda sopra e sacode todos os dentes de leão,
Mas que esconde as lágrimas, todas elas, de dores e de prazeres.
Aquela que vê com olhar diferente, todos os dias, sem distinção,
As mesmas paisagens, que despertam diferentes quereres.

Aquela que ama intensa e insanamente
E que sofre doída como um cão.
Aquela que às vezes parece dormente
Quando já não aguenta o coração.

Aquela que escreve poemas,
Mas de lê-los, gosta não.
Mente cheia de problemas,
Todos sempre vãos.

A que não aceita
Se insatisfeita,
A que é
Mulher.


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

As taturanas, lesmas e cobras do mundo


A maioria das pessoas é de gente ruim. Ou a ruindade da porção ruim é tão nefasta que contamina o ambiente inteiro, destrói tudo ao seu redor. Na verdade, conheci muitas pessoas boas em todos os lugares em que fui. Gente que cantou comigo "We are the champion" pensando que não havia ninguém por perto, que chorou comigo contando os detalhes sobre a mãe em suas últimas experiências; gente que trazia canjiquinha e fazia chá no trabalho, gente que lutava pela igualdade e não aceitava cafajestagem, gente que se emocionou com as tristes histórias das minhas perdas... Gente que cantou comigo música do Legião Urbana e chorou comigo ao ouvir sobre a história de um filme,  que planejou viagens internacionais, contou-me segredos... Gente que escreve livros, faz arte, sonha e se indigna com as injustiças.Gente que gostava da arte e das pessoas. Gente que acredita ainda na humanidade. Obrigado por existirem, pessoas. Mas, também, a todo o momento, as cobras rastejam pelos meus pés. Essas veem-me como a elas mesmas, pensam que estou sempre a mentir ou a querer levar alguma vantagem. Essas peçonhas armam, inventam, mentem e fingem de amigas aqui e lá, para se sobressaírem com seus venenos que vão destruindo a tudo e a todos. Indivíduos que estão sempre vigiando, espionando, julgando e condenando. São lesmas nojentas com olhos de tigre que contaminam tudo com sua nuvem tóxica, sua inveja, sua gosma. São seres que só possuem olhos para elas mesmas e suas necessidades mesquinhas. Eu vomito em vocês. Eu desejo que apenas mordam suas línguas e morram com seus próprios venenos! Gente burra, gente incompetente, gente ruim como o diabo das profundezas do inferno, foi em vocês que ele fora inspirado! Cambada de Lúcifer!

Eu não quero levar vantagem as custas de ninguém, eu não penso que minhas necessidades são mais importantes que a dos outros, e nem quero ficar acima. Não pensem que olham para um espelho quando olharem para mim, na verdade, olham para as pequenas coisas que vocês gostariam de possuir e pensam que eu não deveria, como cérebro e coração. Eu e mais esse bando de gente boa que encontrei e que ainda me permitem existir nesse mar de taturanas venenosas e chupins sanguinolentos. A vocês, e de vocês, desejo apenas duas coisas: que provem do próprio veneno e distância.

 

terça-feira, 27 de novembro de 2018

TPM


Gente que não paga,
Dissertação que não se acaba,
TV, geladeira, cama, celular,
Computador, guarda-roupa,
E tudo o mais se estraga,
Dente estrupiado 
Que precisa de peça,
Gordura que cresce 
Sem comida,
Sono que nunca vem,
Relógio que decepciona,
Papéis e mais papéis
Sempre, 
E por todos os lados,
Pingos de achocolatado no chão,
Lixo fazendo aniversário,
Mesa cheia de farelo de pão,
"Preciso de dinheiro pra escola!",
"Não tenho meias"!,
"Quantas linguiça pra cada?",
"O que vai ter de janta?",
"Tem que privatizar tudo mesmo!",
"Você faz tudo isso porque quer!",
"Você é chata!",
"Deve estar de TPM!".


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O que é História Pública? Para o meu amor


Sou casada com um historiador e tenho um filho músico e estudante de jornalismo, em minha casa há muitas discussões sobre diversos temas, e como minha irmã bem disse, "até imagino vocês dois discutindo, deve ser uma chatice!" Ela se referia exatamente aos possíveis temas, assim como a maneira de interação, e acho que ela não estava errada. Mas, apesar dos acalourados debates nas tardes, noites, e almoços de domingos regados a cervejas e vinhos, essas discussões são elementos que me ajudam a crescer como ser humano e me levam a procurar por informações que antes deixava a "Deus dará". O meu jargão se tornou "o que significa ética?", por causa de uma das maiores querelas que vivemos. 

Quando pergunto "o que é ética" ou, o que é "comunismo, fascismo", é por causa da necessidade  de entender exatamente sobre os conceitos que estão embasando as posições dos meus interlocutores e, aproximadamente, o que eles querem dizer quando dizem o que dizem. Eu já disse que sou mestranda em Letras? Pois é. 

Os dizeres falam sobre o seu tempo, sua historia, sua narratividade e sobre eles mesmos. De acordo com a teoria da Análise do Discurso, quando dizemos, proferimos um discurso, há dois esquecimentos: o de que aquilo já foi dito por alguém e o de que aquilo poderia ter sido dito de outras formas. Os sentidos e significados do que dizemos estão na materialidade do discurso, em como ele é proferido e nos elementos que o compõem, mas para compreendê-lo, ou seja, para que as pessoas se entendam minimamente, é preciso que compartilhem informações, conceitos, pré-conceitos, pré-discursos.

Dito isso, digo ainda que introduzi-me na querela sobre História Pública e História Oral através do meu amado. Participei de alguns eventos, aproveitando o ensejo de que o meu trabalho, que é sobre narrativas de ex-internas da FEBEM de Ouro Preto, pode se encaixar nessas áreas. Não preciso dizer que, inúmeras vezes, fiz as perguntas: o que é história oral e o que é história pública?

Bem, segundo os estudos e palestras que presenciei, História oral seria uma metodologia para conseguir fontes, ou seja, narrativas históricas coletadas através da memória de pessoas que vivenciaram algum acontecimento ou até mesmo que sabem sobre tal acontecimento; seria uma nova perspectiva historiográfica, a voz seria dada ao outro lado, aos excluídos, aos que não tinham voz até então. Seria através do trabalho do historiador ao colher e analisar essas fontes, com todo o seu conhecimento e metodologia de análise que uma nova perspectiva histórica poderia surgir.

Sobre História Pública, de meu humilde lugar de estudiosa de Letras, penso que hoje trata-se mais de uma discussão do que de uma definição clara e objetiva. Para a academia americana, parece que a questão de História Pública está mais ligada ao mercado de trabalho, ou seja, o interesse em criar cursos de História Pública na academia significaria gerar possibilidades mercadológicas para os historiadores, quer dizer, permitir que os estudiosos da história se tornem habilitados para trabalharem para os cinemas, museus e outras áreas que precisem lidar com a história de alguma maneira, e não apenas tenham que ficar atados às salas de aula e pesquisas acadêmicas. No Brasil, a História Pública parece abraçar dois sentidos,  e clamar por duas tarefas, as de fazer uma história para o público e através deste; isso significaria não limitar a história àss salas de aulas e academias e torná-la acessível para o público, através da adequação da linguagem e de seus meios de transmissão, e, por outro lado, aceitar ou até mesmo promover a participação do público leigo na construção da história. Então, senta que lá vem discussão sobre as formas e a legitimidade desse público na construção da história.

A história oral seria uma dessas formas de construção conjunta da história, mas o que dizer sobre cinema, programas, eventos, que escrevem a história e a transmitem a seu modo, sem nenhuma metodologia analítica de um historiador que é formado para isso? As manifestações folclóricas, os mitos, os rituais, seriam as fontes da História Pública? mas de que maneira elas nos contariam a história?

Então vem uma outra querela lá de casa, sobre as narrativas. O problema é que na história, o conceito de narrativa é diferente do que é para Letras. Diz-se narrativa o modo de se fazer história em que eram apenas narrados os grandes feitos dos heróis, resumindo toscamente. Depois dessa forma de se trabalhar a história, surgiram outras, uma que tirava totalmente a ação do sujeito, ao que me parece, seria escrever história de conceitos, como "História da literatura", corrijam-me, historiadores. Mas, como diz meu debatente favorito, essa questão já foi resolvida e não há como tirar o sujeito da história, assim como também não dá para ficar contando historia de heróis. Mas a querela é sobre como a história é reconstruída, obviamente, através das narrativas; Não há uma história sem um início, um meio e um fim, seja esse fim dizendo que ainda não está no fim. Bom, e como o historiador ligará suas fontes, fazendo conexões críticas com os diversos conhecimentos de que tem em mãos, essa é a questão. Então, sim, penso que quem irá institucionalizar e transmitir a história precisa de um mínimo de preparo. A responsabilidade dos símbolos e dos discursos que farão parte da formação social não deveria estar a cargo do público leigo; o público seria fonte, não fazedor de história, seria participante, agente, não historiador.

A história oral, ou narrativa de vida, são fontes. A maneira como serão analisadas é o que importa. Eu sei, porque estou no purgatório do fim da dissertação e ainda estou perdida na análise dessas narrativas riquíssimas, porque no meu caso, da análise das narrativas e do discurso, o que importa não é apenas o que dizem (até porque não podemos tomar como verdade absoluta as questões da memória), mas também como dizem e por que dizem. Para fazer essas análises, é preciso de um preparo horroroso do qual ainda me vejo faltosa.

Bem, para finalizar, pensemos na questão das Fake News e imaginemos então um novo conceito, o de Fake History, se já não existe; temos muitos exemplos de novas versões da história, que colocam os africanos como  cúmplices e responsáveis pela escravidão no Brasil, que dizem que os índios foram exterminados por eles mesmos e por aí vai longe. Seria isso parte da história pública? Tornar público de maneira simplória versões históricas criadas por leigos, ou por militantes desejosos de criarem uma nova história mais agradável aos seus ideias? Quem tem a legitimidade para o redigir da história?

Apenas discussões caseiras e uma visão de uma estudante que pensa muito nesse mundo maluco de hoje.

Beijos.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Quase cheia


Eu sou livre. Livremente complexa  em minha liberdade.

A minha mente está sempre cheia demais e atada a assuntos demais, futuros, presentes e passados, que não é possível que me ate a muitas coisas e pessoas que passaram. Não que elas não me sejam importantes, sei bem quem é cada um e de seus valores; mas é que infelizmente, ou felizmente,  não mais espero de ninguém (apenas espero que também não esperem de mim), que eu seja ponto fulcral de suas vidas e que por mim estejam sempre a espera, consternados, ansiosos e saudosos. Espero apenas que todos estejam muito bem, pacificamente, em bem aventurança, como disse Ieshua. Espero que TODOS vivam felizes. Se eu puder contribuir para a felicidade de alguns, bom também. 

Mas... sou cheia de minhas próprias desolações. Não é culpa minha. Sempre assim o fui. Mas nunca me consumi de mim mesma, nunca abandonei as causas que me pertencem. Jamais deixei aos outros os fardos que a meus ombros pertencem. Embora não seja simbiótica, não nego o apoio de quem me oferece, assim como apoio a quem me solicita. Mas eu sou quase inteira. Faltam pedacinhos de onde ficaram extremas emoções.Talvez esse seja o problema, todo o meu apego foi concentrado em alguns itens. Talvez essa seja a minha paixão, a religião que nunca tive, o futebol que nunca apreciei. 

Não temo mais, como outrora, ser quem sou. Ambígua, as vezes feia, maluca, libertária e ás vezes moralista, como quiserem. Mas não me nego e nunca farei tipo para agradar ao aceitável ou ao que fora imposto como belo. Não ligo aos rótulos. Só os temo pelos que me importam. Mas, nunca mais serei algo que não venha de dentro de minhas entranhas. Se me incomoda, incomoda, se gosto, gosto, se não, não. Não apoio ou exalto o que não quero para mim ou tenha medo de ensinar aos meus filhos. Isso não quer dizer que pense que todos os outros tenham que ser como eu. Que gostem e façam o que quiserem. Cada um em seu corpo, seu ser, sua existência.


sexta-feira, 26 de outubro de 2018

O cálice - por que estamos vivendo esse caos?


Estamos vivenciando um fenômeno de grande valor histórico para a nossa sociedade brasileira, quando a intolerância chega a um grau tão elevado que tornam-se naturais todas as formas de agressão e expressão de ódio, como o desejo de exterminar o outro literalmente por ser diferente ou adotar opiniões que não expressam os mesmos ideais. Estamos assistindo a cidadãos comuns vociferando em todos os tipos de ambiente, reais ou virtuais, exaltando grandes ditadores da história e admirando-lhes suas estratégias de matança de inimigos. Pessoas que se dizem defensoras da família estão saindo para as ruas e para as portas das universidades com o claro interesse de humilharem e ameaçarem àqueles que representem o que eles negam e odeiam, como a homossexualidade, o socialismo, e a luta pelos direitos de raça e escolha de gênero. Essas pessoas estão se sentindo no direito de determinar o que o outro deve ser e como deve pensar, querem ditar regras para a sociedade, impô-las, nem que para isso seja necessário matar a todos que possam representar risco para a tal "sociedade ideal". Essa não é a primeira vez e provavelmente não será a ultima que esse fenômeno ocorrerá (até que o ser humano finalmente se extermine da face da terra), e não me canso de me perguntar sobre como a situação chega a um ponto onde os seres humanos, por não tolerarem as diferenças, passam a tolerar barbaridades como a tortura e o assassinato de outros. Obviamente, cada fenômeno desse se relaciona com o seu momento, com a história e a cultura da sociedade, mas é interessante notar como as sociedades se desenvolvem dialeticamente e seguem aparentemente os mesmos padrões. No caso específico do Brasil, penso que há algumas questões a serem consideradas para a tentativa de compreensão do que estamos vivenciando, e aqui as coloco:

A questão da memória

O nosso país não é ainda um país que prioriza a memória. Didaticamente houve mudanças, de acordo com os parâmetros curriculares, que se tornaram mais interdisciplinares e passaram a valorizar mais a questão das minorias, ou seja, daqueles que estavam por baixo na história oficial, como os indígenas e os africanos que foram escravizados. A própria mudança na maneira de nos referirmos a essas pessoas, que antes eram tratadas apenas como  "os escravos", mostra-se como uma mudança semântica de grande importância para para a caracterização desses seres humanos, que não são escravos, mas foram escravizados. A história da ditadura também é ensinada nas escolas, assim como a pré-história e a Idade Média, ou seja, não há uma enfase nessa parte tão significativa da nossa história na educação, assim como não está muito presente em outras manifestações sociais, como acontece em outras sociedades. Os torturadores não foram condenados, documentos desapareceram, a ditadura não foi maciçamente reconhecida como tal, ou seja, como algo que não deveria ter acontecido em uma sociedade democrática. Dessa forma, é possível que se questione o teor dos fatos, dos ditos, dos escritos, dos contados, é possível dizer que não houve golpe, que não houve ditadura, que não existiu tortura, é possível ainda dizer que os torturados eram vagabundos e baderneiros que mereciam tal punição se  ela tiver existido. Essa questão não foi devidamente finalizada e apesar de existirem inúmeros materiais sobre o assunto, está desaparecendo da memória. Aliás, estamos assistindo às pessoas dizerem que o passado já passou e que não é importante. A memória está morrendo nessa era digital, por vários motivos: 

_ O desinteresse das instituições;
_ O desinteresse familiar (ninguém mais se senta para contar histórias)
_ O desinteresse gerado pela velocidade das informações novas e que fazem com que tudo pareça velho e desatualizado, deixando-nos obcecados pelo presente.

Porém, devemos lembrar que sem memória, não há identidade, não há como nos situarmos no mundo, no tempo e no espaço, tornamo-nos vulneráveis à qualquer outra forma de identificação que nos possa envolver, ou seja, desenvolvemos uma identidade frágil e volúvel.

A questão da identidade

Como disse Stuart Hall, a identidade na pós modernidade é fragmentada e plural, e como diria Goffman, estamos sempre representando nas diversas circunstancias de nossas vidas. As representações nos servem para a aceitação social, ou seja, para a preservação do "eu", para que a nossa integridade identitária seja preservada, para que o eu esteja a salvo, o eu físico e o eu social. Esse sentimento tão primário e vital da preservação do "eu" é demonstrado de diversas formas, considerando que para sobrevivermos nesse mundo plural e fragmentado nós necessitamos de ferramentas diversas, que nos protejam e nos projetem tanto fisicamente como socialmente. A questão dos grupos é uma dessas ferramentas primárias, quando podemos nos identificar, ser identificados, nos projetar e nos fortalecer, assim com legitimar nossos discursos; fazer parte de grupos é vital para a existência física, social e, virtual. Se conectar de grupos significa fazer parte de algo, se tornar algo, algo diferente de outras coisas que são representadas por outros grupos. Ser uma coisa, se reconhecer como pertencente de algo é reconhecer que não faz parte de outra coisa, é negar outra coisa. Isso diz muito em nossos tempo, aliás, em todos os tempos. O outro grupo poderá conviver ou representar  algo que mereça ser eliminado.

A questão da mediação

O Facebook deu voz a todos, aos ricos, aos pobres, aos semi-analfabetos, aos letrados. O Facebook e todos os outros meios virtuais, os blogs, o Instagram e as caixas de comentários das notícias. A velocidade de informações e o volume se tornou incontrolável e a necessidade de consumo também, e nessa velocidade, perdemos a noção de tempo e a necessidade da legitimidade. Junto com tudo isso, veio o questionamento escancarado 'dessas legitimidades', ou seja, das instituições e das autoridades. Tudo e nada passou a ser confiável, a autoridade passou a não importar, o que importa são as ideologias contidas nas notícias e não a origem delas. Qualquer um poderia ter a legitimidade para dizer o que quisesse, dessa forma,  surge uma crise de realidade e a tendencia de haver recusa do que não parece ser favorável ou agradável.

A questão da autoridade

Aconteceu na sociedade brasileira a desqualificação das entidades educacionais, ou seja, houve a construção negativa imagem da profissão do professor, assim como das instituições acadêmicas. Corroborado pela fala de Fernando Henrique Cardoso, "não sejamos vagabundos num país de miseráveis", o tratamento do professor pela população, passou de respeito ao detentor de saber para raiva por um "vagabundo privilegiado que trabalhava meio dia e tinha duas férias por mês". As universidades passaram a ser "centros de degenerados" que "não tinham mais o que fazer". E assim foi-se destruindo a imagem de autoridade científica daqueles que faziam parte do mundo acadêmico. A imagem da imprensa também foi dilacerada (não sem razão real e histórica), as grandes autoridades passaram a ser vistas como centros elitizados ou que guardavam interesses espúrios, ou seja, não confiáveis e não representativos. No lugar dessas instituições foram colocadas quaisquer outras coisas que pudessem dizer o que fosse agradável, palatável e compreensível ou que representasse discursos que há muito foram calados e que agora poderiam ter uma voz, uma autoridade.

Bem, dito isso, podemos perceber que o cenário estava totalmente propício para o caos que estamos vivendo. Nossa sociedade não preserva a memória, não conhece a história, não acredita em fatos, sente a ameaça do "eu" e, consequentemente, dos grupo a que pertence, e encontrou outras autoridades que deram legitimidade aos preconceitos que há muito andavam escondidos e que agora se levantam com toda a força contra a ameaça do discurso hegemônico que estava sendo ameaçado pela crescente onda de lutas por direitos das ditas minorias.  Nossa sociedade, hoje, está mostrando toda a podridão que estava guardada, todo o ódio, o preconceito e a intolerância, a ponto de pretender eleger um candidato sem nenhum preparo, que prega o ódio, a intolerância, diz que o passado não importa,que as minorias devem se curvar e que devemos matar quem não concordar com suas regras. A nossa sociedade está aceitando que as leis não sejam respeitadas e que a força seja utilizada para punir a todos que pensarem de forma diferente. A nossa sociedade está doente e não sabemos ainda quando virá o remédio. 

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Mulheres modernas


Eu queria ser dessas que vão ao salão de beleza todos os fins de semana e ficam horas infindáveis puxando, esticando e colando cabelo, pintando as unhas com florzinhas, pintando a sobrancelha com henna para ficarem iguais a um desenho animado de vampira; também gostaria de ser daquelas que gostam de cavalos, rodeios, praias de Copacabana, carros luxuosos, música sertaneja e roupinhas coladinhas, tudo no Instagram. Ainda me satisfaria ser daquelas outras que vivem a caça de protestos, ações, campanhas, que se vestem de feministas metralhando postagens militantes, tudo no Facebook, enquanto os filhos estão perdidos no mundo e sozinhos em casa. Talvez fosse bom também ser dessas que se desfazem de suas próprias vidas em proteção aos filhos, protegendo-os do crescimento e deixando-os desprotegidos para sobreviverem. Seria ótimo planejar a minha semana pensando no fim dela, quando poderia encontrar-me com amigos e desconhecidos para beber e ficar muito louca para enfrentar a próxima semana. Quem sabe, seria ótimo se eu tivesse encontrado um milionário nojento para que pudesse me fornecer viagens caríssimas, jóias e todo o luxo que uma mulher acha merecer? Talvez, eu devesse fazer uma lipo e tirar essa barriguinha ridícula que ficou depois das cesarianas, fazer escova progressiva de três em três meses e colocar uns siliconinho pra valorizar. Talvez eu seria mais bem vista se chamasse a todos de amor, querido, vem cá amado, dá um beijo, ou se ligasse para todos os que conheci até hoje regularmente, para relatar a minha rotina. Quem sabe eu fosse mais legal se largasse sempre o que estivesse fazendo para ir ajudar a todos que me solicitassem, distribuindo os meus dotes. Pode ser que, tornando-me importante academicamente, as pessoas comessem a me tratar de maneira diferente, só por eu aparecer em um tablado e falar ao publico com autoridade talvez cientifica, sobre coisas que não importam a mais que uma meia dúzia de interessados. Talvez, assim, me chamem de intelectual, por supostamente estar usando o meu intelecto de maneira superior aos demais mortais e mudando a realidade das teorias que não sairão do papel, ou dos arquivadores digitais. Quem sabe eu devesse, só quem sabe, largar a mão de ser besta e de pensar demais e apenas viver o meu pequeno universo diário? Quem sabe?

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

O blog morreu


O blog morreu. Espero que os blogueiros ainda continuem vivos, e devem estar, espalhando seus falares por outras mídias, ou desistiram de vociferar pela internet. Eu continuo aqui,  uma escrevente firme, escrevo para o vento e os ecos soam de minhas próprias vozes para os meus ouvidos.

No início o blog era um diário, as pessoas utilizavam para falar ao mundo de suas rotinas e sentimentos, como fazem hoje no Facebook e Instagram. Algumas pessoas gostavam de postar coisas engraçadas, outras o transformaram em sites de notícias, vendas, e reflexões, como eu. Os blogueiros se liam, ou liam algumas partes para estarem aptos a comentarem algo sobre a postagem e deixarem seu link para que os blogueiros visitados também os visitassem. Era uma troca interessante de conteúdos e só ficava quem realmente se interessava pelos escritos. Foi através de minhas postagens que encontrei algumas ótimas pessoas, inteligentes e sensíveis, mas praticamente todas já abandonaram o ofício bloguístico. Eu sou uma das poucas sobreviventes que preferem se expressar escrevendo textos fechados que discutindo em comentários. Continuo firme, até que me expulsem, como fizeram com o meu blog do UOL, o meu saudoso "Vassoura da bruxa".

Escrever é uma necessidade; organizo-me e exorcizo-me. Se um caboclo chegar até aqui, nesses tempos de burrice desenfreada e preguiça, e conseguir ler alguma coisa, é como ganhar na loteria. Basta-me.

E sigo. Capengando. Amém.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

O ser humano evoluiu?


A raça humana não evoluiu, no sentido biológico e divino da evolução. Fisicamente, não poderia dizer se as características do cérebro são as mesmas que encontraríamos na época de Sócrates, por exemplo, mas pela complexidade dos pensamentos da época, não parece ter havido muita mudança. O que significaria evoluir biologicamente para os seres humanos, que necessitam basicamente dos poderes cerebrais para sobreviver nessa terra árida? Talvez o cérebro evoluiria no sentido de que o ser humano pudesse nascer preparado para conviver com os outros seres humanos, por que nenhuma espécie pode sobreviver e proliferar totalmente isolada de seus pares biológicos, e essa é uma condição para o ser humano. Então, a evolução da humanidade deveria consistir em se nascer com mecanismos cerebrais que nos possibilitassem sobreviver com os outros. 

Quando estuda-se a humanidade, as áreas do conhecimento se emprestam, às vezes se complementam, mas, na maioria das vezes, se ignoram. Como pensar em estruturas sociais, em sociologia macro, micro, em teorias sobre o movimento da história, se ignorarmos o indivíduo com suas características biológicas e psicológicas? Como ignorar a neurociência? Como podemos imaginar ou supor que os acontecimentos  são por eles mesmos ou por estruturas que os organizam, originam, sequenciam ou culminam, e apenas isso? Parece mais religioso que o contrário.

Naquela época lá do behaviorismo, algumas experiências secretas foram realizadas culminando em catástrofe para suas cobaias, como a experiência onde um dos gêmeos foi levado a "ser" mulher, ou a dos outros três gêmeos que foram separados, colocados em famílias totalmente diferentes e monitorados secretamente. Eu não sei o que foi provado com aquilo além de que seja muito sério tentar manipular vidas de seres humanos e de que as pessoas nem sempre são fruto de imposições ambientais. Há também o caso daquela menina que foi criada com cães; se ela não tiver nenhum problema mental seria indício de, como afirmam alguns cientistas, que se o ser humano não tem contato com linguagem e outros tipos de conhecimento até os cinco anos, ele não será mais capaz de se desenvolver normalmente.

Não sei até onde essas "pesquisas" são verdadeiras ou não, elas apenas nos mostram como ainda sabemos pouco sobre nós mesmos, sobre nosso cérebro e sobre como nos relacionamos e desenvolvemos. Estou a dizer isso porque penso no que aconteceria se, de repente, houvesse um cataclismo e toda a fonte de conhecimento e de desconhecimento, como a internet, se fossem para sempre. Os seres humanos restantes talvez voltariam a viver como no tempo das cavernas e teriam que recriar todos os seus mitos e tecnologias, de uma maneira que não podemos imaginar; acabaria toda a suposta evolução da raça humana. Ou seja, a humanidade evolui de duas maneiras: individualmente (cada um através de sua própria vida, com suas experiências com o mundo, e assim, contribuindo com ele), e socialmente (através da manutenção do conhecimento produzido, armazenado e disseminado). Seria, como gostam os pesquisadores de dizer, uma evolução sincrônica e outra diacrônica. Assim sendo, se não houver mais nada do que chamamos de evolução lá fora, o ser humano será apenas um animal que precisará refazer sua trajetória através de seu cérebro diferentemente preparado em relação ao dos outros animais.

Então, caríssimos, mesmo que filósofos, pensadores e cientistas notáveis, com cérebros mais preparados ainda, e que tivessem acesso a grande parte do conhecimento já produzido, conseguissem desenvolver teorias riquíssimas que poderiam transformar a vida humana de maneira benéfica (porque é pra isso que os grandes pensadores pensam, em sua maioria), nada disso teria valor se o conhecimento não fosse disseminado, aceito e retransmitido. Muitas teorias podem ter sido destruídas em queima de livros, seja por acidente ou por livre intenção daqueles que não conhecem ou que não estão aptos a conhecer a profundidades de tais proposições ali contidas. Assim foi e sempre será. Como proteger a suposta evolução que já conseguimos através do acúmulo e da transformação de conhecimentos gerados por todos esses séculos?

Com o que vemos acontecer hoje no mundo, com o radicalismo e o ódio tornando os seres humanos irracionais e destrutivos, competitivos e cruéis, conseguimos perceber quão frágil é a nossa existência nesse planeta, e quão a merce de nossos instintos de sobrevivência estamos.  O tal instinto de preservação do eu, do qual falei aqui, e que abarca vários aspectos da vida humana, não demanda sempre de reflexões lógicas. As tais da ética e da moral, que criamos para viver socialmente, não dão conta das complexidades humanas. Ter razão deixou de ser racional. 

Imaginemos um individuo que jamais leu um texto completo, consegue  decodificar apenas manchetes de jornais e sempre teve uma vida tomada por atribulações pesadas de uma rotina exaustiva; esse individuo não será capaz de compreender proposições complexas, porque para esse tipo de processamento leva-se anos de muito consumo de informações o que esse individuo não teve e agora, talvez, não queira e não seja capaz de ter. Além do próprio vocabulário, que poderá ser totalmente desconhecido para ele, todas as definições que vem com ele e as conexões intertextuais que esse individuo poderia fazer em relação a história e até mesmo a procedimentos práticos relacionados a esse vocabulário são algo inacessível ou inexistente. O nível de compreensão desse individuo será, consequentemente, diferente do de alguém que cursou faculdade e passou a juventude lendo tratados de economia, literatura clássica e livros sobre filosofia. Não há como as duas pessoas enxergarem as mesmas coisas, simples assim.

Outra consideração a ser feita é sobre o tipo de ideologia que essa pessoa abraçou de acordo com os princípios éticos que recebeu desde sua tenra idade. A ideologia também modifica a maneira como as proposições são apresentadas por um individuo e como o individuo vai se portar no mundo; muitas vezes a agressividade poderá ser tolerada quando em relação ao que representar um inimigo, ou seja, quando o individuo abraçar ideais que para nós são inadmissíveis, dentro da ética de nossa sociedade. mais uma vez surge o instinto de preservação do eu, das minhas ideologias, do que represento e quero representar.

Não estou aqui falando de perigos reais, ou seja, como sobre a condenação de assassinos em série que representem risco verdadeiro à sociedade, falo sobre a intolerância a tudo o que é contrário ao que abraçamos como certo para a nossa sociedade e para as nossas vidas. Nessas horas, quando talvez a parte biológica fale mais alto, podemos agir até mesmo de maneira semelhante àqueles que representam aquilo que não queremos, nesse momento mostramos como somos todos parecidos. A responsabilidade pela evolução da humanidade está em quem decide se temos o direito sobre o ser do outro, ou seja, quem tem o poder de decidir sobre o que o outro deve ser, ou até mesmo se o outro deve viver. Esse tipo de comportamento, o de se sentir responsável pelo julgamento em relação à individualidade alheia, desequilibra a sociedade, porque interfere diretamente sobre o ser do individuo e cria  parâmetros de riscos sociais baseados em ideologias. Não é como se existisse um leão capaz de acabar com a vida de outro ser humano e que deveria ser exterminado, qualquer coisa poderia ser um leão e qualquer comportamento poderia ser uma ameaça. A subjetividade das ameaças do "eu" são criadas e recriadas a todo momento de acordo com o tamanho das informações que possuímos, nossas experiências e a capacidade de reflexão que foi desenvolvida. 

Há muito o que se refletir... Mas eu não penso que a humanidade possa dizer que tenha evoluído. Não com o que os meus olhos vêem a cada minuto.


sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Decisão de amar


Acordarmos e gostarmos de quem está ao lado, mesmo em dias de tempestades internas e caos na humanidade, e com ternura, desejar cuidar e acariciar as sobrancelhas desarrumadas; sentir o desejo de espremer a pessoa até sentir todos os seus contornos e amar todas as formas, considerando-as perfeitas, assim como a brancura dos cabelos, e qualquer coisa que se possa socialmente ser considerada imperfeição.

Irritar-me profundamente com opiniões e gestos que pareçam incoerentes e irracionais, mas esforçar-me em lembrar de todos os motivos que nos levaram a querer nos levar pela vida, assim como lembrar que eu também pareço irracional e incoerente muitas vezes e que, mesmo assim, queremos estar de mãos dadas. 

Darmos muitas risadas, especialmente à noite antes de dormirmos, nos abraçando, virando de lados muitas vezes, até finalmente nos declararmos e dormirmos grudados. E querer estar assim.

Esforçarmo-nos por falar calma e carinhosamente, mesmo quando um está fora de controle, e sabermos no fim que tudo fora bobagem e que não vale a pena ficarmos longe. Amar o calorzinho, o cheirinho, o gostinho, a luz do olhar, o sorriso e tudo.

Ficarmos horas discutindo sobre questões filosóficas, políticas, artísticas, essas coisas que todos consideram chatíssimas, aprender todos os dias e depois falar muitas bobagens bregas e caipiras. Cozinhar, limpar e cuidar, morrer de cansaço e pensar que vale a pena por que aqui estamos.

Cuidarmos todos os dias para não deixar que as humanices nos torne exigentes demais, intolerantes demais e egoístas demais, e saber que muitas vezes não é possível e que isso é normal. Perdoar e tentar ser melhor, e fazer melhor.

Planejarmos cultivar uvas, fazer vinho, fazer pastel, ser alfaiate, fazer rádio, programas, escrever mil artigos, viajar pelo mundo todo, sabendo que nem tudo será, mas que tudo pode ser. Lembrarmos das bizarrices da infância, saber das tristezas, dos sonhos, das alegrias.

Darmos as mãos todos os dias e levantar com ânimo para os dias, o dia todo, sem desistir do que queríamos no começo e para o sempre. Essa é a decisão de amar.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Mulheres são de marte


Eu não sei como é ser homem, mas não é nada fácil ser uma mulher; não sei se essa agrura sempre foi como é, não saberia dizer o que teria sido ser mulher em outras épocas e culturas, se a mulha-sapiens também vivenciava os mesmos sentimentos, como saber? Mas a verdade é que a mulher sempre meteu pavor nos homens, tanto pavor que atribuíram-na toda a culpa da danação humana, quando aquela filha de uma égua da Eva tentou e atentou contra Adão e a humanidade, fazendo-o comer uma fruta que Deus havia colocado lá propositadamente para testar o nível de submissão de sua criação, e desde então, o mundo sofre tudo o que sofre, como o homem (e nesse caso me refiro ao gênero mesmo), que teve que começar a trabalhar para comer e sustentar os outros. A mulher então passou a ser uma bruxa, literalmente, que deveria ser queimada nas fogueiras por causa de seus poderes malignos, ou por ter olhos tortos ou qualquer outra coisa que desagradasse o poder vigente. Ah, mulher, tratada como um ser inútil, incapaz de pensar, de trabalhar, de tomar decisões, de votar. As coisas sérias, como fazer guerras e orgias deveriam ser privilégios dos homens, e das mulheres mais sujas ainda, as com que eles realmente queriam estar, mas nunca poderiam estar. 

Concentremo-nos então apenas na atualidade. A menina nasce, bem disse Simone de Beauvoir, e começa a ser feita menina. Apresentam-na o mundo feminino, as atribuições femininas, o que ela deve ser e do que deve gostar. Na verdade, eu não tenho certeza sobre até que ponto gostamos do que nos é atribuído, ou do que escolhemos por essa ou aquela ração, até mesma a ração da atribuição. Se assim fosse, apenas atribuição, os meninos não seriam gays desde crianças, e são, porque já vi muitos. O ser não se torna gay, ele é, e não sei dizer se ter mais afinidades com coisas do mundo ditas pertencentes ao universo feminino tem a ver com o que ele é, biologicamente, ou com o que ele sente  fazer parte. E lá vou eu me perdendo nas reflexões de gênero e sexualidade, mas, enfim: temos um mundo criado para nós, e não é o de protagonistas.

Hoje ainda ouço homens dizendo que mulher não sabe de nada.  Jamais disse que homens e mulheres são absolutamente iguais, mas isso não diz sobre a capacidade intelectual, pois, como podemos perceber, há jumentos e jumentas nesse mundo.  Somos diferentes em vários outros aspectos. Primeiramente, temos essa coisa terrível que Deus criou que são as mudanças hormonais. Pra quê essa palhaçada?  Vejamos a galinha. Nós, seres humanos, vivendo nas cidades, nos esquecemos de que existe um universo ainda misterioso para nós, que é o dos animais. A galinha bota seus ovos, e do nada (obviamente devem existir mecanismos biológicos que orquestram) fica choca. A galinha fica insuportável! A galinha fica agressiva, muda de personalidade e necessita de ovos para chocar. O ser fica lá, parado, durante 21 dias, se não me engano, e o seu calor faz gerar filhotes! E os pássaros? Sabem que tem que construir seus ninhos, as abelhas sabem que tem que construir suas colmeias e fabricar o mel, os peixes sabem que tem que ir correnteza acima e as tartarugas sabem que tem que ir botar na praia. Simplesmente, sabem. As pessoas pensam. Pensam que sabem. Então, a mulher nasce e passa por esse temporal de hormônios todos os meses, se não ficar grávida. Se ficar grávida, é outra história. O corpo se transforma, estica, muda, e depois, de dentro, sai um ser humano. Tudo muda para sempre. A mulher não pode andar na rua sozinha á noite sem sentir medo. a mulher não pode cumprimentar os homens com um sorriso, porque já consideram um flerte. Quando a mulher está separada, ela não é convidada para festas, às vezes, nem as de família. Quando não tem um macho que tome conta dela e a faça ser séria, ela não é vista como confiável. Que a mulher se mate de trabalhar, normal. Se sair à noite, vagabunda.

Lembro-me que uma vez comentei que a mulher separada ainda era vista com maus olhos, e alguém disse: "Que é isso, as coisas não estão mais assim, mudaram". Hoje estamos assistindo ao vivo e a cores as "mudanças" orquestradas por Bolsonaro, Daciolo e seus seguidores. A sociedade está de parabéns. E mulher é mulher.

Muitos nos vêem como bibelôs, como guerreiras, como ameaças, como manipuladoras, feiticeiras e loucas. A maioria nos vêem como objetos. Ainda.

Nem eu sei o que sou. Só sei que esse mundo não parece ter sido feito pra mim. A mulher Alienígena.

domingo, 16 de setembro de 2018

As inutilidades do Facebook


Cada vez eu entendo menos o compartilhamento no site do Facebook, e cada vez eu sinto mais decadente tal plataforma, apesar de ainda ser a mais utilizada para tudo o que se imaginar; talvez seja a minha antipatia pelo site, pelo tempo que já perdi naquilo e pelos desgostos que aquilo me trouxe é que me façam vê-lo cada vez com mais irritação e incompreensão. Mas, pensemos analiticamente e nos atentemos para as seguintes questões:

😳Por que as pessoas sentem a necessidade de postar todos os dias, e diversas horas por dia, fotos delas mesmas, que dizem sobre como estão felizes, se divertindo, estão belas ou, estão deprimidas?

Porque, como ouvi ontem, "todos querem ser famosos", ou seja, todos querem ser reconhecidos como belos, capazes, felizes, bem sucedidos, ou desejam que alguém venha consolá-los, e a internet permitiu isso a todos através de uma mãozinha, um coraçãozinho e umas palavrinhas que querem dizer mais aos leitores do amigo que ao amigo. Já falei muito sobre isso em outras postagens.

😳Por que as pessoas compartilham notícias?

Por que pensam ser interessante e querem que seus amigos tenham acesso à mesma informação, ou por que querem estar ligados à opinião divulgada na notícia de alguma forma. Quando abrimos o site, somos bombardeados por várias versões da mesma postagem e de notícias que não estamos interessados, como sobre onde fica o fiofó da cobra. De vez em quando encontramos algumas pérolas, mas na maioria das vezes, perdemos horas de nossas vidas ao invés de pesquisarmos diretamente sobre o que gostaríamos de saber, ou visitássemos diversos sites de notícias que considerássemos confiáveis.

😳Por que as pessoas compartilham coisas sobre política?

Porque simplesmente querem disseminar os ideais que consideram importantes, para fazerem campanha, militarem. Porém, essa estratégia é extremamente inútil pelos seguintes fatos:

1- Normalmente, a maioria de nossos amigos comungam dos mesmos ideais que nós, sendo assim, essas pessoas só farão eco comentando, recompartilhando, elogiando, dando likes.

2- Os poucos amigos que não compartilham das mesmas ideias, não estão interessados em ver as  postagens de quem quer militar para o lado oposto,  da mesma forma que quem quer militar não quer ver as postagens do outro, ou seja, será bloqueado, excluído ou receberá comentários atrevidos que não levarão a lugar nenhum, a não ser ao desgaste mental e social.

3- De acordo com os tais algorítimos do próprio site, haverá um número limitado de contatos que verão a publicação, geralmente são os com quem mais interagimos. Clube da Luluzinha trocando as mesmas figurinhas de sempre.

😳Por que as pessoas ainda comentam em publicações?

Porque querem interagir com as pessoas, por que não querem deixar o amigo no vácuo, porque realmente acharam interessante e quiseram dizer algo que não acrescentará nada a coisa nenhuma, porque querem fazer algum tipo de brincadeira pública, e diversos motivos. Mas a verdade é que comentários são mais inúteis que uma bicicleta para um peixe, tanto os comentários de aprovação quanto os de ódio. Nunca acrescentam absolutamente nada, é como se fossem uma enorme lista de paráfrases do senso comum.

😳 Porque as pessoas divulgam suas vidas, rotinas e tudo o mais na internet?

Compartilhar coisas boas com amigos e familiares é uma delícia, mas publicizar a vida para o mundo tem a ver com a primeira pergunta. Só digo que as pessoas deveriam criar mais memórias no cérebro do que nas redes sociais. É só a minha opinião, obrigada, de nada.

O site tem suas utilidades, como encontrar pessoas mais facilmente e saber de eventos... Mas essas são coisas que fazemos quando precisamos, utilizando-o como uma ferramenta, e não oferecendo ao mundo tudo sobre nós como estamos fazendo. Aquilo não é vida real. 

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Uma empregada para chamar de sua


A minha mãe era empregada doméstica. A primeira vez que eu provei estrogonofe, foi quando ela trouxe as sobras da casa da patroa; de vez em quando, trazia também roupas de parentes dos patrões, lembro-me bem do cheiro dessas roupas, nunca era o mesmo que o das nossas. Algumas vezes também apareciam alguns produtos de beleza dos anos 60 ou bugigangas que recebíamos com alegria. Uma vez eu fui até a casa da patroa da minha mãe, uma senhora distinta, que morava sozinha e estava sempre elegante. Mesmo sozinha o tempo todo, a minha mãe colocava a mesa, tudo bonitinho, com as louças, talheres e toalhas de linho. A dona era uma pessoa ótima, uma vez me emprestou dinheiro para fazer o telhado de casa, que estava a ponto de desabar, nunca aceitou de volta. Mas algo não estava certo.

A minha mãe ficava sempre apreensiva na casa dos patrões, cochichava e agia como se aquelas pessoas fossem seres superiores, de outro mundo, seres que possuíam algum tipo de direito divino e que habitavam em um mundo cercado por uma linha intransponível, e que nós estávamos mortalmente do outro lado. Não era uma questão de hierarquia, somente, mas era uma questão de identidade, ou seja, a maneira de se ver e de se colocar no mundo.

Eu nunca seria uma boa empregada doméstica. O Brasil é o país que possui mais empregados domésticos no mundo, e isso diz muito. O hábito ou desejo de ter alguém para nos servir e fazer toda aquela chatice e sujeira que não queremos fazer, é parte da alma brasileira. Eu também gostaria de chegar em casa e não ter que limpar o chão ou cozinhar diariamente, lavar toneladas de louça suja, levar o lixo para fora, arrumar o meu próprio guarda-roupa; gostaria de ter  todo o meu tempo para ler, estudar, viajar, fazer trabalhos que me agradem e que me deem visibilidade, ou ter tempo para ficar dormindo a tarde toda. Gostaria de ficar assistindo as séries no Netiflix e fazendo tudo  o que é curso que aparecesse. Talvez seria bom também que outra pessoa, com outra cultura, outra educação, outros valores, educassem os meus filhos, os levasse para a escola e aguentasse as suas chatíssimas e infinitas birras. Só que não.

Há diferenças entre contratar alguém para prestar algum serviço esporádico de limpeza e ter uma empregada doméstica. A casa é o espaço privado e íntimo, onde a família vive, briga, planeja, cresce, se desenvolve, não é uma empresa. Ter uma pessoa estranha e desconhecida dentro da casa, da família, para servir, como se fosse um móvel, parece-me uma das coisas mais degradantes. Como eu poderia educar meus filhos dando-lhes uma vida onde uma pessoa existisse dentro de casa para arrumar suas camas, lavar seus pratos sujos e limpar a sujeira que derramassem no chão? Como um indivíduo pode ser completo e compreender as relações e os seus deveres como seres humanos, se aprendessem desde cedo que alguns nascem para servir, e que eles não são esses alguns? Como um indivíduo pode crescer sem lavar a sua própria cueca e limpar o que suja? Como um elemento tem a capacidade de sujar algo e jogar para que o outro limpe?

Muitos defendem a opção por manterem empregados domésticos, pois estariam oferecendo emprego aos que precisam, e argumentam que não há nada de errado em pagar para que alguém faça o trabalho chato e sujo que não querem fazer. Boas argumentações, mas se vivêssemos em uma sociedade mais evoluída, não precisariam existir pessoas que se sujeitassem a trabalhar, muitas vezes em condições humilhantes, fazendo o que os outros não querem fazer por eles mesmos, e depois, fossem para suas casas caindo aos pedaços para fazerem por elas mesmas os mesmos trabalhos "humilhantes".  Se vivêssemos em uma sociedade igualitária, todos poderiam sair para trabalhar em coisas interessantes e ter tempo para cuidar de suas próprias vidas e filhos. E, quando não quisesse fazer, pedisse comida em casa ou mandasse a roupa para a lavanderia.

Um dia, no programa de esporte, que, aliás é só sobre futebol, vi uma mãe já idosa indo visitar o filho nos treinos com o netinho. O engraçado era que o bebê estava o tempo todo com a babá, mas nada foi mencionado sobre ela, era como se ela fosse invisível. Falavam da vovó dedicada, do papai amável, mas nenhuma palavra sobre a mulher invisível que estava carregando e cuidando da menina.

Ter um empregado doméstico é como ter uma coisa, um bem. Eu não conseguiria ser uma nem conviver com uma me servindo dentro de casa, justamente por que não a vejo como um móvel, mas como uma pessoa completa e igual a mim. 

Quando penso na relação da minha mãe com os patrões, enxergo uma escrava submissa aos mandos dos donos. Eu não gosto disso. Eu não gosto de elevadores de serviço; eu não gosto de ver babás, principalmente quando elas usam uniformezinhos brancos; eu não gosto de fila VIP; eu não gosto de "serviço braçal ou intelectual"; eu não gosto de machismo, racismo, elitismo; eu não gosto de Boçalnaro.

Posso parecer radical, mas não há igualdade de oportunidades verdadeira onde as pessoas desejam ter empregados domésticos dentro de casa. Não me parece certo pagar alguém para que limpe nossa sujeira, nossas calcinhas encardidas, o barro dos nossos pés no chão, nossa cama suada, e os pratos cheios de comida dentro da pia. Enquanto esse pensamento escravocrata e burguês prevalecer, não adianta fingir que nos tratamos igualitariamente, nem que já somos crescidos o suficiente. 


terça-feira, 28 de agosto de 2018

Sonhos de uma mestranda - sobre memória e identidade



Quando estamos imersos em um trabalho de pesquisa e o objeto de estudo, assim como as teorias que se relacionam a ele, passam a fazer parte fundamental de nossa existência, encontramo-nos em um estágio emblemático em que muitas reflexões podem surgir de diversas maneiras; permito-me a mencionar um sonho que tive em uma dessas noites agitadas e que, ao acordar, nomeei-o de “sonho sobre a identidade”. Além de ser um dos sintomas do quão se torna perturbador e profundo o processo de pesquisa, a narrativa de um sonho tem muito a nos dizer sobre nossos medos, desejos e sobre reflexões em andamento, as quais surgem de maneira simbólica, como nos revelou Freud em seus escritos.

Esse foi um dos sonhos mais belos que já tive, esteticamente falando; iniciou-se em plano aberto, mostrando algumas casas de alvenaria em terra árida. O clima e a iluminação nos remetiam ao oriente médio, mas, em meu sonho, tratava-se da cidade em que cresci, Ipatinga. Eu estava lá para fazer um documentário sobre um grupo de jovens que se destacou pela originalidade da música. Juntamente com algumas pessoas da comunidade, sentei-me na beirada do asfalto e de lá observávamos, por entre pedras, os jovens negros e bem produzidos, produzindo um videoclipe; eles se divertiam na areia da praia, com o mar ao fundo (em Ipatinga). Ouvíamos o som da música que misturava reggae e Luiz Gonzaga. Passamos para outro plano, como se estivéssemos em um filme; agora estamos no meio de uma ruela escura, onde mal podemos distinguir os itens da paisagem negra. Uma menina vestida com short e mini blusa, sem seios, descabelada e suja, nos fala. Ela seria a possível informante que nos ligaria aos personagens do grupo. Sua fala era triste para nós, mas era apenas a realidade para ela; contou-nos sobre seus filhos, que estavam esperando sozinhos e por isso tinha pressa; disse que um dos integrantes tinha ido para a França e esquecido a família na favela, que outro tinha irmãos presos, e ainda, que um terceiro, deixava os pais passarem fome. O filme do sonho agora mostrava um barraco escuro e entulhado, onde os integrantes do grupo chegavam, alegres e falantes, e, rapidamente, tiravam seus sapatos e tênis de luxo para calçarem os confortáveis e baratos chinelos e sandálias. Não precisavam mais representar, podiam ser eles mesmos e ficar com suas próprias identidades. A última cena de meu sonho, antes de ser acordada pelo sair do meu filho para a escola, foi a de um outro barracão escuro, onde uma japonesa com o rosto pintado de branco e vestida de gueixa sentava-se a espera de seu marido, um rapaz negro do grupo musical. Ele aproximou-se dela e disse algumas poucas palavras em português, ela sorriu e disse sim, com a compreensão de seu mundo às palavras do mundo dele. Jamais falariam a mesma língua. Acordei pensando sobre o que aquele sonho queria me dizer e sobre o que eu teria a dizer sobre aquele sonho.

Os integrantes podiam sair da favela, mas a favela nunca sairia deles, no sentido que suas identidades estariam eternamente ligadas ao que eles vivenciaram em seu processo de crescimento e formação individual e coletiva. O ato de retirar os sapatos quando se encontravam em seu ambiente familiar, onde se sentiam confortáveis, onde tinham permissão para serem o que o interiormente sentem que são, nos faz pensar sobre os papéis que precisamos representar em nossas rotinas, ou sobre as identidades que desejamos ou precisamos adquirir. O mesmo acontece com alguém que é habituado a comer frango com as mãos e precisa adotar uma forma de agir diferente do que lhe é natural quando come em um restaurante, ou quando precisamos ser polidos ao perceber que o atendente de um local é alguém de quem não gostamos. Trata-se do controle do corpo a que se referia GIDDENS(2002), quando o corpo age controladamente a fim de representar um papel de acordo com os comportamentos aprendidos socialmente. Nesse ponto, a memória e a identidade estão intimamente ligadas, pois é através da memória das práticas sociais, e de todos os elementos que fazem parte da memória coletiva e social de uma comunidade, é que as identidades são construídas e significam.

Mais reflexões a posteriori.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Futebol: o culto ao culto


Tenho falado um pouco sobre o futebol e o que percebo agora, mais claramente, é que se construiu a cultura de se cultuar o próprio culto ao futebol, ou seja, é considerado meritoso se descabelar, sofrer e dar a alma pelo time de futebol, cultua-se essa paixão descabida e desenfreada; o verdadeiro torcedor seria aquele que faz parte de torcidas organizadas, que paga mensalidades para o clube, que frequenta estádios assiduamente, que veste a camisa, que desqualifica o adversário, que chora, grita e se desespera, e isso seria uma grande qualidade, segundo os apaixonados por esse esporte.

Esse culto ao fanatismo foi se criando em nossa cultura com grande ajuda da mídia, obviamente, como podemos ver nas capas de todos os jornais. Futebol sempre é destacado como a coisa mais séria e importante em nosso país, como poderíamos duvidar? Os jornais retratam o que é importante para o povo, ou criam necessidades e "importâncias"? Bem, essa é outra discussão.

Quando se fala sobre fanatismo em outras esferas, isso geralmente é visto com negatividade, como no caso do fanatismo religioso, mas ao contrário, no caso do futebol, parece que é obrigação para os amantes de tal esporte. Alguns admiram-se em assistir crianças sofrendo profundamente com a derrota de um time, admiram o "amor" doído e a escravidão servil, a devoção a uma camisa, uma bandeira e a jogadores milionários. 

Não, eu nunca entenderei que as pessoas realmente levem a sério o futebol, e quando digo levar a sério, refiro-me a alterar todo o comportamento por causa de campeonatos. Jamais entenderei a alegria desmesurada em ver um time vencer outro. Entendo apenas que essa é uma forma que as pessoas encontraram para dar sentido às suas vidas e de saírem de suas capas protetoras da civilização, e por esse lado, até que gostaria de ter uma paixão que me fizesse sair de minha armadura e me permitisse  ser mais humana do que gente civilizada, arrancando tudo o que fica doente de dentro da alma. Mas, ainda não tenho.

Só acho que tudo o que escraviza, transforma as relações, gera stress e ansiedade, não pode ser algo saudável. Sim, é um culto, por que trata-se de religião e de fé, de veneração e paixão, e, mais que isso, de submissão diante de um ser sagrado. Nunca tive religião. Talvez isso que me falte para compreender e ser mais humana. Ou não.

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Tudo pelo poder! O poder de ser deus