terça-feira, 17 de julho de 2018

Por que homem só fala de futebol?


Durante algum tempo, todos os dias, a qualquer momento em que eu me atrevesse a parar para prestar atenção à conversa dos homens que trabalhavam na rua, a conversa era sempre a mesma: futebol. Essa não é uma mera questão que versa sobre a tal "paixão nacional", ou sobre supostos gostos masculinos, mas é algo que nos faz pensar sobre muitas coisas que aí estão envolvidas. Essas pessoas falam sobre futebol, não apenas como alguém fala do tempo, para introduzir conversa ou se aproximar de outro, mas falam de futebol para tudo.O futebol é como se fosse também uma grande metáfora da vida, de suas vidas, que funciona como instrumento de identificação e de argumentação.

A primeira coisa que me vem é a questão sobre grupos, e sempre digo que essa questão é fundamental para a humanidade, pois explica muita coisa. Pensemos que antes da necessidade de se identificar, se diferenciar, ou seja, de pertencer a algum grupo, vem a necessidade de preservação da vida; essa necessidade é que move tudo mais, é que transforma e forma, é que cria a ação. É através dessa necessidade natural e animal de preservação da própria vida, do próprio EU, é que tudo mais existe; o medo, a manutenção do medo, ou seja, a utilização do medo como arma de manipulação, nada mais é que a afirmação da necessidade da preservação do EU. É essa necessidade que faz com que as pessoas se submetam, se agridam, se excluam, e essa necessidade é que também cria grupos.

Em relação à identidade, eu posso dizer que sei quem sou em comparação ou em contraste com o outro. Eu sei que eu sou eu, porque eu não sou o outro, ao mesmo tempo que encontro pontos de congruências com o outro, e ao mesmo tempo também que gostaria de ser como o outro; se o outro é, ou possui algo que eu não possuo, isso pode me levar a desejar ter ou ser o outro. Dessa forma, quando a identificação ou a falta dela se torna extrema, podem surgir sentimentos e ações que visem destruir o que enxergamos no outro, seja o que queremos ou o que odiamos; assim acontece com grupos radicais que visam o extermínio daqueles que representam tudo o que odeiam (como por exemplos negros, homossexuais ou judeus), ou a destruição do que amam, como acontece com alguns fãs que assassinam seus ídolos. É como se o EU estivesse ameaçado pela diversidade do outro, pelo o que o outro tem de melhor e de pior que nós mesmos.



Desde muito cedo, precisamos pertencer a grupos, fortalecer nossa identidade através das características que esses diversos grupos possuem e as quais nos agradam e nos seduzem. O que seduz e agrada a cada um, vai depender de diversas questões, que abrangem as áreas sociais, culturais, históricas, biológicas e psicológicas. A verdade é que o ponto mais importante é a relação que vamos construindo com as pessoas e com a sociedade através de nossas vivencias e emoções, que vão ressaltando características do outro e de nós mesmos, as quais vamos tentando moldar ao longo da vida, de acordo com essas inúmeras questões ditas anteriormente. Tudo isso diz do que somos, do que nos tornamos, ou do que escolhemos nos tornar. Então, fazer parte de um grupo como o do futebol, diz muita coisa.

Em nossa cultura, assim como em muitas outras, a importância do futebol cresceu de maneira notável. Nasceu como um esporte simples e barato, foi cultuado pela media e pelos governos, criou ídolos, trouxe emoção, ópio para os simples mortais que precisam descarregar sua agressividade e estress oprimidos pela cotidianidade; em uma partida de futebol, é permitido expressar-se livremente, aliás, é até esperado que nos comportemos dessa maneira, é algo que aprendemos com nossos pares; é como se fosse uma espécie de carnaval que dura 90 minutos, uma válvula de escape e uma fonte de fortes emoções para os torcedores. Quem não gostaria de fazer parte de um grupo desses? Muitas vezes, o fanatismo pelo futebol é visto como uma qualidade e os extremos são elogiados, o que dá mais liberdade e potencializa a demonstração extrema de paixão e as próprias emoções. Se é conveniente, bom ou ruim, não é a questão. A questão é que o futebol se transformou em um grande evento, em todos os sentidos, um ritual familiar querido e aguardado, e por isso não costumamos questionar as transações milionárias, o marketing e tudo que hoje também faz parte do futebol. É uma religião.

Essa religião, o futebol, com seus diversos times, dão aos mortais uma chance de pertencerem a um grupo que pode ser vencedor, como os soldados que vão para as guerras por sua pátria. Quando os torcedores falam das vitórias de seus times, dizem "nós", como se estes realmente fizessem parte de uma legião, daquele time, como se suas vontades e superstições fossem influenciar de alguma forma no resultado de suas partidas, eles realmente "vestem a camisa", e muitos ainda contribuem financeiramente com doações a fim de "ajudar" o time milionário. O futebol deixou de ser apenas uma fonte de entretenimento para passar a ser um ritual religioso e sagrado, intocável e inquestionável. Fazer parte de um grupo como esse reforça as características favoráveis da identidade do indivíduo que se torna, por tabela, também um vencedor, por que é parte do grupo, e por torcer, contribuiu com a vitória.



Além de todo esse lance sobre grupo e identidade, falar sobre futebol seria uma maneira de se expressar superficialmente, não tratando especificamente de si mesmo, mas assumindo para si características de seu grupo, ou seja, fazer parte de um grupo que torce para um time, automaticamente significaria assumir características atribuídas aos torcedores daquele time, assim como pegar para si as suas vitórias e, com justificativas, suas derrotas. O embate dialógico se daria em nível metafórico e trataria aparentemente sobre "o outro", o time, mesmo que o debatente se identifique e se refira ao time como "nós". Dessa vez, é o time que fala por ele, ou ele que fala pelo time, os méritos, as vitórias, os vexames, as derrotas, são parte dele, mas não totalmente atribuídos a ele. Então, esses torcedores, desde os mais fanáticos aos que apenas utilizam os episódios para entretenimento sem sofrer muito, podem passar horas falando sobre os lances, discutindo os passes, o carácter dos jogadores, os títulos, sem que precisem falar deles mesmos, ao mesmo tempo que falam deles mesmos através de suas argumentações. É nesse diálogo, onde cada um defende o seu time, que eles se identificam como indivíduos que fazem parte de um grupo maior, o dos amantes de futebol, daí a camaradagem na maioria das discussões.

Não, não é assim com mulheres (ou homens) falando sobre novela, ou sobre qualquer outra coisa. Quando falo sobre mulheres e novelas, é porque existe um estereótipo sobre homens e futebol, e mulheres e novelas. A questão não está relacionada diretamente a gênero, pois, embora, culturalmente, a predominância de interesse por novela seja de mulheres e o engajamento por futebol seja de homens, vemos que o contrário ocorre cada vez mais. A novela, os personagens, os acontecimentos, são apenas fatos que as pessoas trazem à tona e discutem, concordando ou discordando; fazem conjecturas, mas, em geral, todos tem a mesma opinião e torcem para os mesmos personagens, porém, as histórias da novela não fazem parte da identidade, e da cotidianidade como o futebol parece fazer. Podemos, talvez nos identificar com personagens, imitá-los e roubar-lhes alguma característica, mas não sofremos desmesuradamente por suas perdas, não idolatramos o programa, não o santificamos (salvo alguns fanáticos). A novela é apenas mais uma fonte de entretenimento que tem seu início, meio e fim, sabemos que é ficção e pronto. Nós não fazemos parte de um grupo de noveleiros, ou filme-maníacos, fanáticos por séries, ou algo parecido, esses hábitos não criam grupos definidos e coesos. O futebol parece ser parte da vida dos indivíduos, parte integrante de sua identidade, ao menos em sociedades que idolatram o futebol, como a nossa. Embora o título sugira, não é só homem (embora seja a maior parte, e embora a maior parte do assunto tratado por eles, em geral, seja futebol) que fala de futebol.

Bom, eu não sou fã de futebol, assisto de vez em quando para entretenimento e não gosto de fanatismo de nenhuma espécie, mas não posso negar que o futebol se tornou algo importante e é parte da identidade de muitos brasileiros; também é notório que o futebol rende muito assunto para ser discutido, muito além dos lances futebolísticos.




segunda-feira, 9 de julho de 2018

Os vira-latas do mundo


Depois de ver pelas ruas e internets da vida algumas jovens que estão de "saco cheio" de muitas atitudes machistas, resolvi falar um pouco sobre relacionamentos, mais especificamente, sobre pessoas que não amadureceram a ponto de saber que escolhas tem consequências, e que quando envolvemos outras pessoas em nossas escolhas, somos responsáveis pelo mal que esse envolvimento possa causar-lhes. Já falei inúmeras vezes sobre isso, e, longe de ser uma expert em relacionamentos, sou apenas uma observadora reflexiva da realidade. Cada qual deveria procurar viver da maneira mais aprazível, mas o prazer é algo que pode apresentar muitas nuances. Geralmente, se não sofremos de nenhuma fobia ou outra coisa que nos diferencie da maioria, sentimos prazer em satisfazer nossas necessidades básicas, que são, por exemplo, a de saciar a fome, a sede, o sono, e os desejos sexuais; porém, podemos escolher qual a melhor maneira de satisfazer essas necessidades, e cada um sabe, ou deveria querer saber de si. Há pessoas que desejam uma vida repleta de emoções, variedades e prazeres transitórios, e há outras, que sentem prazer em eleger pessoas e compartilhar pequenos prazeres, e há muitas variações disso. O problema é quando as regras do jogo não estão claras e envolvemos pessoas que não estão dispostas a participarem de determinados joguinhos. O problema é quando temos a ciência de que estamos envolvendo alguém em nossas redes e esse alguém não tem ciência das reais intenções do jogador. Isso é cruel, infantil e desonesto.

Existem pessoas que pensam estar em um patamar superior e que o seu jogo é o jogo de todos, onde o vencedor é sempre o mesmo, ou seja, elas mesmas. Não respeitam laços, contratos, nem os seus, nem os dos outros, e saem pelo mundo a ferir almas quase inocentes que se enrolam nas artimanhas da jogatina. Geralmente, mas não é regra em nosso mundo contemporâneo, o grande jogador é o homem, que sai pelo mundo enredando as pobres almas, sem se dar conta das consequências. Há alguns, que mesmo quando firmam contrato com alguma pobre desinformada, saem por aí atirando suas balas como se o tal contrato não existisse, ou seja, o jogador quer levar tudo, "The winnwer takes it all". Para livrarem-se de suas culpas, lançam mão de frases feitas, como: Cão de raça sempre tem dono", "segurem suas cabritas que o bode está solto", ou outro ditado machista, demonstrando o seu sentimento de superioridade sobre eles mesmos, que supostamente os isentaria da culpa de enganar moiçolas, pois essas já deveriam saber que tal mercadoria, tão exuberante, já estaria arrematada, ou que tem direitos de nascença.

Bem, resumindo, não são apenas os homens que jogam sujo, que não respeitam contratos, que não reconhecem-se a eles mesmos, que subjugam e que ferem, mas ainda em nossa cultura, eles fazem esse papel de predador insensível que precisa caçar suas presas descartáveis. É uma pena que as relações estão ainda longe de amadurecerem e que as pessoas estejam ainda longe de serem leais e verdadeiras com os outros e com elas mesmas.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

Loucura apaixonada


Nós somos loucos, ele e eu, caminhantes quase errantes que se encontraram no caminho.

Loucos, é o que nos dizem, cada um com sua loucura, destoantes, e concordantes na essencialidade.

Loucos, um pelo outro e pelo que sonhamos em construir juntos, antes mesmo de nos conhecermos; loucos nesse mundo, ele ainda espera, eu, esperei e cansei, nós, vivendo na demência e nos consolando.

Loucos, porque amamos apaixonadamente e não nos importamos com as conveniências e modelos contemporâneos.

Sonhamos como adolescentes e brincamos como crianças na seriedade de ser quem somos. Amamo-nos como anciões que já sabem de tudo.

Assim vamos, na loucura boa de viver o que sentimos de verdade, e na verdade de ser quem somos. Conhecemo-nos, assim supomos, e enquanto assim pensarmos, será eterna a loucura e apaixonado o amor.

terça-feira, 3 de julho de 2018

Não estou aqui para agradar



Cansei de ser besta e tentar pertencer a grupos com os quais não me identifico. Nunca mais vou sorrir se não quero, vou dizer sim, se o desejo é de não. Não me importarei com os que dizem que o meu cabelo fica mais bonito quando liso, pois esse cabelo não é meu. Não vou usar algo torturante e desconfortável por que salto é sexy. Não vou ficar contando piadas de sexo para parecer descolada e moderninha, porque jamais entendi qual é a graça e não vejo sentido em piadas de sexo. Não vou usar maconha aos 41 anos, porque sempre fui careta e não vejo mais a necessidade dessa experiência. Não vou sair por aí com uma trupe de artistas, porque também não vejo sentido ou prazer nesse estilo de vida. Não vou sair transando com um monte de gente, por que não me apraz. Não vou me fingir de boazinha, nem ser legal, por que eu sou chata mesmo, se ser chata significar dizer não e vá se ferrar quando alguém me desrespeitar. Vou dormir até a hora que eu quiser, porque Lafargue estava certo em seu ensaio sobre a preguiça, e não quero mais carregar essa culpa cristã idiota. Não preciso ficar noitando nos fins de semana, ficar em casa no cobertor, com um vinho e um amor, me satisfazem muito mais na atualidade. Mas, não abro mão de conhecer lugares, sabores, cheiros e sensações novas. Vou escrever o que eu quiser e quando quiser, e não para encher linguiça, prateleiras academicistas empoeiradas e Lattes. Não vou a festas, se não quiser, e quem me ama me entende. Ou não. Não farei mais papel de mim mesma, a não ser quando não tiver realmente escolha, mas não ganharei nenhum Oscar. Amanhã as cortinas se fecham, e o espetáculo da vida dura pouco tempo para desperdiçar com tudo o que não quero e não sou.

segunda-feira, 25 de junho de 2018

O que somos e o que poderíamos ser - seres biológicos ou sociais?


Quando menina, eu não chorava, não. Não me lembro exatamente quando parei de chorar ou o porquê, mas tenho vagas lembranças de ter sido taxada como pirracenta, se não estiver enganada. Também tenho vagas sensações de ter sofrido humilhações por demonstrar meus sentimentos, minhas fraquezas. Tentava ser sempre justa com os amiguinhos, e quando os argumentos pareciam-me relevantes, mudava a minha defesa, diziam-me para que escolhesse meu lado. Sempre fui muito silenciosa e observadora. Não era uma pessoa de amplas relações, mas a situação da humanidade deixava-me deprimida. Não conseguia me expressar.

Cresci e forcei-me a ser diferente. Compreendi que as pessoas gostavam de falar de si mesmas e que déssemos atenção genuína, demonstrando interesse por suas façanhas, conquistas e desastres. As pessoas também sentem-se confortáveis se dividimos algum tipo de aparente intimidade, e se evitamos a falar mal dos ausentes, isso gera maior confiança e cria um clima propício para compartilhamento de informações. As pessoas gostam que olhemos para elas, que falemos coisas agradáveis e que sejamos sinceros com extrema polidez. E gostam que não falemos muitas verdades dolorosas. A maioria gosta de gente que as faça rir. Embora, muitas vezes eu me sinta desanimada de me envolver em qualquer discussão já discutida bilhões de vezes e que, sabidamente, não dará em nada, forço-me a me interessar. Mas, procuro não cansar-me muitas vezes ao tentar tagarelar mesmices ou a argumentar sobre assuntos que os interlocutores não dominam igualmente, o que exigiria um esforço estupendo de ambas as partes e, também, não levaria a nenhum lugar.

Nunca tive muito apoio. A minha família era desestruturada, vivi em uma pobreza horrorosa.  Algumas vezes, procurei loucamente por algo para matar a fome dentro de um armário que sabidamente estava vazio, no qual já havia procurado alguns minutos antes; Não conseguia falar com o meu pai, tamanha mágoa que nos causou, e não o culpo por suas heranças machistas de nossos antepassados. Não me lembro de ter parado para conversar com nenhum deles na infância. 

Eu pensei que jamais veria um avião na vida, e não sentia que era digna de entrar em locais que eram frequentados por pessoas que possuíam maior poder financeiro que o meu. O meu cabelo não era liso, as minhas pernas eram finas, a minha testa era grande. Eu gostava de me sentar na horta sozinha e imaginar aventuras, ou deitar na calçada olhando a imensidão do universo e a minha pequenez..

Casei-me jovem demais, quando ainda tinha vergonha de pegar ônibus ou comprar pão. A minha presença não era desejada, eu era, de novo, parte da herança maldita de nossa sociedade machista. Nunca tive sonhos de ser mãe, mas fui e sou, e de nada arrependo-me, porém, pagamos por nosso despreparo e fazemos com que paguem igualmente, transmitindo as heranças. Fiquei só com os filhos, e eu era-lhes o exemplo, o arrimo. Não poderia ser fraca, não poderia chorar, não poderia passar insegurança. Fui dura, seca, humana. Reboquei e pintei casa, que quase caiu sobre nossas cabeças, fui trabalhar, estudar, ninguém me apoiava para "ir para a gandaia", "sua separada", "pariu Mateus, que balance". Fui.

Eu não me arrependo de nada, e só penso nessas questões quando penso em mim mesma, sobre o que sou hoje e como poderia ser. Talvez poderia ser mais doce e amável, mais calma e polida. Sim, talvez eu pudesse mentir, dizendo que sinto saudades, ou dizer que amo, amando ou não. Talvez as palavras sirvam mais que os atos, talvez.Talvez eu pudesse me abrir mais e oferecer mais, ou não. Cada um oferece o que é capaz de oferecer.

Mas, apesar da dureza e da aspereza, a minha consciência é livre. Não recusei os papeis sociais, ou os papeis relacionais, mesmo que abrindo mão de mim mesma, na maioria das vezes.  Assim sou por causa de tudo o que vivi. Posso ser melhor, mas isso será quando e se eu tiver a oportunidade de sê-lo. Mas, jamais serei medíocre ou colocarei os outros abaixo ou acima de mim. Sou apenas mais um ser nesse mundo efêmero, e essas são apenas mais algumas palavras ao vento da internet. Daqui a pouquinho, não mais estarei aqui, e espero que, mesmo com a minha dureza e a minha aspereza, eu tenha conseguido transmitir os valores que considero justos.


segunda-feira, 18 de junho de 2018

CONSIDERAÇÕES SUPREMAS


- As fofocas de porta em porta e as visitas da tarde foram substituídas por compartilhamentos no Whatsapp;

- Os segundos gastos rolando a bolinha do mouse na página do Facebook é geometricalmente proporcional às palavras que você deixa de escrever em sua monografia/dissertação/tese;

- Conte as horas, dias, meses e até anos que você passou em frente a uma tela na internet e tente recordar dos momentos vividos. Trate se sair e criar lembranças;

- Pesquisas dizem que opiniões mudadas através de discussões em redes sociais chegam próximo de 0,00000001%, mas o desgaste emocional, físico e social não são calculáveis;

- Evidências mostram que a geração seguinte será descendente do Quasímodo, terá forte grau de miopia e não saberá como segurar na mão dos namorados;

- 70% dos adolescentes erram a boca na hora de comer, o que causa sujeira na mesa, sala, cozinha, e, especialmente na cama;

- Já estamos em Matrix de 1984, num apocalipse zumbi.


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Como ser uma feminista de araque


Manu foi criada por uma mãe super protetora que resolvia todos os seus problemas, participava de todas as reuniões, convocações, celebrações e vivia em função da pequena princesa. Quando algum amiguinho fazia algo que a contrariasse, a mãe era a primeira a colocar os pés na escola para tirar satisfações e deixar bem claro que "com a filha dela dela, não"! Sempre que tinha um arranhão, a mãe a levava para o hospital, tinha sempre um xarope na manga. Mas, apesar de todos os "zelos", sua alimentação era totalmente recheada por alimentos calóricos que a menina exigia sem encontrar resistência. Não tinha hora para comer, nem dormir, era livre.

Na adolescência, a mãe continuou limpando suas sujeiras e resolvendo seus problemas; nunca lavou um copo, passava os dias de pernas para o ar, se alimentando de teorias sobre liberdade, ativismo, e tudo o que consumia, teorias, nunca prática. Exigia dinheiro para a faculdade, para as baladas, para as viagens, fazia dívidas e dava o endereço da mãe. Viajava para participar de protestos pelas minorias, pelos animais, pelo comunismo, feminismo, chegava em casa e deixava a mãe lavar as suas calcinhas enquanto a pobre se recuperava de um tombo depois de vertigens na beirada da escada; de vez em quando, declarava o seu amor e admiração por sua mãe guerreira nas redes sociais, enquanto discutia com opinistas de outras ideologias.

Depois de participar de 352 manifestações, experimentar todas as drogas lícitas e ilícitas, queimar todos os soutiens, beijar todos os tipos de bocas que encontrou,  de viver toda a liberdade que quis viver, casou-se e teve filhos, que criou, quando podia, como se fossem pequenos adultos livres e capazes de decidirem tudo, desde se iriam de uniforme ou não para escola, até rasparem e pintarem o cabelo de lilás, com cinco anos. Para ela, não fazia muita diferença, estava muito ocupada lutando pelo mundo, não tinha tempo para comparecer às reuniões de pais, ou de preparar um jantar de vez em quando. Mas, pensava que era absurdo passar uma camisa para o marido, e mais absurdo ainda, não ser levada por ele de carro para onde bem entendesse. Tudo era absurdo, e tudo era exigência demais, separou-se. Libertou-se.

Foi viver a vida de protestos de Facebook e de liberdade total, livre de todas as responsabilidades; postava fotos contra o machismo de camisolinha sexy e maquiagem arrebatadora.  Eram 24 postagens por dia, desde declaração de amor aos filhos, a fotos de camisetinha vermelha no meio da multidão. Oferecia-se para cuidar dos filhos das mães solteiras, participava de projetos voluntários, mas ainda não pagava suas contas. Era uma grande feminista. Não era como a Maria do outro lado da rua, que sempre limpou o seu próprio banheiro e carregou seus filhos por onde quer que fosse, ensinando-lhes que não deveriam tratar mal e nem deixarem-se tratar mal. Maria ensinou-os a respeitar os outros, a assumir suas responsabilidades, a economizar, a cozinhar sua própria comida, os meninos e as meninas. Maria ensinou-os a serem solidários uns com os outros e a ajudarem-se no que um fosse mais fraco que o outro. Maria não aceitou que nenhum babaca entrasse em sua casa, mas gostava de ser livre quando podia. Usou e fez o que quis, mas deu limites aos filhos para que pudessem questioná-los quando fosse o momento certo, para que não se preocupassem com o que não fossem ainda capazes de resolver ou experimentar. Maria, sim, protegeu seus filhos. Ela encontrou um bom companheiro, com quem compartilhou muitas coisas, e que adorava cozinhar. Ela não se preocupava em ter que passar suas camisas, sempre passou melhor e mais rapidamente. Maria participava de mutirões no bairro, participava das reuniões na câmara e ajudava aos que precisavam. Maria não precisava provar nada. Maria era toda vermelha, não só a camisetinha sexy.


quarta-feira, 6 de junho de 2018

Crise de pós-graduação


Qual o sentido?

Perguntinha cretina que existe desde que o homem é homem e a mulher é mulher. Contemporaneamente, qual o sentido da rotina angustiante que todos seguimos, correndo o tempo todo em busca de mais e mais, seja lá do que for? Por que estamos tão preocupados em saber todas as notícias, tudo o que alguém disse ou fez a cada milésimo de segundo, todas as novas piadas, desastres, memes, tudo, tudo, tudo? Por que temos que estar o tempo todo fazendo alguma coisa, por que o movimento é tão necessário, mesmo que ele não produza absolutamente nada?

Por que preciso provar o tempo todo para os meus pares que eu sou importante e sei fazer coisas importantes? Por que preciso agradar a todos e dizer sim para todas as requisições que me chegam? Por que preciso esquecer de mim, de quem eu sou, do que desejo?

Por que é importante escrever uma dissertação sobre os relatos das mulheres que moraram na FEBEM, se isso deverá ficar enfiado naquela parte empoeirada de dissertações do ICHS onde ninguém põe os pés, ou no máximo, em uma página da UFOP que pouquíssimos acessarão? Provavelmente, ninguém se importa com esse assunto, ou com muitos outros das ciências humanas, assunto que talvez possa vir a causar pequeno interesse em poucos escolhidos da área, mas não em pessoas "normais", a maioria com quem compartilhamos todos os momentos. Qual a relevância disso para os meus dias, ou seja, para a melhor vivência, se existe tal expressão?

Se eu morrer agora, terei aproveitado o meu tempo e dado atenção suficiente a quem me importava? Terei sorrido o bastante, falado bastante besteiras, dormido, sonhado, namorado, brincado, passeado, visto o bastante? Ou me arrependerei de ter perdido o único presente que O universo, Deus, ou seja lá o que for, me deu, que são os segundos de vida, diante de uma tela ridícula que me traria emoções de papel?

Crises existenciais em tempos pós modernos.

Amém. Não.



terça-feira, 5 de junho de 2018

Se queres seguir conselhos de amor

"O poeta é um fingidor..."


Se queres seguir conselhos,
Não sigas os dos poetas,
Só os tomes como modelos,
Se forem para patetas.

Palavras lindas, trágicas, fortes e cruas,
Servem-nos em momentos de lua,
Ou relembrando das carnes nuas.

Quem geralmente as profere
Nunca foi ou será perfeito;
Apenas servem ao que querem,
Esvaziar-lhes o peito.

Não sigas também os filósofos
Infelizes e agonizantes,
Quase sempre desejosos
De serem ignorantes;

De vidas quase sempre desastrosas,
Levam-na a questionar
E a negar certezas postas
Sem deixarem-se libertar.

Não sigas os romancistas, tampouco,
Esses burocráticos sonhadores
Que colocam-se pouco a pouco
Nas histórias de seus locutores.

Dos pintores, admires as artes
E seus dizeres gritantes,
Que falam de todas as suas partes,
Felizes, quentes, angustiantes.

Se queres seguir conselhos,
Esqueças do que eu digo,
Cuides de seus pentelhos
E eu cuido do meu umbigo.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Pequena análise discursiva de um suposto texto do padre Fábio de Melo



Hoje eu recebi uma mensagem atribuída ao Padre Fábio de Melo, que me fez refletir sobre como as mensagens são disseminadas e são interpretadas por seus receptores. A mensagem era essa:

Eu cresci comendo a comida que minha mãe podia colocar na mesa, sempre respeitei minha mãe e as pessoas mais velhas... Tive TV com 3 canais e não mexia para não quebrar, e antes de sair para escola arrumava a minha cama... 

Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalço, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador... 
Ajudava minha mãe nas tarefas de casa, e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir.

Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação. Notas baixas era castigo, apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!!

E não sou revoltado, não faço analise em médico, e não falta nenhum pedaço em mim.
Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando!

Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor...
Por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres!

Se você também faz parte dessa elite, COPIE E ENVIE para mostrar que sobreviveu. 

Padre Fábio de Melo

Depois de algumas reflexões sobre a mensagem, pesquisei para ver se o autor teria mesmo sido o tal padre, e, de acordo com esse site, não era. Bem, o autor então seria desconhecido, e sem a autoridade aclamada de um padre. Qual seria a intenção de distribuir uma mensagem como essa, dando-lhe uma legitimidade que não tem? Talvez, o autor só quisesse ver seu texto famoso, como os que atribuíram os seus textos ao Luis Fernando Veríssimo e à Cecília Meireles, ou talvez, o autor e os que concordam com o que diz a mensagem, gostariam de fortalecer a ideologia que tinham sobre a criação de filhos. Mas, o que diz a mensagem? Vamos por partes:

Eu cresci comendo a comida que minha mãe podia colocar na mesa, sempre respeitei minha mãe e as pessoas mais velhas... Tive TV com 3 canais e não mexia para não quebrar, e antes de sair para escola arrumava a minha cama... 

No primeiro parágrafo, o autor, ao dizer sobre a comida que a mãe podia colocar, utilizando a mãe, e não o pai, como seria comum ao se referir ao provedor quando falamos de um passado não muito distante, revela que ele poderia viver apenas com a mãe, e que essa era quem  colocava a comida que era possível colocar no momento, e ele, comia. Ao dizer que sempre respeitava as pessoas mais velhas, podemos nos atentar ao não dito, ou o que poderia ter sido dito no lugar, parafraseando sua fala; o autor poderia ter dito que nunca desrespeitou os mais velhos, mas, preferiu reforçar a sua conduta positiva. Em seguida, diz que a televisão tinha apenas três canais; ao numerar os canais, poderia estar fazendo alusão à quantidade de canais que as televisões possuem à disposição hoje em dia.Diz ainda, que não mexia para não quebrar; "para não quebrar" explica uma regra e o motivo pelo qual não mexia. Ao dizer que arrumava a cama antes de sair, isso não representa apenas um encadeamento de fatos, mas é uma exposição de como era a ação normal para o seu dia.


Fazia o juramento à bandeira na escola, bebia água de torneira, andava descalço, tênis barato e roupas sem marca, não tive celular, nem tablet e muitos menos computador... 
Ajudava minha mãe nas tarefas de casa, e não achava que era exploração infantil, tinha horário para dormir.

Nessa parte, o autor exalta alguns hábitos, como fazer juramento à bandeira. O "fazer juramento à bandeira" levanta uma memória discursiva que nos leva ao tempo do militarismo, da "moral e cívica", da ditadura, quando todos eram obrigados a idolatrar os símbolos nacionais e saber todos os hinos. Esse hábito destoa um pouco semanticamente dos outros que são citados a seguir, como andar descalço e beber água da torneira (hábitos de quem tinha poucas posses ou vivia com a meninada pelas ruas) e ter roupas de marca, celulares, tablet e computador (o que nos leva a pensar que atualmente as crianças exigem tais consumos). Quando ele diz que ajudava a mãe nas tarefas e não achava ser exploração infantil, faz alusão aos discursos dos jovens atuais, que se queixam em fazer as tarefas das casas onde moram; ao dizer que tinha horário para dormir, deixa claro que tinha regras e que elas eram cumpridas, sugerindo que hoje não é assim que acontece.

Quando tirava boas notas não ganhava presentes, porque não tinha feito mais que minha obrigação. Notas baixas era castigo, apanhava quando aprontava e isso era apenas um corretivo e não caso de polícia!!

Nesse trecho ele fala sobre a rigidez do tratamento dos pais com os filhos, que colocavam como regra o bom desempenho na escola, e quando descumpriam essa regra, as crianças eram castigadas com agressões físicas. Então entra a parte polêmica que questiona a lei da palmada, que pode punir os agressores legalmente. Segundo o seu discurso, corrigir os filhos com castigos físicos seria legítimo e até mesmo necessário. Quando ele diz que "não ganhava presentes", faz alusão à maneira como as crianças e adolescentes são gratificadas por fazer o que, segundo suas palavras, seria cumprir as regras estabelecidas.



E não sou revoltado, não faço analise em médico, e não falta nenhum pedaço em mim.
Menos frescura e mais disciplina para essa geração!!!! É disso que o mundo e as crianças estão precisando!

Aqui, expõe as consequências da educação que recebeu, justificando que a maneira rígida que fora tratado não teria causado nele algum trauma ou lhe prejudicado de alguma forma. Segue clamando por disciplina e menos "frescura". "Frescura" estaria fazendo referência ao contraste da forma como ele fora tratado na infância, quando os pais eram mais rígidos com os filhos, em relação a geração atual, que precisaria de incentivos para cumprir as regras impostas pelos pais. A palavra disciplina também aciona a memória discursiva que faz referência ao período militar, quando as palavras do momento eram disciplina, ordem e progresso. Segundo o autor, as crianças de hoje precisam das regras e da disciplina que existia no tempo em que ele era criança.

Ordem, Respeito, Disciplina, Bondade, Educação, Obediência e Amor...
Por um mundo onde não haja só direitos, mas também Deveres!

Aqui aparecem novamente as palavras que acionam a memória discursiva relativa ao período ditatorial, que são a ordem e a disciplina, assim como a obediência.Parafraseando a frase seguinte, ele poderia ter dito que este mundo, para os filhos de hoje, só lhes dão direitos, e não deveres.O autor coloca ainda atributos como bondade, educação, respeito e amor no mesmo balaio dos outros conceitos ensejados por ele. 

Conclusão:

Cada discurso fala de seu tempo e suas formações discursivas, assim como acionam memórias discursivas de outras formações, mesmo que o locutor não tenha ciência dos significados por trás do que diz; como diz Pêcheux,  o enunciador tem dois esquecimentos, e um deles é esquecer-se de que o que diz já foi dito, ou seja, ele pensa ser a origem de tudo o que diz. No momento em que vivemos, quando vemos uma polarização de opiniões e de posições, não apenas no Brasil, a nossa interpretação desse pequeno texto reproduzido e distribuído através das redes sociais, pode gerar diversas reações. O assunto gera polêmica por diversas questões, a primeira delas fala sobre a educação de filhos, sobre a maneira que os pais deveriam lidar e interagir com eles, e sobre a aplicação de castigos físicos às crianças; a outra questão diz sobre a suposta apologia à ideologia que existia na época da ditadura militar no Brasil, o que aparece nas entrelinhas, quando palavras que remetem aos discursos ditatoriais fazem parte das justificativas do autor. Há ainda a discussão sobre os valores adotados pela geração atual de crianças e adolescentes, que agiriam como se os pais existissem para serví-los, ou seja, de acordo com a argumentação do autor, presenteando-os quando cumprissem com suas regras, suprindo-lhes as exigências consumistas, alem de eximi-los de tarefas domésticas. 

Como um textinho tão besta pode gerar tantas interpretações e reações? A resposta está nas memórias discursivas que são acionadas, assim como nas visões políticas e pedagógicas, que estão bastante polarizadas atualmente. O importante aqui foi perceber como a linguagem e os discursos podem tomar diversas proporções e servirem para diversos propósitos. A bíblia que o diga.



quinta-feira, 17 de maio de 2018

Como vou me virar com a questão dos gêneros?


Está só um pouquinho complicado viver nesse mundo de hoje, mas eu penso que isso não é de agora. Essas invencionices humanas, desde que a linguagem se criou, se formatou ou se liberou,  essas invencionices de nomear e significar, de fazer sentido, discursar, são o que fazem de nós o que somos, seres humanos. Uma palavra não se descola de seu tempo, mas, saindo de seu tempo, pode ser reinventada, resignificada, por diversos motivos e circunstancias, e é por isso que é tão difícil decifrar, traduzir textos que não são contemporâneos. A memória discursiva despertada por uma palavra, o que ela invoca em nosso cérebro e o que ela liga em nossa memória semântica, as conexões e as operações cognitivas que ela permite operar, são, às vezes, indescritíveis. 

Para não discriminar, inventaram a moda de trocar por "x" a letra que designa gênero no português, que são o "o" e o "a". Até mesmo em palavras comuns de dois gêneros, como estudantes, tacaram um x e ficou estudantxs. Em nossa língua, que, segundo esse raciocínio sobre as maneiras de designar, é machista, é regra colocar no masculino a palavra que se encontrar no plural, como "alunos", esteja se referindo a apenas homens, ou a homens e mulheres. Em algumas línguas, há desinências que diferenciam plural só de mulheres, só de homens e de ambos, assim como nomes específicos para cada membro da família e por aí vai, mas não em português.  Em outras, o plural não é marcado pelo "s", mas por outra letra. Em inglês, até onde sei, geralmente não há essas desinências de gênero, mas palavras femininas, masculinas e neutras.

Quando dizemos "a cobra", a palavra cobra é um substantivo epiceno, mas a palavra pode ser considerada como pertencente ao gênero feminino por que ela solicita o artigo definido ou indefinido feminino, e termina em "a"; isso não quer dizer que ela, a cobra, seja uma fêmea. É possível dizer "o cobra", mas a expressão já carrega outro sentido. O mesmo acontece com janela, folha, quati e tudo o mais.

Pois então, gênero, na gramática, não quer dizer sexo, tem a ver com as desinências, concordâncias e esses parangolés gramaticais. Agora, gênero, no cotidiano, quer dizer muitíssima coisa, e como tudo faz parte dos discursos, ou, os discursos fazem parte de tudo, ou, os discursos nos mostram quem somos e onde estamos, as palavras fogem da gramática e clamam por resignificar, ou, por significar o que não pareciam significar até então. A maior discussão é que as pessoas podem não se sentir pertencentes ao gênero sexual que seu corpo disse ser ao nascer, de acordo com as definições de feminino e masculino que temos, ou seja, ter pênis ou vagina, e assim sendo, reivindicam o direito de serem o que elas sentem ser, e assim, serem nominadas de acordo. Isso, na prática, se torna complexo.

Confesso que me perdi nas classificações dos grupos que não se denominam apenas como homem ou mulher, de acordo com as condições de nascimento. Além da questão de não se sentirem pertencentes ao sexo escrito na certidão de nascimento, há a questão da sexualidade, ou seja, a pessoa pode ou não se sentir homem ou mulher, de acordo ou não com o gênero sexual original, mas ainda assim, pode querer, desejar, ou ter nascido para se relacionar com pessoas de sexo diferente, mesmo sexo, ou com todos eles, ou ainda, com nenhum deles e dezenas de variações. Então, a questão é sobre a identidade e sobre a sexualidade.

Essa ideia de colocar o "x" como desinência pode ser interessante para a militância, mas não é nada prática. Primeiramente, não há como pronunciar essa bagaça; outra coisa, impede a leitura eficiente para os programas de acessibilidade para deficientes visuais. É apenas simbólico e denota a posição de quem escreve a mensagem. Então, como conversar, nominar, chamar por alguém sem ofender? Devemos clamar por Alah para que nos mostre as designações, as desinências e os substantivos apropriados? Como saber se a pessoa que está entrando no banheiro feminino, mas que possui trajes, corte e trejeitos considerados socialmente como masculinos, deveria entrar naquele banheiro ou  não, e se a pessoa gostaria de ser tratada como "a" ou "o"? Deveria existir um banheiro "x"? São questões que a sociedade precisa tentar resolver.

Alguns nos dizem para evitarmos usar palavras que precisem de designações de gênero, que usemos palavras genêricas, ou substantivos sobrecomuns, como "pessoa", que utilizei acima. Outros dizem para perguntarmos diretamente para a pessoa como ela gostaria de ser tratada, mas sabemos que isso não é um troço fácil de se fazer em nossos dias. Só por eu estar questionando esse uso do "x" poderia ser acusada e apedrejada por intolerância, quando o meu intuito é refletir sobre a intolerância e as ações atuais. Não está fácil saber como lidar com as peculiaridades, como nunca foi. Um dia, em um seminário, um rapaz apresentava o seu projeto que iria falar sobre pessoas transsexuais que possuíam canais no YouTube; quando me atrevi a comentar que um rapaz  da pós graduação da minha universidade faria um trabalho sobre a travesti Pabllo Vittar, ele quase me fuzilou com suas palavras artificialmente polidas, dizendo que Pabllo Vittar era travesti e uma coisa não tinha nada a ver com a outra. Obrigada por me informar.

Então, meu povo, a discussão é essa: O que faremos para tratar dessa questão de designações, desinências e intolerâncias? Não faço a menor ideia.



segunda-feira, 14 de maio de 2018

Confissão


Nego-me a confessar os desejos mais íntimos,
Aqueles a quem todos pertencem,
Mas que negam-se a expressar,
Ao menos os loucamente apaixonados...
Pudera, eu, guardar-te em uma redoma
Como fizera o principezinho com sua rosa,
Regando-te diariamente com o meu amor!
Gostarias, mas com o tempo,
Sufocarias, perderias o ar e o viço;
Com o passar, passaria tua beleza,
Despetalarias, murcharias enegrecido.
Lutarias pelo ar, mas acabarias por acostumar-te
Com a visão de dentro da redoma.
Talvez, assim, depois de perderes o brilho,
Eu abriria a redoma e deixaria que fosses,
Ou talvez, com o sentir de superioridade,
Deitaria em tuas raízes algumas gotas de água,
Para que de mim dependesses.
Assim, toda a beleza e a alegria
Que me encantaram um dia,
Morreriam...
E com elas, eu iria, atrás delas, ou de ti.
Ciente da escuridão desse egoísmo, escondo de mim mesma,
De ti, do mundo,
E convenço-me de que a beleza é melhor que a morte!
A morte da beleza, do amor, da alegria.
E ensino-me,
Todos os dias,
Sobre o que é amar,
E sobre como cultivar uma rosa livremente,
Como se não dependesse dela para respirar.



sábado, 5 de maio de 2018

Sobre o direito à preguiça e a sociedade do cansaço



"A moral capitalista, lamentavelmente paródia da moral cristã, fulmina com o anátema o corpo do trabalhador; toma como ideal reduzir o produtor ao mínimo mais restrito de necessidades, suprimir as suas alegrias e as suas paixões e condená-lo ao papel de máquina entregando trabalho sem trégua nem piedade." Já dizia Paul Lafargue, genro do tal do Marx em O direito à preguiça

Não me considero Marxista, socialista, ou comunista, na verdade ainda não compreendi totalmente e profundamente essas teorias que falam sobre a maneira que o capital deveria ser gerido e o papel do Estado em tudo isso. O que eu sei é que hoje, e desde há muito, nós estamos nos tornando escravos de nós mesmos, de nosso medo da imperfeição e da nossa vontade de ser sempre estimado e super-estimado. Temos medo de não sermos bons o bastante, de que a nossa reputação se destrua rapidamente, com a mesma velocidade que recebemos informações inúteis de todos os lados. 

Mesmo que, teoricamente, a igreja não interfira no Estado (apenas teoricamente, por que, aff, já sabemos), a ideologia cristã que nos impõe a culpa pelo ócio e trata a preguiça como um dos sete pecados capitais, é um discurso que está entranhado em nossa cultura, em nosso ser, em nossa maneira de viver. É um dizer que fala antes de nós e em nós, e que o tal do capitalismo se apropriou exultantemente para nos convencer de que o trabalho é o objetivo e o que dá sentido à vida. "Deus ajuda a quem cedo madruga".

Amigos, não digo que devemos ficar deitados na calçada a espera de esmolas de transeuntes ou do governo, o que eu digo é que não deveríamos nos sentir mal em apenas aproveitar os momentos, desligados dos trabalhos que se dizem produtivos, mas que não acrescentam nada além de stress. Jesus disse "Olhai os lírios do campo". Jesus destruiu o comércio no templo. Contemplemos os lírios! 

Imaginemos que agora, depois de ter lido isso, saiamos para comprar algo no mercado e nos aconteça algo que nos leve a morte, será que estaremos satisfeitos com a vida que vivemos? Será que o tempo foi suficiente e as atenções foram bem divididas? Será que valeu a pena todos os "nãos" que deixamos de falar? O que é desperdiçar tempo, afinal? 

Há um ensaio que fala sobre essa questão, A sociedade do cansaço. Vale a pena refletir sobre essas questões, pois são nelas que nossas vidas estão baseadas, são elas o que dizem o que é importante.

Vamos refletir!

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Ouro Preto aos leões - O caso do Parque do Itacolomi


Eu já relatei aqui um acontecimento do ano passado, quando fomos comemorar o aniversário da minha enteada fazendo um piquenique no Parque Estadual do Itacolomi que, em pleno fim de semana, encontrava-se fechado. Voltamos totalmente frustrados em perceber que em Ouro Preto há poucas opções para que a família ouropretana possa aproveitar os momentos de descanso, e as que existiam, não funcionavam direito. Depois de alguns meses, o parque voltou a funcionar, mas nos entristecemos ao perceber as condições. O museu estava às moscas, museu que conta historia importantíssima da presença do chá na cidade. As luzes estavam todas apagadas e as atividades interativas não funcionavam. A Casa Bandeirista estava às traças. Mas, aproveitamos.

No dia 1° de maio, ontem, feriado nacional, voltamos ao parque para comemorar o aniversário do outro enteado, mas, quando chegamos lá, ficamos sabendo que agora está sendo cobrada uma taxa de 20 reais, inclusive para moradores! Quase tivemos um ataque. 

É um absurdo a privatização de parques públicos, é um absurdo cobrar entrada de  nós, moradores, para prestigiarmos o parque que faz parte de nossa história, que é nosso! Aos turistas, sim, penso que deveria ser cobrada uma pequena taxa, por que  é necessária a manutenção do parque, e turistas viajam preparados para os gastos que terão ao tirar proveito de bens de outros locais, mas aos moradores?



Fomos deixar nossa indignação com a coordenação, e nos disseram que, quando solicitado, o povo ouropretano não apresentou nenhuma proposta, não deu nenhum apoio, que por esses motivos, seria justa uma cobrança, e que o parque tem melhorado muito, está todo limpo e precisa pagar funcionários, e tals. Sugeriram que as depredações ocorridas no parque foram causadas por ouropretanos e que o parque tem se tornado um "produto"... Quando disseram essa palavra, ficou clara a visão mercadológica da nova gestão do parque.

Muitas coisas que aconteceram e continuam acontecendo em Ouro Preto me fazem pensar que quem administra e tem o poder na cidade, tem a intenção de tirar o "nativo", sumir com ele, como se a cidade fosse uma maquete que deveria ser preservada, um monumento morto como as pirâmides do Egito. Aqui tem gente, pô! Aqui tem história, tem povo, tem artista, a cidade é nossa, é do povo! Não temos o direito de visitar um espaço que faz parte do que somos? 

Consertem o Morro da Forca, reabram o Horto Botânico, revitalizem as praças! Aqui tem gente, que tem história, tem família e tem necessidades! É para cuidar dos interesses do povo, dos que também não tem condição e não deveriam pagar, que existem os governos, os gestores públicos! 

Acorda Ouro Preto! Nós queremos uma cidade, não um produto do qual somos totalmente excluídos!

Cada vez mais abismada com o rumo das coisas.

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Estou cansada de ser enganada!



Estou cansada de ser enganada!

Quando eu falo em casa que nada mais é como antigamente, não é uma hipérbole ou  uma metáfora, ou uma metáfora hiperbólica, é a verdade a olhos nus que ninguém mais quer ver! Olhai os lírios dos campos, pobres mortais!

Vejamos alguns exemplos:

Outro dia comprei um sorvete napolitano da Nestlé, tudo bem. Quando chegou, ele tinha um sabor estranho, a cremosidade era quente. Aconteceu um problema e o sorvete teve que ficar fora do congelador; o que aconteceu com o sorvete? Virou aquele líquido cremoso que tomamos como milkshake? Não senhor! Quando voltou para o congelador, o fundo ficou uma gosma transparente e petrificada e por cima, a espuma parecia chantili de isopor. Isso é sorvete? 

O açúcar, quando colocamos dentro da água quente, efervesce como se fosse bicarbonato. Dentro do pote, começam a aparecer pedrinhas brancas parecidas com farinha de trigo. Isso é açúcar puro de cana de açúcar?



Iogurte, é iogurte? No way! O iogurte nunca é iogurte, é soro de leite, com leite em pó, com leite reconstituído, com conservantes, acidulantes, aromatizantes, e tudo, menos leite e lactobacilos. Nem o iogurte grego é grego!

Outro dia fui comprar um chá de maçã, em casa li os ingredientes: hibisco, folhas de sei lá quê, e nada de maçã. O requeijão não é requeijão, é um troço feito com maisena (amido de milho). Lá em casa riem-se de mim, por que tudo que é ruim eu falo que tem maisena, fubá e TNT. Mas é verdade! Colocam fubá no pão francês e no queijo, amido de milho em tudo! E aquele TNT, que não é papel nem tecido, serve para forrar tudo o que é falsificado e ruim.

Na minha infância, o pão francês quase se bastava por si só. Comprava aquela baguete enorme, cortava os pedaços, passava manteiga, que coisa mais deliciosa! Hoje, o pão é um cocô. Quando não é feito de vento, é sem sabor nenhum, não tem crocância, é escuro, um horror!

As uvas são imortais! Vivem na geladeira por meses, dá medo de sair um monstrinho lá de dentro.O pimentão tem cheiro de veneno.

O tal do Quick? Esquecido, transformou-se em uma pedra nojenta de açúcar rosa choque. Sabe qual a porcentagem de suco que existe na tal da Fanta? Dizem que 5, sendo que um 1% é suco de maçã! Sabe aquele corante que colocam em tudo, iogurtes, doces e até na linguiça de sebo para que fique rosa, e que quando é frita deixa o óleo colorido? Dizem ser natural, e é natural mesmo, a cochonilha, uma espécie de pulgão. E os tais dos leites Parmalat e outros que continham diversos produtos químicos em sua formulação? Adulterados e adúlteros com seus consumidores! Nem vou falar dos tais nuggets.




Parece que ninguém percebeu que os bombons Sonho de Valsa e Serenata de Amor diminuíram (cartel), que as marcas Marilan e Aimorés também diminuíram os biscoitos e as quantidades deles, mas deixaram os pacotes do mesmo tamanho. E o Omo, uma vez aumentou o tamanho da caixa e destacou: Agora, 750 gramas! Eu pensei: Será que eram 700 gramas antes? Mascaramento de produto!

O pior disso tudo é que as crianças não sabem que estão sendo enganadas quando comem, por exemplo, um sorvete que não é sorvete, ou seja, uma coisa que se parece com sorvete. Para elas, não faz diferença se o doce de leite foi feito apenas com leite e açúcar ou se foi uma nova fórmula criada para imitar o doce de leite e lucrar mais. Um dia, vão experimentar abacaxi e dizer: Isso não tem gosto de abacaxi. Se o troço for doce, gorduroso ou salgado, agradará o paladar e não importará a origem. Triste ser enganado e gostar disso.