Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens de 2018

A casa dos meus tios

Os meus tios moram no centro de Ouro Preto; lembro-me bem dos primeiros dias que passei naquela casa, quando vinha a passeio de Ipatinga, dos momentos em que minha tia nos dava papeis e tintas e ficávamos no chão a criar desenhos que eram sempre lindos para ela. A casa antiga tinha um segundo andar com pisos de tábuas velhas, e podíamos ver pelos buracos o andar de baixo, morria de medo de vazar para lá. Lembro-me dos biscoitinhos quebra-queixo, derretiam na boa, nunca mais comi biscoitinho tão gostoso! Era sempre aconchegante, gostoso, e mágico, a cidade me encantava. 
Com onze anos eu me mudei definitivamente para Ouro Preto e as lembranças são das visitas frequentes de todos os familiares na casa dos meus tios. Já que eles moravam no centro, ou na Rua, como gostamos de dizer, sempre que alguém ia resolver uma pendencia, fazer compras ou passear, inevitavelmente passava na casa dos meus tios, sem aviso prévio. Eu não sei bem se eram as vacas magras, mas todo o mundo adorava ir até lá…

O Brasil do futuro

Zezinho nasceu na favela do Taquara. O pai vivia bêbado pelas calçadas das ruas, dizendo gracejos para as meninas e para os postes, pois não existia diferenciação naquela situação. A mãe segurava a família de cinco filhos, trabalhando em casa de médicos  e cuidando de seus três filhos. Na casa dela, os maiores cuidavam dos menores. Zezinho tinha que ir para a escola de manhã e ajudar a tomar conta dos irmãos à tarde, quando não tinha que fazer algum serviço para ganhar uns trocadinhos ou ir pegar o pai na sarjeta. Era a vida, não nascera granfino. Na escola, as coisas da matemática não entravam na cabeça, a fome gritava demais nos ouvidos, assim como os gritos do pai descendo as escadas na madrugada passada que anunciavam mais uma noite de desespero. Era chamado de negrinho do pastoreiro e excluído dos grupos, odiava aquela escola mais que a própria vida, não vingou nela. Cresceu e foi trabalhar como entregador de compras, carregava caixas pesadas o dia todo para ganhar um salário mín…

Perdedor

Eu não ganhei na Mega sena,
Nem vou cantar com Paul McCartney,
Meu artigo não estava nas normas,
Os meus poemas não venceram o concurso.

O programa de pontos nunca existiu,
A Black Friday também não,
As passagens aéreas dobraram no fim,
Não ganhei na promoção do Epa.

Fizeram dancinha pro tal eleito,
Perderam todos os direitos,
E continuam dançando
Quando deviam estar chorando.

Falo grego com brasileiros,
As antas estão no poder;
Com anta não se dialoga,
Com anta, é só se foder.

Com que ânimo devo levantar-me e pegar no trabalho
Que parece ridículo diante de um universo desmoronante,
De uma geração perdida?

Enquanto isso, os zumbis comem, bebem, e dormem
Rindo-se sozinhos como dementes, junto a uma multidão
Que não sabe sair para comprar pão.

Humanidade patética, escrava, e pestilenta,
Que aos poucos se condena à extinção
Virulenta,
Podre, decrépita, fétida, com telefone na mão.





Mais daquela

Aquela que depois dos 40 ainda sopra e sacode todos os dentes de leão,
Mas que esconde as lágrimas, todas elas, de dores e de prazeres.
Aquela que vê com olhar diferente, todos os dias, sem distinção,
As mesmas paisagens, que despertam diferentes quereres.

Aquela que ama intensa e insanamente
E que sofre doída como um cão.
Aquela que às vezes parece dormente
Quando já não aguenta o coração.

Aquela que escreve poemas,
Mas de lê-los, gosta não.
Mente cheia de problemas,
Todos sempre vãos.

A que não aceita
Se insatisfeita,
A que é
Mulher.


As taturanas, lesmas e cobras do mundo

A maioria das pessoas é de gente ruim. Ou a ruindade da porção ruim é tão nefasta que contamina o ambiente inteiro, destrói tudo ao seu redor. Na verdade, conheci muitas pessoas boas em todos os lugares em que fui. Gente que cantou comigo "We are the champion" pensando que não havia ninguém por perto, que chorou comigo contando os detalhes sobre a mãe em suas últimas experiências; gente que trazia canjiquinha e fazia chá no trabalho, gente que lutava pela igualdade e não aceitava cafajestagem, gente que se emocionou com as tristes histórias das minhas perdas... Gente que cantou comigo música do Legião Urbana e chorou comigo ao ouvir sobre a história de um filme,  que planejou viagens internacionais, contou-me segredos... Gente que escreve livros, faz arte, sonha e se indigna com as injustiças.Gente que gostava da arte e das pessoas. Gente que acredita ainda na humanidade. Obrigado por existirem, pessoas. Mas, também, a todo o momento, as cobras rastejam pelos meus pés. Essas…

TPM

Gente que não paga,
Dissertação que não se acaba,
TV, geladeira, cama, celular,
Computador, guarda-roupa,
E tudo o mais se estraga,
Dente estrupiado 
Que precisa de peça,
Gordura que cresce 
Sem comida,
Sono que nunca vem,
Relógio que decepciona,
Papéis e mais papéis
Sempre, 
E por todos os lados,
Pingos de achocolatado no chão,
Lixo fazendo aniversário,
Mesa cheia de farelo de pão,
"Preciso de dinheiro pra escola!",
"Não tenho meias"!,
"Quantas linguiça pra cada?",
"O que vai ter de janta?",
"Tem que privatizar tudo mesmo!",
"Você faz tudo isso porque quer!",
"Você é chata!",
"Deve estar de TPM!".


O que é História Pública? Para o meu amor

Sou casada com um historiador e tenho um filho músico e estudante de jornalismo, em minha casa há muitas discussões sobre diversos temas, e como minha irmã bem disse, "até imagino vocês dois discutindo, deve ser uma chatice!" Ela se referia exatamente aos possíveis temas, assim como a maneira de interação, e acho que ela não estava errada. Mas, apesar dos acalourados debates nas tardes, noites, e almoços de domingos regados a cervejas e vinhos, essas discussões são elementos que me ajudam a crescer como ser humano e me levam a procurar por informações que antes deixava a "Deus dará". O meu jargão se tornou "o que significa ética?", por causa de uma das maiores querelas que vivemos. 
Quando pergunto "o que é ética" ou, o que é "comunismo, fascismo", é por causa da necessidade  de entender exatamente sobre os conceitos que estão embasando as posições dos meus interlocutores e, aproximadamente, o que eles querem dizer quando dizem o que di…

Quase cheia

Eu sou livre. Livremente complexa  em minha liberdade.
A minha mente está sempre cheia demais e atada a assuntos demais, futuros, presentes e passados, que não é possível que me ate a muitas coisas e pessoas que passaram. Não que elas não me sejam importantes, sei bem quem é cada um e de seus valores; mas é que infelizmente, ou felizmente,  não mais espero de ninguém (apenas espero que também não esperem de mim), que eu seja ponto fulcral de suas vidas e que por mim estejam sempre a espera, consternados, ansiosos e saudosos. Espero apenas que todos estejam muito bem, pacificamente, em bem aventurança, como disse Ieshua. Espero que TODOS vivam felizes. Se eu puder contribuir para a felicidade de alguns, bom também. 
Mas... sou cheia de minhas próprias desolações. Não é culpa minha. Sempre assim o fui. Mas nunca me consumi de mim mesma, nunca abandonei as causas que me pertencem. Jamais deixei aos outros os fardos que a meus ombros pertencem. Embora não seja simbiótica, não nego o apoio d…

O cálice - por que estamos vivendo esse caos?

Estamos vivenciando um fenômeno de grande valor histórico para a nossa sociedade brasileira, quando a intolerância chega a um grau tão elevado que tornam-se naturais todas as formas de agressão e expressão de ódio, como o desejo de exterminar o outro literalmente por ser diferente ou adotar opiniões que não expressam os mesmos ideais. Estamos assistindo a cidadãos comuns vociferando em todos os tipos de ambiente, reais ou virtuais, exaltando grandes ditadores da história e admirando-lhes suas estratégias de matança de inimigos. Pessoas que se dizem defensoras da família estão saindo para as ruas e para as portas das universidades com o claro interesse de humilharem e ameaçarem àqueles que representem o que eles negam e odeiam, como a homossexualidade, o socialismo, e a luta pelos direitos de raça e escolha de gênero. Essas pessoas estão se sentindo no direito de determinar o que o outro deve ser e como deve pensar, querem ditar regras para a sociedade, impô-las, nem que para isso seja…

Mulheres modernas

Eu queria ser dessas que vão ao salão de beleza todos os fins de semana e ficam horas infindáveis puxando, esticando e colando cabelo, pintando as unhas com florzinhas, pintando a sobrancelha com henna para ficarem iguais a um desenho animado de vampira; também gostaria de ser daquelas que gostam de cavalos, rodeios, praias de Copacabana, carros luxuosos, música sertaneja e roupinhas coladinhas, tudo no Instagram. Ainda me satisfaria ser daquelas outras que vivem a caça de protestos, ações, campanhas, que se vestem de feministas metralhando postagens militantes, tudo no Facebook, enquanto os filhos estão perdidos no mundo e sozinhos em casa. Talvez fosse bom também ser dessas que se desfazem de suas próprias vidas em proteção aos filhos, protegendo-os do crescimento e deixando-os desprotegidos para sobreviverem. Seria ótimo planejar a minha semana pensando no fim dela, quando poderia encontrar-me com amigos e desconhecidos para beber e ficar muito louca para enfrentar a próxima semana…

O blog morreu

O blog morreu. Espero que os blogueiros ainda continuem vivos, e devem estar, espalhando seus falares por outras mídias, ou desistiram de vociferar pela internet. Eu continuo aqui,  uma escrevente firme, escrevo para o vento e os ecos soam de minhas próprias vozes para os meus ouvidos.
No início o blog era um diário, as pessoas utilizavam para falar ao mundo de suas rotinas e sentimentos, como fazem hoje no Facebook e Instagram. Algumas pessoas gostavam de postar coisas engraçadas, outras o transformaram em sites de notícias, vendas, e reflexões, como eu. Os blogueiros se liam, ou liam algumas partes para estarem aptos a comentarem algo sobre a postagem e deixarem seu link para que os blogueiros visitados também os visitassem. Era uma troca interessante de conteúdos e só ficava quem realmente se interessava pelos escritos. Foi através de minhas postagens que encontrei algumas ótimas pessoas, inteligentes e sensíveis, mas praticamente todas já abandonaram o ofício bloguístico. Eu sou um…

O ser humano evoluiu?

A raça humana não evoluiu, no sentido biológico e divino da evolução. Fisicamente, não poderia dizer se as características do cérebro são as mesmas que encontraríamos na época de Sócrates, por exemplo, mas pela complexidade dos pensamentos da época, não parece ter havido muita mudança. O que significaria evoluir biologicamente para os seres humanos, que necessitam basicamente dos poderes cerebrais para sobreviver nessa terra árida? Talvez o cérebro evoluiria no sentido de que o ser humano pudesse nascer preparado para conviver com os outros seres humanos, por que nenhuma espécie pode sobreviver e proliferar totalmente isolada de seus pares biológicos, e essa é uma condição para o ser humano. Então, a evolução da humanidade deveria consistir em se nascer com mecanismos cerebrais que nos possibilitassem sobreviver com os outros. 
Quando estuda-se a humanidade, as áreas do conhecimento se emprestam, às vezes se complementam, mas, na maioria das vezes, se ignoram. Como pensar em estruturas…

Decisão de amar

Acordarmos e gostarmos de quem está ao lado, mesmo em dias de tempestades internas e caos na humanidade, e com ternura, desejar cuidar e acariciar as sobrancelhas desarrumadas; sentir o desejo de espremer a pessoa até sentir todos os seus contornos e amar todas as formas, considerando-as perfeitas, assim como a brancura dos cabelos, e qualquer coisa que se possa socialmente ser considerada imperfeição.
Irritar-me profundamente com opiniões e gestos que pareçam incoerentes e irracionais, mas esforçar-me em lembrar de todos os motivos que nos levaram a querer nos levar pela vida, assim como lembrar que eu também pareço irracional e incoerente muitas vezes e que, mesmo assim, queremos estar de mãos dadas. 
Darmos muitas risadas, especialmente à noite antes de dormirmos, nos abraçando, virando de lados muitas vezes, até finalmente nos declararmos e dormirmos grudados. E querer estar assim.
Esforçarmo-nos por falar calma e carinhosamente, mesmo quando um está fora de controle, e sabermos no f…

Mulheres são de marte

Eu não sei como é ser homem, mas não é nada fácil ser uma mulher; não sei se essa agrura sempre foi como é, não saberia dizer o que teria sido ser mulher em outras épocas e culturas, se a mulha-sapiens também vivenciava os mesmos sentimentos, como saber? Mas a verdade é que a mulher sempre meteu pavor nos homens, tanto pavor que atribuíram-na toda a culpa da danação humana, quando aquela filha de uma égua da Eva tentou e atentou contra Adão e a humanidade, fazendo-o comer uma fruta que Deus havia colocado lá propositadamente para testar o nível de submissão de sua criação, e desde então, o mundo sofre tudo o que sofre, como o homem (e nesse caso me refiro ao gênero mesmo), que teve que começar a trabalhar para comer e sustentar os outros. A mulher então passou a ser uma bruxa, literalmente, que deveria ser queimada nas fogueiras por causa de seus poderes malignos, ou por ter olhos tortos ou qualquer outra coisa que desagradasse o poder vigente. Ah, mulher, tratada como um ser inútil, …

As inutilidades do Facebook

Cada vez eu entendo menos o compartilhamento no site do Facebook, e cada vez eu sinto mais decadente tal plataforma, apesar de ainda ser a mais utilizada para tudo o que se imaginar; talvez seja a minha antipatia pelo site, pelo tempo que já perdi naquilo e pelos desgostos que aquilo me trouxe é que me façam vê-lo cada vez com mais irritação e incompreensão. Mas, pensemos analiticamente e nos atentemos para as seguintes questões:
😳Por que as pessoas sentem a necessidade de postar todos os dias, e diversas horas por dia, fotos delas mesmas, que dizem sobre como estão felizes, se divertindo, estão belas ou, estão deprimidas?
Porque, como ouvi ontem, "todos querem ser famosos", ou seja, todos querem ser reconhecidos como belos, capazes, felizes, bem sucedidos, ou desejam que alguém venha consolá-los, e a internet permitiu isso a todos através de uma mãozinha, um coraçãozinho e umas palavrinhas que querem dizer mais aos leitores do amigo que ao amigo. Já falei muito sobre isso em…

Uma empregada para chamar de sua

A minha mãe era empregada doméstica. A primeira vez que eu provei estrogonofe, foi quando ela trouxe as sobras da casa da patroa; de vez em quando, trazia também roupas de parentes dos patrões, lembro-me bem do cheiro dessas roupas, nunca era o mesmo que o das nossas. Algumas vezes também apareciam alguns produtos de beleza dos anos 60 ou bugigangas que recebíamos com alegria. Uma vez eu fui até a casa da patroa da minha mãe, uma senhora distinta, que morava sozinha e estava sempre elegante. Mesmo sozinha o tempo todo, a minha mãe colocava a mesa, tudo bonitinho, com as louças, talheres e toalhas de linho. A dona era uma pessoa ótima, uma vez me emprestou dinheiro para fazer o telhado de casa, que estava a ponto de desabar, nunca aceitou de volta. Mas algo não estava certo.
A minha mãe ficava sempre apreensiva na casa dos patrões, cochichava e agia como se aquelas pessoas fossem seres superiores, de outro mundo, seres que possuíam algum tipo de direito divino e que habitavam em um mund…

Sonhos de uma mestranda - sobre memória e identidade

Quando estamos imersos em um trabalho de pesquisa e o objeto de estudo, assim como as teorias que se relacionam a ele, passam a fazer parte fundamental de nossa existência, encontramo-nos em um estágio emblemático em que muitas reflexões podem surgir de diversas maneiras; permito-me a mencionar um sonho que tive em uma dessas noites agitadas e que, ao acordar, nomeei-o de “sonho sobre a identidade”. Além de ser um dos sintomas do quão se torna perturbador e profundo o processo de pesquisa, a narrativa de um sonho tem muito a nos dizer sobre nossos medos, desejos e sobre reflexões em andamento, as quais surgem de maneira simbólica, como nos revelou Freud em seus escritos.
Esse foi um dos sonhos mais belos que já tive, esteticamente falando; iniciou-se em plano aberto, mostrando algumas casas de alvenaria em terra árida. O clima e a iluminação nos remetiam ao oriente médio, mas, em meu sonho, tratava-se da cidade em que cresci, Ipatinga. Eu estava lá para fazer um documentário sobre um …

Futebol: o culto ao culto

Tenho falado um pouco sobre o futebol e o que percebo agora, mais claramente, é que se construiu a cultura de se cultuar o próprio culto ao futebol, ou seja, é considerado meritoso se descabelar, sofrer e dar a alma pelo time de futebol, cultua-se essa paixão descabida e desenfreada; o verdadeiro torcedor seria aquele que faz parte de torcidas organizadas, que paga mensalidades para o clube, que frequenta estádios assiduamente, que veste a camisa, que desqualifica o adversário, que chora, grita e se desespera, e isso seria uma grande qualidade, segundo os apaixonados por esse esporte.
Esse culto ao fanatismo foi se criando em nossa cultura com grande ajuda da mídia, obviamente, como podemos ver nas capas de todos os jornais. Futebol sempre é destacado como a coisa mais séria e importante em nosso país, como poderíamos duvidar? Os jornais retratam o que é importante para o povo, ou criam necessidades e "importâncias"? Bem, essa é outra discussão.
Quando se fala sobre fanatismo …