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sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Mulheres modernas


Eu queria ser dessas que vão ao salão de beleza todos os fins de semana e ficam horas infindáveis puxando, esticando e colando cabelo, pintando as unhas com florzinhas, pintando a sobrancelha com henna para ficarem iguais a um desenho animado de vampira; também gostaria de ser daquelas que gostam de cavalos, rodeios, praias de Copacabana, carros luxuosos, música sertaneja e roupinhas coladinhas, tudo no Instagram. Ainda me satisfaria ser daquelas outras que vivem a caça de protestos, ações, campanhas, que se vestem de feministas metralhando postagens militantes, tudo no Facebook, enquanto os filhos estão perdidos no mundo e sozinhos em casa. Talvez fosse bom também ser dessas que se desfazem de suas próprias vidas em proteção aos filhos, protegendo-os do crescimento e deixando-os desprotegidos para sobreviverem. Seria ótimo planejar a minha semana pensando no fim dela, quando poderia encontrar-me com amigos e desconhecidos para beber e ficar muito louca para enfrentar a próxima semana. Quem sabe, seria ótimo se eu tivesse encontrado um milionário nojento para que pudesse me fornecer viagens caríssimas, jóias e todo o luxo que uma mulher acha merecer? Talvez, eu devesse fazer uma lipo e tirar essa barriguinha ridícula que ficou depois das cesarianas, fazer escova progressiva de três em três meses e colocar uns siliconinho pra valorizar. Talvez eu seria mais bem vista se chamasse a todos de amor, querido, vem cá amado, dá um beijo, ou se ligasse para todos os que conheci até hoje regularmente, para relatar a minha rotina. Quem sabe eu fosse mais legal se largasse sempre o que estivesse fazendo para ir ajudar a todos que me solicitassem, distribuindo os meus dotes. Pode ser que, tornando-me importante academicamente, as pessoas comessem a me tratar de maneira diferente, só por eu aparecer em um tablado e falar ao publico com autoridade talvez cientifica, sobre coisas que não importam a mais que uma meia dúzia de interessados. Talvez, assim, me chamem de intelectual, por supostamente estar usando o meu intelecto de maneira superior aos demais mortais e mudando a realidade das teorias que não sairão do papel, ou dos arquivadores digitais. Quem sabe eu devesse, só quem sabe, largar a mão de ser besta e de pensar demais e apenas viver o meu pequeno universo diário? Quem sabe?

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