quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Uma empregada para chamar de sua


A minha mãe era empregada doméstica. A primeira vez que eu provei estrogonofe, foi quando ela trouxe as sobras da casa da patroa; de vez em quando, trazia também roupas de parentes dos patrões, lembro-me bem do cheiro dessas roupas, nunca era o mesmo que o das nossas. Algumas vezes também apareciam alguns produtos de beleza dos anos 60 ou bugigangas que recebíamos com alegria. Uma vez eu fui até a casa da patroa da minha mãe, uma senhora distinta, que morava sozinha e estava sempre elegante. Mesmo sozinha o tempo todo, a minha mãe colocava a mesa, tudo bonitinho, com as louças, talheres e toalhas de linho. A dona era uma pessoa ótima, uma vez me emprestou dinheiro para fazer o telhado de casa, que estava a ponto de desabar, nunca aceitou de volta. Mas algo não estava certo.

A minha mãe ficava sempre apreensiva na casa dos patrões, cochichava e agia como se aquelas pessoas fossem seres superiores, de outro mundo, seres que possuíam algum tipo de direito divino e que habitavam em um mundo cercado por uma linha intransponível, e que nós estávamos mortalmente do outro lado. Não era uma questão de hierarquia, somente, mas era uma questão de identidade, ou seja, a maneira de se ver e de se colocar no mundo.

Eu nunca seria uma boa empregada doméstica. O Brasil é o país que possui mais empregados domésticos no mundo, e isso diz muito. O hábito ou desejo de ter alguém para nos servir e fazer toda aquela chatice e sujeira que não queremos fazer, é parte da alma brasileira. Eu também gostaria de chegar em casa e não ter que limpar o chão ou cozinhar diariamente, lavar toneladas de louça suja, levar o lixo para fora, arrumar o meu próprio guarda-roupa; gostaria de ter  todo o meu tempo para ler, estudar, viajar, fazer trabalhos que me agradem e que me deem visibilidade, ou ter tempo para ficar dormindo a tarde toda. Gostaria de ficar assistindo as séries no Netiflix e fazendo tudo  o que é curso que aparecesse. Talvez seria bom também que outra pessoa, com outra cultura, outra educação, outros valores, educassem os meus filhos, os levasse para a escola e aguentasse as suas chatíssimas e infinitas birras. Só que não.

Há diferenças entre contratar alguém para prestar algum serviço esporádico de limpeza e ter uma empregada doméstica. A casa é o espaço privado e íntimo, onde a família vive, briga, planeja, cresce, se desenvolve, não é uma empresa. Ter uma pessoa estranha e desconhecida dentro da casa, da família, para servir, como se fosse um móvel, parece-me uma das coisas mais degradantes. Como eu poderia educar meus filhos dando-lhes uma vida onde uma pessoa existisse dentro de casa para arrumar suas camas, lavar seus pratos sujos e limpar a sujeira que derramassem no chão? Como um indivíduo pode ser completo e compreender as relações e os seus deveres como seres humanos, se aprendessem desde cedo que alguns nascem para servir, e que eles não são esses alguns? Como um indivíduo pode crescer sem lavar a sua própria cueca e limpar o que suja? Como um elemento tem a capacidade de sujar algo e jogar para que o outro limpe?

Muitos defendem a opção por manterem empregados domésticos, pois estariam oferecendo emprego aos que precisam, e argumentam que não há nada de errado em pagar para que alguém faça o trabalho chato e sujo que não querem fazer. Boas argumentações, mas se vivêssemos em uma sociedade mais evoluída, não precisariam existir pessoas que se sujeitassem a trabalhar, muitas vezes em condições humilhantes, fazendo o que os outros não querem fazer por eles mesmos, e depois, fossem para suas casas caindo aos pedaços para fazerem por elas mesmas os mesmos trabalhos "humilhantes".  Se vivêssemos em uma sociedade igualitária, todos poderiam sair para trabalhar em coisas interessantes e ter tempo para cuidar de suas próprias vidas e filhos. E, quando não quisesse fazer, pedisse comida em casa ou mandasse a roupa para a lavanderia.

Um dia, no programa de esporte, que, aliás é só sobre futebol, vi uma mãe já idosa indo visitar o filho nos treinos com o netinho. O engraçado era que o bebê estava o tempo todo com a babá, mas nada foi mencionado sobre ela, era como se ela fosse invisível. Falavam da vovó dedicada, do papai amável, mas nenhuma palavra sobre a mulher invisível que estava carregando e cuidando da menina.

Ter um empregado doméstico é como ter uma coisa, um bem. Eu não conseguiria ser uma nem conviver com uma me servindo dentro de casa, justamente por que não a vejo como um móvel, mas como uma pessoa completa e igual a mim. 

Quando penso na relação da minha mãe com os patrões, enxergo uma escrava submissa aos mandos dos donos. Eu não gosto disso. Eu não gosto de elevadores de serviço; eu não gosto de ver babás, principalmente quando elas usam uniformezinhos brancos; eu não gosto de fila VIP; eu não gosto de "serviço braçal ou intelectual"; eu não gosto de machismo, racismo, elitismo; eu não gosto de Boçalnaro.

Posso parecer radical, mas não há igualdade de oportunidades verdadeira onde as pessoas desejam ter empregados domésticos dentro de casa. Não me parece certo pagar alguém para que limpe nossa sujeira, nossas calcinhas encardidas, o barro dos nossos pés no chão, nossa cama suada, e os pratos cheios de comida dentro da pia. Enquanto esse pensamento escravocrata e burguês prevalecer, não adianta fingir que nos tratamos igualitariamente, nem que já somos crescidos o suficiente. 


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