quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Mulheres maravilhosas: Cláudia Elaine





Pessoas maravilhosas não precisam estar na TV, elas estão por toda a parte, um delas pode estar ao seu lado. Essa pessoa que se apresenta hoje é Cláudia Elaine, alguém que tem muita coisa a dizer e a ensinar. 

1-      Qual o seu nome e como gosta de ser chamada?
Cláudia Elaine, a família me chama de Ninha.

2-      Quando e onde nasceu?
Nasci em 22 de setembro de 1979, na cidade de Mariana, Minas.

3-      Qual a sua escolaridade?
Segundo grau completo.

4-      Qual a primeira lembrança que você tem na vida? 
A minha infância foi dividida entre médicos casa de vó.



5-   Como você descreveria a sua infância e quem foram seus melhores amigos?
A minha infância, a maioria foi em consultas médicas e internação, mas lembro das brincadeiras com os meus primos, era muito divertido, e mesmo com as limitações sempre existiam brincadeiras que eu poderia participar. A melhor amiga da infância era uma prima, e na escola, a Mônica Angélica e a Jussara. Hoje, infelizmente não tenho contato com nenhuma delas, a não ser nas redes sociais.

6-      Qual é a sua doença?
AME (amiotrofia espinhal tipo 3), é uma doença degenerativa que vai fazendo com que os músculos enfraqueçam com tempo.

7-      Como foi lidar com as suas limitações?
Eu não sei como é não estar doente, então as minhas limitações são normais para mim até o momento em que eu bato com o preconceito das pessoas.

8-      Como foi a sua adolescência? 
Como para toda adolescente, foi rebelde, inseguranças e paixonites; também sofri bullying, mas tive sorte de conhecer amigos que eu trouxe para vida toda.



9-   Do que mais sentiu falta e do que mais gostou?
Senti falta do meu pai, daquela frase que toda adolescente diz: “ tenho que pedir o meu Padre”...  O que eu mais gostei foi a época de escola.

10-     Quais as maiores loucuras que fez na vida? 
Kkkk…. Foram muitas mas vou ficar com as mais leves...kkkk…. Fiz um book sensual, ( o que para uma sociedade com conceito formado sobre deficientes físicos é uma loucura), voei de paraglider sem conhecimento de família, e viajei um dia todo sem destino com o namorado, sem conhecimento de todos sobre onde eu estava.

11-   Quais são as pessoas que representaram  muito em sua e vida, e por quê?
Em primeiro lugar a minha mãe, que com toda diferença de opiniões e conceitos é a minha fortaleza a minha vida…. E os meus amigos que nunca me trataram com diferenças e sempre me fazem sentir útil quando confiam em mim.

12-   Quais sonhos ainda tem?
Eu sinceramente não tenho a não ser desejar que Termine os meus dias com saúde.

13-   Qual a sua maior tristeza ou decepção? 
Ver nas pessoas um preconceito e um pré conceito sobre o que eu posso e o que eu não posso fazer. A minha maior decepção foi a covardia e falta de coragem das pessoas que entraram na minha vida, usando o sentimento de precaução, cuidados e amor para que eu parasse  de ser feliz.



14-   O que você aprendeu sobre a vida e as relações até hoje?
Aceitar as mudanças adaptando-me a ela, não lutar contra o questionar, isso é perder tempo; viver cada momento sem pensar no futuro ou lamentar o passado.


15-   Gostaria de deixar algum recado?
Além da resposta da pergunta número 13 viver a cada dia sem medo

Filme favorito


Música favorita



Cláudia Elaine


sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

As crianças que matamos


Gente é um troço engraçado. nascemos e começamos a interagir com os que nos rodeiam. Crianças pegam no seu cabelo se tiverem vontade, mesmo que seja a primeira vez que o vejam. Crianças correm e abraçam seus amiguinhos quando estão com saudades, crianças choram quando magoadas, crianças demonstram admiração quando uma pessoa bonita se aproxima e até pedem colo; crianças dançam quando ouvem música, mesmo que estejam dentro de um supermercado, e dançam com a alma, não apenas remexem os membros. Seres humanos em seu estágio primário de desenvolvimento não sabem o que é adequado, educado, polido. Apenas são quem são.

Um dia alguém vem e diz: Não pode dançar na rua, que ridículo! Não é educado falar da aparência das pessoas! Você tem que parecer forte, não chore por nada! Endireite esse corpo! Você não sabe dançar, nem tem corpo para isso! Não demonstre tanto que está apaixonado, se valorize! Não pareça ridículo! Então, você cresce.


Para viver adequadamente, precisamos conhecer as regras que nos tornem seres toleráveis dentro da sociedade. Se quisermos ser tolerados, não devemos fazer ou dizer tudo o que pensamos, se assim fizermos, o mundo se transformará em caos. Para nos adequarmos, vestimos máscaras frias e sorridentes e vamos também tolerando os intoleráveis da vida, desmanchando nossas vontades e reescrevendo as verdades.


Nesse reescrever, nos subscrevemos nos moldes rígidos e afastamo-nos do que nascemos para ser, é a sociedade. Não sabemos mais se sentimos e contemos tudo o que possamos desejar genuinamente, e isso se reflete em nossa maneira de agir e sentir. Tornamo-nos robôs movidos pelas necessidades criadas e programados pelas regras sociais da aceitação.

Chega um momento em que começamos a sentir falta de algo, de nós mesmos, e isso vai crescendo até que não possamos ignorar. Essa falta de nós vai nos incomodando, nos cutucando, até que torna-se uma ferida aberta impossível de não ser vista. Quando não mais a suportamos, vamos em busca de remédios que aliviem essa ferida de contenção do ser, pensando que há algo fora de nós que vai nos resgatar a nós mesmos. Alguns viajam até a Índia em busca do sagrado, outros vão ser possuídos em terreiros de umbanda, alguns caem nas igrejas através dos gritos de seus pastores, uns se entregam ao samba, muitos se acabam no funk, ou na biodanza. Há também os que escolhem o teatro como maneira de se libertar das amarras sociais, a música, ou qualquer outro tipo de arte. Há quem caia no encanto de drogas alucinógenas,  algumas sacralizadas como o Santo Daime. Cada uma dessas pessoas encontra esse momento para liberar o que não pode ser liberado cotidianamente e ser o que falta. Ser humano, com impulsos, desejos, carências e expressão. Reaprender a sentir, movimentar, tocar, se expressar acima de tudo. As pessoas precisam reinventar técnicas para ser de novo crianças e rever o mundo com olhos virgens e interessados, por alguns instantes, ou para o resto da vida.


Há muito sobre nós que não sabemos e talvez, nunca saberemos. Sabemos que existem coisas que os nossos sentidos ainda não estão aptos a captar, como as ondas de rádio e tantas outras coisas das quais nem podemos saber da existência. Há mistérios não desvendados e que passaram a ser ignorados, e há perguntas das quais nos esquecemos. Esquecemos-nos de notar o milagre que é um ser vivo emitir luz ou mudar a cor de sua pele, ou até mesmo, produzir eletricidade. Esquecemos de observar que uma abelha já nasce sabendo construir sua colmeia e uma tartaruga, que tem que correr para o mar. Animais nascem sabendo, e nós ainda somos animais. Mas, sabemos apenas que o pouco que podemos captar através de nossos sentidos é capaz de causar alterações em nosso cérebro e nos levar para outro estágio de consciência, como os sons e as imagens. sabemos que as palavras possuem poderes, pois elas são a representação do real e torna real suas representações. Sabemos que a fé transforma, qualquer tipo de fé, pois ela move e comove. Dessa forma, artifícios sociais que fogem das rotinas sociais (antagônico?), servem bem ao seus propósitos, ajudando-nos e permitindo-nos a ser e a transcender com suas teorias, promessas ou perguntas. Nesse espaço permitem-nos e permitimo-nos a ser tudo e a liberar tudo, para depois re-vestir a máscara dura, boazinha, profissional e sorridente, sem toda a tensão causada pela ferida aberta.


Quem dera pudéssemos ser, apenas. Mas a sociedade nos distorce e depois precisamos de artifícios para relembrar quem éramos. 

Ignorando os charlatanismos, o moralismo, os supostos efeitos nocivos que alguns elementos possam causar, os modismos e tudo o que possa parecer negativo, é bom que existam estratégias para que nossas armaduras de robôs não se explodam e para que sejamos capazes de tolerar o teatro que criamos para nós mesmos.


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Cortando os laços do passado


Nossas vidas seguem trajetórias e dentro delas vamos construindo parâmetros de comportamentos e de personas com as quais interagimos diariamente, por isso a família é tão importante. Quem nunca, inconscientemente, trocou os nomes das pessoas com as quais conviviam em uma segunda situação familiar, referenciando-se a alguém como se fosse outra persona de sua família original, atribuindo-lhe o lugar inconsciente de mãe, pai ou irmãos? A infância é a fase crucial quando o nosso mundo é criado, formado e transformado, é quando definimos o que é certo e errado e quem faz o quê.

Mas formação de parâmetros não termina com a infância, embora essa seja determinante;  a não ser para os que aceitam que a infância seja a realidade absoluta para os parâmetros e que vivem em uma vida de círculos que nunca se fecham.

Ciclos precisam terminar.  A não ser que desejemos permanecer ad eternum em situações que podem nos fazer mal e limitar todas as nossas expectativas e experiências.

Nossas bases sempre estarão conosco, e todas as nossas experiencias nos servem para formar nosso caráter e definir nossos parâmetros, mas há coisas que precisam terminar, e em muitos casos, relações precisam ser definitivamente cortadas para que uma verdadeira e nova experiência possa tomar lugar, sem que seja eternamente contaminada pela referenciação, ou presença real do passado, especialmente quando se trata de relacionamentos amorosos.

Quando entramos em uma relação amorosa, nossas vidas se transformam e todos os nossos planos se unem aos planos de outra pessoa; criamos uma nova rotina, conhecemos novas pessoas, vivemos uma nova vida. Não cabe nessa nova vida alguém que possa trazer do passado resquícios de algo que não cabe mais na nova realidade. O passado não pode ser apagado, nem tampouco as experiencias deixarem de ter suas consequências, mas é necessário que cada questão ocupe o seu verdadeiro lugar. Para se viver uma nova e real experiencia, é preciso estar livre e não carregar os fardos de um relacionamento passado, como se esse nunca tivesse se findado. 

Mesmo em relação a amigos e familiares, muitas vezes, esses não nos fazem mais bem e podem impedir que levemos uma vida tranquila e sempre renovada. precisamos Distinguir o que é bom e o que é ruim para levarmos uma vida plena e tranquila. É preciso ter coragem, somo os únicos responsáveis pelo tempo em que passamos na Terra.

É preciso fechar ciclos. Se ciclos não são fechados, a vida paira num eterno nimbo de situações as quais não desejamos. É preciso ter coragem para fazer escolhas conscientes numa vida que é tão breve; é preciso saber que parâmetros podem ser reconstruídos, e que novos ciclos podem acontecer.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

O que você dirá quando perguntarem sobre a sua infância?



Quando perguntam-me sobre a minha infância, digo:

Levantávamos cedo e íamos para a escola caminhando. Nós, as mães e os colegas da rua, íamos conversando e planejando as próximas brincadeiras. A escola era rígida, não podíamos entrar sem as camisinhas de botão brancas e as sainhas ou calças de tergal azuis. Muitos de nós, na pobreza mais pobre daquela época, levávamos nossos materiais em sacolas de feiras ou sacos de plástico de arroz. A minha merendeira também era de plástico e levava café com leite e pão com manteiga; tinha estojo de madeira que amava e meus lápis duravam a vida toda.

Uma vez vivemos uma epidemia de piolhos.Todos tinham muitos, muitos piolhos, em alguns, víamos os piolhos nadando até às sobrancelhas e os cabelos pareciam estar cheios de farinha. As mães passavam óleo de soja com fubá, arruda e até Detefon, veneno de matar insetos peçonhentos. sobrevivemos.


Eu e minha amiga inventávamos muita moda. Brincávamos de fazer comida, a cozinhadinha, de fazer peça de teatro, de fazer festinha. Brincávamos com os brinquedos, com os jogos da memória, com os resta-um. Aprendi a tocar flauta sozinha olhando as instruções, mas aprendi com as mãos trocadas. Brincávamos com os meninos de futebol, de birosca, discutíamos, pegávamos cigarras e as prendíamos nos vidros, fazíamos pulseirinhas com linha e coisinhas que caíam das árvores, das quais não sei o nome até hoje. Brincávamos também de roda, corda, elástico, arco, carro feito de cabo de vassoura, tampa de cera e rodinhas de carrinhos. Brigávamos um monte, ao ponto de meu irmão causar um ferimento na sobrancelha de um colega e precisar de pontos.

Mais tarde, me dediquei a limitada biblioteca do meu pai, onde havia um compendio de literatura e umas enciclopédias sexuais bastante ultrapassadas. deitávamos nas calçadas durante as quentes noites de verão e ficávamos a ver as estrelas e a pensar na nossa infimidade, fazendo pedidos às estrelas cadentes. Comprávamos fichas telefônicas e ligávamos para as rádios para pedir música do RPM em programa de música sertaneja. Dançávamos ao som de Menudos, fazíamos aula de Jazz, as mais mais velhas faziam permanente, descoloriam os pelos e inventavam cremes mirabolantes de cenoura, beterraba e óleo para se bronzearem. Eu chorei por que não podia ter um bebezinho careca. A bisnaga de pão era deliciosa com a manteiga derretendo, não era pão cheio de fubá como hoje. Aliás, aprendi na vida que as coisas ruins sempre tem fubá, maisena e TNT.



Pegávamos peixinhos na lagoa e levávamos para a casa, brincávamos com o cachorrinho, rodávamos bambolê. Aprendi a andar de bicicleta, mas só sabia virar para o lado esquerdo. Dançávamos lambada com a vassoura. Comíamos gelatina rosê, apostávamos corrida, criávamos cenários, tínhamos uma caverninha secreta e andávamos de carrinho de rolimã. Corríamos a léguas quando víamos os paquerinhas vindo lá embaixo na rua e ouvíamos histórias de assombração. Ensaiávamos quadrilha e fazíamos a festa junina, líamos quadrinhos; fazíamos cobrinhas de meia para assustar os transeuntes (que palavra old!) e brincávamos de queimada. E olha que nós tínhamos uma vida bem monótona, sem familiares na cidade, não saíamos da rua Carmem Miranda.


Quando no futuro perguntarem a esses nossos filhos como foi a infância deles, eles dirão:

Ficava deitado mexendo no celular, jogando vídeo game ou mexendo no computador, enquanto meus pais ficavam livres pra fazer a mesma coisa. O meu corpo é atrofiado assim por que nunca movimentei muito, e essa corcunda já é desde aquela época.  Eu ganhava muitos likes das pessoas nas coisas que postava, pode olhar lá no histórico. Aprendi muita coisa sobre o mundo no Google. Meus ídolos eram os irmãos Neto e o Whindersson. Rebuliiiço! Livros? Odeio. Pra quê perder tempo se está tudo na internet? Amigos? tenho uns 5000 no Facebook. Planos? Sei lá, só tenho 37 anos. Por enquanto está bom assim.

Apocalipse zumbi.


segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Sou mãe de "Vidas Secas"


Eu não sou mãe de Margarina, sou de Vidas Secas, por que minha vida sofreu de secura adocicada, de proteção com agruras e assim me tornei, agridoce.  Desde cedo aprendi a controlar o meu choro para não deixar que se derramassem todas as minhas fraquezas diante dos inimigos e dos amigos, e sofri  afogamento. Afoguei-me tantas vezes, que o meu peito parecia explodir, estufado com tantas amarguras, tristezas e alegrias contidas, espremiam o coração. A rudeza da minha verdade pareceu mais seca que o agreste, mas edificava obras reais nos corações, não castelos de areia ou paraísos utópicos. Assim sou mãe.

Sou a mãe que se preocupa se a comida vai dar, se a luz irá se acender, se o caderno acabou. Sou mãe que não promete, diz que vai pensar, mas se der, é sim. Sou mãe que quer que os filhos voem, com suas próprias asas, e que aprendam a economizar os seus lápis, porque custam dinheiro e recursos, e que na vida real, se não cuidarmos de nossas coisas, não virá alguém para nos repor a todo momento. Sou mãe que diz a verdade, mesmo que seja tabu, por que contra fatos, não há argumentos. Sou mãe que pratica a maldade de exigir que o filho enfrente as consequências de seus atos, que limpe sua sujeira e que aprenda que ninguém é seu escravo. Não sou mãe de "I love you, Barney", eu sou mãe de, vá em frente e enfrente!

Faltam-me beijinhos nas bochechas, talvez abraços, e "eu te amo". Falta-me abrir o meu peito e deixar sair tudo o que está enterrado desde a infância, e que me sufoca, mas rasgar o peito de uma vez não é nada fácil. Falta-me um pouco mais de açúcar e pimenta. Não que não os tenha em estoque, mas por que habituei-me a outros sabores. Mas não faltam-me o compromisso, a presença, a orientação e o incentivo. Não falta-me o amor, mesmo que em linhas tortas.

Eu sou mãe. Não por vocação, talvez por acidente ou escolha. Sou mãe que, uma vez sendo, não foge da raia. Sou mãe que sabe que talvez ser não seja o suficiente e que talvez o trabalho realizado também não seja. Sei que posso não ser compreendida ou aceita, sei que talvez não seja a mãe ideal. Mas sou essa mãe. Uma mãe real do dia dia, das agruras, das doçuras, das dores e dos bonecos e deveres de escola. Sou mãe que só quer contribuir, mas que não aceita ser menos que mãe.


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

saiam de seus guetos!


É difícil ficar calada quando o circo está pegando fogo, mas no caso do Brasil e do mundo atual, o circo parece que já está quase em cinzas.  Não, quando penso no ano que está por vir, sei que ainda há muito mais pela frente, e quando digo muito mais, é muito mais negatividade, infelizmente.

Vou tentar não ficar na teorização e partir logo para os fatos:

- Quando há na universidade eventos para discutir questões como dislexia, esses eventos ficam completamente esvaziados de estudantes, mas esses lotam eventos para discutir questões como as de gênero;

- Há poucos anos, estudantes saíram às ruas para protestar contra o aumento da passagem, e, no caso de Ouro Preto (mas não só), protestar também sobre uma infinidade de coisas, como o preço do bandejão, além de manifestarem-se com reinvindicações como mais "camofas" nas festas. Vi placas "Não é por 20 centavos", quando aqui na cidade o aumento seria de 30 centavos. Emocionou-me ver o povo junto, mas sabia que era modismo.

- Derrubaram uma presidente eleita democraticamente (até onde podemos considerar democracia as manipulações políticas), e estamos vivendo um dos períodos mais críticos da história, mas ninguém parece se importar com todo o retrocesso que está acontecendo;

- Dezenas de funcionários terceirizados foram demitidos em meu local de trabalho, a jornada de trabalho foi reduzida juntamente com o salário, mas o trabalho aumentou;

- O aumento salarial que teríamos no próximo ano parece ter sido cancelado, e houve aumento de tributação, o que significa queda de salário;

- O dinheiro destinado à educação sofreu enorme baixa, e, nesse último mês, o tal do Banco Mundial publicou que o Brasil deveria acabar com as universidades públicas;

- Regionalmente, a Samarco anunciou a demissão de 600 funcionários;

Uma filósofa americana foi agredida no aeroporto por ter vindo palestrar no Brasil, como se ainda estivéssemos na idade média;

- Intolerâncias racial, religiosa, ideológica crescem ferozmente a cada dia.

E tantos outros fatos que não tenho tempo, nem paciência para citar... O que significa tudo isso?

Significa, que a tal identidade líquida, ou a  identidade descentralizada, ou fragmentada, como disse Stuart Hall, está nos tornando, ao contrário do que pareceria, alienados e egocêntricos. São tantas as possibilidades de identificação, que a cada dia surgem novas categorias de humanos que reivindicam espaços. Ao mesmo tempo, podemos nos identificar com tantas delas, que acabamos por perder, talvez, essa mesma identidade.

O negócio é o seguinte, o que é melhor para mim, para o outro, e para a humanidade? Supostamente, a minimização de danos individuais, sociais e o bem estar geral. Como conseguir isso? Cada um tem suas convicções e teorias. Há como não tomar partido? Não?  Como resolver essa bagaça então? Tentando impor a concepção ideal de mundo aos outros, ou seja, o modelo de educação, economia, governo, a fim de alcançar o bem estar social? Talvez. De que forma? Violência? Novamente, talvez. Contra certezas, não há argumentos.

Porém, o bem estar social está embargado por uma infinidade de particularidades.  Como resolver as pequenas questões de uma infinidade de grupos a fim de proporcionar a igualdade?

Só tem um jeito: Deixar de ser alienado, saber o que é a realidade geral, não permitir que questões morais governem, ou seja, deixar de querer julgar e condenar comportamentos alheios que não interferem diretamente em nosso bem estar, ou causem dano direto a nossa vida, e compreender que, em sociedade, é preciso que haja igualdade de condições, do contrário, sempre existirá conflito, guerra, danos.

Resumindo objetivamente:

Quando assumimos uma determinada identidade e concentramo-nos em defendê-la acima de qualquer coisa, tornamo-nos intolerantes em relação aos outros e esquecemos de defender as necessidades sociais básicas para lutar por questões que são importantes, mas segregam e enfraquecem as lutas em favor da sociedade como um todo. Enquanto minorias lutarem contra as outras, ou excluindo algumas outras, a mudança será apenas em relação a quem assumirá o posto de capitão do mato, nunca haverá mudanças verdadeiras, profundas e duradouras;

mesmo que alguns digam que a desconstrução de tudo nos fez perder os parâmetros, pensar que não existem verdades absolutas, que escolhemos o que para nós parece melhor, e que, consequentemente, o outro tem o mesmo direito de escolha que nós, permite que nos tornemos mais tolerantes. Mas, devemos ter a consciência de que parâmetros são necessário para que não haja o caos, porém, esses, os parâmetros, não são absolutos.

Vamos parar de nos preocupar com o que o outro faz em sua particularidade, com como ele se veste, do que gosta, como fala e anda, com quem e como faz sexo, pois essas questões não dizem respeito à sociedade. O que diz respeito a sociedade, é que mais de 50% dos brasileiros ganha menos que um salário mínimo. O que diz respeito à sociedade é que apenas 7,9% dos brasileiros tem graduação, é que pessoas sofrem violência por pertencerem a esse ou aquele grupo. O que interessa é saber se as crianças estão sendo desamparadas, se lhes faltam comida, higiene, atenção e educação. Interessa saber  se um deficiente físico (pessoa com deficiência), um negro (ou preto, sei lá), uma mulher, um homossexual, uma mulher deficiente, negra e homossexual possuem os mesmos direitos, os direitos de serem quem quiser e de serem amparados pela sociedade de maneira igualitária. Saiam de seus guetos e defendam a humanidade ao invés de lutarem com o diferente.

A alienação está por toda a parte, não se enganem. Está nas favelas, mas está nas academias também. Em uma, por falta de teoria, em outra, por excesso. Numa falta o ideal, noutra, a realidade nua e crua. 

Enquanto cada um defender o particular e apenas enxergar o mundo de dentro de uma redoma, a decadência continuará a ser inevitável.


quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Fica

De tudo o que a vida traz e leva,
Ouso a dizer que nem tudo fica.
Beleza se degenera,
Olho, sentido, crítica.

Amor fica.

Poema de Shakespeare



Soneto 116

"De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou."  




Love Sonnet 116

Let me not to the marriage of true minds Admit impediments; love is not love Which alters when it alteration finds, Or bends with the remover to remove: O, no, it is an ever-fixèd mark, That looks on tempests and is never shaken; It is the star to every wand'ring bark, Whose worth's unknown, although his heighth be taken. Love's not Time's fool, though rosy lips and cheeks Within his bending sickle's compass come; Love alters not with his brief hours and weeks, But bears it out even to the edge of doom. If this be error and upon me proved, I never writ, nor no man ever loved.

William Shakespeare

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Afeto de quentura

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Todos os dias desejo o mesmo despertar:
Observando seu olhar se abrindo
E sorrindo ao me mirar.

Os verdes sedutores, com cada significar:
Se feliz, sempre vibrantes,
Se triste, vão desbotar.

Reconheço e preciso da sua temperatura
Quando se enrosca em mim 
E me agarra a cintura.

Seus lábios encantam-me a sorrir,
E quando me beijam sorrindo,
Não posso resistir!

Sua barba, cheiro e toco a atrapalhar,
Deixando-o sempre elegante
Diante do meu olhar.

Segure minhas mãos e me leve, criatura!
Agarre-me para sempre assim
Nesse afeto de quentura!

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Priorizar-se é doar-se

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Aprendi a ser muitas coisas, e aprendo todos os dias. Estou aprendendo ainda a lidar com o outro e suas necessidades. Há alguns que tem maiores exigências e demandas, outros não. Mas o mais importante, aprendi que não é possível atender a todas as exigências dos outros, e nem é o meu dever. Não é meu dever suprir as carências dos que ainda não se desenvolveram, por que eu também tenho muitas carências e subdesenvolvimentos. Não é o meu fardo estar disponível para qualquer um que suponha merecer a minha disponibilidade, mesmo que eu queira.

A raposa disse que somos eternamente responsáveis por aqueles que cativamos. Justo, a partir do momento em que nos comprometemos. Compromisso quer dizer, Goste de mim, eu gostarei de você e vamos construir uma relação dessa forma, até que um de nós decidamos romper o contrato. 

Porém, há alguns que precisam demais e de coisas que o outro não se comprometeu a dar,  e nem deu liberdade para que fosse cobrado. Há pessoas que julgam possuir direitos sobre o tempo, a atenção e o carinho do outro, e que esses sejam fornecidos da maneira em que achem adequada. Há pessoas que se magoam com a ausência, o silêncio. Mas, preciso dizer, não é possível suprir todas as necessidades, neném!

Pessoas como eu, possuem a cabeça ocupada por emaranhados de pensamentos a cada décimo de segundo. Abrir os olhos é sinal de uma atividade incessante, não que dormir cessasse essa atividade, quando é possível dormir. Ao fim do dia, a exaustão ocupa lugar de tudo, e o universo já passeou pelos meus pensamentos, com seus problemas, suas questões, suas possíveis soluções. Pensamentos, muitas vezes inúteis para muitos, sobre questões humanas. Como é possível me concentrar e dar a cada um que conheci nesse mundo a atenção que talvez suponham merecer? Isso não quer dizer que eles deixem de passar pelos meus pensamentos, nem que não os queira bem ou que a cada vez que surjam em minha mente eu não lhes deseje profunda felicidade. Só quer dizer que não é possível dar a todos o que cada um sente merecer e ter direito. 

Isso também não quer dizer que há muitas pessoas que necessitem de mim, na verdade, são pouquíssimas. Mas, no desenrolar da existência, precisamos eleger alguns que passarão maior tempo e dividirão todas as reflexões, problemas e soluções conosco, com quem devemos realmente ter um compromisso maior de presença e troca.

Para os cristãos, há a famosa frase, "ame a seu irmão como a si mesmo". É um conceito altruístico, mas que não exclui a individualidade. Se eu não cuidar de mim, da minha individualidade, das minhas necessidades, que só eu conheço, as físicas, as emocionais, as financeiras, todas elas, se eu não estiver inteira, como seria possível dar de mim para alguém? Eu tenho os mesmos direitos que o outro, nem mais nem menos, e eu devo ser a primeira a lutar por eles, sem ser julgada por isso.

Cuidar de si e assumir suas necessidades e suas incapacidades, não é ser egoísta; é ser humano e correto. É ser transparente e justo. É criar a capacidade de doação verdadeira.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Há um monstro em mim todos os meses


Muitas vezes eu me recuso a aceitar que nós somos movidos apenas pela livre associação de hormônios, como se fôssemos algum tipo de máquina ou de poção mágica, que colocando um pouquinho de adrenalina e dosando com dopamina, estrogênio ou outro, podemos destruir o mundo ou aperfeiçoá-lo. Não quero aceitar que somos um amontoado de carne sem controle, personalizados por componentes químicos; porém, quando vejo ao longo de um mês as modificações que as mudanças hormonais causam em mim, penso que isso só pode ser obra do demo. Ainda não encontrei sentido para essa montanha russa de emoções que vivemos periodicamente, e que para muitas mulheres, quase faz acabar o mundo delas e dos outros.

Quando era mais nova, eu não acreditava que existia a tal da TPM, pensava ser tudo invenção. Depois que amadureci e passei a me conhecer melhor e a observar o meu ciclo, percebi que o troço é uma coisa de doido e é batata. São reações incontroláveis e muitas vezes, insuportáveis. Obviamente, as reações são diferente para cada uma, mas poucas são as que não conhecem as mudanças femininas.

Não é só a mulher que pode constatar as mudanças causadas pelos hormônios, os psiquiatras são doutores no assunto, literalmente. Os consultórios estão repletos de pessoas a procura de um remedinho da felicidade que irá resolver magicamente todos os problemas.

Alguns preferem insistir em medidas alternativas, mudança de vida, meditação, que também alteram os níveis de hormônios e a maneira de ver a vida. Até quando os hormônios comandam quem somos e como enxergamos o mundo? Será  que não temos controle nenhum sobre quem gostaríamos de ser?

Não sei. Só espero poder controlar e domar essa fera que sai de mim todos os meses.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Pensar demais


Acho que estou virando uma velha coroca e chata, e os meus textos estão cada vez mais chatos que eu, se é que isso seja possível. Não sou boa para escrever textos científicos ou cientificistas, prefiro tentar utilizar as palavras dando-lhes sensações e transmitindo sensações, sem que alguém precise se esforçar enquanto lê, e sem precisar colocar notinhas de rodapé e referências explicitas. Mas esse meu pensar e essas minhas sensações, e esse meu descobrir diário e ininterrupto, me levaram a pensar sobre a procura do ser humano pelo conhecimento. Parece que, na verdade, tudo o que tem a capa de científico é na verdade uma maneira de descrever ou reescrever algo que poderia, ou que, na verdade, consideram místico. Quando um pensador falou sobre a natureza humana, supôs que todos os seres humanos teriam algo incomum e dissociável de sua raça, uma essência natural. Existe algo mais poético que sugerir que algo possua uma essência, uma característica imutável que surge com cada ser? A essência de uma pedra é ser dura e imóvel, mas do que se trataria a essência de um ser humano? Seria sua alma? Ou seriam características naturais que fazem parte da raça humana, como a maldade? Seria o "homem o lobo do homem"?

Quando negamos a essência humana, e assumimos que o ser humano vai se construindo de acordo com suas escolhas e que essas escolhas dependem de sua vivência, tornando-o o único responsável por seu destino, ainda assim, estamos em busca de uma explicação sobre a humanidade e sobre o que nos torna especiais, ignorando a infinidade de outras espécies existentes apenas no planeta Terra e que não se tornam, nascem. Parece, simplisticamente, uma maneira de mistificar contraditoriamente e racionalmente a humanidade,  negando a sua naturalidade, sua animalidade. Só para polemizar, nesse caso, seria possível a cura gay?


A própria afirmação de que existiria uma ética universal parece algo místico, é como se Deus tivesse criado uma ética e a escolhido como tabua de comportamento adequado para todos os homens da Terra. Dizer que seria possível a existência de uma ética universal, é dizer que os homens possuem uma essência e que são naturalmente isso ou aquilo, o que contradiz muitas outras coisas e teorias.

O mesmo pensamento me ocorre quando penso em estruturas sociais. Muitas vezes parece que se referem a elas como algo que existe além e independentemente da vontade humana ou individual, como se fosse algo pré determinado e necessário, algo que paira sobre o universo. 

Teorias sobre verdade e liberdade, são inúmeras. Cada um abraça a que mais seja compatível com a sua linha de pensamento, mas atreladas a elas, parece que sempre está o direito universal do ser humano. Quem nos deu esse direito, Deus? O universo? A nossa magnitude e superioridade humana? 

Preciso ler mais filosofia, ou talvez, não! Acho que devo gastar o meu tempo com momentos que fazem bem à mente e à minha suposta alma. Talvez essa seja a forma de concluir tudo o que nunca se concluirá, e de tentar encontrar a chave do que chamam de essência humana.



Seres humanos: Interesses individuais ou coletivos?


O homem, na concepção antiga de humanidade, nem sempre se viu da mesma forma, nem sempre se sentiu do mesmo modo.  se no período clássico ele se via como parte do cosmo, na idade moderna passou a se ver como centro do mundo, e isso significou grandes mudanças e desenrolares (não estou bem certa sobre a palavra "avanços") de teorias sobre os diversos aspectos sobre a humanidade e a sociedade. Quem sou eu para ficar aqui divagando sobre questões filosóficas? Apenas uma mulher que possui rudimentos de conhecimentos e uma mente a mil por hora.

Pois bem, o homem descobriu a subjetividade de seu mundo, e o colocou aos seus pés e disposição; ele (o homem) não era mais uma parte de um todo, de uma natureza divina, mas era o ser que poderia moldar seu próprio universo. Apesar de já ter criado Deus à sua imagem há milhares de anos atrás, ainda se via  como um ser totalmente impotente diante da incontestabilidade dos desígnios desse Deus e de sua divindade. Na modernidade, passou a ser o centro das discussões sociais, políticas e filosóficas.

Surgiram então as novas definições sobre justiça e liberdade, as concepções sobre Estado também sofreram modificações. O Estado, escolhido para representar e defender as necessidades do povo, deveria cuidar da segurança desse. O homem viveria então sob o intenso medo da morte, e por esse medo viveria em constante tensão. O indivíduo passa a ser visto como anterior a sociedade, e suas necessidades individuais, a auto realização e a experimentação pelos sentidos passam a ser a base do pensamento. Alguns pensadores, influenciados obviamente pelo seu tempo, colocavam seus argumentos sobre a convivência em sociedade, seja defendendo a propriedade, a manutenção da vida, a liberdade ou a igualdade. A individualidade é a base para esses pensamentos, o ser humano se volta para ele mesmo enquanto indivíduo pensante e desejante. 

Pois é, depois vem o tal do Marx, do qual muitos falam, mas poucos leram suas obras inteiramente, inclusive eu. Ele vem com uma nova visão sobre a vida em sociedade, sobre as estruturas sociais e seu funcionamento. As lutas de classes seriam responsáveis pelas mudanças históricas e dessas estruturas, a história se moveria através dessas lutas, ou seja, da insatisfação das classes massacradas, desfavorecidas e subjugadas que decidiriam mudar a ordem da bagaça.

Pois bem, dizer que as classes são diferentes, já significa individualizar. Eu não luto por outras classes, eu luto pela classe a que pertenço, com a qual me identifico, a classe que fornece as minhas estruturas dentro da sociedade. A classe que define a minha individualidade. A classe que me diz quem eu sou. 

O que interessa aqui, não é como as estruturas agem sobre, ou definem o indivíduo, o que interessa nessa breve reflexão, talvez rasa, é sobre  a individualidade, a subjetividade, e sobre como ela interfere nas estruturas.

Quando falamos de estruturas, nos vem à mente algo rígido. Eu imagino um armário, cheio de prateleiras e gavetas, onde as pessoas são colocadas e levam suas vidas com suas rotinas todas definidas e imutáveis. Em cada compartimento estaria uma classe, unida e separada das demais. As camadas de que se concentram na base seriam a estruturan( no sentido de construção civil) que sustentaria todo o resto. Uma hora, essa prateleira não suportaria mais o peso e se quebraria, dando início a uma nova estrutura. O grupo que ali estava assume, então, nova posição, levando o armário todo a se reformular e reconstruir seus compartimentos.  Nessa reformulação, teriam que ser chamados novos carpinteiros que tentariam rever o funcionamento e tratariam da manutenção.Talvez essa seja uma visão um tanto simplista, mas essa é a imagem que me vem.

Pois bem, os desejos do coletivo, digamos, de uma delimitada coletividade,  seriam a base das mudanças históricas, das evoluções e das revoluções, como se existisse algo inconsciente pairando no ar inalado pelos indivíduos de uma classe que a levasse a se unir e a agir em determinado momento; seria um descontentamento geral e unificado e um "nada mais a perder" que levaria a classe a se levantar em busca de uma situação melhor, para as classes em questão, obviamente.

Ninguém quer ser oprimido. Muitos são encabrestados para se sentirem bem na opressão, para não se revoltarem com seu pertencimento a castas inferiores. Mas, voltando à questão da natureza humana, se é que existe a tal essência, seria pertencente ao ser humano, ou natural, gostar de ser subjugado? Ou a maioria não possui capacidade de desenvolver reflexão sobre sua posição e sobre as tais estruturas que os colocam em seus lugares? Ou ainda, quem prefere o pior, o menos, o menor?

Penso que o sentimento de revolta pela repressão, deva ser, antes de tudo, um sentimento individual. Quando um individuo luta por sua classe, ele quer melhores condições para o seu pertencimento, ele luta por seus interesses. O interesse da classe não se sobrepõe ao individual, mas faz parte deste, pois trata-se da identidade do ser individual que é também coletivo. 

Podemos e, ao meu ver, deveríamos desejar uma sociedade justa para todos, com igualdade e paz. E, de acordo com o meu pensamento, a maneira de se conseguir isso, seria tentar oferecer as mesmas oportunidades a todos. Muitos devem pensar como eu, por que parece obvio que, onde há diferenças extremas, há violência, e isso representa um perigo constante para todos os indivíduos. Todos desejam viver em paz e em bonança. São desejos individuais, mas que parecem que só poderão ser concretizados se forem realizados coletivamente. Se vivemos em uma sociedade, com as tais estruturas, com oprimidos e opressores, a felicidade individual parece estar ameaçada pelas desigualdades, e os indivíduos compartilham de sua insatisfação com outros que pertencem ao mesmo lugar.

O que quero dizer com essa breve reflexão é que as classes existem, mas elas não são um ser que se move por si só. As classes são grupos formados por indivíduos com desejos e necessidades individuais equivalentes e fazem parte da identidade desses. Os indivíduos se movem por interesses próprios e das classes às quais pertencem em busca de satisfazer suas necessidades. Indivíduos é que tomam a voz, que insuflam, que convocam a coletividade. indivíduos é que manipulam, que usam da identidade compartilhada para realizar as movimentações, e não alguma força superior e quase sobrenatural. Indivíduos tomam decisões e se revoltam. Indivíduos desejam manter as estruturas e seus privilégios, assim como os privilégios dos que pertencem ao seu grupo.

Talvez eu esteja falando muitas besteiras, e, obviamente, preciso de muitas informações e reflexões. Mas na minha visão, indivíduos fazem a história através de seus interesses e dos interesses dos que fazem parte de seu grupo, de sua identidade, e não algo além ou aquém deles. Tanto, que as mudanças só acontecem através desses movimentos, o das classes, dos indivíduos que agem por seus interesses, interesses de uma determinada individualidade dentre outras.


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