O Brasil tem o preconceito de cor, não o de origem


Eu não sabia, mas por ter nascido com a pele um pouco mais clara, eu não pensava profundamente sobre o racismo. Na infância, eu considerava ser o cúmulo quando ouvia a vizinha dizer frases como "negro quando sobe em tijolo, acha que é palanque", ou  "preto quando não caga na entrada, caga na saída". Ninguém que ouvia demonstrava pensar que aquilo fosse algo fora da normalidade, ou que pudesse se referir a algum deles. Já adulta, fiz curso de informática em uma sala em que se encontravam pessoas de diversas origens, e lá ouvi um menino negro falar mal de negros. Ninguém o repreendeu. Uma vez, aqui em Ouro preto, estava em um bar frequentado majoritariamente pela população local. Era show de Skank na cidade e vieram forasteiros de todos os cantos; um desses forasteiros desceu as escadas e quando se deparou com a população "baronil" exclamou em alto som (mas nem tanto) ao seu colega: _"Credo, vamos embora daqui, aqui só tem preto!" Pois é. 

Eu comecei a perceber mais claramente as diferenças entre ser branco e preto depois que me casei com um homem branco  e de olhos claros. Tenho dois filhos negros e ele tem três filhos brancos. Ele pode entrar em qualquer lugar que todos sorriem para ele, ele é sempre bem tratado, todos tem paciência para falar com ele. 

Uma vez, fomos a um evento, eu, meu marido, meu filho e a namorada dele. Havia revista no portão de entrada. Eu e meu marido paramos esperando para sermos revistados, o homem e a mulher, que por sinal eram negros, nos olharam com sorrisos sem graça e ficaram esperando que passássemos. Quando olhei para trás, lá estavam eles revistando meu filho black power e a namorada dele. Meu marido disse que nós somos velhos, mas não acho que esse seja o motivo pela não suspeitabilidade.




O meu filho mais novo diz que quer ser médico, desde pequeno. Ele estuda como louco, tira as melhores notas. Ele não gosta de sair de chinelos e de bermuda.

Os filhos do meu marido não se importam em sair de chinelos, seja para viajar, entrar em bancos ou lojas; ninguém nunca olhou para eles como se eles fossem marginais. Eles não sabem porque precisariam calçar sapatos para sair de casa. Hoje eu sei porque eu sei disso.

Um dia estávamos falando sobre alguém que se dizia médico, eu disse que o tal indivíduo não tinha cara de médico, meu filho: _ Por quê? Você acha que eu vou ter cara de médico? _ Eu pensei sobre aquilo. As pessoas pretas não tem cara de médico, de gerentes, de agropecuários, de juízes, porque é raro que existam negros nesses ambientes. Quando entramos em algum local, julgamos imediatamente qual papel essa ou aquela pessoa ocupa naquela estrutura, e nosso julgamento é baseado em nossas experiências, e nossas experiências nos dizem que não há negros em níveis hierárquicos superiores. Eu disse ao meu filho: _ Forme-se médico e mude o que é ter cara de médico.

Eu não era totalmente a favor da cota para negros, por vários motivos. Eu não sabia se a cota era para  justiçar descendentes de pessoas que foram escravizadas e depois deixadas à própria sorte, transmitindo seu legado de miséria e dor aos seus. Se fosse esse o caso, bastaria a cota para os pobres, porque a maioria estaria contemplada, mas não é só isso. No Brasil existe, não o preconceito de origem, mas o de cor. Não importa se toda a sua família tem pele escura, se você tiver a pele um pouco mais clara, você não sentirá o peso do preconceito. Quanto mais escura for sua pele, mais marginal você será. Você é suspeito apenas por existir com sua pele escura, e não há nada que você possa fazer para reverter isso, ainda não. É uma dor sem fim e sem remédio.

Nessa gama de cores, poucos querem cruzar a linha tênue da negritude, a ponto de negros não aceitarem ser negros e de até mesmo odiarem negros. Quem sabe dizer a partir de qual tonalidade passa-se a ser negro,  qual nível de encaracolamento é de cabelo de preto, ou que largura das narinas são de origem negra? Quais os parâmetros de negritude? 

Onde ser preto significa ser marginal, naturalmente, ninguém quer ser marginal, e preto. Ninguém quer ter que andar sempre preocupado com suas roupas, seus chinelos, em não parecer suspeito tocando nas mercadorias da loja, cochichando, fazendo uma corrida na rua. Ninguém quer ser a escória da sociedade.

Dito isso, os que lutam pela consciência negra e que já se aceitaram, precisam lutar pela auto-aceitação de tantos outros; precisam lutar, como vem lutando, para que os negros tenham cara de tudo, para que possam usar o que quiser e estar em todos os lugares, para que não sejam toleradas piadas que depreciem as pessoas por sua cor, que citem a cor como argumento para qualquer característica negativa. Isso não pode ser naturalizado. Ser negro não é ruim, e é isso o que todos temos que internalizar, todos os brancos e negros que não sabem que são negros, mesmo sofrendo com o que sua cor traz.

Não há dor maior que pensar que seu filho poderá sofrer por toda a sua vida porque sua cor é mais escura, e nada pode mudar sua cor, não que sua cor deva ser mudada; o fato é que não há o que se fazer para tirar o ódio que as pessoas poderão sentir por ele ser do jeito que é, ao menos em tão pouco tempo. Mas podemos não aceitar mais piadas, não tolerar injustiças, não repetir expressões racistas, exigir políticas sociais que promovam a igualdade e aceitar de uma vez por todas que todos nós temos o mesmo direito de estarmos aqui e de aproveitarmos tudo o de melhor que essa existência possa oferecer, seja lá de onde venhamos e seja lá o que nos torna o que somos. Devemos ser anti-racistas, como teria dito Ângela Davis, não podemos tolerar que seres humanos sejam tratados de maneira humilhante, degradante, violenta, que sejam subjugados e animalizados por  causa da cor de sua pele.

Comentários

  1. Lindo o texto... Triste realidade...
    Passei por uma situação como essa quando minha sobrinha de 10 anos chegou em casa triste com a moedinha de cinco centavos dizendo que a coleguinha (Branca), distribuído um total de r$ 1 para as amigas e dando a ela o valor que ela merecia pela cor cinco centavos... Nunca senti tanta dor que raiva mesmo tempo.. como uma criança já crescia com o preconceito

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Se quiser, deixe seu e-mail.