A guerra dos gêneros

Como diriam Marx e Engels, “(...) O primeiro antagonismo de classes que apareceu na história coincide com o desenvolvimento do antagonismo entre o homem e a mulher, no casamento monogâmico; e a primeira opressão de classes, com a opressão do sexo feminino pelo sexo masculino.”  

Trata-se de uma diferenciação que começa no primeiro despertar consciente do ser humano, quando ele começa a ter ciência da alteridade, quando ele percebe que existem outras formas de existir e de estar no universo que não as dele, e, mais que isso, outras formas de se submeter e de se estar submetido às vontades alheias; as primeiras noções de hierarquia começam quando as necessidades surgem e há alguém de fora dele que as vem suprir, ou não. Mesmo que esse serumaninho não seja criado por uma mãe, ele já vive as diferenciações de gênero imediatamente ao fazer parte da cultura circundante, assim, o indivíduo vai internalizando os papéis, os modos, os lugares, as permissões, os certos e os errados da vida social, ao mesmo tempo em que vai se encaixando em cada uma das categorias que vão surgindo. 

Ao se "encaixar em um gênero", ele se encaixa, também, em um pacote social que independe de sua vontade. A discussão aqui não é sobre a naturalidade dos gêneros (tema complexo e que não faz parte das minhas competências), mas sobre os comportamentos sociais que se atribuem aos gêneros e os quais carregam características que nem nos damos conta, porque essas sim, são vistas como naturais, apesar de não serem (até que provem o contrário).

Para simplificar, estaremos tratando aqui de comportamentos de indivíduos que se identificam como cisgêneros e heterossexuais; Simone de Beauvoir descreveu muito bem como a cultura transforma o indivíduo em mulher e como suas funções são atribuídas, assim como acontece com o homem, que é preparado desde cedo para ser cuidado, lutar e conquistar. Nas atribuições femininas, mesmo neste mundo em crise em que vivemos, ainda permanecem o cuidado com o outro, o planejamento, a organização, a arrumação, e as obrigações sexuais, enquanto que para o homem, os discursos ainda dizem que ele deve apenas ser o provedor, ou seja,  dar o básico para que o indivíduo mulher permaneça vivo. Embora esses discursos ainda dominem o imaginário sociodiscursivo das nossas sociedades, outras formações discursivas estão batendo de frente com esses valores, como podemos ver em todas as redes sociais. Milhares de vozes gritam contra as mortes covardes que tem acontecido todos os dias, dezenas de mulheres são vítimas dos homens que dizem amá-las apenas porque elas disseram "não" para eles de alguma forma.  Que homens são esses e por que essa violência tem crescido tanto?

Com a internet, as pessoas ganharam voz e começaram a se expor e a expor suas ideologias, o que parece estar acelerando alguns processos históricos sociais, já que a comunicação acontece de forma instantanea e nossos jovens foram praticamente criados dentro de bolhas ideológicas e por youtubers ensinando o que achavam certo, mesmo sem nenhuma qualificação; enquanto as meninas cresciam vendo vídeos de adolescentes contanto histórias de encontros horríveis ao se maquiarem, os meninos cresceram jogando online e vendo vídeos ensinando a ser rico apenas com pensamento positivo e a odiar mulher que diz "não", sustentando a premissa de que todas são vagabundas. As meninas cresceram acreditando que tinham que lutar contra a opressão dos homens e os homens cresceram acreditando que as mulheres estão contra eles e não prestam, tendo, assim, que serem dominadas a força. 

Na prática, o que acontece, é o crescimento do número de homens mais machistas, às vezes, que seus próprios pais, totalmente inseguros neste novo mundo em que não é mais garantido um casamento em que ele vai adquirir um bem (mulher) que irá servi-lo, cuida-lo e estar disponível para sexo enquanto ele passaria o resto do dia brincando de lutinha, flertando e voltando para a casa depois de uma noitada; do outro lado, o estabelecimento de mulheres que querem ter o direito de não se casarem, não estarem mais nesse papel de objeto, de serem cuidadas e de dizerem "não" enquanto se maqueiam para sair para uma noitada e serem felizes. Todo o direito que o macho alfa achava que deveria ter está sendo retirado e ele não sabe como reagir e como ser um novo homem sem a posse de uma mulher, surgem os Red Pills.

A mulher está reinvindicando o direito de ser um indivíduo, não mais submetido como fora sua mãe ou sua avó, e de sair da caixinha do cuidado externo e ir para a caixinha do auto-cuidado, enquanto os homens se sentem sem seus privilégios e o conforto de terem alguém que cuide deles para que eles possam se divertir sem a chateação de cuidar deles mesmos.

A luta das mulheres é legítima, mas, como sempre, o comportamento tende a se extremar quando mudanças comportamentais acontecem, este é o motivo que, ao mesmo tempo em que vemos a violência e o ódio dos homens crescerem contra as mulheres, também vemos bons  e conscientes homens pagarem o preço por outros e pela história; os homens, no geral, sofrem de um abandono afetivo, no sentido de que sentem dificuldade de expressar os seus sentimentos, demonstrar fraquezas, e, consequentemente, de  conseguir afeto em um mundo em que é proibido ter características ditas "femininas"; sendo assim, a única possibilidade de afeto vem de uma suposta parceira amorosa, e em, não conseguindo, este homem encontra-se em um abismo solitário, cheio de emoções e necessidades repressadas, o que também pode favorecer a violência. O abandono é aumentado pelas mudanças nas maneiras de se relacionar, e nas novas exigências que estão sendo criadas para que um homem seja qualificável para um envolvimento. 

Os movimentos de defesa da mulher, que são legítimos e necessários, algumas vezes se radicalizam e tornam-se ambíguos, perdendo o foco primário e essencial que é o de defender o direito de ser um indivíduo dentro da sociedade, de ser considerada humana no mesmo nível que o homem sempre foi, nem abaixo, nem acima; porém, há inúmeros vídeos e discursos na internet onde as mulheres expoem homens de todas as formas, ridicularizando-os, falando de encontros que deveriam ser privados, mencionando aparência física, a qualidade das partes íntimas, e, algumas vezes, tratando-os como objetos da mesma forma como fomos tratadas por toda a eternidade. Esses comportamentos não tornam as mulheres superiores, ou com direitos, apenas nos tornam escrotas como os homens que nos maltrataram, além de ajudar a alimentar esse ódio crescente entre os gêneros. O negócio é tão esquisito, que este texto pode ser taxado como antifeminista e ati-conquistas femininas; esse é o tempo em que estamos vivendo, em que as pessoas vêem algo, mas não acreditam nos próprios sentidos, é um auto-gaslighting destrutivo para preservar premissas que baseiam um mundo idealizado; vemos isso todos os dias com pessoas não entendendo por que o político em que votaram estão fazendo exatamente o que disseram que fariam.

Concluindo, a luta entre os gêneros, está longe de acabar, ao contrário, parece estar se radicalizando neste momento de crise, mas é nesses momentos de radicalização que mudanças estrtuturais acontecem. Eu não imagino como será o mundo daqui a algum tempo, se é que ainda estaremos na face da terra com tantos malucos com bomba atômica, mas espero que o homem e a mulher aprendam a respeitar suas diferenças naturais e a construir um mundo em que essas diferenças não tirem de nenhum de nós o direito de sermos indivíduos e capazes de gerirmos nossas vidas, dar e receber afeto, sermos solidários e empáticos, vivenciarmos a sexualidade, termos nossas diferenças tratadas como idiossincrasias e não como defeitos e podermos dizer não sem levar uma facada.





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