terça-feira, 3 de agosto de 2010

Poema

Estava com vontade de escrever, mas a inspiração não me veio. Folheando um antigo livro de poesias de Castro Alves, me deparei com este poema e resolvi postá-lo.

FATALIDADE

DAMA NEGRA

Que fatalidade, meu pai!
ÁLVARES DE AZEVEDO.


ADEUS! ADEUS! ó meu extremo abrigo!
Adeus! eu digo-te a chorar de dor!
É o derradeiro suspirar das crenças,
Que se despedem das visões do amor...

Pálido e triste atravessei a vida
Sempre orgulhoso, concentrado e só...
É que eu sentia que um fadário estranho
Meus sonhos todos reduzia a pó.

Mas tu vieste... E acreditei na vida...
Abri os braços... caminhei p'ra luz...
E a borboleta da fatal crisálida
Soltou as asas pelos céus azuis.

O tronco morto - refloriu de novo
Ergue-se vivo, perfumado, em flor,
Abençoando a primavera amiga...
Ai! primavera de meu santo amor!

Porém que importa, se há fadários negros...
Frontes - voltadas do sepulcro ao chão...
Pedras coladas de um abismo à beira...
Astros sem norte, de um cruel clarão!

Quem mostra o trilho ao viajor das sombras?
Quem ergue o morto que esfriou o pó?
Quem diz à pedra que não desça ao pego?
Quem segue a estrela desgraçada e só?

Ninguém!... Na terra tudo vai... gravita
Lá para o ponto que lhe marca Deus.
Os raios tombam - as estrelas sobem!...
Lutar co'a sorte - é combater os céus!

"Vai! pois, ó rosa, que em meu seio, outr'ora
Acalentava a suspirar e a rir...
Deixas minha alma como um chão deserto,
Vai! Flor virente! mais além florir...

"Vai! flor virente! no rumor das festas,
Entre esplendores, como o sol, viver
Enquanto eu subo tropeçando incerto
Pelo patib'lo - que se diz sofrer!...

Que resta ao triste, sem amor, sem crenças?
- Seguir a sina... se ocultar no chão...
...Mas, quando, estrela!... pelo céu voares,
Banha-me a lousa de feral clarão!...

Recife, outubro de 1866.
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