sexta-feira, 27 de setembro de 2013

O lugar do trabalho na vida da mulher moderna

A religião tem sempre muita relação com a maneira como vivemos, e os interesses de alguns em detrimento de outros tem muito a ver com a maioria das religiões. A religião nos fornece uma opção para entendermos a nossa existência e um manual de como devemos agir para alcançarmos a plenitude, a paz, a felicidade, seja aqui na terra ou depois da morte; em algumas religiões, considera-se que algumas pessoas nasceram pre-destinadas à um determinado status e condição devido a existencias passadas, e os pertencentes a esta condição não devem se rebelar, mas aceitar a ser rico, santo ou miserável para sempre. Em outras religiões, o texto sagrado funciona como lei para as almas e para o Estado. A religião católica, que é a que reina na sociedade a qual pertenço, sempre pregou que devemos ser humildes, castos, e, dentre outras coisas, trabalharmos como escravos, pois é no trabalho árduo, maldição herdada pelo pecado original, que o homem se purificará. Obviamente, essa regra não se aplicava aos nobres e ao clero, que se achavam superiores e consideravam que trabalhar era um ato indigno para as pessoas "dignas".


Desde de criança ouvia reprovações por dormir até tarde, como se fosse um grande pecado ou até mesmo crime. O ditado "Deus ajuda a quem cedo madruga" já expressa um pouco da mentalidade de nossa sociedade. Estamos tão acostumados a pensar que a honra, a dignidade e o valor da pessoa está em sua capacidade de realizar um trabalho árduo, que não paramos para pensar no porquê de tudo isso e no objetivo pelo qual trabalhamos. Inúmeras vezes ouvi mulheres se gabando de sua força e tolerância para o trabalho pesado, enfrentado uma rotina estafante, uma tripla jornada e assumindo todos os trabalhos por que isso as fazia sentir mais valorizadas, mais mulheres, mais honradas. Num passado não tão distante, a mulher era criada para servir, bordava o seu enxoval durante a sua infancia e adolescencia e apredia a ser uma boa esposa, mãe e dona de casa. Aprendia que deveria ser pura, obedecer ao marido, nunca chateá-lo, sempre lhe servir de todas as formas. Eu já ouvi histórias onde o filho fora obrigado a largar os estudos por que o pai achava que estudar fosse coisa de vagabundo, pois um homem tinha que "trabalhar duro na roça".

Hoje em dia, o trabalho é ainda super valorizado. Não temos mais tempo para ficarmos sentados, conversando, caminhando lentamente até a padaria, falando com as pessoas, degustando a vida. Corremos o tempo todo para o trabalho, para a escola, para o cursinho, para a academia, para o trabalho em casa; dormimos cada vez menos e quando piscamos os olhos, mais um ano se foi. Pra quê isso?


Trabalhamos para sobreviver. Atualmente queremos ter o conforto de uma boa casa, boa comida, viagens, coisas; E nessa busca por tudo o que o dinheiro pode nos trazer alem da comida e do abrigo, gastamos todo o nosso tempo fazendo algo que muitas vezes não gostamos para ter muitas coisas que nem vamos usar. Compramos televisoes de 500 polegadas, pagamos todas as tvs a cabo, mas não temos tempo nem paciencia para nos sentarmos e apreciar o que temos. Os nossos filhos estão sendo educados por outros, que deixam os filhos para serem cuidados por outros; não temos tempo para lhes dar tempo, não temos tempo para estourar uma pipoca e ficarmos amontoados  jogando conversa fora; não temos tempo para dormir, não podemos ficar debaixo das cobertas nos dias gelados. Precisamos trabalhar para termos coisas e não poder aproveitá-las. Não temos tempo para ficar com os nossos filhos. Deixem que as escolas secas e duras os criem, lhes ensinem a andar, segurem suas mãos quando estiverem com medo; deixem que os seus machucados não sejam assoprados e beijados e que seus narizes continuem respingando até aprenderem a limpar sozinhos; deixem que não se lembrem de dormir em cima do corpo da mãe, do orgulho de ver seu pai lhes buscando na escola.  Que se contendem com alguns dias durante o ano em alguma viagem cansativa e fria.


Eu sou preguiçosa! Eu gostaria de ficar muitas horas em casa, sem fazer absolutamente nada! De ficar inventado moda, de fazer alguma coisa gostosa, de ver um filme debaixo das cobertas. Gostaria de ter mais paciência e mais tempo com meus filhos, de poder planejar mais coisas boas, de apenas andar sem rumo e voltar, ou talvez não.

O trabalho deveria ser algo que nos ajudasse a nos sentir valorizados, e não sentirmos que estamos sendo roubados de nós mesmos na ilusão de estarmos conquistando algo. E nesse trabalho incessante e louco, a vida e a juventude vao se escorrendo entre os dedos até quando não pudermos mais trabalhar... E lá, não teremos mais nada, nem o trabalho.

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