À meia-luz




A água fervente caía sobre a cabeça e amolecia o corpo, mas ela não conseguia mais chorar como em tantas outras vezes fez naquele que foi o seu refúgio único durante muitos anos de sua vida.  Na hora do banho, com as portas fechadas, o ruído do chuveiro na temperatura máxima  e o acolhimento da mãe água, ela sempre conseguia descarregar um pouco dos fardos diários, mas não naquele momento. As lágrimas estavam grudadas e a emoção era opaca, apesar de contundente como um punhal. Olhava para o azulejo antigo em que outras vezes vira soldadinhos de chumbo, homens com bigodes ou dragões, dependendo da luz, mas não visualizava nada mais além de memórias repetitivas e doloridas. Ficou alí, parecendo um espantalho, imóvel, com a chuva quente escorrendo por seu corpo e acalmando um pouco o coração castigado que já passara por vários exames médicos na investigação de algum mal oculto, mas que nada mostraram, embora a fadiga, as dores, o cansaço, o aperto, tudo permanecesse, cada vez mais. Os dedos já murchavam quando decidiu que precisava sair do seu lugar favorito. Pegou a toalha, secou os cabelos e mais uma vez ficou espantalha, olhando para lugar nenhum. Terminou de enxugar o corpo e foi para o quarto se vestir. Lembrou-se de tantas vezes em que, provavelmente, ele estaria ali, sempre fazendo algo ao redor e parecia que alguma coisa estava fora de lugar. Sentou-se nua na cama nova e a fadiga deitou seu corpo naquela coisa imensa. Puxou um travesseiro e decidiu que ia revisitar os motivos. Ana Cláudia estava só de novo no mundo, na casa, na cama, na vida.

Ela não conseguia se lembrar de quando notou sinais de que talvez a relação pudesse trazer mais dores que prazeres, mas sabia exatamente o dia em que ela teve a certeza de que nada mais poderia ser feito para consertar aquele relacionamento. Os dois se amaram por muitos anos, estavam sempre em busca do colo um do outro, se ancoraram naquele mar que parecia calmo, mas acabou se agitando por demais. O problema não era o amor, a paixão, o prazer, nem a intelectualidade iniciais, mas a maneira como cada um se expressava no mundo do lado de fora das quatro paredes. 

Marcelo estava sempre rodeado por pessoas, especialmente por expoentes femininos;  ele não economizava sorrisos, elogios, gostava de abraçar, tocar e de beijar os rostos diversos que coravam e muitos, em carências ocultas, o idealizavam como um par possível e perfeito. Ana Cláudia não se sentia confortável com tais comportamentos, porque eles nunca eram isentos de consequências, como as de moças correndo para abraçá-lo quando o viam no meio da rua, ou enviando mensagens em momentos estranhos, agindo como se ele as devesse algum tipo de atenção ou como se Ana Cláudia é quem fosse uma intrusa. Por ser motorista de ônibus, ele buscava sempre estar de bom humor e gostava de prosear com todos, os jovens, os idosos e as crianças e, especialmente, as jovens.

Marcelo trabalhava muito e tinha uma ligação muito forte com a mãe; a primeira coisa que fazia quando se levantava para ir trabalhar, era falar com a sua genitora e perguntar como estava a saúde dela ou sobre fofocas. A mãe era a primeira também a saber de boas notícias, a receber um feliz natal, a que sempre recebia o melhor lugar na mesa. Aquela mãe era muito orgulhosa do filho e adorava ver como ele era amado por todos.

Quando Ana Cláudia ficou grávida, quem correu para abraçar o pai ao saber da notícia foi a sogra, deixando a esposa com o teste na mão junto com o seu coração. No início, a esposa procurou entender, ponderar, avaliar se estava sendo muito possessiva, se aquilo que a incomodava tratavam-se de ciúmes exagerados, mas o fato é que algumas coisas pareciam fora de lugar e de função. Buscou relevar a falta de espaço em sua própria casa, pois quem cozinhava, decidia sobre as compras e palpitava sobre a educação do neto era a avó. Com os anos, tentou ignorar e aproveitar o tempo que lhe sobrava com outras coisas, mas a sogra sempre odiava tudo. O que incomodava mais não era nem o fato de aquela mulher estar literalmente ocupando o seu lugar, mas a atitude do seu marido.

O homem não escutava. Quando Ana Cláudia falava do comportamento da sogra, ele dizia que ela estava exagerando e que algumas coisas das quais ela falava, nunca tinham acontecido; quando ela dizia que a proximidade dele com outras mulheres a incomodava, ele mudava o foco da dor que o comportamento dele causava para o exagero que seria o incômodo sentido pela esposa, dizendo que ela era ciumenta e louca. Quando ela relatava detalhadamente fatos que envolviam moças que flertavam com ele, ele dizia que era interpretação dela estar vendo o que ela via, e de atitudes de outras mulheres parecerem inadequadas. Quando ela pedia mudança de comportamento, ele dizia que o problema era dela porque não via a imensidão do amor que ele sentia por ela e que toda a mulher quer mudar a essência do homem e não aceita quem o homem é. A dor dela era totalmente ignorada e sua capacidade cognitiva, subjugada.

A mulher desatinou. Não conseguia mais saber o que era certo ou errado, o que era verdade ou mentira, se estava vendo, ouvindo, sentindo mesmo ou se tudo era "coisa da sua cabeça", como o homem falou tantas vezes. Apesar de sua "loucura", ela ainda o amava profundamente, tanto que até doía; muitas vezes, doía tanto amar, que a vida parecia apertada demais para cabê-la. Ela não queria mais caber.

Um dia, em um evento na casa deles, o marido convidou alguns colegas da empresa em que trabalhava, dentre eles, uma mulher que se chamava Cristina. Essa Cris chegou na casa deles abrindo o mar e fazendo cair a chuva de gafanhotos. A sogra ficou íntima rapidamente da mulher esfuziante, mas a Cristina queria mesmo era a companhia de Marcelo. Os dois ficaram horas falando sobre assuntos aleatórios em que Ana Cláudia não poderia participar nem se quisesse, porque ela não conhecia aquele mundo em que os dois viviam fora de casa. Tentou ser cordial, sorriu, ofereceu petiscos, mas aquela mulher já a estava irritando. A tal Cris tinha uma risada alta e estridente que cortava o cérebro de Ana Cláudia. Enquanto ela falava e ria, tocava insistentemente o braço peludo de Marcelo. Ele, sempre simpático, nunca via mal na atitude de ninguém, dizia. Depois de algumas biritas, a estridente disse: _ Ah, Marcelo, se você não fosse casado... Para Ana Cláudia, aquela frase tinha representado a maior falta de respeito que ela tinha vivido. Como aquela mulher teve a coragem de insinuar que gostaria que o seu marido  fosse solteiro para que ela pudesse se aproveitar daquilo, e na cara dela? Marcelo fingiu que nada foi dito.

Mais tarde, na cama, para não ser novamente a que estraga eventos, Ana Cláudia falou sobre o assunto, dizendo que tinha sido inadequado aquele comportamento da moça, mas ele não aceitou nenhuma fala, considerou julgamento que poderia manchar sua imagem. Marcelo não reconheceu que aquilo havia sido dito,  não considerou como aquilo havia afetado sua esposa, ele não se importou com o que ela havia sentido, ele nem ao menos admitiu que aquilo pudesse realmente ter acontecido, gritando loucamente como se sua reputação estivesse sendo destruída por uma maluca ciumenta e paranoica que queria culpar sua amiga por nada. Enquanto ele gritava, a sogra apareceu e defendeu o filho, dizendo que Ana Cláudia era muito ciumenta e que aquilo iria estragar o casamento dos dois. Ana Cláudia foi tomar banho e dessa vez, sim, suas lágrimas afogaram as águas do chuveiro. Ela se sentia um lixo e se perguntava se havia exagerado, se era anormal, se a mulher realmente tinha dito aquilo, pensava que era muito ciumenta e estava atrapalhando a vida do marido. Chorou a noite inteira.

Os anos se passaram e muitas outras situações aconteceram, Ana Cláudia tinha medo de estar com seu marido e situações como aquela se repetirem, levando-a a se comportar inadequadamente de novo, incomodando a todos. Os dois foram se afastando e perdendo o prazer da companhia um do outro.

 Era verão e Ana Cláudia queria viajar com o marido para tentar reativar o vínculo tão bonito  que tinham no início e ajudar a salvar o casamento. Um dia, tomou coragem e disse a ele: _ Vamos viajar nesse fim de ano, só nós dois? Ele disse: _ Eu não vejo graça nenhuma em viajar só nós dois, pra quê? Pra gente ficar brigando, ou ficar parado, olhando pra praia? Eu também não quero deixar a minha mãe sozinha aqui. Você está sendo muito egoísta.

Esse foi o dia em que tudo começou a morrer, em que ela finalmente viu qual era o seu lugar na vida daquele homem. Demorou alguns meses para que ele saísse para a antiga casa com sua mãe.

Depois de se lembrar desses episódios, Ana Cláudia finalmente vestiu suas roupas velhas de dormir e foi fazer um café. Andava meio desregulada, o filho não ficava mais em casa. Tomava o café lentamente, olhando para a parede da cozinha, quando o celular tocou. Era o marido dizendo que que ia mudar seus comportamentos, ela perguntou: _Quais comportamentos? Ele não sabia dizer, apontou coisas genéricas e reafirmou seu amor gigantesco. O coração dela pegou uma corzinha de novo e ficou quentinho. Ela colocou uma roupa de sair e foi se encontrar com ele.


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