quarta-feira, 31 de maio de 2017

Comunicação proxêmica




Eles se namoravam há três meses e já estavam mais unidos do que carne e unha. Não programavam nada sem contar com a participação um do outro, estavam sempre se contactando durante o dia através do celular, utilizando todas as opções possíveis. Não viam a hora de juntar tudo de vez e acabar com a saudade infinita que queimava mesmo quando estavam juntos, mas sabiam que se separariam depois de algumas horas. A ânsia pela proximidade era tanta, que sentiam dor física de vontade de se reunirem novamente nos momentos em que não podiam estar perto.

Elisa era dessas românticas que dariam a volta ao mundo pelo ser amado e fazem dele o centro de suas existências. Felipe era daqueles que ainda acreditavam no amor, amor pelo parceiro e pela humanidade, daqueles que possuíam fé. Elisa possuía fé apenas em si mesma e em seu amor.

Felipe trabalhava como professor de teatro. Quando criança, sonhava em ser um grande ator, brilhar nas grandes telas de cinema, mas a profissão não era só brilhinhos. Aos 34 anos, era hora de fincar o pé na realidade e trabalhar como podia, dando aulas para os futuros brilhantes. Elisa também gostava das artes, tocava violino, mas seu trabalho consistia em enfadonha rotina como secretária em uma grande empresa. Aos 30 anos, também estava na hora de parar de sonhar e de brincar e começar uma vida familiar própria. Felipe era o seu príncipe encantado.

Era época da conclusão de curso da turma de Felipe e eles organizaram uma festinha. Obviamente, Elisa fora convidada para participar do momento com o seu amado, pois um sempre queria a presença do outro em momentos especiais. Elisa colocou a melhor roupa, a menos formal, afinal eram alunos de teatro, o seu batom mais vermelho, e foi com o seu amado ao evento.Chegando no local, os dois foram caminhando entre os convidados, todos jovens, serelepes, coloridos e autênticos, quando uma mocinha veio esfuziante de braços abertos para saudar o rapaz. Felipe abriu os braços, deu um forte abraço e beijou o rosto da bela moça, e assim fez com muitas outras. Elisa ainda não conhecia o comportamento desprendido de seu amado, e sua expressão não conseguiu disfarçar o descontentamento com a situação presenciada. Tentou não emburrar, mas não teve muitas palavras naquela noite.

Elisa era uma pessoa reservada e sabia o que um simples sorriso dava a interpretar a homens afoitos por uma aproximação, tanto que deixou de sorrir ao cumprimenta-los. Era nascida em um povoado em que as pessoas não tinham o hábito de se tocarem muito, especialmente se eram de sexos opostos. Na verdade, o povo era tão acabrunhado, que muitos pais não sabiam abraçar os filhos e assim viviam. Em sua mente, beijos e abraços seriam destinados apenas a pessoas muito íntimas, como familiares  e amantes. Na mente de Felipe, beijos e abraços eram demonstrações normais de afeto a qualquer ser humano. 

Elisa pensou muito sobre o acontecido e se perguntou se estaria certa em sentir profunda irritação pelos atos de seu grande amor, mas não encontrou respostas. Se perguntou se a maneira que ele agiu seria normal e se ela não estaria sendo muito radical e possessiva, se torturou nesse questionar. Depois de algum tempo, deixou de lado esses sentimentos e voltou a se grudar no seu amado, como sempre. Mas a paz não durou muito.

Dessa vez foram em uma festa dos amigos de Elisa. Havia amigos íntimos, colegas e conhecidos.Tudo correu bem e, no final, uma de suas colegas de trabalho pediu que o casal lhe desse uma carona, pois morava no caminho. Ao parar em frente à casa da colega, Felipe desceu e abriu a porta para que ela saísse, a abraçou e deu-lhe um beijo no rosto.  A colega sorriu desajeitadamente e olhou para o rosto de Elisa, coisas que acontecem em frações de segundos e que quase sempre, apenas as mulheres percebem. Elisa seguiu calada, refletindo se finalmente colocaria a sua insatisfação para o seu amado. Nessa noite, Elisa dormiria na casa de Felipe, pois no dia seguinte começaria um curso que funcionava próximo a casa dele. Chegando lá, Felipe perguntou:

_ O que foi, Elisa? Por que você ficou calada toda a noite?

Elisa refletiu e resolveu dizer logo o que a incomodava, mesmo que estivesse errada:

_ Felipe, o negócio é o seguinte, eu não acho legal você ficar beijando e abraçando todas as mulheres que você encontra pela frente, até mesmo pessoas desconhecidas.

_Quem é que eu estou beijando e abraçando? Está ficando louca?

_ Ah, amor, você sabe! Toda mulher que você encontra tem que ficar dando beijinho, você acha isso normal?

_Não é assim, não!

_ É assim, sim!

E detalhou todos os ocorridos. Felipe se justificou, disse que isso não tinha nada de fora do comum, que agia normalmente como a maioria das pessoas, e que Elisa estava vendo chifres em cabeça de cavalo por causa dos ciúmes. Ele não sentia que desrespeitava nenhuma das mulheres, que estivesse flertando com elas, ou desrespeitando Elisa. Nessa noite, cada um dormiu em seu canto, sem se encostar. A noite foi longa e o frio foi grande. Sentiram falta de ficarem grudados, como sempre, a ponto de mal poderem respirar, mas algo os separava. Que vá se grudar com aquelas vagabundinhas, pensava Elisa. A proximidade tem  relação com muitas coisas.

O tempo passou e Elisa tentou relevar os sentimentos. Já estavam planejando alugar uma casa e comprar algumas coisas para morarem juntos. Se amavam e se comunicavam muito bem intelectualmente e fisicamente, mas a maneira como os dois viam as relações e os limite de proximidade com outras pessoas se diferiam, e isso causava atritos.

Um dia, saíram juntos para escolherem algumas coisas para casa, e ao andarem pela rua, passaram perto de uma moça que morava próximo à casa de Felipe. A moça estava sentada na calçada, e conhecia Felipe apenas por eles serem  meio vizinhos. Felipe passou, bateu com a mão em uma de suas pernas e disse: _ Oi, tudo bem? A moça dirigiu aquele olhar de fração de segundos à Elisa e respondeu ao cumprimento. Elisa se conteve, mas algo viria mais adiante. "Quem com ferro fere, com ferro será ferido", pensou Elisa dentro de suas maquinações maquiavélicas. "Vejamos até quando tudo é normal". Compraram o que deu e combinaram de se encontrarem mais tarde com alguns amigos de Felipe. 

Elisa se vestiu para matar, usou o seu maior decote e o seu batom fatal, perfumou-se como há muito não fazia. Felipe sentiu-se enciumado, mas não quis demonstrar nada. Quando chegaram ao bar, os amigos já estavam lá. Elisa abriu os braços para o amigo do amado e em seguida tascou-lhe um beijo na bochecha, que ficou marcada com o vermelho paixão. O amigo olhou para Felipe, não o olhar de fração, mas o olhar longo e desajeitado, sem lugar. Elisa continuou a agir normalmente, sentou-se enquanto todos os outros continuavam o bate-papo animado. Felipe recusou-se a comentar o fato, mas sua expressão era clara. Pediram uma cerveja, o papo ficou mais animado, e enquanto conversavam, Elisa tocava o amigo de vez em quando, no ombro, na perna, para chamar-lhe a atenção. Em um dado momento, Felipe sentiu-se mal e quis ir para a casa. Do nada. Disse ser mal estar súbito. Foram. Ficou calado o tempo todo. Dizia ser nada, não, só não estava bem. Elisa sabia o que era, era o mesmo que ela havia experimentado inúmeras vezes, mas quando é com o outro, sempre é normal e a pimenta não tem ardido.





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