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quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O Brasil tem o preconceito de cor, não o de origem


Eu não sabia, mas por ter nascido com a pele um pouco mais clara, eu não pensava profundamente sobre o racismo. Na infância, eu considerava ser o cúmulo quando ouvia a vizinha dizer frases como "negro quando sobe em tijolo, acha que é palanque", ou  "preto quando não caga na entrada, caga na saída". Ninguém que ouvia demonstrava pensar que aquilo fosse algo fora da normalidade, ou que pudesse se referir a algum deles. Já adulta, fiz curso de informática em uma sala em que se encontravam pessoas de diversas origens, e lá ouvi um menino negro falar mal de negros. Ninguém o repreendeu. Uma vez, aqui em Ouro preto, estava em um bar frequentado majoritariamente pela população local. Era show de Skank na cidade e vieram forasteiros de todos os cantos; um desses forasteiros desceu as escadas e quando se deparou com a população "baronil" exclamou em alto som (mas nem tanto) ao seu colega: _"Credo, vamos embora daqui, aqui só tem preto!" Pois é. 

Eu comecei a perceber mais claramente as diferenças entre ser branco e preto depois que me casei com um homem branco  e de olhos claros. Tenho dois filhos negros e ele tem três filhos brancos. Ele pode entrar em qualquer lugar que todos sorriem para ele, ele é sempre bem tratado, todos tem paciência para falar com ele. 

Uma vez, fomos a um evento, eu, meu marido, meu filho e a namorada dele. Havia revista no portão de entrada. Eu e meu marido paramos esperando para sermos revistados, o homem e a mulher, que por sinal eram negros, nos olharam com sorrisos sem graça e ficaram esperando que passássemos. Quando olhei para trás, lá estavam eles revistando meu filho black power e a namorada dele. Meu marido disse que nós somos velhos, mas não acho que esse seja o motivo pela não suspeitabilidade.




O meu filho mais novo diz que quer ser médico, desde pequeno. Ele estuda como louco, tira as melhores notas. Ele não gosta de sair de chinelos e de bermuda.

Os filhos do meu marido não se importam em sair de chinelos, seja para viajar, entrar em bancos ou lojas; ninguém nunca olhou para eles como se eles fossem marginais. Eles não sabem porque precisariam calçar sapatos para sair de casa. Hoje eu sei porque eu sei disso.

Um dia estávamos falando sobre alguém que se dizia médico, eu disse que o tal indivíduo não tinha cara de médico, meu filho: _ Por quê? Você acha que eu vou ter cara de médico? _ Eu pensei sobre aquilo. As pessoas pretas não tem cara de médico, de gerentes, de agropecuários, de juízes, porque é raro que existam negros nesses ambientes. Quando entramos em algum local, julgamos imediatamente qual papel essa ou aquela pessoa ocupa naquela estrutura, e nosso julgamento é baseado em nossas experiências, e nossas experiências nos dizem que não há negros em níveis hierárquicos superiores. Eu disse ao meu filho: _ Forme-se médico e mude o que é ter cara de médico.

Eu não era totalmente a favor da cota para negros, por vários motivos. Eu não sabia se a cota era para  justiçar descendentes de pessoas que foram escravizadas e depois deixadas à própria sorte, transmitindo seu legado de miséria e dor aos seus. Se fosse esse o caso, bastaria a cota para os pobres, porque a maioria estaria contemplada, mas não é só isso. No Brasil existe, não o preconceito de origem, mas o de cor. Não importa se toda a sua família tem pele escura, se você tiver a pele um pouco mais clara, você não sentirá o peso do preconceito. Quanto mais escura for sua pele, mais marginal você será. Você é suspeito apenas por existir com sua pele escura, e não há nada que você possa fazer para reverter isso, ainda não. É uma dor sem fim e sem remédio.

Nessa gama de cores, poucos querem cruzar a linha tênue da negritude, a ponto de negros não aceitarem ser negros e de até mesmo odiarem negros. Quem sabe dizer a partir de qual tonalidade passa-se a ser negro,  qual nível de encaracolamento é de cabelo de preto, ou que largura das narinas são de origem negra? Quais os parâmetros de negritude? 

Onde ser preto significa ser marginal, naturalmente, ninguém quer ser marginal, e preto. Ninguém quer ter que andar sempre preocupado com suas roupas, seus chinelos, em não parecer suspeito tocando nas mercadorias da loja, cochichando, fazendo uma corrida na rua. Ninguém quer ser a escória da sociedade.

Dito isso, os que lutam pela consciência negra e que já se aceitaram, precisam lutar pela auto-aceitação de tantos outros; precisam lutar, como vem lutando, para que os negros tenham cara de tudo, para que possam usar o que quiser e estar em todos os lugares, para que não sejam toleradas piadas que depreciem as pessoas por sua cor, que citem a cor como argumento para qualquer característica negativa. Isso não pode ser naturalizado. Ser negro não é ruim, e é isso o que todos temos que internalizar, todos os brancos e negros que não sabem que são negros, mesmo sofrendo com o que sua cor traz.

Não há dor maior que pensar que seu filho poderá sofrer por toda a sua vida porque sua cor é mais escura, e nada pode mudar sua cor, não que sua cor deva ser mudada; o fato é que não há o que se fazer para tirar o ódio que as pessoas poderão sentir por ele ser do jeito que é, ao menos em tão pouco tempo. Mas podemos não aceitar mais piadas, não tolerar injustiças, não repetir expressões racistas, exigir políticas sociais que promovam a igualdade e aceitar de uma vez por todas que todos nós temos o mesmo direito de estarmos aqui e de aproveitarmos tudo o de melhor que essa existência possa oferecer, seja lá de onde venhamos e seja lá o que nos torna o que somos. Devemos ser anti-racistas, como teria dito Ângela Davis, não podemos tolerar que seres humanos sejam tratados de maneira humilhante, degradante, violenta, que sejam subjugados e animalizados por  causa da cor de sua pele.

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Os Coringas


Há algum tempo não me atrevo a discorrer neste blog, pois o cansaço generalizado gerado pela condição atual (a condição de descrença, desesperança, e até mesmo de ódio), me paralisa ao escancarar minha inutilidade e impotência. Mas, ontem fomos ao cinema na capital, dentro de um shopping. Pois bem, fomos assistir ao Coringa. Antes, duas observações:

_ Eu odeio shoppings. 
_ Eu não vi, ou li nenhuma crítica, ou crítica da crítica do filme que pipocavam por todos os lados. Fui nua e crua, sem gerar nenhuma pré-visão.

O ator é maravilhoso, como  já sabia. O enredo, triste, triste, triste. Ainda estou digerindo a realidade que nos arregaça, porque fingimos acreditar naqueles contos dos tempos de criança e nas pessoas que pensamos que eram boas, mas que no fim, derramavam em nós suas inseguranças e fraquezas. Arthur, o Coringa, é um ser humano sensível, mas que carrega graves problemas psicológicos e neurológicos causados também pelo seu passado. Ele tentou de todas as formas realizar seus sonhos, ser alguém bem-sucedido e que conseguia fazer com que as pessoas sorrissem, mas as pessoas, o mundo, o jogaram na lata do lixo, o espancaram, o ridicularizaram; enquanto isso, os poderosos, donos do dinheiro e dos discursos, tiravam da grande massa popular todos os direitos, toda a assistência, inclusive o fornecimento dos remédios que o Coringa recebia gratuitamente para tratar de seus distúrbios. A sua risada frenética e incontrolável que surgia nos momentos de tensão parecia ter a ver com a imposição que existia de ser sempre feliz e de sorrir e fazer sorrir, colocada por uma mãe, que também sofria de problemas psicológicos, e por uma sociedade hipócrita. Mas, ele nunca fora feliz em sua vida. Quando perdeu absolutamente tudo, tornou-se alguém feliz dentro da própria lógica que criou, fazendo "justiça", afastando os importunadores e recebendo os aplausos de uma sociedade caótica que precisava de um representante extremo para a resolução dos tormentos em que estavam vivendo, ou seja, o filme é um retrato de uma sociedade doente, caótica e sem nenhuma esperança.

Saí com um nó na garganta e lágrimas presas. Não porque o filme seja deprimente, mas porque nos esfrega a nossa realidade que é deprimente. Saí com medo, porque vislumbrei um bando de "caras de palhaço" correndo pelas ruas, botando fogo, destruindo, matando, porque também não tem mais nada a perder nesse mundo totalmente desigual. Saí pensando nas relações sociais, sobre o que elegemos como certo e errado, como verdades, e como contribuímos para continuarmos nas estruturas em que vivemos. Talvez não queiramos mudar as estruturas, mas ascender dentro delas e ocupar o lugar dos dominadores. Mas, essa também é uma forma de escravidão gerada por certezas que foram criadas, e a única maneira de mudar isso, é constituindo novas certezas.

Deixei o caos da sala de cinema e caminhei por entre a "diversidade" de pessoas, mulheres usando maquiagens pesadas, roupas caras, carregando sacolas finas, crianças rosadas comendo seus sanduíches, homens de ternos, ternos nas vitrines de 1700 reais, bossa nova e perfumes chiques; na livraria, sessões intermináveis de livros evangélicos, espíritas, auto-ajuda, não vi sessão de literatura. Em uma bancada, estavam lado a lado um livro intitulado "O segundo sexo" e "Tudo o que você precisa saber para não ser um idiota". Os palhaços já estão aqui.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Ciclo


Todo mês eu morro
E todo mês ressurjo.

Um dia estou linda,
Amo a vida e os planos,
Noutro, quero morrer
Na solidão dos danos.

Sei por que fomos bruxas,
Por que os homens nos temiam,
Sei por que procuram amantes,
Por que nos acham misteriosas
Nos chamam de loucas;

Por causa das mentes sujas,
Que não viam, nem ouviam,
Por causa das dores gestantes,
que davam crias gloriosas
de intensidade barroca.

E nesse morrer mensal, 
E nesse matar gradual,
Vão-se a alegria e a esperança
Nos passos da estranha dança.

Se choro e grito desesperada,
É por que preciso ser amada, 
Mesmo quando sou, sem saber,
Mesmo quando vivo a me perder.




segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Houve um tempo...


Houve um tempo em que meu sonho era ter uma calça jeans e uma caixa de lápis de cor de 36 cores;

Houve um tempo em que comia fubá suado, café com farinha e sentava na horta para pensar.

Naqueles tempos, lia as estrelas, um livro infinito que me colocava no lugar.

Havia um tempo em que eu sonhava com príncipes, castelos e paz mundial,

Nesse tempo, sonhava em ser uma atriz de Hollywood e emocionar as pessoas,

Esse tempo passou.

Tive um tempo em que não entrava em lugares chiques e não conhecia cappuccino,

E pensava que nunca entraria naqueles lugares e que nunca provaria camarão,

Mas em todos os tempos, nunca naturalizei minha mãe como empregada doméstica,

Dizendo "sim senhora" com boca de culpada, servindo no chão.

Tivemos tempos em que pensávamos estar andando rumo ao progresso da humanidade,

Cultivando valores fraternos de tolerância, respeito, amor e paz,

Mas ao crescer, me vi rumando com rodas de fogo para trás.

Nos outros tempos a minha avó beijava santo de longe, benzia tudo, temia tudo,

E eu perguntava e negava tudo, sentindo-me muito sábia;

Hoje sei de nada, mas já vi tudo, ouvi tudo, e nada me satisfaz.

Houve um tempo em que era uma menina pobre, medrosa e sonhadora,

Agora sou uma mulher repreendida, destemida e repressora.


segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Amor monogâmico é mito?


Eu não sei se sei o que é amar.

A cada década um tipo de relacionamento emerge como modelo ideal e os antigos passam a ser vistos como armadilhas sociais. Hoje li uma reportagem que falava que o ser humano não é naturalmente monogâmico, que somos monogâmicos porque somos pobres, ou seja, ter vários parceiros seria dispendioso e problemático. O caboclo disse que pesquisou diversas civilizações (penso que foram algum tipo de tribo, pelo que descreveu), e concluiu que em comunidades em que há menos tabus relacionados a sexo, há mais paz. Deram um exemplo de uma sociedade matriarcal, em que as mulheres decidiam com quem e quando iriam ter relações sexuais, escolhendo um dos objetos que eram inseridos debaixo de sua cabana (pauzinho, caquinho, sei lá o que mais).

Alguns disseram que a monogamia foi o que permitiu que o homem evoluísse e chegasse onde está. Muitos concordaram com a teoria da poligamia.

Inventaram o amor romântico, mas depois descobriram que lá na Grécia antiga uma homossexual já escrevia sobre o amor com características românticas, poesias cheias de idealizações e sofrimento. Ciúmes existem onde existe o ser humano. Paixão também, e foi a paixão a responsável pela maioria dos atos e construções faraônicas que ainda estão de pé na humanidade. Mas, alguns argumentam que paixão não quer dizer exclusividade sexual. Outros dizem que amam, mas não desejam sexo, outros que apenas desejam sexo se existir uma conexão intelectual, e ainda, alguns, desejam sexo com crianças, idosos, objetos e até cadáveres. Nada é simples para a raça animal humana, porque criamos símbolos, significâncias.

Não vale utilizar comportamento de outros animais, cada animal possui seu comportamento, tanto que uns são monogâmicos e outros não. De acordo com o tal cientista, os que são, é devido às dificuldades de sobrevivência, que os obrigam a terem apenas um parceiro por toda a vida. Já os bonobos fazem sexo o dia todo, todos com todos, de todos os gêneros e idades. O que isso nos diz? Jesus sabe.

Será que se todos vivêssemos no mundo comunista de Marx, seríamos todos poligâmicos, já que existiria a igualdade e não precisaríamos lutar contra a exploração? Será que se eu ganhar na megasena me tornarei uma devoradora de homens?

O moço estudou as comunidades e tirou uma conclusão. Não conheço seus métodos científicos e suas bases, mas como afirmar que apenas a variante sexual seja responsável pela paz dos indivíduos dentro de um universo social? Gostaria de compreender.

Dizem que amor romântico escraviza as mulheres. As letras das músicas atuais exaltam a traição, a farra, os prazeres imediatos, esses são os valores atuais. Os de ontem eram o do sacrifício, da sublimação, da submissão (para as mulheres, geralmente).

O que é amar?

Embora haja todos esses papos sobre o amor desde que o ser humano criou a palavra, amar para mim tem a prerrogativa da verdade. Só é possível amar verdadeiramente alguém a quem você conhece, a quem você olha e enxerga, nu e cru. Viver fingindo de ser outro é cansativo e destruidor. 

Amar não é só sossego, porque quando amamos estamos vivos e nos importamos com o que o outro é, faz, significa. Quando nada naquele ser nos move, não existe amor.

Amar é decisão. é decidir ficar juntos, de mãos dadas, cobrindo um ao outro, mesmo que não queira olhar para o outro em algum momento irritante. É contrato, porque vale a pena;

Amor é crescimento. É saber que todos são irritantes, loucos, entediantes, chatos, tudo isso em assuntos diferentes. Crescemos quando paramos de procurar a perfeição e aprendemos a lidar com as diferenças que não nos são ofensivas, opressivas e prejudiciais;

Amar é sentido. É gostar de sentir o calor, o cheiro, a voz, a pele, o olhar do outro. É não deixar que a vontade de devorar se acabe;

Amar é estímulo. É quando o outro sempre traz algo de novo e nos permite refletir até mesmo sobre as nossas certezas mais enraizadas. É provocar discordâncias tolerantes que nos levam a outro lugar.

Amar é diversão. É se permitir largar-se no mundo, vendo as coisas simples e bobas, admirando a arte, rindo, dançando, voando juntos na imaginação;

Amar é cuidar. cuidar para que o outro esteja bem, e que a relação seja sempre proveitosa, com a ciência de que tudo acaba, e que amanhã o outro pode não estar mais aqui;

Amar é tudo isso e muito, muito mais. Sexo está no meio disso e é estimulado por tudo isso. Não conseguiria ter isso tudo com vários amores, eu acho, e não gostaria. Por hoje, sou monogâmica poque sim, porque não preciso não ser. Fui doutrinada, dominada pela sociedade? Não sei. Mas esse amor verdadeiramente me basta em tudo.

terça-feira, 30 de julho de 2019

Não me chame de amor!


Um antropólogo americano criou a expressão "comunicação proxêmica" para descrever o espaço entre os indivíduos no meio social. Esse espaço que tomamos em relação às pessoas tem relação com o nível de intimidade, assim como as regras que existem em nossa sociedade, ou seja, se diferenciam de lugar para lugar, em relação a gênero e outros fatores. No geral, de acordo com suas pesquisas, essa distancia corporal seria de:

  • distância íntima: para abraçar, tocar ou sussurrar (15-45 cm);
  • distância pessoal: para interação com amigos próximos (45–120 cm);
  • distância social: para interação entre conhecidos (1,2-3,5 m); e
  • distância pública: para falar em público (acima de 3,5 m)
O distanciamento físico não é o único fator que fala sobre a intimidade entre os indivíduos, a linguagem utilizada também nos revela em que pé são as relações entre essas pessoas. Ninguém chega a um desconhecido e diz "vem cá meu amor, você está lindo hoje, querido." Ninguém diz ao chefe "vai se foder, veado!" Apenas os amigos íntimos, masculinos se tratam normalmente de veados (embora tenha visto muitas meninas utilizarem o mesmo termo). Certos usos de expressões onde essas não cabem tornam-se invasores e desrespeitosos; o difícil é entrar na sintonia certa.

Feito esse preâmbulo, concentrarei em minha queixa atual:

Eu não suporto essa nova moda nos comércios ouropretanos de nos chamar de florzinha, amor e querida!

Sim, sabemos que os serviços em Ouro Preto recebiam reclamações, as atendentes não estavam preparadas para nos receber adequadamente com simpatia e respeito, por que também sabemos que muitos patrões não ofereciam nenhum treinamento,  alguns tratavam muito mal seus empregados, mas não vamos exagerar. Bem tratar o cliente não é forçar um falso apreço ou intimidade, não é banalizar termos e destituí-los de seus sentidos, transformando-os em outros. O cliente não é seu querido, seu amor, sua florzinha, florzinha é o caramba! O cliente é, senhor, senhora, você, não é seu amante.

As pessoas confundem ser legal com intimidade. Ser legal é você não ignorar a presença do outro, ser simpático sem ser invasivo, oferecer ajuda quando necessário, não agir com arrogância ou ignorância, ouvir verdadeiramente o outro, e não tratá-lo como se ele fosse um dos mais íntimos contatos.

Detesto modismos. Não sou sua querida, baby! Amor o escambau! Florzinha é sua mãe.

Talvez eu que esteja fora da realidade com minha rabugentice, mas como analista do discurso que estou me tornando, sei que as palavras tem sentidos diversos, dizeres que estão além de nós mesmos, mas ainda não estou pronta para aceitar a banalização das palavras fundamentais e vê-las transformadas em adjetivos vazios e capitalistas.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Como viver neste mundo?


Vim vociferar contra este mundo,
Mas sem forças, exausta, voltei.
Parece que tudo já foi dito, feito,
Mas que nada funciona direito.

Vozes gritam e esmagam sem nada dizer, 
Bocas movem-se num frenético digitar, 
Falando coisas para quem não sabe ler.

Tudo é negado, mas tudo é possível,
Tudo é mentira, mas tudo é crível,
Depende do conforto de quem crê.

O que era ruim, ficou bom,
E o que era bom, a se perder.

Em meio ao caos, e da certeza histórica
De que nada muda além das moscas,
Fujo da minha vestimenta mórbida
E de traficanças mais toscas.

Lanço o olhar a quem me deu a mão,
Aos que me olham com gratidão,
Aos que amo, e que me amam,
E atravesso a podridão.

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Ser ouropretano é...




Ser ouropretano raiz é morar nas periferias, nas quebradas, é ter aquela vista maravilhosa do Pico do Itacolomi da janela e ver aquelas nuvens que começam a escurecer para jogarem seus trovões nos morros. Nasci aqui, fui embora e voltei aos 11 anos de idade, e aprendi cedo que ser ouropretana é falar "cadê mãe", "isso é de mãe, isso é de pai", e não "isso é da mãe, isso é do pai", como eu falava. Quem vive nessas terrinhas descobre logo que mofo é um troço que faz parte da atmosfera, nada resolve. Tudo cheira a mofo e tem cor de mofo. 

Quem é dos tempos das vacas magras vai se lembrar muito bem do fubá suado, café com farinha, dos fogões a lenha, dos galinheiros e chiqueiros que faziam parte das casas. Vai se lembrar da diversidade de toques de sinos, dos quebra-queixos, das amêndoas da Semana Santa. Não há de fugir da memória também os escorregões por essas ladeiras, que faziam as calças se rasgarem. 


A minha família é mais que raiz, veio do mais longínquo solo. A minha mãe e tias, dizem que iam até o Pico do Itacolomi buscar lenha para cozinharem. Comiam o tal do fato de boi, a casa era um barraco se despedaçando. O meu avô, dizem, era um senhor ruim que nem capeta (fique em paz, vovôzinho). Do outro, por parte de pai, não sei quase nada. Na verdade, não conheci nenhum avô, os dois se suicidaram quando meus pais ainda eram bebês.

Aliás, ser ouropretano é saber ou conhecer alguém que já chegou ao desespero de tentar a própria morte. Esse é um fato terrível, ao qual não devemos fazer apologias, mas também não podemos ignorar ou esconder, como querem fazer com a mal assombrada Volta ou Curva do Vento. Não há um ano em que ao menos um pobre indivíduo atormentado não pule de lá. Ouropretanos, não vão para lá quando estiverem tristes! A vida é bela e Ouro Preto não é só mofo e neblina, há muita luz e eferverscência nessa cidade! Dêem-se a chance de conhecer uma nova vida, que sempre nos surpreende, se permitirmos.


Ser ouropretano é conhecer as histórias de fantasmas, como a da mulher de branco e a da Mãe do Ouro; é se esbaldar com os forasteiros no carnaval e depois fazer penitencia, participando de todas as procissões. Ah, é chamar turista, estudante e gente que comprou os casarões antigos e milionários de forasteiros, e os nascidos aqui de nativos. 

Antigamente, a guerra entre nativos e estudantes era grande, mas, parece que estão aprendendo a conviver de uma melhor maneira. Talvez, pelos acontecimentos antigos que os nativos presenciavam, como os trotes humilhantes, as festas que desrespeitavam as tradições religiosas, e o apartheid que existia entre essas duas categorias, o clima fosse tão ruim no passado. Hoje, felizmente, estamos convivendo melhor, até porque muitos nativos agora se tornaram universitários também.


Ser ouropretano é ter ido ao menos uma vez no Manso, no Tripuí, ou nadado nessas cachoeiras por aí. É falar "vai lá em casa", "depois vou lá", sendo que todos os envolvidos sabem que ninguém vai em lugar algum. Ser ouropretano raiz é fazer um churrasquinho com cerveja e chamar os amigos, seja na laje, na garagem, ou na varandinha. 

Infância em Ouro Preto, tem que ter uma escorregada na graminha do parque do Centro de Convenções, uns chup-chups nas vizinhas, uns papagaios no outono. Antes tinha queimada na rua, birosca, pega-bandeira, cobrinha de pano pra assustar os passantes. Hoje, tem nada não, só uns "menino mexeno no celular".


Ser ouropretano é ter ao menos um artista na família. Conta a lenda que Sônia Braga, quando gravava aqui "Luar sobre Parador",  disse: _Que cidade esquisita, aqui a gente anda na rua e ninguém vem pedir autógrafo. _ um guia turístico teria dito: _ Ah, minha filha, aqui em Ouro Preto, todo o mundo é artista. _ E é vero. Todos tocam violão, cantam, fazem teatro, e se equilibram nessa vida.

Ser ouropretano é ficar P da vida quando viaja e, ao encontrar um desconhecido, que fica sabendo que você é de Ouro Preto, ouvir dele (imagine isso com voz irritante): _ Nossa, Ouro Preto, Loucura aquela cidade, sexo, drogas e rock and roll. Seu Toba, é o que fico com vontade de dizer.

Uma chatice de ser ouropretano, é que para você viajar e gastar pouco, torna-se muito difícil, porque as únicas opções que temos são cidades com atrações barrocas e montanhas, do que estamos mais que servidos todos os dias e com magnificência. Então, quando sem grana, a gente fica aqui mesmo.


Outra chatice, são as poucas opções para as famílias de Ouro Preto, que desacostumadas a serem contempladas, ficam em casa e muitos não aproveitam as atrações destinadas especialmente a turistas, como festivais de cerveja a 15 reais o copo. As autoridades não priorizam as gentes de Ouro Preto, é como se o povo não precisasse das mesmas coisas que precisam os que vivem em cidades comuns, não turísticas.

Ser ouropretano é estar tão acostumado com tantas atrações acontecendo ao mesmo tempo e sempre, ao ponto de se perder as que mais deseja, como shows de artistas queridos. É morar em uma cidade muito pequena, movimentada, cosmopolita, em que podemos ver tudo, todo o tipo de gente, todo o tipo de atividade, e voltar para as nossas casas tranquilas de interior. Doideira. Por isso é difícil viver em outro lugar depois de Ouro Preto, nunca há o equilíbrio como há aqui, nesse sentido, de certo modo.



Ser ouropretano é falar taruíra, camofa, ganhão, arreda, falazada. Ser ouropretano é sonhar com as casas do centro que jamais poderemos comprar. Ser ouropretano é sentar na roda dos aposentados na Barra nos fins de semana, tomar umas ali nos bares que não existiam, é xingar turista parado no meio do caminho, é correr daquele povo  que fica na Rua São José e que fica querendo pegar dados do cartão de crédito, dizendo que é da Anistia, ou vendendo doces e canetas pelos lares de drogados. É ouvir os músicos que ficam alí de vez em quando, comprar um sorvetinho de máquina, ver a exposição na Casa dos Contos, fazer uma leitura das mãos com a cigana, ou saber do futuro com o cartomante; é cumprimentar o Tio Vicente Gomes pelas ruas, é fazer tapete de Semana Santa, cheio de polêmica. É sonhar em passar no IF, antiga Escola Técnica. 



Ser ouropretano é assistir a todos os dias, sem cansar, o pôr do sol entre as igrejas, que a cada dia, cada dia, é uma paisagem mais maravilhosa e única, e ainda se emocionar e amar essa cidade. É conversar com uma senhorinha no meio da rua, comprar umas jabuticabas, falar "e aí, beleza?". É ser meio acabrunhado, cismado, mas adorar um cafezinho e um papo. É ver o congado, as bandas, as fanfarras, as escolas de samba, o Zé Pereira, e sentir que isso é nosso. Ser ouropretano é ser mineiro raíz, de corpo e alma, sem escapatória e sem arrependimentos. 


Para ver imagens da Ouro Preto, cidade viva, acesse o link: Mulher Alienigena
Para ouvir um Podcast (meu marido não gosta de chamá-lo assim) sobre os sons dos sinos, acesse: Paisagens Históricas: Os sinos de Ouro Preto

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Hoje eu vi um zumbi


Hoje eu vi um zumbi.

Eu corri para pegar o ônibus, estava quase atrasada. Fiquei em pé no ponto, juntamente com outras pessoas, quando ele se aproximou mendigando. Era um rapaz moreno, camisa preta desbotada, calças de moletom, furadas nos fundilhos, chinelos, cabelos sem corte, sujos, ele estava sujo inteiro. Pedia dinheiro, qualquer coisa, 50 centavos para comprar comida, segundo ele. Olhei seus dedos, todos com pontas queimadas, negros e feridos. Cacei 50 centavos e dei-lhe. Uma senhora que lá também estava disse, "Você vai é pra Vila daqui a pouco comprar craque, eu sei". Ele não ouviu, não ligou, não deu a mínima e continuou pedindo. Foi até o outro lado da rua e voltou para pedir para os novos esperantes de ônibus. Desta vez, ele pedia dez reais, insistia, dizia que a comida custava isso. Quando ele havia ido para o outro lado, pude observar uma lata de refrigerante em seu bolso e o isqueiro em suas mãos. Agora seu corpo tremia. Ele não via nada, nem tampouco se importava. Ele não tinha alma. Ele não era gente.

Senti um vazio na alma, se a tenho. Tenho algo que aquele zumbi não tinha, porque a ele nada importava neste mundo, a não ser a urgência que sentia de saciar a todo custo seu vício. Ele pedia, mas seria capaz de qualquer coisa. Qualquer coisa. 

Para aquele individuo, futuro não é algo que exista em sua mente ou projeto. Laços, talvez não saiba mais o sentido. Aquele individuo estava no fundo do poço da inexistência. É a coisa mais triste que já vi.

Pensar que isso está em Ouro Preto, pensar que todos sabem o que acontece, e nada é feito. Todos sabem. Todos.

Pensar que um indivíduo pode perder-se, perder a alma, assim, sem que nem se dê conta. De repente, está com amigos, ou inimigos, ou rodeado por fantasmas, e, de repente, de brincadeira, começa a trilhar o caminho da escuridão e nunca mais volta. Coisas como se limpar, comer, namoro, família, deixam de existir.

Aquele zumbi roubou um pedaço de mim. Que deus nos proteja.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

Todo o mundo quer ouvir sinos


Todo o mundo quer alguém no mundo,
Alguém que seja seu mundo,
E que lhe dê o mundo.

Toda a gente quer um beijo quente,
Um bom dia sorridente,
E suspirar o que sente.

Todo homem ou mulher quer
Agarrar da cabeça aos pés
A quem lhe deu toda a fé.

Todos nós queremos ser meninos,
Dando e ganhando mimos,
mamando, ouvindo sinos.



quinta-feira, 9 de maio de 2019

A vida real acabou


Às vezes eu me sinto um zumbi nesse mundo; mesmo criticando a tudo e  a todos que gastam 50% do seu tempo conectados a internet (ou mais), vejo-me escrava como todos eles, vivendo uma vida em outro mundo, um mundo mental, simbólico, caótico, virtual. Esse mundo me absorve, me exaure, me invade, me escraviza, me submete, me detém. E a cada dia que passa, somos mais dependentes dele, para todas as nossas realizações. Tudo vai caminhando fora enquanto ficamos sentados olhando em uma tela cheia de desinformações. Não vou mais falar sobre a metáfora Matrix, o que estamos vivendo parece pior. Sinto-me realmente como um zumbi, talvez seria a mesma sensação de estar drogada (não sei bem, sempre fui careta para essas coisas). A sensação é de estar suspensa e sempre em busca, ansiosa por alguma informação, novidade. Acontece que não absorvo nada, não reflito, não contemplo, não olho os lírios do campo. Mas, como não viver nesse emaranhado que se tornou nossas vidas? 

Todos atualizam suas vidas frequentemente nas redes sociais, postam coisas que todos já viram ou não querem ver, desabafam, esbravejam, fazem graça, se expõem em busca de solidariedade, somos humanos. Queremos nos comunicar e ter atenção. Todos querem dizer, ser ouvidos, todos querem se indignar, querem elogios, flertar, todos querem fazer a diferença. Todos. Desde os semianalfabetos até os pós-doutorados, expondo suas opiniões e suas vidas magníficas, representando seus papéis sociais. 


Zumbis. Eu fico imaginando as pessoas no meio de um protesto, por exemplo, parando para escrever textão sobre o protesto e publicar na hora em que estão protestando. Ou as donas de casa com os celulares na mão, comentando as fotos dos familiares e compartilhando vídeos engraçados, enquanto não deixam o arroz queimar. Imagino os estudantes nas salas de aula enviando figurinhas dos professores enquanto estes estão tentando lhes explicar sobre a Revolução Francesa. E aqueles funcionários bem remunerados, que a cada semana estão em uma cidade diferente, ou aquela mulher chata que fica postando foto no espelho todo o dia, dos papéis do doutorado, da comida, das roupas de academia? Para quem? Para mim não é, bloqueei as atualizações. Imagino Aquele casal que sai para ficar um tempo juntos, mas ficam sem assunto, entediados, e começam a mexer no celular até a hora de irem embora. Nunca terão chance para uma boa conversa que surge pelo tédio. A mão que coça, procurando o aparelho a todo momento, como se o mundo estivesse nos escapulindo. A mente que vaga e não descansa, sempre desatenta, morta e ativa ao mesmo tempo. 



Sinto que não tenho mais vida. Ninguém mais olha para o céu, por exemplo; por isso as pessoas estão tão cheias de si mesmas, com os estômagos embrulhados de sua grandeza imaginária, porque não conseguem ver que são menores que uma ameba e que existe um universo lá fora.

A vida acabou. O sentido dela é só esse agora. Nada mais. fim.


Alguns links para nos inspirarmos (ou não):









 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

O plano é destruir a educação superior gratuita: abram os olhos!


O plano era muito claro deste o início.
Quem está no poder, no congresso, no senado e na presidência hoje? 
Quem é o governador de Minas?
Digam-me curupiras caras de sucupiras:
Quem explora milhares de hectares de terras e vive de desmatar floresta,
Quem cria gado cheio de antibióticos para se evitarem doenças (nos produtos),
Quem pressiona para que agrotóxicos já proibidos no mundo inteiro continuem sendo fabricados,
E utilizados,
E que se aumentem os níveis de tolerância quanto aos níveis, para que as plantações não se estraguem,
Esse povo, está preocupado com o quê?
Saúde, alimentação da população?
Bem estar da sociedade?
Gerar empregos?
Digam-me,
Quem é contra o sistema educacional gratuito,
Que disse que ensino superior não deve ser para todos,
Que retirou a maior parte das verbas para a educação, impedindo que as instituições funcionem,
Quem diz que em universidade acontecem balbúrdias, e por isso devem ser punidas,
Que curso de filosofia e sociologia não servem para nada, quem quiser fazer, que pague,
Que quer controlar questões do Exame Nacional do Ensino Médio e os textos dos livros didáticos, a fim de que não se veiculem determinados conceitos que levam à reflexão,
Que negam a ciência e o conhecimento,
O que querem com tais atitudes?
Primeiramente,  tiram os direitos dos trabalhadores conquistados com duras batalhas em governos anteriores e os deixam à própria sorte, ou ao próprio azar;
Quem tem fome não negocia com patrão, não entra na justiça se for pra perder e pagar às custas, lógico que uma Vale tem mais poder! Quem tem fome se sujeita.
E os cargos públicos extintos? 
Quando morrerem os ainda ocupantes, não mais haverá concursos para tais vagas. Aliás, já anunciaram que dificilmente haverá concursos!
O que tudo isso significa?
Sucateamento das instituições publicas de ensino. As instituições vão ficando obsoletas, ou seja, ficam sem equipamento, sem funcionário, sem dinheiro para pesquisa, sem nada. As instituições vão baixar o nível até se tornarem insustentáveis, improdutivas, ineficientes, e oferecerem a desculpa perfeita para que algum empresário brasileiro ou estrangeiro venha comprar a educação e todos terão que pagar. É isso mesmo seus burros!
Não vai haver universidade para pobre não! Se o pobre quiser estudar, que faça algum desse cursos técnicos, se ainda existirem, para trabalhar nas fábricas com contratos humilhantes. Para quê estudar? Não precisam de mentes, precisam de escravos.Para quê pensar? Não precisam de questionamentos, precisam de mão de obra para que as estruturas se mantenham e cada um continue em seu lugar.
Suas antas! É realmente um projeto. Um projeto de destruição da educação no Brasil, da construção de uma nação evoluída, crítica e pensante. E os donos do poder continuam lá, mantendo seus escravos para carregarem suas liteiras. E os escravos gostam de carregar e pensam que os "superiores" tem razão em chicoteá-los.
Será que ninguém vê?


terça-feira, 30 de abril de 2019

Tudo pelo poder! O poder de ser deus




O motivo de tudo é o poder. Sempre foi e sempre será.

Em outros tempos, quem mandava mesmo eram os que possuíam o poder sobre as almas, os destinados por deus a cuidarem das vidas alheias, dos que já nasciam condenados. Deus já teve muitas caras, foi uma força natural que agia castigando ou beneficiando com suas mudanças climáticas, já foi muitos seres de formas humanoides, que influenciavam nos destinos dos peões de xadrez aqui embaixo, cujo ódio mortal  aos seus fantoches deveria ser aplacado com a morte de alguns inocentes. Deus se unificou, se tornou o pai autoritário e vaidoso que continuava a exigir sofrimento para provar a servidão de seus devotos, que pelos séculos se mutilaram, sacrificaram e se condenaram em vida para salvar a morte. Vieram muitos para falar em nome de deus e aproveitar, logicamente, raios de seus poderes incontestáveis. Criaram os templos, locais onde se cultuavam deus e deuses, assim como os homens que os representavam. Esses homens eram os deuses na terra.

Os reis, a nobraiada, e principalmente o clero, eram sustentados por servos que trabalhavam em troca de terras e proteção. Castas bem definidas divinamente, como na Índia, há milhares de anos, todos estavam bem em seus lugares que deus lhes distribuiu. De certa forma, eram donos de seus tempos, dividiam os "lucros" das colheitas, pagavam pesados impostos, mas não tinham direito a mais nada, muito menos à movimentação de status dentro da sociedade e da vida; até que veio a burguesia, o capitalismo, destruiu essas estruturas, e mostrou que todos (teoricamente) podem ser deuses também, que todos tinham direitos e que poderiam reivindicá-los. E o capitalismo se desenvolveu como tal, e muitas armas de dominação e de manutenção desse poder divino trazido pelo capital foram criadas, graças também ao desenvolvimento das tecnologias e dos estudos das áreas humanas, biológicas, psicológicas e sociais (que de maneira nenhuma foram criadas para esse fim), mas que geraram munição necessária para uma nova abordagem de dominação de desejos. Então, tá.

As massas passaram a ser moldadas e seus desejos construídos. Todo o tipo de desejo era ditado pelo mercado. A diferença é o alcance e a velocidade de se produzir novas identidades sociais e novos desejos consumistas, tudo tornou-se consumível, até mesmo os valores. E tudo tornou-se questionável e relativo, até mesmo o conceito de verdade. 

Está na história, através de documentos, que os Estados Unidos interferiram diretamente na maioria das situações políticas brasileiras, financiando movimentos como o da tal "Marcha da família com Deus pela liberdade" a fim de manter o seu poder no mundo na forma do capitalismo do qual são os grandes ditadores. 


É muito engraçado quando as pessoas dizem que o mercado deve ser totalmente livre, que a livre concorrência trará a justiça social e toda essa pataquada. A concorrência capitalista é simplesmente uma guerra, onde os grandes capitalistas (não aqueles donos de botequim), traçam estratégias o tempo todo para permanecerem no poder econômico (e principalmente político), como todos que costumam fazer parte do topo. O objetivo desse sistema não é o de promover bem estar social, é o de apenas se manter e manter quem faz parte dele em seus respectivos lugares. E, para manter todos em seus respectivos lugares, centenas de estratégias de guerra são construídas todos os dias, especialmente as estrategias de controle das ideologias, do pensamento crítico das massas que, por incrível que pareça, aceitam os novos deuses da pós-modernidade e contentam-se com seus Smartfones. 

Assim, estamos em crise. Vivemos em um momento de avalanche desinformativa, e pedimos por mais e mais informações para nutrir nossas almas de fatos para os quais nunca teremos tempo (never, jamais), de checar toda a historiografia, as fontes, os perfis, os documentos, para entender os tramites, os imbróglios, a lógica e a suposta veracidade de tudo o que é divulgado por qualquer um nas redes sociais. É impossível hoje ter certezas, ou, hoje, todos tem suas certezas de acordo com convicções plantadas. Estamos perdidos.


Perguntas como: será possível que alguém acredite que o aumento de agrotóxicos seja benéfico para a sociedade e tem outro propósito que não seja o de gerar mais lucros para as empresas? Será que é possível pensar que a educação não mereça investimento e não deva ser gratuita para todos, ou ainda, que deve servir apenas para formar trabalhadores consumidores? Será que alguém acredita que países como os Estados Unidos estão interessados na democracia e no bem estar de países como o Brasil (ou Venezuela, uma das grandes produtoras de petróleo do mundo), mesmo depois de tudo o que já aconteceu na história e do que acontece hoje, com um presidente americano que planeja construir um muro para evitar que imigrantes entrem? Será que alguém acredita que a reforma da previdência trará algum benefício ao trabalhador? E as perdas dos direitos, do ministério do trabalho, as novas regras para a contratação terceirizada, as custas de processos para trabalhador demitido terem que correr por eles mesmos caso percam, será que alguém acredita que isso é benéfico para a população pobre, ou que com "todo esse pensamento crítico" seriam capazes de enfrentar grandes empresas? Será que alguém acredita que o ser humano deva viver só de comer, trabalhar e consumir, sem a capacidade de pensar, analisar e tomar decisões conscientes ou viver algo diferente do que lhe é imposto, tentando mudar as estruturas? Somos o quê, companheiro? São perguntas que não param de me abismar por suas respostas.



E voltamos exatamente ao passado, com deuses, os antigos e os novos, a luta pelo poder, (que é transcrita pela busca de se ter sempre lucros exorbitantes), sem nenhuma certeza, e nenhuma capacidade de nos levantarmos. As leis não funcionam, absurdos são cometidos todos os dias por representantes do povo, saúde e educação não interessam, as armas são idolatradas, os livros são queimados, as vítimas são esculachadas, as notícias são maquiavelicamente montadas, os valores sociais estão um caos e não possuem nenhuma coerência, a ciência está sendo banida como as bruxas, e o senso comum está governando através de medidas que ganham visibilidade pela popularidade de queixas anteriores sem fundamento ou prioridade. É a lama. São as trevas. 

E nessa lama, nesse caos, nos vemos sem energias, absorvidos por tudo e por todos. estamos exaustos pelas indignações diárias, pela violência e pela intolerância. Estamos petrificados, sem saber como agir e como estaremos amanhã com as novas pedradas. 

Os pequenos que estão na base das estruturas encontram dificuldades incomensuráveis para interferir nessa formação estrutural, pois o poder está nas mãos dos capitalistas, isso é fato. O poder de interferir nas leis, de defini-las, criar diretrizes, controlar o tal mercado, formatar a cultura e criar uma realidade.  O poder está nas mãos destes grandes capitalistas, todo o poder. O povo só terá a chance de mudar as estruturas, se a maioria dos indivíduos for capaz de criar consciência de sua condição e abandonar seus deuses em busca de uma nova realidade, quebrando essas estruturas nas quais se assentam confortavelmente com suas migalhas. E é essa a grande arma que estão nos tirando, mais uma vez, na fogueira dos livros.


As formas de capitalismo que imperam em sociedades que se dizem socialistas possuem maior interferência do Estado, que, geralmente, implementam políticas públicas com a intenção de criar um sistema considerado ideal; algumas conseguem um bom resultado de desenvolvimento econômico e social, e, em muitos exemplos, o que aconteceu é que o poder do capital se concentrou nas mãos de governantes, que se tornaram ditadores ao tentar impor uma estrutura para a sociedade. Na teoria, a economia não existiria para gerar lucro, mas bem estar social e tudo o mais. Bem, complexo para o momento e carece de dados.

Talvez esse período fique conhecido como o período Matrix, pois todos estão vivendo suas vidas virtuais enquanto as máquinas, que criaram esse modelo supostamente digerível de vida, continuam sugando todas as energias de seus hospedeiros a fim de sustentar um sistema. É. O que faremos amanhã, cérebro?

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