quinta-feira, 30 de março de 2017

A teia de aranha


Eram amigas desde a infância, a grandona e a baixinha, como as chamavam. Mas a baixinha não se sentia tão amiga assim, sempre subjugada, analisada, recriminada, por que era fresca e tinha inclinações artísticas. A altona era, por sua vez, imperiosa e objetiva, as coisas eram sempre pretas ou brancas, não havia bolinha no yin e no yang. Parecia que a estatura era a materialidade de sua personalidade autoritária e assertiva.

A alta era a Renata, a baixinha era a Clara. Durante a adolescência, vivenciaram muitas aventuras, mas nem tão venturosas, por que Renata não era dessas de pagar mico. Quando bebia além da conta, queria obrigar a amiga Clara a ceder a qualquer um que julgasse digno. Uma vez, quase forçou a amiga a ficar com um caboclo 20 anos mais velho cuja aparência causava em Clara repugnância, além de estar bêbado como Renata. Acusaram-na de infantil e disseram que ela nunca seria adulta se não fizesse aquilo o que queriam, que era ficar de beijos, abraços e esfrega com um homem que deveria se envergonhar por aquela situação. Não era adulta, mas não iria fazer o que não queria. Essa era a Clara.

Apesar de se sentir intimidada na presença de Renata, Clara sabia que podia confiar seus segredos a ela, e sabia que poderia contar com ela nos momentos mais difíceis, como quando ela se engraçou com um colega de trabalho que tinha namorada. Na verdade, Renata é que fora a demônia da ocasião, tentou tanto os dois, que em uma confraternização de trabalho, os dois, Clara e o comprometido,  caíram em tentação puxados para o canto pelas próprias mãos da amiga. Nessa época, as amigas trabalhavam juntas em um supermercado, lugar onde passaram grandes momentos, inclusive alguns onde colegas brigaram com Clara por não gostarem das caricaturas que ela havia feito deles. A briga com os colegas não foi pior que a reação do chefe quando viu aquele elefantinho com sua cara e seus tenisinhos de esporte no canto de uma nota fiscal velha. Rua foi pouco.

Clara adorava cantar "Renata ingrata" e fazer passos bregas para irritar a amiga, Renata a chamava de Clara de ovo. Apesar de tudo, as duas tiveram pouquíssimas brigas durante a vida. Mas a vida não tem nada definido ou definitivo, percebemos isso quando já estamos tão longe, que olhar para trás nos faz ver apenas uma sombra de nós mesmos, e os momentos vividos, os que ainda permaneceram nas desbotadas memórias, parecem parte de uma anedota do passado contada por um tio fanfarrão. Foi assim que, aos quarenta e poucos anos, Clara pensou em Renata quando ela voltou à sua vida. Em tempos modernos de comunicação virtual, bastaram alguns caracteres e muita determinação para que Renata a encontrasse em alguma dessas redes sociais. Foi estranho, já havia se passado quase 20 anos depois que Clara tinha viajado para um intercâmbio a fim de estudar artes. Renata havia ficado, na mesma cidade, com as mesmas pessoas, as mesmas ideias e ideais sobre a vida e o mundo.Clara estava morando em cidade vizinha. Não tinha filhos, tinha um marido, também artista, os dois vivam em seu atelier fazendo suas artes. Eles tinham também o Gertrudes, um cachorrão vira-latas cor de mel magnífico. Renata tinha três filhos e um emprego em uma secretaria da cidade. O marido era técnico em uma dessas indústrias gigantes. Ambas diziam-se felizes em suas vidas.

Após lembranças do passado, das quais Renata era a fonte geradora e Clara admiradora e incrédula de sua própria participação nelas, resolveram encontrar-se. Renata teria folga, iria à cidade da amiga.

Clara comprou uns biscoitinhos caseiros, licor de cacau, chá de ervas, fez leite queimado, bolo aromático e alguns salgadinhos. Renata chegou às 13:30, como combinado, foi direto ao endereço. Os maridos começaram a conversar e foram para fora de casa, ver o movimento, enquanto Clara arranjava os quitutes. Renata sentou-se na cadeira de palhinha, olhou a decoração colorida e esvoaçante, viu algumas teias no canto cheia de cadáveres de ex-jantares e disse:

_Está que nem uma árvore de natal, dá para pendurar umas bolinhas ali.

Clara apenas sorriu. Viu o abismo entre os dois mundos, que antes não percebia. Viu a pobreza daquela alma e como aquela alma havia deixado de evoluir. Aquela pessoa estacionou-se em sua adolescência, e aquela época era a única que existia para ela. Parecia morta, um exoesqueleto de uma barata. Não eram amigas. Não, mas não deixaram o carinho do passado morrer. Aquela pessoa fora importante em sua vida, mas não fazia mais parte de sua vida. Eram duas almas que em nada mais se conectavam, a não ser por momentos dos quais Clara possuía vagas lembranças.


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