sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

O nativo


O relógio despertou, como sempre, às 6:00 da matina.  Abriu os olhos com um esforço incrível, olhou através dos vidros trincados da janela e percebeu que o tempo parecia escuro. Levantou-se, escovou os dentes, cuspiu no lavatório e jogou água no cuspe para limpar, enquanto fervia a água do cafezinho que levaria para a obra. A mãe dormia ainda, pegaria serviço mais tarde. Colocou a roupa do trabalho pesado na mochila, que estava arrancando a alça, passou o café e comeu um pão dormido com margarina, que era mais barato. Calçou as botinas e desceu as ladeiras de Ouro Preto, correndo, estava atrasado para o trabalho. O pior era que teria que ir até o centro, ou à Rua, como dizem, na hora do almoço, para resolver um problema no banco. Não sabia muito bem como usar os caixas eletrônicos. Quando passava pelo centro da cidade, deparou-se com uma blitz de policiais, que ao vê-lo, rapaz de baixa estatura, negro, com roupas surradas, não tiveram dúvida em revistá-lo. Ele já estava acostumado... Se fosse um turista, um estudante, um desses bam bam bans de Ouro preto, eles nem paravam, mesmo que estivesse arrolhado de drogas. É a vida. Batida terminada, correu mais ainda para a obra. Chegando lá, colocou a sua roupa da semana, com a sujeira da obra, e foi para o sol escaldante que já estava fazendo. Esse é o clima da cidade, imprevisível. Trabalhou duro em cima dos telhados, brincou com os companheiros e riu muito. Um amigo nunca tinha ouvido falar em cappuccino, disse que era café com leite. Assim, a manhã se foi e a hora do almoço chegou. Colocou a marmitinha que a mãe havia preparado na véspera num fogareiro a álcool e engoliu o arroz com feijão, mostarda, angu e ovo. desceu a rua da igreja São Francisco para chegar aos bancos, que estavam lotados. As pessoas o olhavam. Estava tudo muito agitado por que também era véspera de carnaval, e Ouro Preto no carnaval é uma loucura. Mas, disso ele gostava, se misturava a todos, nativos, turistas e estudantes, bebia até cair, dançava, beijava moças lindas na "ofegante epidemia, que se chamava carnaval". Quem não gostava era a sua mãe, dessa zona, como dizia, dessa corja que vem para a cidade sujar e depois ir embora. Sem falar na violência, sempre matam um. Era o que sempre falava quando o filho se perfumava para sair. Demorou no banco, o atendente era impaciente e ranzinza. Ele não era cliente Uniclass, classic, ou qualquer um endinheirado. Resolveu e saiu apressado, atrasado. A rua São José estava lotada, turistas passeavam vagarosamente como se não houvesse amanhã, fechando as calçadas. Aquilo o irritou e começou a agir como sua mãe agia e o fazia sentir vergonha, na infância. Empurrava os turistas e xingava, ele tinha que voltar ao trabalho, pô! Chegou atrasado, o patrão o olhou com careta, mas nada disse. Subiu para os telhados, o estômago já roncava, mas não tinha nem um real para comprar um pão de queijo. Ficou lá, tostando sua pele negra (ou preta, seja lá a forma permitida pelos bem aventurados), suando, trabalhando, carregando telhas, caibros e vergalhões. Começou a se sentir mal, mas teimou em trabalhar, até que teve uma vertigem e se sentou no chão de terra. Os amigos se preocuparam e pediram que ele ficasse lá até a hora da saída, que estava próxima. Ele não queria, mas não conseguia trabalhar. Um amigo lhe deu um vale transporte, foi para casa de ônibus, sem trocar a roupa da obra. As pessoas se afastaram discretamente. 

Uma vez sonhou em ser médico, mas o sonho durou pouco... Impossível entrar na universidade, nem sabia como funcionava, nem sabia onde existiam os cursos de medicina, não sabia de nada. Só achava chique ser médico. Mas, como ser médico, se, quando o pai estava vivo, bebia mais que gambá nesses bares dos morros e chegava jogando panela nas paredes e palavrões na família? Como estudar se a mãe nem sabia ler, tinha que sair para trabalhar nas repúblicas e não tinha tempo para ficar com os filhos? Como estudar se, aos 15 anos, teve que trabalhar na obra com o pai, de 7 às 17:00, comendo pouco e trabalhando muito? Não deu. Iria ficar por ali, nos morros mesmo, trabalhando nas obras. 

Chegou em casa e já tinha um caldo de mandioca preparado pela mãe. Ela trouxe uma roupas dos estudantes que poderiam servir nele, até uns abadás de antigos carnavais, os que ele nunca teve dinheiro para comprar. Ficou feliz. Combinou com os amigos, através do celular surrado, e foi para um bar próximo. Os amigos pagariam a rodada, amigo é assim. Beberam, conversaram, contaram os casos de assombrações de seus antepassados, jogaram sinuca. Já tinha melhorado, deve ter sido o sol, mas nunca teve frescura antes. Sentou na calçada e olhou para as estrelas, pensou em como devem ter vivido os escravos nos morros. Pegou um violão que estava por ali, e começou a dedilhar umas modas, como seu pai fazia. Em Ouro Preto é assim, todos tem arte. Sentiu sono. Foi para a casa cambaleante e se deitou na cama. Tinha que acordar cedo, trabalho, mesmo que sábado. Ao menos, o carnaval estava perto.

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