quinta-feira, 26 de março de 2015

Os piolhos


Na tenra idade, diziam que eu tinha ombros largos demais e que meus pés eram tortos, como os das modelos quando paravam. Os moleques infernais chamavam-me testão brilhante, leoa, magricela. Houve uma época em que ter piolhos era normal, e eu tinha, muito. Eu via os piolhos andarem nas sobrancelhas de uns e escorrerem pelos pescoços dos outros. A vizinhança se reunia na catação de piolho, filhos entre as coxas das mães, fraldas brancas para aparar os insetos, pentes finos e unhas. Colocaram óleo com fubá na minha cabeça e de muitos outros, mas era uma epidemia.  Algumas mães colocavam Detefon, aquela latinha amarela com veneno em pó para pulgas, nada dava jeito. A infância dos anos 80 foi piolhenta.

Diziam que eu era um bicho do mato, cara de bunda, emburrada. Disseram também que eu era metida, pirracenta e nojenta. Eu liguei na época, mas agora, rio do alto da pirâmide.

Disseram que eu nunca conseguiria emprego e se conseguisse, não seria capaz de permanecer em um. Riram de mim, me mandaram tentar vender meus "romancinhos" e minhas "bonequinhas de pano". Disseram que queriam me ver no fundo de um buraco. Advertiram-me de que, por ser mulher, não seria capaz de sustentar minhas escolhas, muito menos meus filhos. Obrigada pela força, valeu!

Riram do meu cabelo anelado esvoaçante, dos pelos, das pernas finas. Riram-se de suas fraquezas, não das minhas. Eu não tinha fraquezas, não aquelas.

Os indianos pensaram que eu era uma indiana, e os portugueses disseram que não pareço ser brasileira. Os meus amigos mais loucos me chamam louca.

Riram-se de minhas loucuras até perderem a graça. Na verdade, riram-se todos deles mesmos, por não saírem de suas loucuras de sanidade. Riram-se até caírem os dentes, mas vieram às lágrimas quando perceberam que eu não era louca, mas era uma Mulher Alienígena. Só os piolhos eram os mesmos.


terça-feira, 10 de março de 2015

O que significa essa manifestação do dia 15 de março?


É a primeira vez em minha vida que vejo os brasileiros tão enfurecidos e claramente divididos em dois blocos em relação a política, e isso é assustador. Nos tempos do Collor, a população tinha uma só visão do que estava acontecendo, o da media corroborada pelos bolsos vazios, todos foram levados por uma onda em busca de mudanças que culminou com o impeachment do então primeiro presidente eleito democraticamente, um marco histórico. Eu me lembro muito bem daquela época, quando eu parei de estudar porque as escolas publicas não ofereciam livros didáticos, e não possuindo dinheiro para pagar, por que o governo confiscou toda a poupança e a inflação estava galopante, eu fiquei com vergonha de continuar estudando. Lembro-me muito bem do custo das coisas, de como faltou carne, de como foi preciso contratar mais pessoas para operarem as máquinas rotuladoras, e de como nós éramos milionários e miseráveis ao mesmo tempo. Lembro-me da primeira vez que prestei vestibular na UFOP, quando ainda era surpreendente que alguém da cidade fosse fazer a matrícula. Lembro-me de quando a discussão nas escolas era sobre o pagamento da dívida externa, sobre o Brasil ser um país que oferecia mão de obra barata; lembro-me de que a merenda nas escolas era sopa de arroz, sopa de macarrão, mingau, tudo branco e sem nutrientes; lembro-me de que os alunos do ensino médio sequer tinham direito a merendar nas escolas. Lembro-me do tempo em que universidade era só para os ricos que tinham condição para pagar os famosos cursinhos pré-vestibulares.

O que mais me assusta é que a maioria das pessoas parece não se lembrar disso! Esbravejam, dizem que nunca viram tamanha corrupção, que o Brasil nunca esteve tão mal. Vamos por partes:

Corrupção no governo

Nunca vi tanta hipocrisia em minha vida! A corrupção no governo é conhecida desde o início de tudo, o lema "rouba mas faz", que alguns ainda defendem, não nasceu hoje. Em nosso país é considerado natural e normal roubar na política, e quem, além de roubar, fizer algo pelos pobres brasileiros, estará sendo um político bonzinho, merecendo o nosso respeito e admiração. Essa permissividade é algo internalizado em nossa cultura, dá para perceber a naturalidade como é vivida em ambientes  do dia-dia, como em filas do refeitório, onde as pessoas não dão a mínima para os direitos de quem chegou antes, querendo sempre levar vantagem e pegar um lugar na frente. Quando um pai não devolve o troco errado, quando pensa que a lei deve ser mais branda por estar em uma posição hierárquica superior, quando pede a um bibliotecário para lhe tirar a multa, isso tudo é uma escola e uma consagração da corrupção. Quem teve a chance de trabalhar em algum setor publico, com certeza ouviu muitas conversas sobre as falcatruas, maracutaias, ou até mesmo deve ter presenciado, mas todos se calam em resignação. Quem foi para as autoescolas tirar carteira também deve ter ficado sabendo da máfia que existe por trás disso, e talvez também tenha pagado propina para ficar livre das sucessivas reprovações e de gastos talvez maiores com mais aulas. Sobre o transporte publico, aliás, todos os serviços públicos, a maioria das pessoas não tem ideia sobre como funcionam e do que significa concessão pública, os monopólios se prolongam e a população é a maior prejudicada. A corrupção não é só do PT ou do PSDB, a corrupção é de todos, e não começou agora, pobres inocentes! A corrupção é sua também! 

A educação

Não podemos tirar os méritos do governo atual em relação à educação de nível técnico e superior; todas as políticas voltadas para o ingresso e a permanecia do aluno no ensino superior e técnico deram muitos frutos e mudaram o cenário do pais, não podemos negar isso. Quanto às políticas de permanência do aluno na universidade, inúmeros medidas foram implantados, como bolsa permanência (o aluno de baixa renda recebe uma bolsa sem ter que trabalhar em troca), bolsas monitoria, bolsa alimentação, auxílio transporte e moradia, isso significa que o individuo só não continua na universidade, sem precisar trabalhar, se não quiser. Todo esse dinheiro vem de impostos que pagamos, e é para isso que pagamos impostos, para que eles sejam utilizados na manutenção e aprimoramento da qualidade de vida de todos os brasileiros, de acordo com maior ou menor necessidade. O governo existe para gerenciar o país, não é uma empresa com fins lucrativos, são pessoas escolhidas para nos promover melhor qualidade de vida, à todos, não a uma minoria. 


A educação superior sofreu grandes mudanças, porém, a educação básica, embora não seja de competência direta do governo federal, continuou decadente e esquecida. É na infância e na adolescência que é formado o caráter da pessoa, é neste momento que o indivíduo se desenvolve e faz suas escolhas pessoais, é neste momento em que ele se constrói como futuro cidadão, sendo assim, é a fase que se deveria dar maior atenção.  Se faz necessária uma reforma, tanto dos parâmetros curriculares, quanto dos moldes de toda a educação, infraestrutura e formação de docentes. É necessária a ênfase na historia política do Brasil e do mundo, para que este futuro cidadão seja capaz de avaliar causas, motivos, manipulações, objetivos, para que este individuo seja capaz de ler, ouvir e entender o que as palavras realmente querem dizer. Este cidadão precisa aprender na escola quem são os nossos representantes e qual é exatamente o papel de cada um dentro do governo, para que seja capaz de votar e de cobrar; este cidadão precisa saber da história e sobre os conceitos que permeiam o mundo político. Este cidadão precisa ser capaz de avaliar um bom e um mal governo, precisa saber o que é ética.

Programas sociais

Eu ainda fico abismada quando vejo pessoas serem contra os programas sociais! Qual seria o verdadeiro motivo? Alegam ser uma medida eleitoreira, assistencialista, alegam que os "vagabundos " estão sendo sustentados pela classe média e que por causa do Bolsa Família, não aceitam mais trabalhar para ganhar mixaria. 

O programa tem erros, como tudo nesta vida, mas só vejo benefícios. Ele é pago a quem esta em situação de risco, e há condições, como a de se manter o filho na escola, não é uma esmola, é uma ajuda para que a pessoa e seus descendentes possam sair de um circulo vicioso do qual nunca conseguiriam se não tivessem o mínimo de ajuda. Quem nunca passou fome, não sabe o que é procurar algo para comer e não encontrar nem uma farinha velha, não sabe o que é não ter como ganhar um real para comprar um pão; não sabe o que é trabalhar mais de oito horas, com a pele castigada por um sol escaldante, construindo casas, capinando ruas, e ter vergonha de se dirigir a alguém com o mínimo de estudo; não sabe a dificuldade de alguém que trabalha duro o dia todo, chegar faminto em casa e ainda ter a capacidade e a coragem de pegar num caderno. Não sabe o que é ser convencido por tudo e por todos de que o seu lugar é aquele, e não há como mudar, pois estudo, educação, são coisas muito difíceis e não são para todos. Quem reclama de uns míseros reais gastos pelo governo a cada beneficiário, que tem como função promover a igualdade, a quebra deste circulo, não tem é vergonha na cara!


Além disso, não cansam de espalhar aquela noticia sobre auxílio presidiário, reclamando sobre o valor, comparando com o salário mínimo e uma porção de besteiras em que as pessoas embarcam sem ao menos procurar informação. Só pra esclarecer, apenas recebe o auxilio quem trabalhou e contribuiu para a previdência, o valor será de acordo com as contribuições, podendo ser inferior a um salário mínimo, e não é por dependente, mas será rateada entre os dependentes, ou seja, vagabundo não vai receber nada. Além disso, esse é mais um direito do trabalhador, e que já existe há muito tempo, não é uma invenção do PT, não me mandem mais correntes!


O que precisa ser feito?


Eu tinha muita coisa para falar, mas estou sem tempo e sem paciência. O que é preciso ser feito, não é atacar o PT ou o PSDB, nem tampouco exigir o impeachment de uma presidente eleita democraticamente, e que até o fim do governo, nunca teve o nome envolvido em escândalos, ao contrário de tantos outros.  O que está acontecendo é mais uma tentativa de golpe, mas a massa não consegue perceber isso, devido ao alto grau de engajamento apaixonado, quase que irracional por um ou outro lado. Há muita coisa em jogo, desde que o Brasil começou a crescer, desde que despontou como uma potencia emergente, desde que se descobriram reservas de petróleo que colocariam o Brasil em destaque. Muitos poderosos tem a perder com isso, inclusive o poderio americano, que como todos sabemos, andou espionando o governo. O que deveríamos fazer agora, era exigir mudanças profundas na maneira como a política é feita no Brasil, extinguir praticas como o financiamento privado de campanhas, por exemplo. Há muitos interesses de poderosos sobre quem governa e sobre o que eles tem a perder ou a ganhar com isso, principalmente os poderosos da imprensa. 


Chamam aos que defendem o governo de Petralhas, comparação com os Irmãos Metralhas, uma turma de ladrões; Chamam o Bolsa Família de Bolsa Esmola, reclamam dos pobres invadindo os aeroportos, dos pobres que não querem mais trabalhar por salários ínfimos, mas não reclamam da bolsa permanência nas universidades e nem de irem estudar no exterior pelo Ciências sem fronteiras. Infelizmente, isso por si só já demonstra que a intenção da classe famigerada e furiosa não é acabar com a suposta corrupção, que está em todo o lugar, mas acabar com os pequenos direitos que estão se esbarrando com os grandes privilégios que eles sempre tiveram, e não querem nem remotamente dividir com uns mortos de fomes que precisam de esmola para sobreviver;  se quisessem mesmo mudanças, lutariam juntos para que o Brasil pudesse mudar suas políticas, para que a corrupção fosse mais difícil de ser praticada, para que interesses privados não se sobrepusessem aos coletivos, sem que isso significasse comunismo, para que o país oferecesse uma realidade de igualdade social, e isso sim, é o que diminui a violência e promove o crescimento pessoal. A luta não deveria ser contra Dilma, mas contra o que o Brasil é hoje, um pais de classes, onde as pessoas não valorizam a honestidade, praticam corrupção em seu dia dia, se calam aos erros, querem ter e ser sempre mais que o outro, e não sabem nem um pingo de história.

sábado, 7 de março de 2015

Depois dos 30

 

Depois dos trinta dividimos as lembranças e as cicatrizes das cirurgias, as de varizes, tireoides, cesarianas, enxertos ósseos, retiradas de terçol, redução de estômago, vasectomia, e afins. Nessa época não nos envergonhamos tanto pelas celulites, estrias, gordurinhas, manchas e imperfeições, pois raramente há perfeição. Depois dos trinta, aprendemos a valorizar o que preenche, não o que cobre; o que preenche uma conversa, o silêncio, os espaços, as carências, as necessidades, o sorriso, a vida. É neste momento que estamos quase prontos, prontos para aceitar, relaxar, sentir, sorrir, chorar e nos levantarmos. Depois dos trinta, temos muito mais a carregar, mas muito mais a oferecer; temos muito a dividir, assim como muito a aceitar. É na idade da crise que descobrimos nossa identidade, é aí que nos preparamos para sermos livres de todas as amarras supérfluas e ilusórias. Temos muito a levar, mas temos muito mais a conquistar. Depois dos trinta, estamos maduros para ir e vir quando quisermos, e não quando nos parecer ser o que deveríamos fazer. É só depois dos 30 que podemos olhar para o espelho e dizer: Este sou eu, este corpo é meu, assim como este olhar que diz tudo o que vai aqui dentro, sem aceitar o que não quero mais.

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