terça-feira, 11 de agosto de 2015

De saco cheio de tanta burrice!



Finalmente as sombras que estavam ocultas pelo medo da intolerância estão ressurgindo e cobrindo o nosso país, revelando o quão podre a carniça guardada debaixo do tapete imundo se apresenta, empesteando todo o ar e revirando os estômagos dos menos fortes ou menos hipócritas. A "burrice" se revela, mas, ao contrário do que o senso comum pensa, a "burrice" não é privilégio apenas das classes menos favorecidas, pertence também, ironicamente, aos que estão em melhor situação, e de uma maneira muito mais agressiva e devastadora.

A internet e a televisão são o espelho de nossa sociedade atual, e elas revelam um povo doente, mal desenvolvido e sem referências claras. O Brasil parecia estar traçando um caminho que nos levaria ao progresso social, investindo na educação (embora os investimentos tenham se concentrado no ensino superior e técnico, o que, ao meu ver, é um erro), no combate à fome, nas campanhas ambientais, anti-racistas, e muitas outras ações que valorizam a humanidade e a igualdade, porém, sem que nos déssemos conta, algo tenebroso aconteceu e estamos nos deparando com situações similares às que vivenciávamos no século passado ou até antes disso. Eu realmente não sei se algo aconteceu, ou se as pessoas apenas não tinham a voz necessária para demonstrar o seu descontentamento com a promoção da igualdade social, da liberdade de expressão e de escolhas, ou com o desenvolvimento social. 


Primeiramente, o povo brasileiro, de maioria cristã, critica, por exemplo, o islamismo, seus dogmas e a total aglutinação de Estado e religião, possuindo o alcorão como a lei universal para todas as situações, com cada particular interpretação, porém, o Brasil que se denomina Estado laico, está cada vez mais subordinado à religiosos que impunham a bíblia como verdade universal diante de todas as reivindicações de um universo de cidadãos. Utilizam-se de versículos, exemplos, ditos, esquecendo-se de que o nosso Estado não deve obedecer, privilegiar ou se submeter a nenhum credo religioso, mas promover a igualdade e o bem estar de todos, indiscriminadamente. As leis de livros religiosos não servem para legitimar nenhuma teoria.

A suposta tolerância brasileira caiu por terra. Agora, mais do que nunca, assistimos de camarote as barbaridades racistas e preconceituosas de pessoas pertencentes a todas as camadas sociais que se expressam agressivamente com palavras em comentários na internet, ou com facas e pedras pelas ruas. O brasileiro odeia negro, e a ideia de negro ser algo ruim é tão difundida que até mesmo alguns negros odeiam negros; muitos são como capitães do mato que subiram um degrau e não se consideram mais dignos das chicotadas, mas dignos de açoitarem os escravos. Felizmente, há um grande movimento de pessoas que decidiram assumir suas origens, sua beleza, sua dignidade e lutam contra este ódio, não tão mascarado mais, que ainda reina em nosso país, embora a maioria da populaçao seja negra ou de origem negra.


Atiraram em haitianos, acusando-os de estarem roubando o emprego dos brasileiros, e muitos ainda apoiaram o ato pela rede. Esfaquearam a transexual que se vestiu de Jesus crucificado, foi esfaqueada por alguém que se disse indignado com o ato de uma pessoa que quis passar uma mensagem de tolerância. O cristão esfaqueou alguém que sofre com a intolerância, negando toda a ideologia de paz e amor daquele que defendeu uma prostituta e a quem, o esfaqueador, dizia defender; supostos bandidos são amarrados em postes e espancados até a morte, sem nenhuma chance de defesa e julgamento justo. Programas de TV ainda ridicularizam a raça, a nacionalidade de um ser humano e muitos riem e aplaudem, como se isso fosse apenas mais uma cena de humor. Que mundo é esse?

Enquanto isso, no congresso e no senado, políticos fanáticos religiosos criam projetos de leis que nos fazem voltar à idade média. Leis que visam a diminuição da maioridade penal, sem analisar todo o contexto social, sem nenhuma medida que visa diminuir a criminalidade e amparar as crianças, no sentido de promover-lhes oportunidades de se tornarem seres humanos dignos e que não sejam capazes ou precisem lesar a sociedade; outros inventam leis contra professores que venham fazer uma pregação ideológica nas escolas, "doutrinando" os alunos, ou seja, controlando e punindo qualquer professor que ensine mais do que aquilo que o mercado de trabalho peça, qualquer um que venha ousar a ensinar o aluno a criticar. O que é isso, senão censura? Sem falar no financiamento privado de campanhas políticas... Por que será que uma empresa teria interesse em financiar um político? Ideologia política, num país em que partidos são fracos e não defendem nenhuma ideologia clara? Não! Continuar no controle, por que quem governa o Brasil não são os políticos, mas as grandes instituições financeiras e seus interesses. Estas sim, detém todo o poder de decisão em suas mãos, controlam o capital e aqueles que são movidos por este capital e pelo poder, os governantes.


Em uma sessão de cinema promovida pelo SINASEFE de Ouro Preto, onde assistimos ao filme sobre Getúlio Vargas, alguém levantou a questão sobre como é possível mudar este cenário. Essa questão não é de simples resposta,  muito menos de simples resolução. O Brasil é uma democracia nova e corre sérios riscos, sua credibilidade está ameaçada. Assim como na época de Getúlio aconteceu, não podemos nos cegar diante da manipulação que toda a mídia e detentores de poder exercem sobre os fatos e a opinião publica. Não é teoria da conspiração, basta assistir a história e os fatos recentes.

Tudo começou com protestos inconsistentes causados supostamente pelo descontentamento com o aumento da tarifa do transporte, que se transformaram em uma avalanche de protestos por todo país, recebendo destaque de toda a imprensa internacional. Aqui em Ouro Preto, viam-se cartazes sobre o aumento da passagem (que apareciam com o valor errado), contra a corrupção, contra preço do bandeco, por  mais putaria, e tudo o que se poderia imaginar. O movimento deu um novo ar aos brasileiros, com a ilusão de que alguma coisa estava acontecendo, mas, não. A campanha política começaria, assim como o escândalo da Petrobras. Imprensa destacando a suposta participação de Dilma e de Lula, na época, sem nenhuma prova. Desde o início do governo, sem provas consistentes, foi articulado um bombardeamento sem fim com ataques ao governo e à própria pessoa da presidente, que até agora, não teve paz para tentar governar. Sem falar no congresso que aí está, um presidente não faz nada sozinho, seja lá o que queira fazer. Depois de tudo isso, ainda podemos ouvir brasileiros dizendo que é melhor que se privatize a Petrobras do que deixá-la nas mãos de corruptos, providencial.

Para mudar "toda essa droga que já vem malhada antes de eu nascer" seria preciso se criar uma nova cultura e uma nova ética em nossa sociedade. Nossa alma está corrupta e corrompida. Seria preciso criar uma nova educação, focada no ensino critico desde os primeiros anos, dando ênfase ao respeito dos direitos e à igualdade de todos os seres humanos, valorizando a coletividade e não o individualismo, como acontece. Porém, isso seria chamado de comunismo, socialismo, vá pra Cuba. A ninguém que está no poder, políticos e empresários (quando estes não são também a mesma pessoa), interessa o desenvolvimento social. A estes interessa a burrice perpetua, para que a população seja facilmente manipulada e se contente com medidas autoritárias que falsamente a proteja de algo que nem ela saiba do que realmente se trata. E como são estes, os capitalistas, oportunistas, golpistas, charlatões, que conseguem se perpetuar no poder, ainda estamos longe de ver uma sociedade menos burra e mais igualitária.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Não sei

Já não sei de nada mais,
Onde estão os meus pés,
Onde é frente ou é trás.

Caminhar, correr, sentir,
Sorver cada gota de orvalho
Que oferecer, o porvir.

Aqui, lá, ontem, hoje,
Lágrimas, e rapapés,
Tudo perto, tudo longe...

Nada sei, apenas sei
Que enquanto me achacoalho
Coisas caem sem lei.
 

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Brasil de 2015 - Idade das Trevas

Jesus é legal
Sinto que dormi e acordei em uma realidade alternativa, em um Brasil onde o Martin voltou no tempo e se encontrou com o seu outro EU mudando todo o arcabouço de espaço e tempo, criando um 2015 sinistro e inimaginável. De repente, os radicais tomaram os meios de comunicação, estão nas televisões arrolando fiéis, envolvendo, convencendo as massas, criando um batalhão, um exército de Cristo! Eles estão comprando as rádios decadentes, e o pior de tudo, estão fazendo as leis de nosso país!

Não, meu povo, eu não sou evangélico-fóbica, eu não sou cristo-fóbica, eu não tenho medo ou ódio de evangélicos e muito menos de Cristo. Eu tenho amigos evangélicos maravilhosos, respeitadores, tolerantes e com muito mais amor para distribuir do que muitos de qualquer outra religião. Aliás, quero deixar claro que não tenho religião. O problema é que tudo isso que está acontecendo, não é por acaso, e não será sem consequências; o problema é que essas igrejas e seus líderes maiores da atualidade estão construindo um império em nome de Jesus Cristo, estão tomando o poder em todas as esferas, estão até mesmo criando um exército de Cristo, que agora está em silencio devido a repercussão de um vídeo na internet, mas com certeza, não está inativo. O problema é que esses líderes estão disseminando o ódio, o preconceito, a intolerância, estão lançando projetos de leis que nos fazem voltar à idade das trevas, limitando ou destruindo as conquistas e o progresso que tivemos até agora. Em nome de Deus e de Jesus, estão construindo um verdadeiro império das sombras.

Não tenho religião, mas admiro as mensagens que supostamente foram deixadas por Jesus, como:


"Deixe tudo, pertences, familia, pois a familia é toda a humanidade!" 
 O quê mesmo? Deixar pertences? Essa máxima está sendo fielmente seguida, principalmente pelos lídres religiosos. 

"Ame a todos como a si mesmo."
Nunca vi tanto amor esparramado pelas igrejas e derramado pelas bocas de seus líderes... Disseminam ódio disfarçado de defesa da igreja, da família, de Jesus. Chamam os fiéis para lutarem contra o que é diferente, contra o que julgam estar errado, contra o que não pertence à "tradicional família brasileira." O amor por todos entra onde? A tolerância? Não existe para quem não cabe nos modelos impostos pela igreja.

"Aquele que nunca pecou, que atire a primeira pedra!"
Pelo que podemos perceber, os líderes religiosos se comparam apenas a Deus, imaculados, sem pecados, pois vivem atirando para tudo quanto é lado. O engraçado é ver que eles argumentam estar usando a liberdade de expressão, dizem que estão sofrendo de heterofobia, que existe cristo-fobia, invertem os valores  e até parecerem os injustiçados defensores das leis. A argumentação segue de maneira tal, que até eu quase me convenço de estar errada e me converto! Retórica comparável à de Hitler.

O que mais me choca é que estas pessoas estejam na política, colocando a bíblia como verdade universal, promovendo cultos, tentando criar leis que tratem com desigualdade os direitos dos cidadão, limitando suas escolhas, marginalizando-os, impedindo-os que vivam da maneira como bem entenderem, de constituir a família que quiserem, de amar quem desejarem, justificando a tudo com um livro que não é nada além de um livro e que não é a verdade de todos os seres humanos.  O que me estarrece, é que as pessoas estejam profundamente preocupadas com que as outras estão fazendo em sua intimidade, com quem elas estão vivendo, mais até do que com o amor e a paz entre todas as outras pessoas. Usando palavras populares, o que me espanta, é que dói mais nas pessoas saber que o outro está dando o seu cu e gostando, do que toda a violência e todo o resto de merda que acontece na humanidade, que é infinitamente mais importante e definidor.


Eu não creio que Jesus estaria se preocupando com o cu do próximo, com quantos homens Maria Madalena fez sexo  por dinheiro, ou não, ou se a pessoa seria capaz de doar-lhe algo além de um pedaço de pão e uma cama. Mesmo não possuindo uma religião, as mensagens de Jesus, fosse ele um homem revolucionário, filho de Deus, Espírito Santo ou seja lá o quê, São as mais bonitas que alguém poderia deixar; são mensagens de amor ao próximo, de tolerância e de respeito. AMOR!

Eu já disse e repito, Jesus, nos tempos de hoje, não seria um Cristão. Se ele chegasse ao Brasil em 2015, pensaria estar chegando na Idade Média. Jesus diria que a humanidade está perdida e que tudo o que ele ensinou foi distorcido pelos séculos por engenhosos lideres, religiosos e se transformou nisso, a IGREJA. Ele daria meia volta e diria, Pai, eles não sabem o que fazem! Ou melhor, sabem muito bem.




sexta-feira, 8 de maio de 2015

A era dos lindos selvagens

Mim, Tarzan

Durante toda a minha vida eu ouvi expressões como "cabelo ruim", "juba de leão", "vassoura de piaçava", "Bombril", e tantos sinônimos de carga ofensiva para os cabelos crespos e encaracolados, inclusive para os meus, que cheguei a sonhar em ter longos e lisos cabelos esvoaçantes, que não deixassem milhares de fiozinhos elétricos e indomáveis a vista, e que não dessem trabalho ao acordar. Sonhei também em ser Paquita, pintar os cabelos de amarelo e ficar famosa no Xou da Xuxa, como a maioria de minha geração. O estranho é que durante os anos 80 até ocorreu o modismo chamado cabelo permanente, que era a prática de fazer curvas no cabelo com a intenção de dar volume e deixá-lo mais crespo, porém, o que acontecia era encontrarmos um bando de cabelos danificados e sem vida; isso passou rapidinho e os cabelos lisos e nipônicos reinaram nas últimas décadas, o desejo de ter os cabelos da elite fez com que as brasileiras gastassem horas e o seu suado dinheiro em salões de beleza, escovando, pranchando, relaxando, alisando. Ter cabelo de origem afrodescendente significava fazer parte de um grupo marginal, dos pobres, dos escravos, dos feios; ter cabelo crespo era ser inferior.

Cabelos a moda dos anos 80

Nos últimos anos, a tecnologia de alisamento evoluiu tremendamente, diminuindo os riscos e melhorando os resultados. A tal da escova progressiva é o milagre de nossa geração, os seus cabelos saem totalmente lisos, você poderá lavar e fazer o que quiser, não precisará andar com um plástico na bolsa, nem usar sempre blusa com capuz, os fios ficam lisos para quase sempre. O problema acontece depois de três meses, quando os seus cabelos já cresceram o suficiente para denunciar suas origens e vão ficando cada dia mais bizarros. Neste momento, você tem duas escolhas, ou faz de novo a escova progressiva e fica com os cabelos lisos e maravilhosos por mais três meses, ou enfrenta o ridículo de ficar com um cabelo antinatural na cabeça. Você pode também cortar todo o cabelo que contem a química, mas não é fácil ter cabelos curtíssimos para quem não está habituado.

E viva os cachos!

Depois de todo este sofrimento, finalmente as mulheres estão resolvendo assumir suas origens e deixar a tortura, os cachos estão reinando! Isso fez bem para a diversidade, mas além de tudo, faz bem para a identidade desta mulher; ela não precisa ter medo de que todos vejam como ela realmente é, e como os seus cabelos são crespos; ela não precisa mais se olhar no espelho e se sentir em conflito com ela mesma, ela sabe o que é e ama! Ela tem orgulho do seus cabelos volumosos, de seus cachos, de seu poder natural. Longe de ser menos trabalhoso, os cachos chegaram com toda a força, evidenciando um novo tipo de beleza que foi obrigado a se esconder por muitos anos.


Masculinamente falando, o que está crescendo é a adesão pela barba. Apesar de ter saído a notícia na rede de que a barba é imunda e contaminadíssima, até por coliformes fecais (Sinceramente, eu não imagino por que a barba seria mais suja do que os outros  pelos do corpo, incluindo os pubianos, mas...), isso não afetou seu charme e poder. Barba é coisa de homem, de testosterona, por isso tem o seu atrativo. Talvez todos estejam se cansando do tipo que se preocupa mais com a depilação de seu peito do que com a sua parceira; talvez as mulheres estejam preferindo os shakes árabes aos shakes de academia, talvez todos estejam sentindo falta daquilo que temos e não podemos negar, nossos instintos




Apesar de termos a capacidade de pensar logicamente, fazendo escolhas que vão contra os nossos instintos selvagens, ainda somos animais e há coisas que estão além de nossa lógica de homem racional. Isso não é ruim ou errado, somos de carne, osso e hormônios, somos muito mais que queremos e gostaríamos, e muitas vezes, somos selvagens, seja lá qual carga lexical essa palavra possua atualmente. Ser selvagem é gostar do que é verdadeiro, normal e genuíno do ser humano, e não esconder isso. Ser selvagem é deixar os cabelos naturalmente lindos, é ter uma barba linda, e não ter vergonha disso. Viva a selvageria!

Não se esqueça, tudo tem limites!  :)

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Onde estão nossos valores?


Ensinar valores se transformou em sinonimo de cafonice, retrocesso, obsolescência, assim como tudo o que tem relação com formação social das pessoas, assim também como as velhas aulas de etiqueta. Falar em honra, no sentido nipônico, falar em honestidade, caridade, amor ao próximo, parece ser falar sobre algo relegado apenas aos grandes nomes da história, como madre Tereza de Calcutá e Gandhi, que também teve alguns caroços tirados debaixo do seu angu.

No Brasil dos "Revoltados online" de hoje, estamos assistindo a uma grande miscelânea de palavrórios, opiniões ao léu, baseadas em notícias metralhadas pela mídia e das quais não sabemos se novas, verdadeiras ou imparciais, assim como não sabemos do histórico das situações que julgamos, resumindo, estamos num labirinto achando que estamos cientes de tudo o que acontece no mundo inteiro. Assistir televisão ou navegar pela internet é tomar doses cavalares de ignorância, violência gratuita, agressividade indiscriminada, idiotice explicita e valores totalmente egocêntricos. 

Parecendo uma anciã em minha fala, na minha época, havia alguém que sempre se preocupava em nos ensinar o que era bom e o que era ruim, assim como ser verdadeiro, honesto, e tratar os outros com o mesmo respeito e educação com os quais gostaríamos de sermos tratados. Diziam que dinheiro não trazia felicidade e que o importante era amar a todos, sem distinção.  Tudo isso parece uma idealização ultrapassada sobre a condição humana e suas relações, mas havia um tempo em que eu acreditava nisso, acreditava que as pessoas eram essencialmente boas, na minha concepção de bondade; O bom ou o ruim, o justo, o certo e o errado, são conceitos complexos criados pela cultura e as necessidades sociais, mas há algo que pertence a todo o ser humano que é o sentimento de bem estar com os outros e consigo mesmo, o sentimento de importância e o sentimento de liberdade. Liberdade também é um conceito complexo, mas podemos dizer que quem se sente impedido de ser e agir da maneira em que se sente confortável, quem é proibido de se mover, de tomar decisões, quem não pode escolher, não possui liberdade. Vivendo em sociedade, até mesmo a liberdade sofre com as limitações da cultura, da ética, dos valores que essa sociedade cultiva.

Quais são os valores de nossa sociedade hoje em dia? Especificamente, a sociedade brasileira?

Basta ligar o rádio, a televisão ou a internet para sermos bombardeados por letras de sertanejo universitário que dizem coisas como:

Vou beber, beber até cair;
Ela foi ao banheiro pra ficar comigo;
Não quero compromisso, só quero encher a cara;
Ela é safadinha, fica muito doida na balada, e por aí vai longe.

Mudando para as letras do funk, que já tiveram um sentido social no passado, encontramos coisas do tipo:

Senta na pica;
Bate com a bunda no saco;
As novinhas gostosinhas vão descendo até o chão;
Ah eu vou gozar, vem que eu vou te tacar o peru, etc, etc, etc.

 Quando abrimos os sites de noticia, encontramos manchetes como:

Fulana se descuidou e deixou aparecer a celulite;
Apresentadora do Globo Esporte mostra que está fora de forma;
Beltrana mostra corpão na praia,
Catrina retirou os seios e faz foto sensual.

Quando lemos algumas notícias, sempre tendenciosas, ou até mesmo as notícias sobre cachorrinhos resgatados e catástrofes naturais, observamos nos comentários uma enxurrada de agressividade, preconceito, falta de informação, fechando com um "a culpa é da Dilma".

Vemos passeatas de pessoas da classe mais favorecida, todos com a sua camisa da seleção brasileira, carregando suas latinhas de cerveja, mulheres bem maquiadas para aparecer bem na fita, cabelos platinados, unhas bem feitas, homens com seus bermudões e tenis caros carregando cartazes feitos na gráfica e com dizeres também em inglês (pois afinal, o mundo tem que saber que os brasileiros também falam inglês e que estão revoltados); alguns levando suas babás devidamente uniformizadas para registrarem o momento, coisa mais linda! O mais lindo é ver mulheres com corpos esculpidos em frente as câmeras, algumas nuas, reivindicando algo de importância fundamental para a nossa nação, como aulas de Moral e Cívica. Só não é mais lindo que ver pessoas fantasiadas de militares e pedindo a intervenção militar, implorando para que o Brasil tenha um poder, único, totalitário, que pode legislar e executar sumariamente. Essas pessoas, neste momento, se intitulam "povo brasileiro", indignados com a corrupção do país, contra a distribuição de renda, contra o socialismo, contra o bolsa-esmola, vai pra Cuba todo o mundo.

Os valores desses manifestante, assim como os do Mc Gui, Mc Belinho e muitos outros, é o de possuir o poder de compra, o poder de mando, ou seja, o dinheiro. No vídeo em que esse tal de Mc Belinho gravou para defender a suposta carreira de sua filha de sete anos, que canta funk com letras sensuais, se vestindo como uma mulher, usando até mesmo enchimento no peito e dançando até o chão simulando ato sexual, mostra claramente os seus valores, e os valores que a nossa sociedade está cultivando; no video ele diz que o funk está tirando muita gente das ruas e dando a oportunidade de comprar uma corrente de ouro como a que estava mostrando, no valor de R$ 25000, e que tudo isso era recalque do povo, palavra muito utilizada pelos funkeiros.


Os valores de nossa sociedade são os ditados pelo capitalismo selvagem, pelo egoísmo crescente, pela futilidade de nossas relações atuais e pela necessidade de sermos admirados num mundo onde tudo é efêmero; esses valores são fortalecidos pela imbecilidade de seres que não estão mais aptos para a reflexão. A rapidez do mundo, das informações, das relações, faz com que a reflexão seja cansativa e rasa, não temos tempo para isso. É muito melhor e mais fácil nos trancarmos em nosso mundo e preenchermos nosso vazio com objetos, status, sexo e admiração momentânea. Esses são os nossos valores, os do individualismo, é a era do "egocentrismo desesperado".

De acordo com tudo e todos, estou sendo retrógrada, obsoleta, comunista e desvairada, mas não creio que o mundo esteja menos desvairado que eu. Enquanto o sentido da existência estiver focado em coisas que estão aquém e além de nós mesmos, sem os quais podemos existir com saúde e bem estar, enquanto as pessoas estiverem buscando se afirmar através de objetos e, ou, do próprio corpo, enquanto as pessoas não enxergarem que se todos estiverem no mesmo nível, há maior bem estar, paz e felicidade, enquanto as pessoas não conseguirem amar ao próximo, não no sentido melodramático e religioso, ou talvez seja religioso sim, no sentido de se enxergar no outro, de se igualar e perceber que todos somos iguais e temos os mesmos direitos,  enquanto não percebermos isso tudo, viveremos numa busca incessante e infinita pela felicidade que nunca encontraremos, por que há coisas infinitas no mundo para se comprar, mas a paz que os valores voltados para a humanidade nos trazem, não tem preço.



domingo, 12 de abril de 2015

Tempos


Há dias em que as certezas se vão
E semeiam nuvens pálidas que esmagam,
Escurecem, atordoam...

Há tempos em que tudo se vai,
Tudo vem,
E tudo fica em movimento.

Há  noites insones
E dias entorpecidos
Em que o mundo não existe.

Há dias que são noites,
Noites que não passam
E tempo indefinido.

Há tempos que não passam,
Há tempos que não chegam,
Há tempos que não existem.


Há tempos...

quinta-feira, 26 de março de 2015

Os piolhos


Na tenra idade, diziam que eu tinha ombros largos demais e que meus pés eram tortos, como os das modelos quando paravam. Os moleques infernais chamavam-me testão brilhante, leoa, magricela. Houve uma época em que ter piolhos era normal, e eu tinha, muito. Eu via os piolhos andarem nas sobrancelhas de uns e escorrerem pelos pescoços dos outros. A vizinhança se reunia na catação de piolho, filhos entre as coxas das mães, fraldas brancas para aparar os insetos, pentes finos e unhas. Colocaram óleo com fubá na minha cabeça e de muitos outros, mas era uma epidemia.  Algumas mães colocavam Detefon, aquela latinha amarela com veneno em pó para pulgas, nada dava jeito. A infância dos anos 80 foi piolhenta.

Diziam que eu era um bicho do mato, cara de bunda, emburrada. Disseram também que eu era metida, pirracenta e nojenta. Eu liguei na época, mas agora, rio do alto da pirâmide.

Disseram que eu nunca conseguiria emprego e se conseguisse, não seria capaz de permanecer em um. Riram de mim, me mandaram tentar vender meus "romancinhos" e minhas "bonequinhas de pano". Disseram que queriam me ver no fundo de um buraco. Advertiram-me de que, por ser mulher, não seria capaz de sustentar minhas escolhas, muito menos meus filhos. Obrigada pela força, valeu!

Riram do meu cabelo anelado esvoaçante, dos pelos, das pernas finas. Riram-se de suas fraquezas, não das minhas. Eu não tinha fraquezas, não aquelas.

Os indianos pensaram que eu era uma indiana, e os portugueses disseram que não pareço ser brasileira. Os meus amigos mais loucos me chamam louca.

Riram-se de minhas loucuras até perderem a graça. Na verdade, riram-se todos deles mesmos, por não saírem de suas loucuras de sanidade. Riram-se até caírem os dentes, mas vieram às lágrimas quando perceberam que eu não era louca, mas era uma Mulher Alienígena. Só os piolhos eram os mesmos.


terça-feira, 10 de março de 2015

O que significa essa manifestação do dia 15 de março?


É a primeira vez em minha vida que vejo os brasileiros tão enfurecidos e claramente divididos em dois blocos em relação a política, e isso é assustador. Nos tempos do Collor, a população tinha uma só visão do que estava acontecendo, o da media corroborada pelos bolsos vazios, todos foram levados por uma onda em busca de mudanças que culminou com o impeachment do então primeiro presidente eleito democraticamente, um marco histórico. Eu me lembro muito bem daquela época, quando eu parei de estudar porque as escolas publicas não ofereciam livros didáticos, e não possuindo dinheiro para pagar, por que o governo confiscou toda a poupança e a inflação estava galopante, eu fiquei com vergonha de continuar estudando. Lembro-me muito bem do custo das coisas, de como faltou carne, de como foi preciso contratar mais pessoas para operarem as máquinas rotuladoras, e de como nós éramos milionários e miseráveis ao mesmo tempo. Lembro-me da primeira vez que prestei vestibular na UFOP, quando ainda era surpreendente que alguém da cidade fosse fazer a matrícula. Lembro-me de quando a discussão nas escolas era sobre o pagamento da dívida externa, sobre o Brasil ser um país que oferecia mão de obra barata; lembro-me de que a merenda nas escolas era sopa de arroz, sopa de macarrão, mingau, tudo branco e sem nutrientes; lembro-me de que os alunos do ensino médio sequer tinham direito a merendar nas escolas. Lembro-me do tempo em que universidade era só para os ricos que tinham condição para pagar os famosos cursinhos pré-vestibulares.

O que mais me assusta é que a maioria das pessoas parece não se lembrar disso! Esbravejam, dizem que nunca viram tamanha corrupção, que o Brasil nunca esteve tão mal. Vamos por partes:

Corrupção no governo

Nunca vi tanta hipocrisia em minha vida! A corrupção no governo é conhecida desde o início de tudo, o lema "rouba mas faz", que alguns ainda defendem, não nasceu hoje. Em nosso país é considerado natural e normal roubar na política, e quem, além de roubar, fizer algo pelos pobres brasileiros, estará sendo um político bonzinho, merecendo o nosso respeito e admiração. Essa permissividade é algo internalizado em nossa cultura, dá para perceber a naturalidade como é vivida em ambientes  do dia-dia, como em filas do refeitório, onde as pessoas não dão a mínima para os direitos de quem chegou antes, querendo sempre levar vantagem e pegar um lugar na frente. Quando um pai não devolve o troco errado, quando pensa que a lei deve ser mais branda por estar em uma posição hierárquica superior, quando pede a um bibliotecário para lhe tirar a multa, isso tudo é uma escola e uma consagração da corrupção. Quem teve a chance de trabalhar em algum setor publico, com certeza ouviu muitas conversas sobre as falcatruas, maracutaias, ou até mesmo deve ter presenciado, mas todos se calam em resignação. Quem foi para as autoescolas tirar carteira também deve ter ficado sabendo da máfia que existe por trás disso, e talvez também tenha pagado propina para ficar livre das sucessivas reprovações e de gastos talvez maiores com mais aulas. Sobre o transporte publico, aliás, todos os serviços públicos, a maioria das pessoas não tem ideia sobre como funcionam e do que significa concessão pública, os monopólios se prolongam e a população é a maior prejudicada. A corrupção não é só do PT ou do PSDB, a corrupção é de todos, e não começou agora, pobres inocentes! A corrupção é sua também! 

A educação

Não podemos tirar os méritos do governo atual em relação à educação de nível técnico e superior; todas as políticas voltadas para o ingresso e a permanecia do aluno no ensino superior e técnico deram muitos frutos e mudaram o cenário do pais, não podemos negar isso. Quanto às políticas de permanência do aluno na universidade, inúmeros medidas foram implantados, como bolsa permanência (o aluno de baixa renda recebe uma bolsa sem ter que trabalhar em troca), bolsas monitoria, bolsa alimentação, auxílio transporte e moradia, isso significa que o individuo só não continua na universidade, sem precisar trabalhar, se não quiser. Todo esse dinheiro vem de impostos que pagamos, e é para isso que pagamos impostos, para que eles sejam utilizados na manutenção e aprimoramento da qualidade de vida de todos os brasileiros, de acordo com maior ou menor necessidade. O governo existe para gerenciar o país, não é uma empresa com fins lucrativos, são pessoas escolhidas para nos promover melhor qualidade de vida, à todos, não a uma minoria. 


A educação superior sofreu grandes mudanças, porém, a educação básica, embora não seja de competência direta do governo federal, continuou decadente e esquecida. É na infância e na adolescência que é formado o caráter da pessoa, é neste momento que o indivíduo se desenvolve e faz suas escolhas pessoais, é neste momento em que ele se constrói como futuro cidadão, sendo assim, é a fase que se deveria dar maior atenção.  Se faz necessária uma reforma, tanto dos parâmetros curriculares, quanto dos moldes de toda a educação, infraestrutura e formação de docentes. É necessária a ênfase na historia política do Brasil e do mundo, para que este futuro cidadão seja capaz de avaliar causas, motivos, manipulações, objetivos, para que este individuo seja capaz de ler, ouvir e entender o que as palavras realmente querem dizer. Este cidadão precisa aprender na escola quem são os nossos representantes e qual é exatamente o papel de cada um dentro do governo, para que seja capaz de votar e de cobrar; este cidadão precisa saber da história e sobre os conceitos que permeiam o mundo político. Este cidadão precisa ser capaz de avaliar um bom e um mal governo, precisa saber o que é ética.

Programas sociais

Eu ainda fico abismada quando vejo pessoas serem contra os programas sociais! Qual seria o verdadeiro motivo? Alegam ser uma medida eleitoreira, assistencialista, alegam que os "vagabundos " estão sendo sustentados pela classe média e que por causa do Bolsa Família, não aceitam mais trabalhar para ganhar mixaria. 

O programa tem erros, como tudo nesta vida, mas só vejo benefícios. Ele é pago a quem esta em situação de risco, e há condições, como a de se manter o filho na escola, não é uma esmola, é uma ajuda para que a pessoa e seus descendentes possam sair de um circulo vicioso do qual nunca conseguiriam se não tivessem o mínimo de ajuda. Quem nunca passou fome, não sabe o que é procurar algo para comer e não encontrar nem uma farinha velha, não sabe o que é não ter como ganhar um real para comprar um pão; não sabe o que é trabalhar mais de oito horas, com a pele castigada por um sol escaldante, construindo casas, capinando ruas, e ter vergonha de se dirigir a alguém com o mínimo de estudo; não sabe a dificuldade de alguém que trabalha duro o dia todo, chegar faminto em casa e ainda ter a capacidade e a coragem de pegar num caderno. Não sabe o que é ser convencido por tudo e por todos de que o seu lugar é aquele, e não há como mudar, pois estudo, educação, são coisas muito difíceis e não são para todos. Quem reclama de uns míseros reais gastos pelo governo a cada beneficiário, que tem como função promover a igualdade, a quebra deste circulo, não tem é vergonha na cara!


Além disso, não cansam de espalhar aquela noticia sobre auxílio presidiário, reclamando sobre o valor, comparando com o salário mínimo e uma porção de besteiras em que as pessoas embarcam sem ao menos procurar informação. Só pra esclarecer, apenas recebe o auxilio quem trabalhou e contribuiu para a previdência, o valor será de acordo com as contribuições, podendo ser inferior a um salário mínimo, e não é por dependente, mas será rateada entre os dependentes, ou seja, vagabundo não vai receber nada. Além disso, esse é mais um direito do trabalhador, e que já existe há muito tempo, não é uma invenção do PT, não me mandem mais correntes!


O que precisa ser feito?


Eu tinha muita coisa para falar, mas estou sem tempo e sem paciência. O que é preciso ser feito, não é atacar o PT ou o PSDB, nem tampouco exigir o impeachment de uma presidente eleita democraticamente, e que até o fim do governo, nunca teve o nome envolvido em escândalos, ao contrário de tantos outros.  O que está acontecendo é mais uma tentativa de golpe, mas a massa não consegue perceber isso, devido ao alto grau de engajamento apaixonado, quase que irracional por um ou outro lado. Há muita coisa em jogo, desde que o Brasil começou a crescer, desde que despontou como uma potencia emergente, desde que se descobriram reservas de petróleo que colocariam o Brasil em destaque. Muitos poderosos tem a perder com isso, inclusive o poderio americano, que como todos sabemos, andou espionando o governo. O que deveríamos fazer agora, era exigir mudanças profundas na maneira como a política é feita no Brasil, extinguir praticas como o financiamento privado de campanhas, por exemplo. Há muitos interesses de poderosos sobre quem governa e sobre o que eles tem a perder ou a ganhar com isso, principalmente os poderosos da imprensa. 


Chamam aos que defendem o governo de Petralhas, comparação com os Irmãos Metralhas, uma turma de ladrões; Chamam o Bolsa Família de Bolsa Esmola, reclamam dos pobres invadindo os aeroportos, dos pobres que não querem mais trabalhar por salários ínfimos, mas não reclamam da bolsa permanência nas universidades e nem de irem estudar no exterior pelo Ciências sem fronteiras. Infelizmente, isso por si só já demonstra que a intenção da classe famigerada e furiosa não é acabar com a suposta corrupção, que está em todo o lugar, mas acabar com os pequenos direitos que estão se esbarrando com os grandes privilégios que eles sempre tiveram, e não querem nem remotamente dividir com uns mortos de fomes que precisam de esmola para sobreviver;  se quisessem mesmo mudanças, lutariam juntos para que o Brasil pudesse mudar suas políticas, para que a corrupção fosse mais difícil de ser praticada, para que interesses privados não se sobrepusessem aos coletivos, sem que isso significasse comunismo, para que o país oferecesse uma realidade de igualdade social, e isso sim, é o que diminui a violência e promove o crescimento pessoal. A luta não deveria ser contra Dilma, mas contra o que o Brasil é hoje, um pais de classes, onde as pessoas não valorizam a honestidade, praticam corrupção em seu dia dia, se calam aos erros, querem ter e ser sempre mais que o outro, e não sabem nem um pingo de história.

sábado, 7 de março de 2015

Depois dos 30

 

Depois dos trinta dividimos as lembranças e as cicatrizes das cirurgias, as de varizes, tireoides, cesarianas, enxertos ósseos, retiradas de terçol, redução de estômago, vasectomia, e afins. Nessa época não nos envergonhamos tanto pelas celulites, estrias, gordurinhas, manchas e imperfeições, pois raramente há perfeição. Depois dos trinta, aprendemos a valorizar o que preenche, não o que cobre; o que preenche uma conversa, o silêncio, os espaços, as carências, as necessidades, o sorriso, a vida. É neste momento que estamos quase prontos, prontos para aceitar, relaxar, sentir, sorrir, chorar e nos levantarmos. Depois dos trinta, temos muito mais a carregar, mas muito mais a oferecer; temos muito a dividir, assim como muito a aceitar. É na idade da crise que descobrimos nossa identidade, é aí que nos preparamos para sermos livres de todas as amarras supérfluas e ilusórias. Temos muito a levar, mas temos muito mais a conquistar. Depois dos trinta, estamos maduros para ir e vir quando quisermos, e não quando nos parecer ser o que deveríamos fazer. É só depois dos 30 que podemos olhar para o espelho e dizer: Este sou eu, este corpo é meu, assim como este olhar que diz tudo o que vai aqui dentro, sem aceitar o que não quero mais.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Manchete mais que ambígua


Quando alguém lê: 

"Mãe de 5 após fertilização, psicóloga engravida naturalmente", o que vem à mente?

Uma psicóloga teve 5 filhos pós fertilização, porém a manchete está dizendo que ela engravidou naturalmente... Será que ela fez cinco fertilizações e depois conseguiu engravidar? Ou será que ela engravidou naturalmente de cinco filhos após fertilização? Cliquei no link do Facebook que me redirecionou para a seguinte manchete:

"Mãe de 5 após fertilização, psicóloga engravida e festeja 1ª menina: 'Sonho'"

Ela era mãe de cinco e após fertilização engravida de uma menina?Então ela tem cinco meninos? Fui obrigada a ler só para entender o que a manchete queria dizer. O Subtítulo dizia:

"Inesperada, gestação atual não teve intervenção médica: 'Não acreditava'.Layane Cedraz, 32 anos, monta estrutura em casa para receber 6º filho." 

Agora deu pra entender do que se trata a matéria, um pouco. Provavelmente, a exigência de uma manchete que se encaixasse ao numero de caracteres permitido tenha causado tal ambiguidade, mas será que não havia uma maneira mais clara de informar sobre a notícia? Que tal:

Após 5 filhos por fertilização, psicóloga engravida naturalmente.

Inesperadamente, uma gravidez natural após 5 filhos por fertilização.

A pressa é inimiga da clareza de informação.




segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Guloseimas da pindaíba


No tempo das vacas magérrimas, manjar dos deuses era fubá suado dentro do café, café com farinha de milho e banquete era quando tinha queijo minas para misturar no meio;

A lista de compras lá de casa, já decorada e batida, era ovo, tomate e banana;

Na sessão da tarde, o meu item favorito, deitada no sofazinho, era um tomatão bem maduro;

Não dispensava arroz feijão, tomate e banana, delícia!

Podem dizer o que quiserem, mas carne com café é muito bom!

Assim como queijo minas dentro do café quentinho, sai derretendo;

Aqui nós tomamos "café com leite e biscoito dentro";


O café é um grande item em nossa alimentação, o pão seco era enfiado no café para melhorar o sabor;

Domingo era dia de macarronada com frango frito, às vezes, salada de batatas com maionese;

Uma folha passada no ovo e na farinha de rosca fazia o papel de peixe, o nome dela era assapeixe;

Banana frita era o "must";

chuchu era comida de pobre, hoje subiu no patamar das comidas boas para a saúde e caras;

Feijão batido no liquidificador era moda, mas eu sempre odiei aquele caldo de feijão;

Orapronobis, baboso com carne;

Minha avó colocava prego para enriquecer o feijão e bicarbonato para cozinhar mais rápido, eu, hein!

Pão bom era a baguete, quentinha com manteiga;

Goiaba catada no pé batida com leite!

Se você também tem alguma guloseima da pindaíba, comente aí!


sábado, 14 de fevereiro de 2015

Carnaval - amo e odeio

Foliões reproduzem a cena tão comentada de Paola Oliveira



Eu amo ver a criatividade do povo, inventando mil fantasias inimagináveis, o bom humor, a alegria; eu amo ver todos brincando uns com os outros, respeitando o espaço, se comunicando; eu amo ver familias inteiras subindo e descendo pelas ruas, dançando, esquecendo de seus problemas; Eu amo ver uma multidão unida em uma escola de samba, por amor à sua escola; eu amo ver o maior espetáculo da terra, milhares de pessoas fantasiadas, carros belíssimos, magnifico espetáculo; eu amo ver os diversos ritmos brasileiros, as tradições.






Eu odeio ver as mulheres inflando seus corpos, colocando silicone, botox, gel de não sei o que, fazendo escândalos, vendendo a alma ao diabo para ver quem é que vai aparecer mais no carnaval; eu odeio que a nudez feminina seja a marca mais forte do carnaval, não por falso moralismo, carolice, ou seja lá o que as feministas radicais gostam de falar, mas por que a nudez da mulher ainda está relacionada a uma imagem negativa, à ideia de prostituição, turismo sexual, e coisas desse tipo; como sempre há vários tipos de viés para se considerar a liberdade individual, e esse tema é complexo, limito-me a dizer que não gosto que a minha imagem ou a da mulher brasileira seja relacionada à prostituição e ao turismo sexual. Odeio o comércio que o carnaval se tornou, fortunas por abadás, fortunas correndo pelas escolas de samba, onde todos se confraternizam no mesmo camarote, politicos, celebridades e bandidos; Odeio como a maioria das pessoas agem, terminam namoro, enganam os parceiros, tem como meta beijar e/ou transar com o maior número de parceiros que puder, afinal de contas, é carnaval. Esse comportamento pode até ser compreensível entre os adolescentes e jovens, mas muitos  o levam para toda a sua vida. Odeio a intoxicação de álcool e drogas que geralmente acontece. Odeio que para a maioria, o foco principal sejam esses pontos negativos.





No Brasil parece um pecado mortal dizer não gostar de carnaval e futebol, mas estamos em nosso direito de não gostar tanto e de todos os aspectos. Cada um na sua, e que cada um curta  o seu carnaval sem culpa na consciência.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O que é liberdade de expressão? Chega desse papo!


Todos os dias, sem exceção, é só abrir a internet ou sentar na frente da televisão para sermos bombardeados por notícias terríveis sobre ataques terroristas, meninas sendo mutiladas, latrocínio, casamento infantil, apedrejamento de mulheres, homens bombas, esquartejamento, linchamento, vídeos íntimos divulgados sem permissão, e todo o tipo de violência imaginável e não imaginável. Os mais religiosos começam a dizer que é o fim do mundo e que as coisas estão cada vez piores, que nunca houve tanta violência, da mesma forma que nossos avós e tataravós diziam. A verdade é que sempre houve violência, subjugo, desrespeito, exploração do mais fraco, destruição do diferente, isso não é privilégio dos tempos modernos; porém, apesar de estarmos em tempos "modernos", apesar de vermos a tecnologia evoluir em alta velocidade, estranhamente, e concomitantemente, percebemos que velhas e humanas características não estão mudando ou evoluindo.

A onda agora é falar sobre a liberdade de expressão devido aos assassinatos terríveis de chargistas e outras vítimas em Paris. NADA justifica matar uma pessoa, e isso acontece quando temos a certeza de que o outro é inferior, merece menos que nós, merece nada ou merece o inferno; isso acontece por falta de respeito ao direito do outro de existir e de pensar, agir e viver como bem entender. Quando julgamos o diferente através da ótica de nosso próprio mundo, o vemos com alguém que não pertence ao que achamos correto, legítimo, evoluído ou abençoado, qualidades que atribuímos a nós mesmos e a tudo o que temos como certo e verdadeiro. O outro será sempre inferior e indigno do que nós temos e somos. A partir daí, escarnecemos suas vestes, sua comida, sua risada, seu humor, seus rituais, sua cultura, sua religião, seu pai, sua mãe, sua mulher, seus filhos, seu Deus. Tudo o que para o outro é sagrado e verdadeiro, para nós não passa de um filme engraçado de Ali Babá e os 40 ladrões, de fantasia de carnaval, de personagem de piada ou noticia terrorista. Para o outro, também não passamos de uma caricatura prepotente, de um outro mundo do qual fora excluído e que do qual, talvez, nunca quisera fazer parte. O outro será sempre o outro, e esse é o problema. O problema não é existirem outros, mas não aceitar que existam outros e aceitar que não exista verdade absoluta.


Aceitar que não existe verdade absoluta é algo difícil, especialmente quando o assunto é religião. Se você tem uma religião, essa será a sua verdade absoluta e as outras serão apenas crendices, besteiras, superstições, mesmo que essas "crendices, besteiras e superstições" sejam milenares e sejam semelhantes e talvez base para a sua religião. A religião é baseada em fé, e fé é baseada em crer sem necessariamente ter provas. Se eu sei o que é certo, o que Deus quer, se a minha verdade é a verdade absoluta, tenho o direito de condenar os que não creem e desobedecem ao que o meu Deus ou Deuses ordenaram, sendo assim, posso julga-lo, condená-lo, massacrá-lo, fazer charges sobre o seus falsos Deuses e matá-lo com bombas em meu corpo, posso morrer, mas matando infiéis, terei a recompensa divina e sairei deste inferno que é o mundo real, assim é a humanidade, assim é o homem com sua verdade. A minha verdade me dá o direito de apedrejar mulheres adulteras, de cortar os clítores das meninas, para casá-las com quem eu bem entender; a minha verdade me faz dono de outras pessoas, posso feri-las para que aprendam e sigam a minha verdade, posso queimá-las nas fogueiras da inquisição, convocá-las para guerras, destruir suas casas, suas famílias; posso obrigar meus filhos a se casarem com quem eu escolher, posso exigir que vivam de acordo com os meus planos; posso estuprar as crianças e mulheres de quem não segue a minha verdade, pois eles são os outros, não tem as mesmas virtudes e valores que eu, o detentor da verdade.


O que é expressão? 

Sim, todos devem ter o direito de falar o que pensam assim como eu estou fazendo agora.  O meu pensamento é livre, vai onde quer e trabalha como bem entende, ninguém tem o direito de se intrometer ou censurá-lo, por isso é tão complexo este problema e envolve muitas outras questões. Todos tem o direito de se expressar, isso significa viver, agir, falar e seguir o que quiser, de acordo com a sua verdade. Nada faz com que a minha verdade seja superior a do outro, mas cada um supõe que haja uma única verdade, que é a sua própria. Porém, vivemos em sociedade, vivemos com o outro, vivemos num mundo em que cada vez mais tudo se conecta e se relaciona. Apesar de estarmos cada vez mais isolados dentro de nós mesmos, temos a necessidade de nos expressar e de nos relacionar com o outro, e sendo assim, precisamos aprender a nos relacionar. Como?


A primeira coisa seria respeitando o que é sagrado para o outro, mesmo que para nós o objeto santo seja o mais insignificante na face da terra. Não se brinca com a mãe dos outros, não se brinca com os filhos, o lar. Essas coisas são sagradas para a maioria dos seres humanos. Esse é o sentimento que caracteriza o sagrado, o que para nós é intocável, precioso, santo. Alguns tem como sagrado o carro, o time de futebol, o ídolo, cada um sacraliza o que quiser, isso é o direito de todos nós. Ninguém deveria tocar no que é sagrado para o outro.


A verdade absoluta 

A segunda coisa é aceitar que não há verdade absoluta. Isso significaria não ser tão radical e apegado às suas crenças, significa aceitar que há verdades em todas as visões do mundo e todas as religiões. Porém, acho que para que isso pudesse acontecer, as religiões deveriam se conectar, o que é quase impossível, já que a concepção do que é Deus, o pilar de todas as religiões, se modifica imensamente de uma para a outra. Se não podemos aceitar que possa haver verdade no outro, deveríamos aprender a respeitar o direito que o outro tem em não comungar de nossas crenças, e não pensar que isso faça dele um ser desprezível e indigno aos olhos de qualquer Deus, pois seja lá que Deus seja esse, creio que o objetivo dos deuses não seja o de massacrar os humanos por serem diferentes ou seja lá por que motivo for.


Liberdade de escolhas

Essa é a verdadeira liberdade! O que é bom ou ruim? Tudo o que consideramos bom ou ruim foi criado por homens e sua cultura. Considero que nada, nenhuma cultura ou religião seja ruim, a não ser que tire das pessoas a liberdade de escolha. O que é um ser humano se não pode escolher sobre a sua própria vida, sobre o que ser, pensar, dizer, fazer, se vestir, comer, ir e vir, se casar, trabalhar, orar? Tirar a liberdade de uma pessoa é tirar-lhe o direito de ser uma pessoa. Tirar o clitores de uma menina, obrigá-la a se casar, dizer-lhe que não pode estudar, que não pode conversar com homens é ruim, assim como obrigá-la a tirar o véu que cobre os seus cabelos. Obrigar uma pessoa a se converter à sua religião é ruim; Forçar alguém a viver como você pensa ser correto, é ruim. Isso é tirar-lhe a liberdade de expressão.


O que é liberdade de expressão?

Ficar nu na frente das crianças ou de idosos, fazer sexo no meio da rua, fazer passeata mostrando os seios, dizer que não tolera homossexuais, negros, judeus, muçulmanos, latinos, que as mulheres são inferiores e o lugar delas é na cozinha, tudo isso pode ferir alguém, mas não são vistos como atos legítimos da tal liberdade de expressão. Se alguém é homofóbico, preconceituoso ou foge dos padrões, ele não pode expressar seus pensamentos e sentimentos, ele não tem a tal liberdade de expressão, ele tem a censura. Por quê? Por que isso fere a maior parte da sociedade, isso foi configurado como crime em algum momento de nossa história. Porém, fazer charges que destroem o que é sagrado para católicos, judeus e muçulmanos, além criar generalizações negativas sobre os que fazem parte de tais grupos, é visto como liberdade de expressão, apesar de ferir profundamente o outro. Onde está a lógica que regulamenta o certo e o errado? Nas mãos de quem pensa dominar a verdade, mesmo que essa verdade seja a de não possuir verdades, o que também pode se tornar intolerante, muitas vezes.


Não, nada justifica atos terroristas e violentos, assim como nada justifica a nossa interferência na maneira de ser, pensar, agir e viver do outro. Chega de classificar o mundo em 1º, 2ºe 3º, chega de julgar culturas, chega de pensar que o mundo gira em torno de seu campo de visão. Chega de fazer piada do outro, chega de pensar que tem o direito de tirar a vida do outro, que tem a Deus e o poder de decidir pelo outro. Chega de desrespeito, de querer julgar o que é estar e ser desenvolvido. Ser desenvolvido é viver bem, em paz consigo mesmo. ser desenvolvido é ter uma rotina que o deixe satisfeito, e suas necessidades básicas supridas. Ser desenvolvido é sentir-se leve e poder ir e vir, é poder escolher o que quer ser amanhã. Ser desenvolvido é viver bem com as pessoas que o cercam, e principalmente consigo mesmo. A única certeza que eu tenho é a de que estou aqui agora, sendo assim, tenho certeza de que é essa vida que me importa agora. Ser desenvolvido é viver em paz.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...