sexta-feira, 21 de novembro de 2014

O martírio no curso de Letras


O meu martírio no curso de Letras começou há mais de dez anos, penso que em 2001. Eu me casei aos 19 anos e ainda não havia terminado o Ensino Médio, mas sempre tive em mente o objetivo de me formar. Quando o meu filho foi para a escolinha, eu também entrei para a escola à tarde a fim de terminar o Ensino Médio e tentar a faculdade; foi algo um pouco desagradável, ser a única mulher casada e com filho no meio dos adolescentes, apesar de eu não ser tão mais velha que a maioria. Foi complicado, mas terminei o curso e em seguida prestei vestibular para Letras, na UFOP. Na época, ainda tínhamos que fazer os terríveis e dificílimos vestibulares, passei na primeira chamada, colocação 40ª de 40 vagas. Eu escolhi Letras por que sempre gostei muito de escrever e  de ler, mas eu não tinha nenhuma noção sobre o que realmente era o curso. Eu era um ET, nunca tinha ouvido em minha vida palavras como dialética, linguística, retórica, funcionalismo, dicotomia e tantas outras que dificultaram a minha inserção naquele mundo "Letrístico". Continuei me sentindo deslocada, ainda era a única mulher casada e com filhos no meio dos "jovens".

Naquela época não havia muita orientação e o curso era relativamente desorganizado; no currículo havia disciplinas obrigatórias, eletivas, optativas, facultativas (até hoje não sei a diferença entre elas); as obrigatórias eram pouquíssimas e nós, os alunos, deveríamos construir o currículo como bem entendêssemos, sem nada que nos orientasse. Naqueles tempos, tínhamos ainda que fazer a pré matricula, depois a matricula, tudo presencial e que levava horas, era um inferno! Eu não sabia o que era um projeto de extensão, não sabia dos benefícios, não sabia de nada.



Fui levando o curso e minhas notas sempre eram ótimas, apesar de pouco esforço (o que causava alguns olhares de inveja de falsos colegas). Eu já estava no último período da licenciatura em língua portuguesa quando me separei e minha vida se tumultuou. Naquela época, se não me engano, precisávamos fazer apenas umas 6 horas de estágio para nos formar. Não havia o tal auxílio transporte e nem essas bolsas todas que existem hoje em dia, eu não tinha condições de ir para outra cidade todos os dias, decidi trancar o curso, porém, eu não fui renovar a matrícula no prazo e fui desligada da universidade, não adiantou chorar. Eu fiquei super triste e desanimada, mas não podia fazer mais nada no momento.

Em 2009 decidi fazer novamente o tal vestibular e tentar acabar com essa porqueira desse curso de Letras. Sim, ainda era o vestibular e dessa vez fiquei em 13º lugar. Isso não fazia nenhuma diferença, o que me interessava era ter o meu diploma. Porém, o currículo havia mudado e embora tenha aproveitado todas as disciplinas, haviam muitas outras novas que tive que cursar. Trabalhando como assistente administrativo em escolas públicas eu tive a oportunidade de ficar em sala de aula e aquilo foi traumatizante, eu sabia que não queria aquilo pra mim. Além disso, eu queria apenas um diploma de curso superior. Analisando o currículo, percebi que fazer  bacharelado em estudos literários seria mais rápido, embarquei nessa doce ilusão...

Essa nova turma que entrei era a pior de todas. Talvez, por eu frequentar apenas umas duas cadeiras com eles, talvez por minha cara de pobre, por eu ser mais velha, sei lá que diacho foi aquilo, aqueles idiotas começaram a me hostilizar na sala de aula. Não digo a maioria, pois conheci algumas pessoas ótimas naquela sala, mas quando me lembro da infantilidade, da babaquice, da cretinice de alguns, eu tenho vontade de sair desse país e nunca mais voltar, por que a cada dia, essa cretinice e essa babaquice das classes mais privilegiadas estão sendo estampadas nos jornais e me indignando, mas isso é outro assunto. O que importa é que tudo isso me fez sentir, mais uma vez, um ET. 

Todas aquelas teorias lietrárias, nas quais nunca me aprofundei, todo aquele blablablá sem razão de ser, toda aquelas considerações sobre obras, isolando-as de seus autores, aquilo me fez mergulhar em desespero. Eu gosto de boas historias e de refletir sobre elas, eu gosto de escrever, embora mediocramente, mas eu, absolutamente, não gosto dessas teorias.


Fiquei desesperada e não conseguia encontrar um tema para monografia. Aliás, por que temos que escrever qualquer trabalho, mesmo que insignificante? Eu sei perfeitamente que universidade é diferente de curso técnico e profissionalizante, mas não penso que necessariamente todos os alunos fossem obrigados a desenvolver alguma tese científica. Diabo dos infernos, eu só quero o meu diploma, só quero ter uma profissão, não quero, ainda, desenvolver nenhuma teoria sobre nada! 

A universidade é totalmente voltada para a área de pesquisa. Você não aprende a coisa, você aprende a questionar o que dizem sobre a coisa. Você não sairá da faculdade de Letras sabendo a gramática de cor, sairá questionando qual gramática deveria ser a melhor. No início, eu só queria ser uma professora, nada mais.

Bem, tive vários problemas pessoais, não consegui me concentrar em nada, não consegui desenvolver nada e me veio a luz de mudar para o inglês. Eu sempre gostei de inglês, mas não pensava que tinha conhecimento suficiente para seguir na universidade, pois aprendi tudo sozinha. Mesmo assim arrisquei, mas a anta fez o quê? Ao invés de tentar licenciatura em inglês, foi novamente para o bacharelado. Anta!

Eu gostei muito de ter mudado para o inglês, mas ao escolher novamente o bacharelado, dei novamente um tiro no pé. Neste momento, com todos os problemas pessoais, psicológicos e traumáticos em relação a esse curso, eu não me sinto capaz de desenvolver nenhum trabalho científico. O meu tempo para continuar na universidade está por um triz e a minha vontade é de mandar tudo para o inferno.

Este ano eu fiz o ENEM, a única forma de se entrar em uma faculdade publica atualmente. Talvez eu tente pela terceira vez o curso de Letras, mas não sei o que é mais "fracassante", continuar tentando ou desistir de vez. Estou na luta, e seja o que Deus quiser.



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