quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Um dia de fúria de uma mulher




Não era um dia especial, era apenas uma terça-feira como outra qualquer e ela tinha que acordar às 5:30 para chegar até a faculdade, mas antes de chegar até a faculdade, era preciso ainda acordar as crianças, fazer o café, arrumar o quarto e o material do qual precisaria. O celular despertou pela terceira vez, mas os seus olhos eram insistentes e queriam permanecer fechados, o seu corpo não a obedecia, ela queria apenas dormir, dormir para sempre. Mas precisava se levantar. Procurou a roupa menos amassada, esquentou o leite, por que seria mais rápido, gritou com as crianças algumas vezes, não comeu e saiu correndo para pegar o ônibus. Estava atrasada. Olhou para o celular enquanto andava apressadamente, quando levantou os olhos, o ônibus estava quase chegando ao ponto, e ela ainda estava distante. Correu como uma doida desvairada, toda desengonçada, e percebeu que as pessoas a olhavam, por que não iam todos pro inferno, pensou. Correu tanto que conseguiu chegar ate o ponto, o ônibus ainda estava parado; bateu na porta, que já estava fechada, mas o ônibus saiu em disparada, deixando-a com cara de pamonha azeda no meio da rua. Que ódio! Pensou e resmungou. Percebeu que a sua roupa estava estranha, olhou para baixo e viu que a sua blusa estava desabotoada, entendeu por que as pessoas a olhavam enquanto corria. Precisou esperar mais meia hora, a essa altura pensava se valeria a pena chegar tão atrasada na aula, ainda mais que a sua vontade de assistir ao professor falando era inexistente. Mesmo assim, decidiu ir, melhor ganhar uma falta que duas.

Foi a ultima a chegar na sala de aula, entrou esbaforida e, para ser mais discreta ainda, chutou a lixeira que escorava a porta, fazendo-a parar quase aos pés do professor. Hoje eu me mato, pensou com os seus botões. Sorriu amareladamente e tentou se sentar fazendo o mínimo de barulho possível, o que já não importava mais depois do espetáculo inicial. O professor resolveu contar as faltas dos alunos, e ela não poderia faltar nem mais um dia, ou perderia o ano. Nem ela mesma se lembrava que tinha faltado tanto, mas estava escrito. Para piorar, ela teria que fazer um trabalho sobre um texto que ela nem sabia que existia, por que havia faltado à ultima aula, era para o dia seguinte. Tentou se segurar e não pensar no problema até que fosse a hora certa.

A aula acabou e mais uma vez ela teria que voar, se quisesse almoçar antes de chegar até o trabalho, 5 minutos fariam a diferença entre almoço ou pão de queijo. Quando ela ia saindo da sala, uma amiga veio ao seu encontro, motivo para revirar os olhos. Essa amiga também estava passando por um momento depressivo e sempre a procurava para se desabafar, só que não era um bom momento, não mesmo. Ela a acompanhou, falando sobre filosofia, sobre religião, tudo junto e misturado, falando de sua solidão e de sua tristeza. Nada era mais incomodo do que aquele tipo de assunto naquela hora, ela já tinha a sua própria solidão e depressão das quais mal conseguia tomar conta, sem falar que ficaria com o pão de queijo o dia todo, essa era a vida.



Quando conseguiu se desvencilhar da amiga, depois lhe de lhe oferecer algumas palavras de conforto, correu para pegar o ônibus que estava lotado. Mais uma viagem de 40 minutos em pé, num calor infernal. Durante o trajeto pensava sobre a vida e sobre tudo o que estava passando e que passara até ali, percebera que tudo era uma grande besteira, a rotina, os estudos, o trabalho, nada fazia sentido. Ela era uma vaca servindo aos outros, engordando com o capim e dormindo, quando conseguia. Não sentia prazer em nada, pensava que gastar noites em bares e boates era um desperdício de vida, não tinha paciência para conversa filosófica de bêbados, muito menos para suportar cantadas baratas de adolescentes ou barbados descarados. As pessoas são inúteis, pensou, eu sou inútil. Tudo é inútil.

 seu pensamento foi interrompido pelo ponto de descida, caminhou em direção à lanchonete e pegou o seu pão de queijo, que foi comendo pelo caminho. Que vida medíocre, foi ruminando com o pão de queijo. No caminho observava os adolescentes energéticos, pulando, gritando estridentemente, como se o mundo fosse maravilhoso. Via também pessoas simples e convictas de suas obrigações, até mesmo satisfeitas com elas, mesmo que fossem apenas limpar o chão. Idiotas, pensou.

Entrou no local de trabalho, e viu aquelas mesmas caras falsas e irônicas, sorrindo e cochichando. Sentiam-se pessoas reais, não de realidade, mas de realeza, apenas por terem cargozinhos provisórios dentro da empresa. Malditos! Pensou. Sentou-se em sua cadeira, onde redigia e corrigia textos o dia todo. 8 horas sentada, com pequenos intervalos evitados, já que se socializar com cobras não era a sua preferência. Abriu seus textos, seus e-mails, suas redes sociais, ficou rolando as paginas, uma, outra, e outra. Tentava se concentrar no trabalho, mas a sensação de inutilidade a invadia, não via o porquê de nada do que fazia, se sentia cada vez mais sufocada dentro daquela sala, sentada, imóvel, onde mexia apenas os olhos e as mãos. Foi subindo um calor pelo seu corpo, uma energia acumulada, uma raiva inexplicável, sentia vontade de quebrar tudo o que estava a sua volta, começando por aquele mouse dos infernos. Começou a pensar em sua rotina, em sua solidão, em sua vida de gado, não viu sentido para estar ali ou em qualquer outro lugar. Enquanto pensava, ouviu a voz do seu chefe se aproximando, e não existia voz mais irritante para ela do que a voz de seu chefe, uma voz rouca, aguda, sempre em alto volume, e sempre puxando o saco de algum superior. Vontade de enviar um murro na cara desse retardado, pensou.

Aquela voz não parava de falar e ela não parava de pensar em todos os que passaram em sua vida, todos as desrespeitaram de todas as formas possíveis. Nada que ela fizesse faria com que os outros a vissem como ela realmente era e lhe atribuíssem o justo valor, mas ela estava ali, sentada, cumprindo com o seu papel, como uma galinha botando os ovos para depois ser degolada e comida por aqueles que a alimentaram. Ela era uma galinha. De repente ela sentiu ódio, ódio por tudo e por todos, aqueles imbecis sem sentido, aquelas ovelhas, aqueles lobos. Se ela tivesse uma arma, atiraria em todos, um por um, até apagar os sorrisos falsos de suas faces. Sentiu o rosto em chamas, e sua inércia naquela cadeira deslocou a sua energia para os seus punhos que se cerravam cada vez mais forte. enquanto estava ali, a ponto de explodir, seu chefe se aproximou e perguntou com um sorriso irônico se ela já havia terminado a tarefa, por que estavam com pressa e alguns acordos dependiam daquele texto. Aquela voz estridente e aqueles olhos azuis sonsos eram a coisa mais irritante do universo. Por que ele tinha que ir falar com ela agora?  Ele a olhava fixamente, empinando a barriga em sua direção, ela o olhava como se estivesse olhando para uma parede branca. Impaciente, ele disse: _Então, minha filha, nós não temos o dia todo, não! Acorda!

Essa frase parece que ligou algum botão em sua cabeça. Os seus olhos se arregalaram, ela se levantou lentamente e disse, com voz calma:

_Você quer o contrato? Quer? 

Ele a olhou, talvez com um certo receio de responder, e balançou a cabeça, sinalizando que sim. Ela pegou a pilha de papeis que estava em sua mesa e os atirou todos na cara do chefe:

_Toma essas porcarias desses contratos! Engula esses contratos, enfie esses contratos no olho do seu cu, seu filho de uma égua!

O chefe ficou parado, sem saber como reagir, as pessoas do escritório se levantaram e ficaram olhando embasbacadas. A mulher tinha ficado maluca, era o que todos estavam pensando. Mas ela não se sentia maluca, se sentia estranhamente livre, sentia paz. Sempre teve a vontade de fazer isso, pela primeira vez estava concretizando um sonho:

_O que vocês estão olhando, bando de mal amados? Ficam aí, o dia todo, falando mal dos outros, fingindo que tem vidas maravilhosas, mas cada um é mais infeliz que o outro. Vão cuidar de suas vidas, seus frouxos, cambada de capachos! Vão todos à merda! Eu me demito, aleluia, nunca mais verei essas caras de otários!

Saiu pela porta enquanto todos a observavam calados. Que liberdade! Sorria pra si mesma, sensação maravilhosa. saiu pela rua assim, feliz, quando um rapaz a mediu de cima embaixo e disse:

_Nossa, que princesa, hein! Gostosa demais!

De novo algo se acendeu dentro dela. Ela voltou para o rapaz, que não esperava que ela assim fizesse, ficando sem reação:

_ Sou gostosa é? Você acha que sou gostosa? Então olha direitinho pra ver se eu sou gostosa!

Dizendo isso, foi desabotoando a blusa insanamente, jogando a peça sobre o rapaz, que ficou envergonhado, no meio da rua movimentada. 

_Olha direitinho, não é só isso que interessa pra vocês homens, seus ordinários, cambada de vagabundos! Olha bem pra mim, é isso que você quer!

Falando isso foi tirando todas as peças de roupa, as calças, a calcinha, tudo, ficando completamente nua no meio da rua. Todos pararam para entender o que estava acontecendo, para observar a louca no meio da rua. Ela gritava nua, pega aqui, não é isso que você quer? Mas o rapaz foi embora, envergonhado. Ela estava livre, livre de todas as amarras, de todas as convenções. Ela não queria mais nada, não desejava nada. Ela queria apenas se livrar de todo o ranço que a humanidade havia lhe deixado, impregnando o seu coração e a sua alma de amargura e tristeza.

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