quinta-feira, 10 de julho de 2014

Troque seu voto por um botijão de gás


Antes era a rigidez adotada pela sociedade governada por princípios católicos obscuros e controladores, a exaltação da tal "moral" e dos "bons costumes", quando a pessoa valia pela sua pureza, riqueza, conformidade e aceitação; vivemos a ditadura militar, quando nos era proibido expressar nossas opiniões e discordar do governo. Procurando se libertar de tal passado, a sociedade se rearranjou e partiu de um extremo para outro, condenando sem reflexão tudo o que era aceito e adotando uma postura mais "fashion", por que isso é ser moderno. Jogaram foram a velha e caduca "Moral e Cívica", mas o Ensino Religioso ainda é obrigatório nas escolas! Em datas religiosas, interrompem as aulas e levam as crianças até as igrejas, ignorando que religião é individual, pessoal e não é de competência da escola, mesmo que a maioria faça parte da mesma crença. Misturam-se os papeis, os deveres, os "achares", trouxeram o ranço do passado disfarçado de modernidade libertária, mas na verdade, tudo sem rumo.

A educação no Brasil é uma questão que urge por reforma, reforma de conceitos, reforma de parâmetros, reforma de imagem, reforma de papéis. Qual é o verdadeiro papel da escola e dos professores? Qual a importância da educação no crescimento do país e para a libertação das mentes em busca de uma sociedade onde haja igualdade e respeito?

As pessoas querem jogar os seus filhos nas escolas e querem que estas resolvam todos os problemas da educação deles e do mundo. No Brasil existe a visão de que o governo tem que ser responsável pela formação de nossos filhos e de que o professor é quem tem que "educá-los", serem suas babás, psicólogos e mestres. Há um grande equívoco sobre o papel da escola. A escola é o lugar onde o individuo vai para se instruir, se tornar um cidadão capaz de viver em sociedade, só que para isso, este deve aprender antes de tudo o que é viver em uma sociedade. As antigas aulas de etiqueta, tão ultrapassadas e vistas como matéria morta, ao menos serviam como base de conhecimento sobre como se comportar em sociedade. O brasileiro é extremamente egoísta e individualista, isso explica o "jeitinho brasileiro", as regras que sempre tem duas interpretações, uma para os outros e outra para nós mesmos; isso explica desde a mania de furar a fila descaradamente, de ficar com o troco errado, de pegar dinheiro emprestado e nunca mais pagar, de ligar alto-falantes mesmo que a rua inteira precise dormir, até a corrupção dos políticos e a violência explícita, expressão máxima do egoísmo e fruto de uma sociedade individualista. 

Criaram os direitos da criança e do adolescente, a Lei da Palmada e o escambau, criaram o Bolsa Família vinculado à permanência da criança na escola, mas ainda não criaram uma ação efetiva que realmente faça diferença e proteja essas criança, preparando-a de fato para viver numa sociedade onde o bem coletivo signifique o bem para cada um. Não é teoria Marxista, na verdade precisamos de novas teorias que tentem dar conta do mundo em que vivemos, um mundo capitalista e cada vez mais individualista.

O ser humano é naturalmente egoísta e egocêntrico, todos querem ser únicos, especiais, adorados e ter vantagens, isso é natural, porém, se a sociedade cultivar e alimentar esse comportamento, ninguém mais se importará com nada que não traga benefício só a si mesmo, e uma sociedade com esses princípios gera violência, insegurança, desconforto e infelicidade. Quanto maior forem as diferenças sociais e econômicas, mais conflitos acontecerão a fim de sanar essas desigualdade, por que ninguém quer ser menos que o outro. Moldar esse sentimento de pertença, de respeito mútuo, é papel da escola? Também.

A escola tem o papel de instrução. Os primeiros anos escolares, os mais importantes e os que são totalmente desvalorizados em nosso país, são fundamentais; é nessa época que o caráter, as certezas, a personalidade do individuo são formados, são as experiências dessa época que vão moldar o cidadão que teremos. Nessa época somos todos mais frágeis e sensíveis, é nesse período que as nossas habilidades vão sendo descobertas. 

Tanta coisa mudou nos conceitos sobre a educação, mas não vejo grandes melhoras. Não ouço mais as crianças cantando músicas nos pátios, não vejo essa socialização. Ao invés disso, vejo tarefas e cópias intermináveis, rigidez. Vejo o caquético Ensino Religioso, que não ensina quando é o Ramadã, ou sobre as filosofias do budismo, espiritismo,  candomblé, hinduísmo, ou nada além de catolicismo. Vejo uma escola que não inclui em suas disciplinas matérias que ensinem sobre a política, os poderes, o papel de cada um, e principalmente, não deixa claro que um vereador que doa um botijão de gás estará comprando o seu voto, e que o papel dele é criar leis para que ninguém precise mendigar coisas básicas como essa; não deixa claro que essa pessoa é desonesta e não um "amigo" que se não vencer as eleições, nunca mais dará a ajuda quando precisar. Mais uma vez entra o individualismo, uma qualidade que é cultivada por nossa sociedade nestes pequenos gestos, o pensar apenas em suas necessidades e desejos.

Rios de dinheiros são destinados para o ensino superior e técnico, excelente! Milhares de bolsas são enviadas aos estudantes, que recebem alimentação, moradia e ainda bolsa permanência para que possam terminar seus estudos com tranquilidade, enquanto que em escolas públicas de ensino fundamental e básico os alunos mal recebem uma refeição pobre por dia, onde toda a rede física é precária, onde os professores são chamados de vagabundos pelos próprios pais dos alunos e tem salários baixíssimos se comparados com os de outros cargos que também exigem ensino superior. As escolas ainda seguem o mesmo modelo do tempo da palmatória, só excluindo a palmatória, por que agora crianças e adolescentes tem direitos, só não tem ainda os deveres. A violência física pode até ter acabado, para os alunos, mas a violência psicológica para ambos os lados, não. Querem sair da obscuridade, mas não sabem por qual caminho, estão todos perdidos e sem rumo. Então, vêm os "universitários" e pregam seus cartazes Marxistas com suas reivindicações, as quais muitas vezes fazem me rir! São contra o financiamento estudantil, querem uma assistência estudantil melhor, são contra o sucateamento de não sei o que. Individualismo. O governo está pagando para que este aluno conclua a universidade! Onde no mundo existem programas assistenciais como estes? Universidades publicas de qualidade? Concordo que devemos sempre lutar por melhores condições, mas vejamos o problema como um todo. As escolas e a educação de ensino fundamental é que estão sucateadas! São estes indivíduos, estes alunos, que precisam de maior assistência e de cuidado, de melhores opções e recursos didáticos que estimulem sua criatividade e crescimento, para que possam chegar na universidade inteiros e em perfeitas condições de terminar o curso brilhantemente, sem precisar de cotas, programas, ou seja lá do que for. 

Enquanto cada um pensar só no seu umbigo e continuar a querer ter sempre mais que os outros, a achar que tem o direito de furar uma fila em que o alguém estava aguardando por horas, só por que encontrou um conhecido, enquanto você não souber quem é, sobre o que tem direito e entender que todos tem esses mesmo direitos, e que quando a maioria estiver bem, você terá uma sociedade e uma vida muito mais segura, harmoniosa e feliz, enquanto não perceber isso tudo, continue se humilhando e pedindo um botijão de gás a um idiota que queira lhe comprar e seja você ainda mais idiota que o idiota que compra o seu voto.

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