terça-feira, 29 de outubro de 2013

O menino e o smartphone


O menino agora não larga mais aquela porcaria! Bradava a avó, indignada com o "emzubimento" do neto desde que o novo "smartphone plus" havia chegado àquela casa. O tio do menino trouxe o aparelho no aniversário de Matheus e desde então, havia umas duas semanas, o capetinha se esquecera completamente de como era uma vida de menino sem celular. Quem mais se incomodava com o que o menino estava se tornando era a avó, acostumada às traquinagens maquinadas por um cérebro livre e um corpo cheio de energias. A mãe do menino já não se incomodava tanto, achava ótimo chegar cansada do trabalho e não ter que ficar bradando até as altas horas da noite, quando o menino finalmente se aquietava e ia dormir.

_ Olha, mãe, o joguinho que eu baixei!
_ É. 
Voltava os olhos para a televisão.

Um dia, com a expressão endiabrada e sonsa, thiaguinho:
_ Ô, vó, fica vendo esse vídeo aqui no YouTube! Olha vó, é legal!
_  Minhas vista tá cansada, menino!
_ Olha, vó, que legal, é do seu tempo!

Vencida pelo cansaço, se distraiu vendo o vídeo de uma música da qual nunca tivera ciência. Estava concentrada olhando um rapaz dançar "arrocha" e pensando como este mundo estava perdido, quando de repente, a cara da menina do "Exorcista" apareceu e um grito de horror penetrou a alma da velha senhora que quase teve um ataque cardíaco. O menino riu-se como nunca enquanto a avó tentava se recuperar. A mãe disfarçava o riso, por que já tinha sido pega pelo programinha maléfico feito para assustar amigos.

_ Excomungado, filho duma boa mãe! Assusta a sua avó, quando você ficar sem ela, você chora na cama que é lugar quente!

Quanto mais a avó se irritava, mais ele se borrava de rir.

"Olha o aplicativo que baixei! Nossa, olha o hotel que eu fiz no "Mine Craft"! Olha isso, olha aquilo!" O menino não mais existia fora da virtualidade, todas as energias dele estavam concentradas no mundo da cabeça dele que se misturava com as dos outros, vivendo quase que por telepatia ou como em "Matrix".

O "Smart" fez a casa ficar sem vida. A avó entristeceu, a mãe emudeceu, até o cachorrinho ficou entediado. O menino tinha ido embora para um lugar tão, tão distante... Tem volta? Ninguém sabe ainda.

2 comentários:

  1. o mundo ta ficando individualista, virtualmente solitário, realmente instinto... esses serão os futuros homens sem infância, homens/mulheres insociáveis... cada dia mais tenho certeza que a tectologia veio p/ destruir relações

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