terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Tímida



Quando eu comecei a estudar, na antiga primeira série, eu era uma menininha muito tímida e não tinha nenhum amigo, ficava sempre no meu canto com as minhas coisas. Sempre tive problema com autoridades, nunca me dirigia aos professores, era uma muda dentro da sala de aula; uma vez, tive enxaqueca, embora não soubesse disso na época. Eu estava escrevendo, e a minha visão começou a ficar turva,  comecei a sentir muita dor de cabeça, mas pensava que tinha que terminar a lição de qualquer maneira, mas não suportei, vomitei e acho que devo ter desmaiado, por que depois disso só me lembro de minha mãe chegar e eu estar na secretaria.

Eu tinha tanta vergonha de me expressar que parecia insensível. Quando meu pai comprou o seu fusca, os meus irmãos saiam correndo, pulavam, gritavam empolgados, eu fingia que não estava me importando e que aquilo era super normal, mas por dentro eu queria correr e ver o tal fusca.

Adolescência foi um inferno. Tinha pouquíssimas amigas, sempre me aproximava das pessoas mais simples, com elas me sentia mais confortável e segura. Não tive a oportunidade de sair, viajar, de nada, era uma prisioneira de mim mesma e das situações. Aos 15 anos tinha vergonha de comprar alguma coisa, eu aprendi a subornar minha irmã para isso. Eu também tinha vergonha de pegar ônibus, não sabia onde ficavam os pontos, e não queria perguntar a ninguém. Era uma marmota

Apresentação de trabalhos significava tortura na certa. Odiava me expor, ser olhada, julgada e avaliada. Perdi muitas oportunidades acadêmicas por não procurar por informações.

Enfim me casei e tive filhos, isso me obrigou a ver o mundo de outra forma e a priorizar outras coisas; me separei, entrei para aulas de teatro, pois sempre amei artes e principalmente sonhava em viver outras vidas, sendo eu mesma. O estranho é que ser olhada e avaliada sendo uma atriz é totalmente diferente de quando você é você mesma no palco. Isso me ajudou muito para toda a minha vida. Com o tempo parei de me importar sobre o que as pessoas pudessem pensar sobre mim. Percebi que a vida voa e não podemos gastá-lo com bobagenzinhas e timidez.

Na verdade, ainda sou muito tímida e tenho preguiça de falar, de vez em quando. Mas estou a anos luz daquela menina que desmaiou na escola por vergonha de dizer que se sentia mal.


sábado, 23 de fevereiro de 2013

Meri Jaan - fenômeno dos relacionamentos entre indianos e brasileiras



Há algum tempo eu queria escrever sobre este tema, pois é um fenômeno muito interessante que vem acontecendo nos últimos anos, trata-se de relacionamentos entre mulheres brasileiras e homens indianos. Poucas vezes eu vi tanta intensidade e ao mesmo tempo, tanto sofrimento, tanta abnegação e inocência. Nestes últimos três anos, li muito, conversei e conheci inúmeras histórias, a maioria triste e traumatizante. Farei um resumo de algumas delas para iniciarmos nossa reflexão sobre o tema, chamarei aos indianos de Raj e às brasileiras de Jussara.


Raj leva Jussara ao Tal Mahal do Paraguai

Uma brasileira foi visitar seu amor indiano e este a leva para um outro mausoléu dizendo que se tratava do Taj Mahal, e ela acredita! Veja história

Raj conquista Jussara com suas palavras de amor, mas na hora do vamos ver...

Eles se conheceram pela internet, como na maioria das vezes, ela se apaixonou pelas suas palavras doces e promessas românticas, juntou todas as suas economias e foi ao encontro do seu amor na Índia. Chegando lá, teve que ficar escondida, passou fome, foi maltratada e explorada por aquele que dizia amá-la. Veja história


Jussara se casou com Raj, mas depois da lua de mel, o caldo engrossou

Jussara se encantou com Raj, e mesmo com os avisos de outras garotas foi para Índia e se casou, mas sofreu maus tratos, ameaças, humilhações e quer voltar para o Brasil. Veja a história

Jussara ilude Raj com foto de famosa

Raj e Jussara se conhecem pela internet, Jussara usa fotos de atriz famosa e Raj se apaixona. Raj vem para o Brasil atrás de Jussara, e além de se encontrar com uma Jussara nada parecida com a da foto, é rejeitado e humilhado em rede nacional por ser baixinho, tendo que voltar com a mão na frente e outra atrás. Veja história

Mesmo gerando um filho, Raj abandona Jussara

Jussara morava em Portugal, onde conheceu Raj. Os dois mantiveram um relacionamento por um longo periodo, mesmo ele afirmando que a família não aceitaria o casamento. A família arranjou o noivado dele com uma indiana, e neste meio tempo, Jussara ficou grávida. Apesar disso tudo, Raj se casou com a indiana no mesmo dia em que Jussara dava a luz ao seu filho. Veja história

Outras histórias sem registro na internet, mas verdadeiras:

Raj enfrenta toda a Índia por Jussara, mas ela desiste antes da hora

Raj era completamente apaixonado por Jussara, pra quem fazia homenagens, bolos de aniversário e tudo o que se era possível fazer à distância. Ele enfrentou toda a família e toda a cultura indiana por ela, mas na ultima hora, ela disse que estava doente e desistiu de tudo. Raj ficou extremamente deprimido, quis morrer, e até hoje está tentando se recuperar do ocorrido.

Raj aceitou tudo dela, mas no fim descobriu a verdade

Raj conheceu Jussara muito cedo e se apaixonou perdidamente por ela; ela era casada, mas dizia que só estava com o marido por que não tinha condições de se  manter sozinha e estava estudando. Dizia que apanhava do marido, que não gostava dele. Depois de algumas suspeitas, Raj conseguiu a prova de que ela saia com outros homens além do marido, isso o abalou profundamente por um longo tempo. 

Jussara larga marido por Raj, mas ele já era casado

Jussara largou tudo pela ilusão de um amor indiano, chegando lá, descobriu que o príncipe já era casado e tinha filhos. Ela viveu como empregada, tentaram envenená-la, tentaram ajudá-la, mas ela insistiu em continuar lá. Depois ela se separou e se livrou de seu "amor".

Jussara vai para Índia e se casa com Raj, mas o casamento não era o que ela esperava

Jussara era uma moça exótica e gostava de coisas exóticas, casou-se com o seu indiano de turbante, falava sobre a vida dos dois na internet, mas, de repente, ela deixa Raj, que desmoralizado, tenta incansavelmente encontrar uma outra noiva e vir morar no Brasil.

Jussara vai ao encontro de seu amor, mas esse a recebeu com uma surpresa

Raj queria um visto para o Brasil, mas Jussara acreditou em seu amor e foi para a Índia encontrá-lo. Ele não sabia o que fazer com a presença dela e criou várias situações, envolveu parentes numa trama onde ela sofria acusação de prostituta, teve que ser deportada para o Brasil.

Jussara cai na lábia de muçulmano

Jussara se apaixona por Raj, que se dizia solteiro e infeliz. Ele a pede em casamento e faz planos de ir morar no Brasil. Faltando pouco tempo para a vinda dele, ela, desconfiada, pesquisa na internet e descobre que ele já era casado. Questionado, ele disse: "Se eu aceitei os seus filhos, por que você não pode aceitar a minha esposa?

São muitas e muitas histórias, há também boas e felizes histórias, como as de MonySandra ,Juliana, Elaine, Jucimara e muitas outras, mas a maioria é feita de muita dor e sofrimento. Por que este fenômeno esta acontecendo? O que atrai indianos e brasileiras? O que cada um quer? Quais as consequências disso tudo?


Por que este fenômeno está acontecendo?

Eu creio que isso se dá pelo encontro de duas necessidades crescentes que estamos vivendo no mundo de hoje, a necessidade de um comprometimento, de romance e de atenção que as mulheres ocidentais estão vivenciando, e as necessidades sexuais dos indianos. Não são todos os indianos que estão à procura apenas de sexo, mas a maioria, como aqui no Brasil ou em todo mundo, só quer isso.A diferença é que lá no país deles a sexualidade é totalmente reprimida, os homens não tem muito contato com as mulheres e muitos se casam virgens. Eles aceitam a sua sorte e esperam pelo casamento, mas enquanto isso, vão tentando se divertir com mulheres de culturas mais livres, como a brasileira. Para isso eles não economizam o seu hingles, passam horas diante da tela do computador falando com as amadas, mandam mensagens, cobram, mostram-se enciumados, chamam suas amadas de minha vida, meri jaan, jannu, e por ai vai. As brasileiras, que vivem nessa cultura permissiva e que estão totalmente carentes, querendo se sentir especiais, viver um grande romance de filmes, caem imediatamente de amores, se apaixonam perdidamente como nunca. Elas são capazes de tudo por estes indianos, atravessam oceanos para encontrarem o grande amor de suas vidas, mas este grande amor não quer se casar com uma brasileira, ele vai se casar com a indiana respeitável e virgem que a família escolher, por que é assim que tem que ser e pronto. A não ser que sejam indianos que já participam de um pensamento mais avançado e sem preconceitos, que são poucos.


O que atrai indianos e brasileiras?

As brasileiras são atraídas pelo exotismo, pelo romantismo exagerado e irreal, pela dedicação, pelas promessas de um grande amor, de uma nova vida, umas querem se ver livres da promiscuidade, estão cansadas da superficialidade dos relacionamentos. Os indianos querem se relacionar com mulheres, querem descobrir, querem namorar, uns querem uma facilidade para o visto, a maioria quer sexo apenas e alguns, realmente, querem encontrar um grande amor fora de sua cultura.Ambos são atraídos por aquilo que falta na cultura de cada um, e todo o mundo gosta do diferente, como diria o ditado, a grama do vizinho sempre parece mais verde.

O que cada um quer?

As brasileiras querem um príncipe encantado, um casamento perfeito, um marido que valoriza a família, algumas também só querem se divertir com eles. Os indianos querem aprender, querem sentir, querem aproveitar os momentos. Muitos usam suas histórias para ficarem fazendo chacota da menina com os colegas. Um indiano, uma vez, me disse que estava a procura de uma mulher mais velha para namorar ate quando chegasse a época de se casar, por que não queria casar com uma brasileira. Na mente dele, faria um favor a uma mulher mais velha em lhe prestar esses serviços por algum tempo. Ao menos este foi sincero.


Quais são as consequências disso tudo?

São muitas. Uma delas, falando objetivamente, é a piada que virou nas embaixadas, a ida maciça de brasileiras para a Índia. Algumas brasileiras que realmente se casam e vão para a Índia, não tem noção do abismo cultural que existe entre as duas culturas; se um casamento entre parecidos já é difícil, imagine com uma pessoa que vive quase em outro planeta. Muitas mulheres caem em depressão profunda, abrem mão de suas vidas, filhos, tudo, e vão em busca de um amor imaginário, sofrem imensamente e talvez nunca mais se recuperam. Alguns indianos que levam a sério o relacionamento e encontram garotas que estão só a fim de brincar, também passam pelo mesmo processo. Alguns encontram a felicidade, mas a maioria encontra apenas dor. Para os que tem a sorte de estarem sério desde o primeiro momento, planejando e enfrentando a vida juntos, estes sim, podem viver um grande conto de fadas; mas é preciso estar atento para as evidências desde o começo, para que nenhuma das partes possa jogar as suas vidas fora, por que de certos traumas, talvez não nos recuperemos.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Relacionamentos -Os despedaçados


O que mais sei é me despedaçar, tanto que aprendi a reconhecer os despedaçados, os que arrastam correntes, os que carregam fardos, o que esqueceram de sair do passado, os que estão nos escuro. Sinto quando alguém deixou algum pedaço para trás e não está conseguindo viver bem sem ele, sinto quando alguém não tem o olhar no que está acontecendo, quando foge, quando se esconde. eu sinto os despedaçados.

Por ser uma despedaçada, aprendi a acalentar os outros incompletos, a lhes dar uma palavra de conforto; aprendi a entender e a não julgar, aprendi a acalentar, embora que momentaneamente, os escalavros dos outros. E neste acalentar, as minhas feridas vão se tornando expostas, e os meus pedaços vão se perdendo cada vez mais por estas ruas sombrias onde o vento barulhento faz a curva. Como a Curva do Vento de Ouro Preto.

Os despedaçados, muitas vezes, são atraídos por outros despedaçados, na ilusão de que se completarão... Mas a verdade é que despedaçados não podem se completar, não podem sequer fazer o papel de prótese, pois a incompletude é tamanha e tão profunda que estes se tornam inúteis para outros despedaçados.

Os despedaçados não precisam de palavras, de conselhos, de ilusões; os despedaçados precisam olhar para os seus buracos, voltar pelo caminho onde se perderam e recolher suas partes. É preciso limpar essas partes, curá-las, e recolocá-las no lugar. É preciso deixar com que o tempo ajunte todas as partes e que as remolde. Não ficarão perfeitas ou exatamente como eram, mas podem tomar outra forma e adquirir outras funções.

Os despedaçados só serão felizes depois de toda essa via sacra, esse retorno ao martírio, essa retomada e essa cura sejam realizados.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Persépolis e Retalhos

Trabalhar em biblioteca tem suas vantagens, você acaba encontrado jóias escondidas em meio a livros velhos e empoeirados, e foi assim que encontrei duas biografias em quadrinhos, duas Graphic Novels, Persépolis e Retalhos.

Persépolis

A autora, que é a protagonista e ilustradora, Marjane Satrapi, conta a história de uma menina, filha de pais liberais, nascida no Irã e que se vê obrigada a enfrentar uma revolução e as suas consequências. Apesar de todo o terror que ela vivenciou, da perda de seu tio querido e dos amigos, a menininha nunca abandonou o seu espírito revolucionário e questionador; desde cedo, foi uma leitora assídua e faminta por grandes filósofos, mantinha o espírito livre, incentivada por seus pais. Aos 14 anos foi morar na Áustria e enfrentou muitas situações adversas por estar sozinha experimentando uma cultura totalmente diferente. Usou drogas, viveu por um período nas ruas, quase morreu de pneumonia. Voltou para o Irã, mas teve uma crise de identidade; deprimida e julgada, tentou se matar.

 O livro

Apesar de tanto sofrimento, a história é leve e sensível, nos permitindo imaginar todos os contrastes culturais que envolvem o mundo moderno, além de nos fazer perceber que o que nos diferencia são apenas os moldes em que somos colocados desde cedo. História, conflitos, emoção, uma ótima leitura para qualquer idade.

A autora e seu desenho

 O filme


Retalhos

Uma história tocante contada por Craig Thompson, que narra a sua vida da infância até o início da adolescência, em wisconsin - USA. Morava com os pais e o irmão, com quem dormia junto. Sofria bullying na escola. Era sempre humilhado pelos colegas, estava sempre sozinho, e sempre ridicularizado; O pai era severo, a escola era o inferno, o babysiter era um abusador de quem não pode defender seu irmãozinho; aliás, ele carrega dentro de si uma culpa por não ter sido para o seu irmão mais novo o que deveria, um protetor, um exemplo; descarregava suas frustrações com a vida e com as pessoas em cima do pequeno, desiludindo-o quanto ao futuro supostamente feliz e sorridente. Sua família era extremamente religiosa e os temores incutidos pela igreja em sua mente são parte de outro fator que  o levou a estar sempre em crise, com medo de "Deus" ou de seus próprios atos pecaminosos. A sua solidão sofre uma amenizada quando ele encontra Raina, o seu primeiro grande amor, que um dia lhe faz uma significativa colcha de retalhos, tornando-se símbolo desse amor. A história dos dois é contada de maneira encantadora, cheia de detalhes poéticos.

O livro

     Craig e Raina

Quadrinho

Duas ótimas sugestões de leitura, sem dúvida!


domingo, 17 de fevereiro de 2013

Música portuguesa -Canção que desperta a saudade


Algumas coisas tem o poder  de nos causar sensações, nos despertar emoções, lembranças de algo que nem sabemos bem o que é. Saudades de um sentimento que está enraizado, que mora tão longe que nos fogem as objetividades, só temos a certeza de que toca em algo profundo e nos traz à tona algo adormecido...

Um cheiro e, de repente, uma emoção da infância, um rosto, uma cor, um momento doce; uma palavra ou um sabor, e o aconchego de um lar reaparece com todas as suas nuances. sentidos despertados que trazem os sonhos da inocência, a sensação de bem estar que eles nos causavam quando ainda éramos puros e confiávamos no destino. Um amigo querido, alguns planos, uma brincadeira, uma paixão, um carinho... Saudades.

Quando ouvi a composição de Carlos Paredes, tocada por José Oliveira e Daniel Gomes, dois jovens e talentosos portugueses, ela me trouxe alguns sentimentos saudosos, um aconchego, uma melancolia, mas que não sei bem onde nasceram; talvez sejam sentimentos herdados de meus antepassados portugueses, de minha bisavó que não conheci, ou talvez seja algo universal despertado pela canção. Não sei...

Ouçam e me digam o que sentem, vale a pena!



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Medo


As pessoas querem tudo, querem demais, sonham, desejam ardentemente, mas existe algo entre o desejar e o realizar; é algo que paralisa, que ameaça, que destrói possibilidades ainda em desenvolvimento, e essa coisa se chama MEDO.

Todos querem os prazeres, a realização, a felicidade, mas não querem arcar com as consequências que o caminho escolhido para alcançar tais objetivos possa trazer. Não querem a dor, as responsabilidades que virão de suas escolhas e as inúmeras possibilidades de transformação que suas escolhas possam trazer. Muitas vezes é mais confortável permanecer no "quentinho" aconchegante da mesmície, se contentar com as nesgas de ilusão, com os prazeres dos delírios, do que se arriscar na realidade e sofrer as mudanças. Isso é ser COVARDE!

O pior da covardia é não se prender e nem se soltar. Arrastam as correntes de sua indecisão ao longo da vida, e neste arrastar, amarram diversas pessoas que ficam presas neste ser sem ser, nesta realidade ilusória, neste nada delirante.  Não escolhem, mas não deixam nenhum dos lados, ficam no meio, meio do muro, meio da vida. Vivem uma vida sem vivê-la, sempre no quase, no tomara, no talvez, contentam-se com essa "mumização zumbítica" e tornam-se mortos vivos, mas não sem antes contaminar com a sua indecisão.

Será que a dor de uma escolha mal feita é maior do que desperdiçar a vida com "quases" e ilusões? Será que a vida não nos permite várias escolhas, caso uma delas não dê certo? Será que é possível aprender e se desenvolver sem fazer escolhas? Sem ser livres?

Chega de ter medo.


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Coisas de Ouro Preto: Senhor Jair - O homem da palavra


Quando trabalhei na Secretaria de Assistência Social, lá encontrei um senhor chamado Jair, ele era faxineiro, um faz tudo do lugar. Eu o cumprimentava, de vez enquanto trocava algumas palavras, mas nunca paramos para conversar. Passado algum tempo, o senhor Jair saiu da Secretaria e algumas vezes eu o via sentado na porta do cinema ou ali nas redondezas. De vez em quando parava pra conversar e ele me contava longos casos, alguns eu entendia, outros nem tanto, mas lhe dava atenção. Eu falava quase nada, o meu papel era o de ouvinte.

Um dia eu comentei que havia passado no concurso em primeiro lugar, mas  que eles ainda não tinham me chamado e isso estava me deixando muito chateada. O seu Jair disse: _ Não se preocupa não, em janeiro eles vão lhe chamar! _ E não é que me chamaram mesmo!

As histórias que o senhor Jair mais gosta de contar é sobre o seu dom mediúnico, suas capacidades de prever as coisas e de pressentir. Eu fiquei pensando no que ele havia dito, mas deixei pra lá, devia ser mais uma coincidência. 

Hoje, eu estava passando na rua São José e o seu Jair estava lá. Eu o cumprimentei, ele pegou a minha mão, e começou com os papos. Depois ele me disse que a primeira vez que me viu, ele pensou que eu era uma pessoa muito simples, mas era muito indecisa e que tinha muitas e muitas dúvidas, então ele quis se aproximar de mim para me ajudar, mas não quis me falar sobre isso antes. Depois disse que eu tinha que cuidar do meu jardim. Perguntei o que ele queria dizer, ele disse:

_ Todo o dia, se tiver algum problema, se alguém te aborrecer, deixa nas mãos de Deus, não vá dormir com isso, senão, na manhã seguinte, toma café com gosto de ontem. Para de reclamar das coisas, não ligue muito para as coisinhas, cuida do seu jardim.

Eu fiquei meio comovida, por que nunca falei nada da minha vida pra ele. Mas, aquele recado poderia caber a qualquer um. Ele continuou:

_ Fique com a cabeça nas nuvens, mas coloque os pés no chão! Crava os pés no chão e continue a caminhada. Tire a cabeça das nuvens!

Aquilo fez muito sentido neste momento, me senti emocionada. Seja vidente ou apenas um grande observador das características humanas, aquele senhor me falou palavras importantíssimas naquele momento. Falava e me olhava com aqueles olhos verdes, que ficavam azuis ou castanhos, de acordo com o seu humor, segundo ele próprio.

Fez sentido para mim, e eu, que sempre fui uma pessoa totalmente cética, estou me descobrindo cada vez mais e mais mística. Obrigada, senhor Jair.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Eu já sabia


Eu  já sabia o fim desde o começo,
Que o começo não era o início 
E que o fim seria certo,
Desde o princípio.

Lutei contra a correnteza,
Mas as águas tem o seu destino.
Eu sou uma sardinha
E perdi.

Carreguei todas as montanhas,
Atravessei os sete mares,
Pedi a todos os Deuses,
Quase morri.

Descobri que ninguém me acompanhava
Estava só na caminhada
Desde o início
Até o fim.

Morri tantas vezes na batalha,
Que o sangue secou
E dentro das veias
Só o pó ficou.

A morte matou tudo o que havia,
As trevas me roubaram de mim
Talvez da escuridão, agora surja
Do fim, um início.






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