segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Família normal


O caçula começou a contar as histórias tristes de um coleguinha, falou sobre as brigas que  o menino havia presenciado entre os pais, que não moram juntos, sobre o hábito da mãe de beber e todas aquelas coisas capazes de enegrecer uma infância. Contando essa história, olhou para mim e disse:  "Coitado, ele queria tanto ter uma família normal igual a nossa..." Estranhamente eu me senti surpresa e feliz por ele considerar que a nossa família seja normal. Isso demonstra que o conceito de família normal está mudando, felizmente. 

Ser mulher, separada, trabalhadora, mãe de dois filhos, tentando terminar o curso de Letras e cuidando de todas as contas e serviços da casa não é tarefa muito fácil. Algumas vezes sinto que vou explodir e tenho vontade de ficar sozinha, sem fazer absolutamente nada, de não me preocupar com o almoço ou se o uniforme do menino está lavado; gostaria de poder dizer que não irei trabalhar e ficar o dia todo assistindo a filmes românticos na televisão, ou sair sem rumo, observando as coisas e as pessoas. Gostaria de me sentir livre.

Depois que virei "mulher" a  minha criatividade desapareceu quase que totalmente. A teoria sobre o ócio produtivo é corretíssima, não existe criatividade se a mente não tem espaço e liberdade para devanear, e se o corpo clama por descanso; não existe criatividade quando a rotina e as obrigações não nos deixam respirar. Se os grandes artistas renascentistas não tivessem os seus mecenas, nunca veríamos as magnificas obras que existem até hoje.

Enquanto isso, eu fico aqui, pela quarta vez matriculada na disciplina Projeto de Monografia e com o coeficiente de 5,8 pontos por zerar na mesma disciplina por três vezes consecutivas. A minha mente, simplesmente, não consegue produzir nada intelectualmente proveitoso, talvez por eu não conseguir encontrar nada de proveitoso em se discutir estilos e blablablas.

Mas estou aqui, caminhando, sozinha levando apenas a minha cara e coragem. Ao menos sinto-me realizada por saber que o meu filho considera que nossa família seja normal, algo inimaginável há algum tempo atrás.


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