domingo, 26 de agosto de 2012

Historinhas do baú - III


1 - Essas são da fase da pindaíba... A situação não estava nada fácil para o nosso lado, sem dinheiro, vivíamos aos trancos e barrancos. Sempre que o meu pai chamava o meu irmão para ir até a venda, a lista de ingredientes era a mesma: Ovo, tomate e banana, ovo, tomate e banana. Nós esperávamos que ele chamasse o nosso irmão para dar-lhe as ordens e falávamos em coro: Já sei, ovo, tomate e banana!

2 - A época era negra mesmo, não tinha papel higiênico em casa e até as revistas e jornais tinham acabado (quem é pobre entende). Para piorar, a minha prima foi usar o banheiro logo lá em casa, e para fazer o número 2! Quando terminou, clamou por papel, e eu clamei por Jesus! Como não tinha, pensei em ligar o chuveiro para que ela se limpasse, mas não tinha energia em casa. Então, pensei, vou esquentar água no fogão, mas depois me lembrei de que o gás tinha acabado de acabar... Foi o cúmulo da pobreza! A solução foi ir correndo ate a casa da minha tia e pedir um pedaço de papel higiênico... Dureza!

3 - Mesmo na pindaíba, tínhamos duas cadelas, nem me lembro de onde tinham vindo. Uma era a Suzy, meio pequenez, (que estava na moda, na época) e a outra era Lana, uma grandona branca com algumas poucas manchas marrons. É estranho como até os animais tem gênios diferentes; Suzy era delicada e arisca, Lana era brincalhona e folgada. Um dia, eu cheguei em casa e quando abri a porta, vi Suzy correndo desesperada pra fora. Imaginei que ela devia ter deitado na cama e fui lá ver. Quando cheguei, estava aquela cadela imensa e imunda deitada em cima da cama, toda suja e cheia de carrapichos; ela só virou a cabeça e continuou a olhar para mim, como se nada tivesse acontecendo! Espantei a danada, mas depois achei graça.

4 - Eu devia ter uns 11 anos quando me apaixonei por um vizinho. Estávamos todos morando na casa da minha avó. Meu irmão e meu tio, que tinha a minha idade, muito gentilmente, se propuseram a me ajudar e pediram que eu escrevesse uma cartinha de amor, para que eles pudessem enviar para o tal menino. Eu escrevi a cartinha, com todas aquelas bobagens que criança gosta e entreguei aos dois para que levassem. Quando voltaram, estavam com expressões muito estranhas, e quando perguntei o que o menino tinha dito, eles disseram que o menino queria me ver e que era pra que eu escrevesse outra carta. Depois de algum tempo, descobri que eles nem haviam entregado a carta, haviam lido e rido muito de mim pelas costas... Demônios!

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Historinhas do baú - II



1 - Era dia dos pais e minha irmã inventou de fazer uma lasanha na casa dela. O meu segundo filho ainda era de colo, eu, milagrosamente, fui a primeira a chegar. Estávamos conversando na sala, eu com o filho no colo, quando vi um clarão na cozinha e achei estranho, perguntei: _ Que claridade é aquela na cozinha? Quando olhamos, ela tinha jogado um papel que havia usado para acender o forno dentro do cesto de lixo que ficava ao lado do botijão de gás, debaixo da mangueira do botijão. Ela não havia apagado o fogo do papel e agora, a mangueira por onde passava o gás estava em chamas! Ela ficou desesperada, pensou que o botijão poderia explodir, ficou gritando o marido. Eu comecei a rir, o marido apareceu apavorado, a fumaça havia tomado conta da cozinha. Ele pegou um cabo de vassoura, acho, entrou no meio da fumaça e ficou batendo, tentando apagar o fogo, depois saiu quase desmaiando, sufocando. Conseguiu apagar o fogo, eu, em nenhum momento, me senti apavorada.

2 - Adolescência, estávamos no barraco onde moravam minhas primas e onde nós viríamos morar anos mais tarde, lugar simples de dois cômodos. Para se chegar até o local era preciso descer uma escadaria terrível. Começamos a contar casos de assombração, eu não tinha medo, mas as palhaças tinham. O pai das minhas primas havia morrido há pouco tempo, e tinha morado na casa, o que contribuiu para o clima de suspense. De repente, ouvimos um barulho do lado de fora, todas começaram a gritar como doidas e a correr rumo a escada. A minha prima, que é deficiente, também estava lá, sobrou pra mim! Eu não me lembro como, se alguém me ajudou, mas ela estava um chumbo, foi uma dureza subir correndo aquelas escadarias e ainda tentando levantá-la! Mas foi divertido.

3 - Era dia dos pais, de novo, este ano, para ser mais exata. Eu fui a primeira a chegar, novamente, embora todos digam que eu sempre me atraso. Minha irmã fez lasanha, de frango, desta vez, estava boa. Não teve nenhum incêndio, mas teve a seresta do dia dos pais. O meu irmão levou a flauta transversal e o violão, o meu primo apareceu com outro violão. Estava tudo meio desordenado, mas foi muito divertido. No fim, cantamos algumas musicas que meu pai escreveu quando éramos crianças para nos apresentarmos no teatro, foi um bom momento.

4 - No dia das mães o meu irmão  levou uma torta linda de morangos. A minha mãe, como sempre, fez comidas deliciosas e comemos até ficarmos cansados e escornados no sofá. Havíamos nos esquecido de guardar a barriga para a torta, mas não pudemos resistir. Comi um pedacinho, estava ótima, mas não quis repetir. Minha mãe pegou a bandeja para guardá-la, quando a torta se despencou, sujou a sua roupa e seus pés. Logicamente eu tive que tirar fotos e dar muitas risadas.!

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Histórinhas do baú


1 - Eu e os meu amiguinhos brincávamos de queimar plástico na beirada da rua. Já anoitecia, tínhamos entre 6 e 11 anos, todos. Uns colocavam coisas de plástico para se queimarem, outros, cutucavam a plasta encandecente com pedaços de gravetos. Minha irmã estava ao meu lado, brincava distraída com o fogo. Um vizinho abençoado encostou, sem querer, o graveto em chamas na minha perna. Eu me assustei, de repente, lancei um pedaço de plástico em chamas que estava na ponta do meu graveto diretamente sobre a perna de minha irmã, que ficou gritando apavorada, olhando o fogo pegar em sua perna. Quando vi a cena, sem pensar, tirei o plástico de sua perna, nem imaginei que a minha mão poderia ficar queimada. Até hoje ela tem uma marca em forma de bolha na perna, mas poderia ter sido pior.

2 - Eu tinha um vizinho, um ano mais novo que eu e que também se chamava Luciano. Nós gostávamos de conversar sobre assuntos como, os "porquês" da vida, ficávamos cogitando, questionando, pensando. Na casa dele havia um buraco que chamávamos de caverninha. Colocamos uns tijolos para nos sentarmos, uns desenhos para enfeitar. Uma vez, estávamos na caverninha, conversando , altas discussões filosóficas, quando a nossa vizinha começou a nos xingar e a dizer que não poderíamos ficar ali. Como gente grande é maldosa!

3 - Lá em Ipatinga, haviam muitas cigarras, eu e meus amigos adorávamos ficar rodando pelas casas uns dos outros para catá-las e colocá-las dentro de um vidro grande de maionese. Um dia, o amigo do meu irmão, um dos que ele gostava mais, estava numa dessas buscas, andando descalço. Ele avistou uma cigarra em uma pequena árvore, e quando avançou pára pegá-la, pisou em algo, sentou-se e retirou o pedaço de vidro do pé. De repente, talvez assustado pela quantidade de sangue, começou a gritar e a pedir socorro como louco; minha mãe apareceu para socorrê-lo, carregaram-no nos braços e ele não parava de gritar: _Socorro, Fátima, eu vou morrer? Eu vou morrer? Não morreu, mas todos rimos muito depois de tudo.

4 - Ensaiamos o mês todo para a festa junina. Eu fui obrigada a dançar com o meu irmão, me deu raiva, mas, fazer  quê? Estava muito ansiosa, a rua toda estava participando, guloseimas e diversão. No dia, meu pai inventou de ir não sei onde e minha mãe queria ir com ele. Eu emburrei, não gostaria de ir, queria ir á festa junina, claro! Depois de brigar com a minha mãe, ela deixou que eu fosse para a quadrilha. Fui, mas dentro de mim estava a tristeza, não  me concentrei na festa e quando acabou a dança, sai correndo, sem comer nada, na esperança de que daria tempo de irmos ao tal lugar. Acabou que tudo foi ruim e ninguém aproveitou nada.


A estrada é longa demais...

domingo, 19 de agosto de 2012

Medo

Mar assombrado


Calmaria, mar imenso na noite,
Nuvens negras e crescentes...
Ondas leves, pequenas, serenas,
ruídos cada vez mais presentes.

O mundo de águas se levanta
E espanta
A paz que dormia em seu leito.
Tudo se agita
E grita!
A dor chega e não tem jeito...

Tornado que retorce a calmaria,
Relâmpago que clareia e mostra o medo.
Uivo pavoroso, gritaria
Joga na areia, os segredos.

Sol, que não nasce no horizonte,
Acende essa luz que se apagou!
Tira essa dor da minha fronte
Acalma o grande mar que se assombrou!

Os Leões

Meninos bem-educados não deixam marcas
Nem na mobília, nem no portão.
Os certinhos não levam facas,
Os bonzinhos não pedem perdão!

Os pestes chegam e arrasam,
Deixam em pedaços os corações!
São leões que miando, caçam,
São gatinhos que piscando, impõem.

Os demônios não esperam,
Os "errados" não aceitam "não".
Os safados, nunca reclamam
Sempre partem para a ação!

Os Leões amam a vida
E por ela, lutam e morrem!
Os ratos furtam comida,
Sobrevivem desde que roubem!

Ao partirem, deixarão de si
lembranças, maldades, bondades:
Os ratos, nos deixam o xixi,
Os Leões, altivez, saudades...

Morosidade

Devagar...
Devagar...
Devagar....

Caminhando lentamente, dormente, morosamente
nas ondas que vem do mar...
Dormindo na corrente de nuvens manhosas, a insistente
Manhã acorda sem despertar.

Ninguém acompanhou o sono sem sonhos da menina morena,
que adormeceu melindrada, com náusea da maresia
Fatal, fastidiosa, pequena,
Triste, feia, serena.

A pequena rondou as montanhas, indo e vindo,
Descendo e subindo
até encontrar o oceano.
Mas...
O oceano não era limpo,
O oceano era um engano,
o oceano, era nimbo.

Sono profundo que mata,
Morte serena que enfada,
Vida pequena, sem nada.

O Mar me chamou



O mar era tão profundo

E ninguém me avisara...

As águas pareciam turvas,

Mas brilhavam.

Era irresistível o seu encanto

Suas águas frias,

causavam espanto!



O mar me chamou

E eu mergulhei!

Avistei peixes coloridos,

Arraias, lindos cavalos-marinhos.

As águas se aqueceram lentamente...

Ficou agradável, confortável,

Surpreendente!

eu me esqueci de onde estava,

E deixei a correnteza me levar.



Estou à deriva,

Murchei na umidade,

Sequei-me ao sol e ao sal,

Nao tenho bússola.

E não sei para onde quero navegar.

Um passarinho me contou


Um passarinho me contou

que o vale não era tão longe!

Abriu suas asas e voou,

Para onde a alegria se esconde.

Com o seu doce canto soprou

que há vida no monte!

Vá menina, vá

Antes que a vida lhe apronte!

Ser ou não ser?

A questão seria: Será?
Será que devemos avançar
ou ficar inertes, até acabar?

Será que não, será que sim?
Será João ou Joaquim
Ou nada mais será?

Será que a noite já chegou
e o galo nem cantou?
Já chegou o Sr. Fim?

Haverá uma resposta?
Haverá uma proposta?
Columbina e Arlequim?

A vida e seus mistérios
Uns alegres, outros sérios,
O final, não dá pra ver...

Caminhando e seguindo,
Uns chorando, outros rindo.
Seja o que tiver que ser.

Vento

Folhas secas se foram,

Tabém as roupas do varal...

Chegou a densa poeira

Trazida pelo vendaval,

Que arrasou as casinhas,

Sujou todo o quintal,

Levou as lindas florezinhas

Deixando somente o caos.

Rocha firme


Eu queria uma rocha firme

Onde pudesse deitar nos dias frios

E me aquecer aos raios solares...

Gostaria de nela poder me agarrar

Quando a maré subisse

E agitasse as águas dos mares.

Gostaria de saber que sempre,

Através de todos os tempos,

Ela lá continuasse,

E mesmo que desgastada,

castigada pela vida,

Ela nunca me deixasse....

Procuro uma rocha firme

Que me esconda da chuva

E me sombreie no calor;

Uma rocha que, mesmo dura,

mesmo cheia de agruras,

Deixe nascer uma flor!

Triste


Triste como a noite quente e solitária,

Como a manhã alegre, imaginária,

Como o cão sem dono na imensidão...

Triste como a mulher humilhada,

Como a bêbada enxovalhada,

Como um estômago que não tem pão.

Triste como a dor fina na barriga

Ao perder a afeição de uma amiga

Sabendo que não se tem razão.

Triste como a criança iludida,

Como a chama de amor perdida

Sem que se veja quem lhe deu a mão.

Triste, triste, triste,

No frio, no escuro, na perdição

No meio de dúvidas sem perdão,

Morrendo de dores e de ilusão.


Gatinho

Amanheceu radiante e anoiteceu moribundo,
Noturno,
No fundo
Do poço.

Gatinho arisco de olhar profundo
Olhou o mundo
Vagabundo.
Colosso!

Unhas negras e quebradas, cravadas
Na parede,
Com sede,
No fosso.

A mão estendida arranhada
No verso,
Na frente,
No osso.

Gatinho triste e assustado
E grita,
E morde
O moço.

Não quer subir, não quer mais nada
E fica,
E deita
E mata.

Inverno


Faz frio à noite...

Maluca


Os grilos gritam e criam o vazio
Em plena lua grandiosamente gelada,
Cortada apenas pelo uivo sombrio
Do vento quente que ronda a madrugada.

O frio expira da alma acuada
E escurece o ambiente apertado.
No peito, um buraco vazio,
No corpo, o seio esmagado.

A dor da prisão se espreme
E não quer soltar os meus dedos.
Oh, prisão úmida e perene,
Não me torture com os meus medos!

As foices cortaram a barriga,
Deixaram nela o vento arredio
E mesmo que verdades se diga,
O lugar continua tão frio!

Correntes grossas e pesadas,
se enferrujem com o tempo passado!
Mentes tristes e solitárias
Encontrem-se em lugar apropriado!

Olhos


Pareciam tristes, pareciam cansados;

Brilhantes, talvez esperançados.

Pareciam confusos, pouco afastados

semelhantes aos alvos, amargurados.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Vem cuidar de mim


Vem cuidar de mim!

Afofe o meu travesseiro e me carregue até a cama
Quando eu dormir no sofá;
Abrace-me com firmeza assim que o vazio fizer o meu peito doer
E faça a dor passar;
Olhe para os meus olhos, com tanta ternura,
Me faça esquecer de acordar.

Vem cuidar de mim!

Segure a minha mão no escuro, aperte-a com delicadeza,
Não se afaste, meu amor!
Caminhe sempre ao meu lado, não se apresse,
Não pare, vejamos o sol se por.

Vem cuidar de mim!

Penteie os meus cabelos brancos, quando não mais tiver forças,
seque os meus lábios e as minhas lágrimas!

Vem cuidar de mim!

Seja a minha força, o meu suporte, o meu bálsamo, 
Sabendo que cuidarei de você
Hoje, amanhã
E enquanto os meus olhos cansados 
Puderem ver os seus, 
Com todas as suas lástimas.

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