terça-feira, 3 de abril de 2012

Dicas de viagem: INACREDITÁVEL ÍNDIA - As gentes

O que é mais notável entre as gentes das Índias é o sentimento de amor incondicional ao seu país, o imenso sentimento de patriotismo dos indianos. Quando olhamos pela primeira vez para a Índia, naturalmente com o nosso olhar estrangeiro, podemos sentir um certo estranhamento, natural quando falamos de culturas, aparentemente tão diferentes; mas, como eu sempre digo, gente é gente em todo lugar, e todos temos as mesmas necessidades e ambições, logicamente adornadas pelos contornos culturais.


 Três rapazes em uma moto, a caminho do Ganges.

Quando decidi ir para a Índia ouvi muitas bobagens, muitas pessoas me diziam que a Índia era um lugar horroroso, que lá não existia nada além de sujeira, que as pessoas eram atrasadas e que era pra que eu procurasse um lugar melhor e deixasse de lado aquela gente que cultuava vaca e colocava uma pinta vermelha na testa; infelizmente, essas pessoas não conhecem a riqueza do ser humano e agem ainda como aqueles portugueses que viram nos povos indígenas o pecado e roubaram-lhes  toda a sua cultura, toda a história, toda essência.

Penduricalhos na porta de um consultório, para dar sorte.

A Índia é muitas, seja lá como se faz a concordância nesse caso. Há as grandes cidades, que mesclam o modernismo com as tradições mais antigas, e há também as comunidades mais isoladas, onde ainda se realizam rituais proibidos pela lei, como o casamento entre crianças. Mas a verdade é que a maioria das pessoas ainda cultiva as suas tradições mais antigas, muitas se guiam e planejam as suas vidas através da astrologia e dos aconselhamentos de gurus.

Mulheres e menina em Pune.

A ideologia herdada do sistema de castas ainda parece pairar sobre a maneira de viver dos povos, denunciada por algumas atitudes conformistas apresentadas ainda por muitos. Quando alguém se conforma com a sua condição e imagina que esta seja ordenada por Deus e seja imutável, ela simplesmente se conforma e segue adiante, mesmo que a sua posição seja coletar vezes nas ruas. Essa maneira de viver, por um lado, permite com que o indivíduo não se revolte e aceite a sua rotina, o seu cargo, possibilitando que tenha uma vida relativamente feliz, sem criar expectativas sobre o futuro. Por outro lado, a sociedade fica estagnada e o poder se concentra em poucas mãos, já que a população não se mobiliza para lutar por melhores condições de vida.

Homem varrendo a rua a caminho do Ganges.

Obviamente, essa questão está sofrendo mudanças, principalmente com a tal "globalização" e as novas tecnologias de comunicação, que permitem com que as novas gerações possam ampliar os seus horizontes  e sofrer influências de outras culturas. Na verdade eu não sei dizer o que seria certo ou errado, quem sou eu? Apenas penso que todas as pessoas deveriam sentir e ter a certeza de que elas todas têm os mesmos direitos e que por eles deveriam lutar.

Mulher em Pune

O fato é que não conheço toda a Índia, passei apenas 18 dias lá e o que conheço vem de leitura, noticiários, documentários e conversas com indianos, espero não estar dizendo bobagens.

rapazes em Pune

Os povos são muito coloridos, em todos os sentidos. Apaixonados, intensos e  também ambíguos. Um mundo dentro de um mundo.

Os rituais são inúmeros estão presentes em todos os cantos, para trazer sorte, prosperidade e saúde. O misticismo é muito forte e guia toda a existência da população.

Mulher andando de bicicleta em Pune

Eu tive a sorte de poder estar presente em um dos festivais mais divertidos da Índia, o Holi, Festival da Cores; as pessoas pegam os pozinhos coloridos e passam umas nas outras, brincam também com água, se molham, se pintam. Eu me diverti com eles e me senti no passado aqui no Brasil, no entrudo, que deu origem ao nosso carnaval. Brincadeira inocente que faz parte do circulo de renovação da vida indiana.

Jujuba, eu e o cunhado dela,brincando no Holi.

A vida no ocidente está cada vez mais dura e seca, no sentido espiritual. As pessoas são egocêntricas e egoístas, individualistas e cada vez mais isso se agrava, percebo que a tendencia é a busca por essa espiritualidade perdida e da qual o ser humano precisa para dar direção, sentido e esperança à sua existência, para que possa sentir o toque da eternidade. Não é por nada que os Beatles, e tantos outros artistas, assim como pessoas normais, cansados, frustrados e desesperados em suas vidas fúteis foram e continuam indo para a Índia, em busca de algo que se perdeu em nosso mundo ocidental.

Moças em Pune

 O indiano ama ser indiano, ama a família, ama seus rituais e não quer abrir mão deles, mesmo em meio a modernidade. Ainda hoje, as mulheres se vestem com seus saris, burkas, kurtas, ainda hoje vivem como há centenas de anos. Mas a Índia também tem mudado...E assim como em toda a história, inúmeros pensadores, cientistas e visionários indianos contribuíram para a evolução do mundo, hoje ainda contribuem e muito para o conhecimento, sem falar que a Índia é uma grande nação emergente, assim como o Brasil. O povo é alegre, tem os seus rituais e suas músicas para cada época, tem as suas crenças, tem as suas qualidades, positivas e negativas, dependendo de cada ponto de vista, tem a sua rica culinária, a sua hospitalidade; tem também a corrupção, as deficiências governamentais, seus conflitos. Se pensarmos bem, não são essas as características do Brasil?



Gente é gente, minha gente! O que nos diferencia são as molduras que a cultura nos coloca e que guiam as nossas vidas. Em cada lugar, as pessoas priorizam coisas diferentes, sentem sobre alguns aspectos de maneiras diversas, e isso é algo que vem de tão longe, e que nos é impregnado através de um modo coletivo de agir, pensar e viver, que pensamos ser natural e único, além de certo. Para ver a todos como a nos mesmos é preciso quebrar essa cortina de aço que cobre os nossos olhos, é preciso estar pronto para se aceitar que o que somos não é o que se é certo, mas é apenas mais uma alternativa do que pode ser a vida de um ser-humano, e todas podem ser lindas e boas, desde que não prejudiquem ou escravizem o outro.


Menino procurando coisas no rio Ganges

Por isso digo que me senti em casa na Índia. Conheci pessoas maravilhosas (não são perfeitas, mas quem é?), e gostaria de conhecer mais. Vivi os rituais, senti os cheiros, senti a vida do outro lado do mundo, que me deixaram um gostinho de "quero mais".

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