sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conto IV - Os bons morrem jovens


Este tema foi sugerido por meu amigo Gustavo, o Guga. Ele queria uma história sobre um político honesto. Aqui vai! 

Quando os amiguinhos brigavam por alguma questão, Gustavo sempre tentava pesar os dois lados, ponderando, dando razão a quem achava que devia, buscava sempre a verdade justiceira, tanto que às vezes era difícil decifrar de que lado ele estava. Na verdade não estava de lado nenhum, ou melhor, estava do lado de todos, dos rejeitados e desvalidos. Aos 25 anos colocou na cabeça que queria ser vereador, iria contribuir para acabar com a sujeira que havia no governo de sua cidade, criaria leis para que houvesse maior transparência nas contas públicas, ajudaria aos mais necessitados, faria tudo o que ele sabe que se é possível fazer, mas ninguém faz.

Venceu as eleições graças aos votos das eleitoras, pois, neste mundo, aparência conta até no momento em que estamos decidindo o futuro de uma cidade. Ele não quis acreditar que este fosse o motivo de sua vitória, mas sim os ideais de sua campanha. Realmente, o entusiasmo de seus discursos contribuíram um pouco, mas não foram os fatores decisivos.

Tomou posse com a maleta lotada de projetos maravilhosos, ideais nobilíssimos e muita vontade de mudar o mundo, mas o cenário que encontrou não fora um dos mais agradáveis... A sujeira estava tão entranhada ao cotidiano daquela gente, que qualquer um se covenceria de que errado seria não participar de tais práticas fétidas. Gustavo percebeu que o pior problema estava com o povo. Este povo não sabia sequer qual  era a função dos governantes que elegeram, suas mentes ainda viviam no tempo do coronelismo e se deixavam comprar por botijões de gás, transporte para realização de consultas em outras cidades, cestas básicas. Para eles, um vereador seria uma espécie de agente social, com a função de realizar tarefas pequenas e individuais, gastando parte das verbas públicas com tais ajudas pontuais. A maioria deles gastava a maior parte de seu tempo realizando essas tarefas, encaminhando pessoas necessitadas até os setores de assistência social e se beneficiando da ideia de que eles resolveram pequenos problemas. A população ficava agradecida e pensava que estes políticos eram "bonzinhos", por que se dispuseram a ajudá-la. Porém, os projetos, as leis, as ações que poderiam ser realizados para melhorar a vida da população como um todo e definitivamente nunca faziam parte de suas ocupações. Vez em quando, algum vereador roubava um projetinho dos noticiários da TV, que abordava algum problema em voga, para dizer que se preocupava com crianças na escola, com a merenda, com o bullying, e por aí vai.

Gustavo bem que tentou durante um ano e meio lançar seus projetos, mas nunca conseguia apoio dos outros vereadores e muito menos da população preguiçosa que achava tudo chato e perda de tempo. Ele teve raiva do governo que não inseria no programa educacional algum tipo de disciplina que ensinasse sobre os direitos, os deveres, sobre as funções dos políticos, mas teve mais raiva ainda do povo comodista que se contentava com um cobertor ralo no tempo do frio e gastava suas esmolas com bebidas e similares, enquanto seus filhos se prostituíam e se drogavam sem que isso causasse indignação a alguém, muito menos acarretasse alguma atitude do governo. Começou a achar que nem sempre , quem precisava merecia alguma ajuda e que a podridão nunca ia ter fim, nunca ia ter conserto, um círculo sem fim. Cansou-se de dar murros em ponta de faca e decidiu se juntar aos "bons".

Sem mais ideais e esperanças, subiu na carreira política e viajou para o Egito, o seu grande sonho. Enriqueceu e achou que merecia, por que via o que o povo não via, e que se danasse o povo! Deus quis assim e os homens querem assim, então, por que não aproveitar os louros de sua vitória?

Aprendeu a agradar uns e outros e a subir cada vez mais. Algumas vezes parava e ria-se de seus antigos ideais, mas no fim de seu sorriso sarcástico, uma gota de melancolia queria pular e se expor para o mundo cruel.

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