sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conto III - Tanto amor pode matar


Este tema foi sugerido por Kelly, ela gostaria de ver um conto sobre drogas. Pra você, amiga!

É difícil saber onde erramos na educação de um filho, onde amamos de mais ou de menos, onde o sal foi mais abundante que o açúcar e por que certas escolhas foram feitas, mas o mais difícil é enfrentar aquele momento onde o nosso querido e amado bebê se transforma em uma pessoa desconhecida, em um agressor capaz de tudo para satisfazer as suas insatisfações. Tantas perguntas e acusações foram trocados entre os pais de Nataniel mas nenhuma resposta era satisfatória ou poderia resolver o grande problemas que se instalou naquele lar há alguns meses.

Nataniel sempre teve tudo o que quis, os melhores brinquedos, as melhores roupas, a melhor educação, mas Marly e Renato nunca foram fortes o bastantes para dizer o que não queriam ver, nunca foram claros com as suas regras, nem mesmo as tinham delimitadas dentro de sua casa. Só queriam dar amor incondicional ao seu único filho, tanto amor que ele se sentiu poderoso, como o próprio príncipe Willian. As dúvidas só surgiram no primeiro embate com a mãe, dia triste e negro quando Nataniel entrou feito louco a procura de dinheiro, ameaçando Marly com uma estatueta de metal. A dor que aquela mãe sentiu naquele momento é incomparável a  outra dor ordinária, ela viu naqueles olhos um marginal, um monstro, um desconhecido que tinha ódio e seria capaz de matá-la; aquele não era Nataniel, aquele não era seu filho.

Muitas brigas se sucederam àquela primeira e muito dinheiro foi consumido, além das coisas que Nataniel pode carregar para acalmar os sustentadores de seu vício. Muito sofrimento e desejo de morte invadiram os anseios daqueles pais, que não tinham mais alegria ou esperança de que seu filho pudesse se recuperar. Quando pensaram que nada pior poderia acontecer, receberam a visita de alguns traficantes que queriam cobrar uma enorme dívida que Nataniel fez em nome da coca. Foram amarrados, ameaçados e avisados de que seu filho seria morto em breve se não conseguisse o dinheiro que lhes devia. Após muita tortura psicológica os bandidos deixaram o lugar  e se despediram usando o corpo de Marly e espancando o pobre e indefeso Renato, que não sentiu mais dor do que a que experimentou ao presenciar o abuso sofrido por sua mulher. Depois deste fato juntaram todo o dinheiro que tinham e compraram uma arma para quando aqueles marginais voltassem e tentassem surpreendê-los.

Após alguns dias Nataniel apareceu transtornado dizendo que seria  morto por "Kabeção" e que não teria mais um dia de vida, procurou pela casa algum bem que pudesse salvar a sua vida miserável, destruindo o pouco que ainda restava de dignidade naquele lar. Nada encontrou e ordenou ao pai que fizesse um empréstimo, pois naquela noite Kabeção viria cobrar a sua dívida. Renato não tinha mais nada a perder e decidiu ir até o banco fazer o tal empréstimo. Nataniel fez as "suas malas" enquanto o pai estava fora e se foi. À noite o pai e a mãe foram para o quarto e trancaram a porta, alertas quanto a uma possível visita. Os dois se abraçaram como  há muito não faziam e esperaram pela noite a dentro. Nada  mais importava, se a morte viesse e os levasse, se o mundo alí se acabasse, queriam apenas ter a paz de volta. 

Tarde da noite ouviram alguns ruídos, Renato se levantou ligeira e silenciosamente e pegou a arma que havia comprado, seguiu para a sala onde ficava o cofre. Não se importava com mais nada, queria acabar com aquilo, mesmo que isso significasse acabar consigo mesmo. Chegando na porta viu alguém tentanto abrir o cofre, tremendo apontou para o invasor e deu três tiros certeiros gritando: _Morre desgraçado, me deixa em paz, morre!!! O invasor tombou e o pai reconheceu na penumbra os olhos do antigo e indefeso Nataniel, que cospia sangue e deixava sua alma se esvair lentamente: _ Pai...

A dor daquele pai se acabou naquela hora, por que sabia que iria se encontrar com Nataniel em outro lugar, melhor que este. Foi ao encontro de seu filho e deixou viúva uma mãe que se refugiou na loucura de suas lembranças, amortecendo as suas dores em uma realidade buscada de outros tempos, onde os três formavam uma família feliz e com um futuro radiante.

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