sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conto II - Ninguém perde por notar


Essa sugestão veio do meu amigo português Zé de Oliveira:


Um conto sobre alguem que tinha um potencial enorme, e que podia fazer toda a diferença
mas ninguém o levou a sério e todo o mundo perdeu com isso.

O pai estava sempre gritando com o menino, mas o tempo era curto, 12 horas no trabalho, mestrado e o escambal, como poderia sobrar tempo para ter paciência e prestar atenção ao filho? Era preciso saber mais, trabalhar mais para ter mais, para dar coisas ao filho e ensiná-lo como deveria ser um homem. Mas Julio não queria saber de gastar suas preciosas horas  em coisas tão enfadonhas como nas que o pai gastava, ele preferia inventar histórias e coisas, o que era muito mais proveitoso, divertido e dava mais sentido à uma vida pequenina.

Em uma noite igual a todas as outras, o pai chegou e em suas fuças estava escrito "Stress". Julio já estava acostumado àquelas letras e não deu importância, continuou montando a sua nave espacial de papelão e embalagens de produtos. Aquela invenção foi a mais legal que ele já tinha feito, era tudo bem calculado, bem cortado, bem montado, ele estava orgulhoso de si mesmo. Estava tão bom que o pai notaria, com certeza! Colocou a geringonça na mesa de centro da sala a espera do "Stress" e ficou sentadinho no sofá, aguardando os comentários. Ele sabia que o pai era seco e não tinha jeito com essas coisas de palavras agradáveis, mas teve esperança diante de um trabalho tão bem executado. O pai pensava que ele era meio doido, atrasado, por que vivia pensando em suas próprias coisas e se esquecia dos outros lá fora; também os colegas e o resto do mundo o apelidaram de burro, bobo, "Et' e coisas não muito animadoras, que cortavam seus brios...Mas agora ele ia mostrar que sabia fazer alguma coisa legal.

O pai chegou, jogou a pasta sobre um sofá e se recostou no outro. Pegou o controle remoto e foi saracoteando pelos canais da TV enquanto descansava o corpo para o próximo Round. Júlio ficou ansioso olhando para o pai, imóvel, só os pezinhos tremiam. Será que o pai não veria? O pai nem via que ele estava alí, sentado, nunca viu, isso não fazia mais diferença....Mas a nave ele tinha que ver, não era possível!


De repente, o pai se sentou no sofá e olhou para a mesa de centro, o coração do pequeno Júlio se acelerou e um pequeno sorriso se esboçou no canto de seus lábios. O pai passou a mão sobre a mesa e jogou todo o trabalho do menino para o chão, dizendo?

_Que bagunça, Júlio! Tire essa zona daqui que eu tenho que trabalhar!

Colocou o notebook na mesa e começou a digitar.

Aos 15 anos Júlio saiu de casa, foi morar com amigos. Não deixou bilhete, nem carta, nem e-mail, nem nada... Estava certo de que ninguém sentiria a sua falta, já que ele era um bobo inútil.

Aos 30 anos Júlio se tornou um importante empresário com várias invenções patenteadas. Seu pai não estava lá para ver, aliás, nunca mais vira o filho e se lamentou por não ter olhado para ele naqueles 15 anos. Mas aquelas letras estavam lá, e a maneira de viver do pai também, todos escritos na testa de quem aprendeu muito bem a lição.

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