sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Conto I_ As janelas do destino


É com muito prazer que venho dizer o meu primeiro conto da série "Um conto por meio conto"! Este foi a pedido de Cláudia Faria e a sua temática é sobre algo que vem acontecendo muito , aliás, sempre aconteceu desde que existe gente neste planeta, mas penso que vem sendo mais constante com o advento da internet:

"amor distante, mesmo perto, ao menos da alma; conflito amoroso, proibida e preconceituosa historia de amor "

Ele nunca imaginou que aquela noite inicialmente entediante, poderia mudar a sua vida... Muitas páginas foram visitadas na internet, sites de relacionamentos foram exaustivamente pesquisados  embora sempre que abertos mostrassem as mesmíssimas atualizações dos não diferentes amigos. Um anúncio lhe chamou a atenção e ele resolveu entrar em um novo site de bate-papo, tentar preencher o vazio que lhe destroçava o peito e a noite de sono.

Depois de tres conversas mais entediantes que a noite, resolveu que aquela seria a ultima tentativa e que depois daquela iria, finalmente para o seu leito. O apelido lhe chamou a atenção: "Feia mas doce". O papo começou como todos os outros: "Oi", "de onde tecla", "O que desejas", mas logo ele notou que havia algo de diferente na feia, ela realmente era doce. O papo foi tão divertido e agradável, girou em torno de comida, historias de tempos de escolas até filosofia sobre a existência; o dia já começava a dar os seus primeiros sinais, mas eles não queriam se deixar, não queriam dizer "adeus", não queriam se perder... A surpresa maior foi descobrir que eram da mesma cidade, então Adalberto pediu logo o e-mail e o telefone, para que nunca mais se perdessem...


Os dia foram se passando e a cada conversa os dois percebiam que havia algo a mais naquela relação, um entendimento, um sintonia, um prazer inquestionável. Ele poderiam passar horas conversando sem que se dessem conta de que a noite se fora e sem que houvesse algum minuto de tédio; as despedidas eram intermináveis. 


Cristine se sentia livre com Adalberto e ele podia ser ele mesmo, sem máscaras, ou quase. Apesar de toda aquela sintonia havia no ar um sentimento estranho, como quando sabemos que algo está debaixo do tapete, mas não queremos levantá-lo pra olhar; poderia ser poeira, mas poderia ser algum animal peçonhento, e as vezes é melhor fingir e sonhar que nada está lá para não levarmos uma picada conscientemente. Esse sentimento estava presente no ar, mas nenhum dos dois sabia ou queria saber, queriam apenas fingir que aquele era o mundo real, o único mundo.


Era amor! Amor de idéias, de almas, de ideais, não de corpos, ainda. E amor não vem mais de ideais que de realidade? Não sei. Mas os dois sabiam que se amavam e precisavam dizer o que lhes sufocavam, antes que a dor os consumissem.


Em uma noite fria e chuvosa os corações estavam agitados e as frases pontuadas por insistentes e longas reticencias. Sentiam que a hora era aquela e não queria adiar mais nada, assim como também temiam perder o tesouro que conquistaram naqueles meses. Cristine, finalmente, teve coragem e digitou a seguinte frase:


_Dada, eu tenho uma coisa pra te contar...


Esperou com o coração saltitante, até que embaixo da janela do conversador instantâneo  pudesse ver: Adalberto está digitando. Finalmente veio a resposta:


_  Eu também tenho....


Naquele momento os dois não sabiam se se sentiam aliviados ou enganados, os sentimentos eram confusos, mesclas de raiva, medo, ansiedade. Eles nunca suaram tão frio e o silêncio do teclado nunca parece tão longo... Adalberto disse:


_   Primeiro as damas.


Cristine pensou, Covarde! Mas não era mais hora de adiar mais nada,  de uma vez só disse:


_ Quando eu te conheci naquela sala de bate-papo eu não poderia imaginar que você seria essa pessoa tão especial que é hoje e sinto que daria a minha vida por você e que também não sei mais viver sem você... Em todos os meus sonhos nós nos encontramos, e é sempre o momento mais feliz de minha vida...Mas você precisa saber que esse sonho será muito difícil de ser realizado e não sei se você vai querer falar comigo depois de saber...Mas não posso mais esconder...Eu...Sou casada.


Silêncio devastador. Nenhuma palavra na tela. Cristine pensou que agora estava tudo acabado e que nunca mais ele teria confiança nela ou lhe daria o mesmo valor. Os seus olhos estavam embaçados de lágrimas, ela suava e não conseguia se conter na cadeira, até que finalmente ele disse:


_  Eu não posso andar.


_  O quê? como assim?


_  Eu sou deficiente físico, vivo numa cadeira de rodas e dependo de minha família...


Nunca houve tanta dor! O que pesava mais naquele momento, era difícil de se dizer. Cristine estava atordoada, não conseguia pensar, não conseguia aceitar. Parecia que tudo era uma brincadeira que ele estava inventando só para que ela se sentisse melhor, como sempre fazia, mas não era... O amor poderia suportar a tantas artimanhas? Algum dia eles estariam preparados para enfrentarem as conseqüências de um sentimento em tais circunstâncias? Cristine estaria preparada para dar a Adalberto o que ele precisava? Adalberto estaria disposto a enfrentar a familia e a sociedade? Será que o amor é mais forte que  tudo e os nossos próprios preconceitos?


Cristine disse que precisava pensar e que era para que ele pensasse também. Os dois disseram adeus, talvez pela última ou primeira vez no resto de suas vidas. Do lado de cada um, a vida real seguia.

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