quarta-feira, 20 de abril de 2011

Uma mosca na aula de Linguística


A mosca verde estava enfadada de empestear os cachorrinhos da Faculdade de Letras e resolveu dar um rolê pelas salas e descobrir o que os jovens ripongas faziam dentro daquelas caixas calorentas e apertadas. Desceu no meio de uma aula de lingüística e pousou no beiral da janela para apreciar a discussão quase que filosófica. A professora magra, de óculos e pele clara tentava enfiar os conceitos Saussureanos sobre Signo Lingüístico nas jovens cabecinhas pensantes:

_ Então, gente, vocês entenderam o que é o signo lingüístico? Ele é composto pelo significante e pelo significado, um é a imagem acústica da palavra, é o som que está guardado em nossa cabeça, e o outro, o significado, é o conceito que aquela imagem acústica invoca. Vocês estão entendendo?

Silêncio. Uns olhavam o celular, outros fingiam que estavam em uma reflexão profunda, olhando para o nada absoluto, outros balançavam a cabeça como se tudo estivesse esclarecido, e a mosca dava um nó em seu pequenino cérebro. Uma aluna branca, de cabelos rastafari e vestido floral perguntou:

_ Professora, eu não entendi essa questão que Sausurre fala que o signo é arbitrário, mas Benveniste fala que é a relação do signo e a realidade é que arbitrária, o que quer dizer isso exatamente?

_ Bem  (respondeu a teacher) isso significa que não há nenhuma motivação para que uma mesa se chame mesa, por exemplo; não há nada nessa mesa que faça com que ela seja chamada de mesa, tanto é que há varios nomes para a mesa em várias línguas. O signo lingüístico é arbitrário, não é motivado.

A mosca pensou que estava em uma classe de alemão, por que não conseguia apreender nada do que aqueles pensadores estavam dizendo, nem mesmo depois de longas horas de vida naquele lugar de alegria e conhecimento. Um jovem apreciador das teorias filosóficas, socialistas e escambalísticas, de cabelos medios, despenteados , bermudas e chinelos falou com a sua voz rouca, quase inaudível:

_ Temos que considerar que essa questão do signo lingüístico e de sua arbitrariedade, guardando as sua devidas proporções, principalmente essa questão do significado, não é uma questão que é discutida apenas nos ramos da linguística, como o da semântica, mas também em muitos campos como o da psicanálise, o da filosofia, por que o próprio significado de significado é de difícil definição em qualquer campo que se for tratar.

_AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA! (Gritou a mosca mortificada) Fala com a boca, desgraça! Ou melhor, não fala não, continua calado.

Um aluno exemplar, de óculos arredondados, cabelos intactos e camisa xadrez disse:

_ Ah é, professora, o Melequinha pediu pra avisar que as aulas de monitoria de amanhã passaram para a sexta-feira.

_ Nossa, não chama o Ricardo de Melequinha, coitado...

O aluno respondeu:

_ Mas nesse caso o signo é motivado, professora.

A turma caiu na gargalhada e a mosca verde não entendeu bolhufas. Achou melhor viver inculta e botando nas pelancas dos cachorros ossudos que viviam da caridade dos estudantes e apenas seguir em frente, proliferando na confortável ignorância.


Um comentário:

  1. mediante tal conversa eu sentir-me-ia exactamente igual à mosca Lu....

    nunca me consigo inserir nem perceber este tipo de questoes de carácter mais filosofico...até gostava, a serio que gostava, mas transcende-me....

    achei o post bastante interessant :D


    beijinho Lu **

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