domingo, 6 de março de 2011

Primeiro, o respeito

Há coisas na vida que são de difícil compreensão, por exemplo a maneira como as certezas de cada povo ou de cada um são construídas, assim como a noção de tempo, espaço, e de adequação de comportamento e de sentimento. Quando nascemos estamos inseridos em um contexto e o mundo inteiro nos diz sobre o que é certo, errado, comum ou abominável, e isso muda de acordo com os tempos e a região em que estivermos inseridos. Creio que até mesmo a maneira de sentir depende de todas essas variáveis, a intensidade, o conformismo diante de algumas situações, os ciúmes, o amor... Julgamos que todos devem sentir como nós e desejar o que desejamos, mas a tal globalização vem nos ensinando muitas coisas sobre os relacionamentos e sobre o próprio ser humano, e vem também trazendo muitos conflitos internos e externos, muitos choques.


Quando os portugueses desceram no Brasil pela primeira vez e encontraram os povos nativos, os quais chamaram índios (dizem que pela semelhança com o povo indiano), o choque foi inevitável, assim como quando chegaram à África. Imaginem o que as pessoas, que eram acostumadas a se cobrirem por inteiro vestindo toneladas de roupas, sentiram e pensaram ao verem todas as pessoas daquele lugar nuas. De acordo com religião que os dominava, aqueles eram pecadores que precisavam ser catequizados, pois tudo o que eles sabiam e faziam estava contra os tais princípios que eles julgavam universais e incontestáveis. Imaginemos também o que os índios pensaram ao ver aquela gente espalhafatosa saindo de grandes embarcações, com a coloração de pele diferente e falando algo incompreensível? Devem ter ficado assustados e curiosos, no mínimo. 

A maneira de ver o mundo desses dois povos eram totalmente paralelas, não tinham nenhuma conexão, eram dois mundos simbólicos totalmente independentes. Quem poderá dizer que a maneira, os costumes, os sentimentos, a religião dos portugueses eram superiores ou melhores do que o mundo dos nativos brasileiros? Quem teria esse poder? A única coisa em que se igualam e que, aparentemente, todos os povos tem em comum, é a crença em um ser superior ao qual nós chamamos Deus.

Sendo essa a verdade, não podemos julgar a maneira de agir de outros povos com o mesmo martelo que julgamos nossos conterrâneos. A maneira de vivenciar o amor, por exemplo, pode sim, ser diversa e trazer embutida sentimentos e rituais vários. Não se ama da mesma forma em todo lugar, e não se espera a mesma coisa do ser amado em todos os lugares do mundo. Esse também é um dos motivos que tornam os relacionamentos inter-raciais tão complexos, a incapacidade de reconhecer que existem possibilidades das quais nao fazemos parte e com as quais nem sonhamos, e que isso não é certo nem errado, é diferente de nós, fora de nosso mundo e difícil de "anexar".

O que não pode ser tolerável, no entanto, é que esses mundos sejam desrespeitados apenas para a satisfação de desejos imediatos, sem que seja levado em conta o que a outra parte poderá sofrer por causa do egoísmo, egocentrismo e etnocentrismo de quem quer que seja. Apesar de sentirmos e de esperamos coisas diferentes, todos nós merecemos respeito e todos nós sabemos quando os nossos direitos e a nossa dignidade não estão sendo respeitados, quando estamos sendo usados por não nos adequarmos ao mundo de quem quer que seja. A dignidade de um ser humano está em ver o outro como a si próprio ao mesmo tempo que deve reconhecer nas diferenças um motivo para o respeito e a admiração, e não uma desculpa para um pré-julgamento e a condenação, o que leva ao descaso e ao sofrimento de quem apenas queria ter respeito e amor.

Um comentário:

  1. INTELIGENTE É POUCO... PARABÉNS INCLUSIVE PELA TRILHA SONORA.

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