segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Certas escolhas


Tantos anos só, naquela casa, e agora os filhos decidiram que ela era velha demais pra morar sozinha. Sentada na cadeira de balanço, onde por tantas vezes embalou os sonhos daquelas mesmas criaturas que agora depenavam a sua casa, Dona Sônia continha a lágrima e o rancor. A filha mais velha separava o lixo do reutilizável, a mais nova decidia com quem ficariam as louças finas e os móveis, as netas corriam pela casa desordenada.

A empregada, amiga de uma vida inteira, tentava amenizar a bagunça, mas não havia como organizar aquilo. Luzia olhou para a senhorinha com quem discutira tantas vezes, com quem rira, chorara e compartilhara problemas íntimos, como amigas, e sentiu uma amargura em seu peito. Dona Sônia sempre foi elegante e de atitudes nobres, nunca abriu mão da etiqueta, da mesa posta, mesmo que sempre estivesse sem convidados para o almoço ou o jantar. Nunca perdia a dignidade, nem mesmo quando Luzia precisava limpar a urina que, por incapacidade de seu organismo, deixava escapar pelo caminho entre o quarto e o banheiro. Aquela mulher tão nobre e bondosa agora estava alí, entre os esqueletos de seu passado, incapacitada para uma vida com dignidade de escolhas.

Balançava-se na cadeira e sua mente voava para bem longe dali...Gostaria de ter feito escolhas diferentes, de ter tido coragem de ser egoísta nos momentos em que precisou ser, mas o mundo a condenaria se não priorizasse as vontades de suas filhas. As filhas eram o seu tesouro e o seu dever. Perdeu o marido aos 25 anos, ainda tão fresca e bela que fazia suspirar os mais diversos cavalheiros que cruzavam seu caminho; mas uma mãe de família não poderia se deixar levar por prazeres mundanos, as pessoas e as filhas nunca a perdoariam.

Dona Sônia tinha um segredo. Uma vez, aos 35 anos, encontrou um rapaz tão especial que a fez pensar, mesmo que sem admitir,  em desistir de sua eterna castidade e abrir  a  casca que a separava da vida. Era professora e ele aluno, o mais inteligente e sensível da turma. O menino inventou que precisava de aulas extras de gramática e ela assinou o contrato para as suas tardes de quarta-feira. Foi sem admitir que ela se viu ansiosa pela primeira tarde, se penteando e se perfumando, se olhando no espelho como nunca fizera antes, mas  nunca admitiria que algo além da nobreza do conhecimento compartilhado estivesse pulsando em seu coração. 


As tarde foram passando e cada vez mais aluno e professora se reconheciam, se espelhavam. O sorriso maroto do menino de 17 anos, dentro daquelas bochechas ainda infantis, e aqueles olhos pretos e espertos, que pareciam faiscar com cada pensamento, como se pudéssemos ler por eles sua grande atividade mental, lhe faziam esquecer de quem era, de sua idade, de sua condição maternal; naquele momento ela sentia apenas que ali estavam duas almas em uma mesma sintonia, que se completavam e se entendiam totalmente.

Muitas gargalhadas foram compartilhadas, muitos conhecimentos, muitas teorias sobre a criação do universo, a diversidade cultural, sobre a extinção dos dinossauros, culinária e tantos outros assuntos foram tratados naquelas tardes. A cada semana a ansiedade era maior  até a chegada da quarta-feira. 

Mas...A realidade bateu na porta da senhora Sônia Calázio. E a realidade nos faz ficar em choque, por que ela é, como nos ditados populares, nua e crua, fria, gelada, desconfortável e cortante. 

Numa quarta-feira fria, de cerração baixa e chuvisco incessante, o menino decidiu abrir o seu coração para a professora, pois sentia que ela não era indiferente a ele. Esperava que ela confessasse todo o seu sentimento, que assumisse estar completamente apaixonada por ele, esperava que ela dissesse: Vem, meu amor, vamos viver juntos até o fim de nossas vidas! Ele acreditava nesse fim, ele sentia, ele sabia, mas nem sempre o que é verdade é o que é realizado. Aquela quarta-feira foi a última aula e a última vez que se viram. Dona Sônia não teve coragem de encarar a sua verdade, ela era muito brilhante e ofuscava. Nunca teria forças para lutar contra o mundo, nunca teria coragem de assumir que amava, principalmente, que amava um menino. Nunca poderia dizer a verdade. E foi assim que perdeu o seu grande amor e voltou à sua vida seca.

No balançar da cadeira via o seu passado, as escolhas feitas  em nome de suas filhas, em nome de uma sociedade que sequer sabia que ela existia e que alí  agonizava, sem o direito de escolher sequer com quem seus pertences deveriam ficar. Nos anos anteriores se acostumara com a solidão e com o bálsamo das lembraças das quartas-feiras. Nunca escolheu o que quis, e agora era hora de morrer em paz, com o seu dever cumprido.

3 comentários:

  1. Lu, que bom texto..gostei imenso =D

    sabes, é curioso, ainda esta semana estive num fórum a ler opiniões sobre relacionamentos entre rapazes e mulheres mais velhas. Li um pouco de tudo...O fenómeno "Cougar" está sem dúvida a deixar de ser Tabu...contudo, estive a ler relatos verídicos...Pelo que li, a maior parte das pessoas que já experimentou defende que é difícil manter a relação durante muito tempo! Apesar de as pessoas em questão não terem preconceitos com a idade, a sociedade e família tendem em pressionar e perseguir esses casos, e torna-se bem difícil...Por um lado eu percebo..Quer dizer, acho mulheres na casa dos 30 fabulosas, mas se chegasse a casa com uma namorada dessa idade os meus pais não iam achar muita piada...

    Enfim, gostei imenso do texto...como é normal no teu blog =D

    Beijinho, tudo de bom Lu **

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  2. O que diz é a pura verdade, ninguém está preparado pra encarar com bons olhos esse tipo de relação. Dificilmente pais desejariam que os filhos se relacionassem com pessoas com tanta diferença de idade, é onde vivemos.
    Também já tive muitos preconceitos em minha vida, mas estou vencendo muitos a cada dia que passa. Não sei do que é cero ou conveniente, só quero saber da verdade hoje em dia, seja qual for.
    Obrigada Zé!

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  3. Olha Lu, gostava de ter o teu e-mail
    É que hoje de manha enviei um texto a todas as pessoas especiais que conheço e lembrei-me de ti, lamentei por não ter o teu e-mail e poder enviar para ti tb

    Se não te importares, posta um comentário no meu blog com o teu mail, e depois eu não o publico..pode ser? Queria mesmo mandar-te o texto...

    beijo =D **

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