quinta-feira, 22 de julho de 2010

Muitas chances dentro de uma chance*


Qualquer coisa que estraga em sua casa, minha mãe chama o Leonel.

Telhados, ar condicionado, piso, rachaduras, ventiladores de teto. Ele mora na mesma quadra e nunca demora a vir. Enquanto cimentava a escada do pátio, Leonel levantava altivamente o rosto quando provocava a figura materna. Atento, gargalhava a cada disparo de afeto.

Ao guardar a pá e o carrinho de mão, confessou:

- Minha mãe morreu quando nasci. Vejo vocês e tenho saudade da saudade.

Partilho semelhante inveja. Quando vou sozinho a um restaurante, não canso de espiar as conversas de casais. Eu me interesso pelos assuntos mais frívolos. Ponho a mão no queixo, o guardanapo nos joelhos e admiro o espetáculo da intimidade. O amor que pode ser amor ali, acontecendo em minha frente entre descrições de trabalho e confissões de meio-dia. O amor ali, camuflado e prosaico, mas devidamente forte para atravessar a morte e prometer vida eterna mesmo que não tenha eternidade depois. Mesmo que um dos dois sequer acredite em Deus.

Há gente que faz o contrário de Leonel. Mata o amor no momento em que ele nasce.

Pois não pensem que todos querem um amor grande. Reclamam, mas não querem.

Há gente que diminui o amor de propósito para não sofrer com ele. Elabora uma versão para provar que ele não existiu. Deixam o amor escapar, sumir, desaparecer para não se atrapalhar. Há gente que até se convence que aquele amor grande não era devidamente grande.

Há gente que pede um amor pequeno, doméstico, que não desestruture seus hábitos. Um amor anão de jardim, um amor de balcão, de pé, rápido. Um amor minúsculo, sem acento, que não rivalize o amor próprio. Que esteja próximo mas não fale alto, que esteja perto mas não influencie, que seja chamado quando se tem vontade e seja desfeito quando não serve mais.

O amor grande não traz uma felicidade constante - é a principal cilada -, traz uma felicidade irregular, intensa, atávica, que voa muito mais alto do que o conforto. Na estabilidade, é fácil sair da felicidade e da tristeza. No amor, descobrimos o quanto podemos ser felizes, e incomoda ter que buscar mais felicidade. Descobrimos o quanto podemos também ser tristes, e incomoda que não sairemos da tristeza sem que o amor volte.

Há gente que não tem esperança para se arrepender. Que sente ciúme de não ter sido assim antes e não se permite não ser mais como antes. Que vai terminar o amor para não se mostrar incompetente. Que prefere adiar o julgamento a se abrir para a verdade. Que não perdoa no momento de se perdoar. Um amor miúdo vai ao psiquiatra de manhã e termina a relação de noite. O amor grande termina com psiquiatra de manhã e se reconcilia à noite.

Porque o amor grande é uma insanidade lúcida, nem os melhores amigos entendem, é detratar e se retratar com mais freqüência do que se gostaria. Amor é o excesso de responsabilidade, de encargo, confiado a quem nos acompanha. Oferecemos o que não conseguimos alcançar.

Sempre seremos menores do que ele, já que é o único que cresce na extinção. Minha mãe costuma dizer que casamos quando encontramos uma solidão maior do que a nossa - só assim saímos da própria solidão.

Há gente, sim, que muda de amor para não mudar de opinião, que muda de homem para não mudar sua rotina, que manda onde não vigora poder e dominação. Que culpa o amor por não dar conta dele, que ama já pedindo desculpa por não amar.

O amor grande não é um grande amor.

Há gente, eu conheço, que desperdiça a chance do amor grande porque há apenas uma chance para amar grande. Muitas chances dentro de uma chance. O resto são disfarces, suturas, apoios.

Amor grande seria insuportável duas vezes nesta vida. Ou a gente se apequena para receber esse amor ou permanece se engrandecendo para não aceitá-lo.

*Texto do excepcional Fabrício Carpinejar (http://www.fabriciocarpinejar.blogger.com.br/) e "roubado" do blog do meu amigo Cosme ( http://microcoxx.blogspot.com )

6 comentários:

  1. Texto brilhante mesmo...;)
    Gostei particularmente da frase "Porque o amor grande é uma insanidade lúcida"...

    Este é um daqueles textos que parece que foi escrito a descrever o que se passa comigo...
    Durante 3 anos eu namorei com uma rapariga...eu gostei imenso dela, aliás, nem sabia que era possivel gostar assim de alguém....mas ela tinha um feitio que...não sei explicar...agora consigo classificá-la como um excelente amiga e uma péssima namorada.....
    a pior parte do relacionamento foi ela proibir-me de fazer as coisas que eu mais gostava (e ela sabia perfeitamente que essas coisas me faziam feliz), como andar de bicicleta, estar com os amigos, entre muitas outras...eu achava um pouco ilógico e tentava chegar a um acordo, mas o único acordo que ela aceitava era "Ou deixas de fazer isso ou acabo contigo"...

    Feito burro, deixei de fazer grande parte das coisas que me faziam feliz...e comecei a ve-la de forma diferente, porque eu amava-a e faria de tudo para vêla feliz, nunca a privei dos seus hobbies nem dos amigos..ela privou-me de tudo...e isso revoltou-me...o sentimento começou a diminuir, cheguei a um ponto que já era bastante diminuto....tentamos alimentar a chama, mas já nada me cativava, e se eu voltasse às actividades ela ficava muito chateada...
    decidi que seria melhor acabar, depois de várias tentativas frustradas de fazer a relação funcionar...quando lhe disse isto, ela ameaçou suicidar-se, coisa que imaginei que fosse apenas uma chantagem emocional para não me perder, e segui em frente...passado pouco tempo, ela engoliu vários comprimidos e estava eu com ela no hospital....daí para a frente seguiram-se os psiquiatras e eu tornei-me como uma rainha no tabuleiro de chadrez, a peça mais forte para proteger o rei, que neste caso era ela....
    o pior ano da minha vida foi ter vivido o ultimo ano da relaçao com ela sem a amar...nem consigo imaginar viver com o peso de alguém se ter suicidado por minha culpa...=S

    ao fim de um ano, já nada fazia sentido...não tinha amigos, porque todos os meus amigos me diziam que devia terminar a relaçao e nunca lhes dei razao...nao fazia aquilo que gostava...passava o tempo a confortar, dar flores e carinho a alguém que não amava...='(
    Entrei em depressão
    A minha familia não gostava do rumo que as coisas estavam a tomar...decidi que não podia continuar assim...
    Quando finalmente tentei acabar de vez, seguiram-se duzias de jogos psicológicos e chantagens emocionais que ainda hoje não sei como consegui contornar...
    As últimas palavras que ela me disse foram: "És o maior cabrão que já conheci, nunca soubeste o que é o amor, espero que sejas muito infeliz na puta da tua vida...e a partir de agora finge que nao me conheces"

    como estudavamos na mesma escola, cruzavamo-nos todos os dias, e ela já nem olhava para mim, apesar de eu querer pelo menos continuar a amizade...

    passado cerca de um mes e meio, ela ja tinha outro namorado, a pessoa que me atirou a cara que eu não sabia o que era amar alguém e que me "roubou" anos de vida, passado um mes e meio já tinha virado para outra....eu estou sozinho desde entao, mais de 2 anos...

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  2. (Continuação do comentário)
    Sem amigos, porque me afastei de todos, sem conhecer raparigas, porque foi praticamente proibido de as conhecer, sem nada, refugiei-me no desporto, na música...toda a raiva que havia dentro de mim foi dissipada em milhares de marteladas nos pedais da minha bicicleta ao longo de milhares de quilometros...

    desde então, nunca mais senti paixão por nenhuma rapariga....sinto atracçoes fisicas...há sp aquelas raparigas que têm uma beleza e pormenores interessantes...mas logo lembro-me daquela relação e vejo que não faz sentido para mim deixar-me levar pela paixão...eu sei que nem todas as pessoas sao iguais, que provavelmente a minha Ex tinha problemas emocionais e psicologicos que exigiam ajuda profissional...

    há apenas uma coisa que eu sei....fui miseravel enquanto namorava, sou miserável agora..a diferença é que agora sou miserável mas faço o que gosto, e nunca me preocupo se as minhas acções magoam a pessoa da minha vida porque ela simplesmente nao existe...talvez o problema tenha sido meu...tenho uma personalidade dificil, reconheço....subdivido-me em inúmeras actividades e coisas que quero aprender, dominar, tratar por "tu"...nem todas as pessoas compreendem essa necessidade...

    se surgisse agora uma rapariga que fizesse o meu coração bater depressa e devagar ao mesmo tempo, o mais provável seria eu ter medo e nem arriscar...posso gabar-me de ter medo de muito poucas coisas, e normalmente no que os outros mais se amedrontam é onde eu mais me aventuro...mas desde à algum tempo que o amor simplesmente me assusta....

    é esta a minha história, é esta a minha visão..
    talvez seja sádica, egocêntrica e demasiado racional, o que é incompativel com o amor...mas ha coisas que simplesmente não consigo controlar..

    desculpa a dimensão do comentário e o desabafo, nao tinhas de levar com isto, mas de outra forma não conseguia expressar o que vai ca dentro =S

    **

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  3. Oi Zé!
    Obrigada por desabafar aqui as suas dores, expor suas vivências. Nossa, você passou por muita coisa e com tão pouca idade, e logo na idade em que tudo é mais intenso, quando temos a certeza de que o amor é eterno e quando mais idolatramos o ser amado... Compreendo os seus sentimentos agora, o de medo.

    Eu me casei com a sua idade, pensava que amava o meu ex marido, mas na verdade idealizava-o, amava algo que havia projetado nele. Éramos muito diferentes e nunca tivemos diálogo, o que é fundamental numa relaçao. O fim foi inevitável.

    A experiência que você viveu foi realmente traumática!Quando eu era mais jovem, via o amor de uma maneira diferente que vejo hoje...Eu era muito insegura, infeliz, mas hoje penso que o fundamental em uma relação é o respeito, palavra que se tornou tão comum perdendo o seu significado.Respeitar o outro é saber que ele é "o outro", e que tem necessidades humanas, precisa se sentir valorizado, ter seu lado intelectual satisfeito, seja da forma que for. Respeitar é deixar com que a pessoa se expresse, sem críticas, é tentar não julgar muito, e se ofender, saber pedir desculpas, por que ela merece; respeitar é você não se descuidar só por que a pessoa lhe ama,e fazer com que ela saiba que também é amada; respeitar é saber que o outro precisa de tempos sozinho, e que não quer dizer que nao ama.

    Outra coisa é a admiração. Acho que não é possivel amar a quem não se admira! Se vc olha pro outro com o olhar torto, se você pensa que o outro não merece a sua admiração, algo está errado. Com certeza haverá momentos em que sentirá raiva, mágoa, ciúmes do outro, mas o respeito e a admiração precisam continuar lá.

    Zé, mas essas coisas a gente vai aprendendo com o tempo.Eu tenho mudado muito, mas ainda sou um desastre quando o assuntoi é relacionamento...Entendo que vc tem medo, está traumatizado por tudo o que aconteceu. Tenta se curar, tenta se limpar, tenta esquecer e abrandar as dores para que possa novamente sentir amor.Talvez nunca mais venha com a mesma intensidade de antes, quando a gente é puro e crédulo, mas talvez lhe dê muito mais recompensas.Não força, só tenha o seu tempo...

    Não sou a pessoa ideal pra estar lhe aconselhando, mas vemos melhor de fora, cuidamos melhor da vida dos outros que da nossa, não é? Hehehe.

    O amor também me assusta, e muito. Mas é a vida! O que fazer? Como disse o autor aí em cima: "Amor grande seria insuportável duas vezes nesta vida. Ou a gente se apequena para receber esse amor ou permanece se engrandecendo para não aceitá-lo."

    Beijinhos, Zé, volte sempre!

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  4. Lu, excelentes palavras...
    quando o tema é amor, tenho uma tendência inabalável de me esgueirar da conversa...és a única pessoa com quem gosto de tocar no assunto, porque consegues encará-lo como a melhor coisa do mundo, mas não deixas de lado a maneira como nos domina e o quão dificil é remar contra a sua corrente tão forte..
    não pintas o amor como o estereótipo cor-de-rosa que foi idealizado...conheces o seu poder, mas evidencias o seu lado fácil e perigoso...
    ja aprendi imenso contigo, lições valiosas...obrigado pelas palavras e conselhos que me deixas ;)...não vou deixar isso de lado

    Beijinho *

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  5. Esse amor grande é o amor mais perfeito e mais imperfeito que se possa imaginar. É o amor, simplesmente e em seu estado mais pleno. É o amor que vale a pena, mas que poucos lutam por ele. E você aqui falou dele da forma mais maravilhosa que se pode falar e me emocionou muito com a forma que encontrou para falar, tão perfeitamente disso que não sabemos, muitas vezes, nem sentir...Beijos.

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  6. Falar é fácil, mas viver esse amor, putz! Que dificuldade! Mas vou tentando melhorar a cada dia, quem sabe um dia eu não aprenda?
    Bj, volte sempre!

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