quarta-feira, 28 de abril de 2010

O poder da verruga


Quando foi encontrado, Rafita se apavorou ao ver tantas criaturas estranhas que gritavam, faziam sons indecifráveis e pareciam por deveras entusiasmadas ao mirarem nele.Tantos anos alí, alimentado por espécies diferentes e vivendo em condições inóspitas não lhe tiraram a qualidade de admiração pelo novo. Aqueles seres engraçados o conduziram educadamente para um lugar estranho e que se movia, ele nunca tinha pousado seus olhos em um veículo e naturalmente se assustou com a aparencia daquilo que o conduziria para uma nova vida, mas com delicadeza aqueles seres conseguiram lhe acalmar e lá se foi ele para o desconhecido.

A dificuldade foi enorme mas Rafita estava aprendendo rapidamente, aliás, Rafita passou a ser Rafita nesse mundo novo, ninguém nunca havia lhe chamado. Antes vivia em meio à vegetação, comia alguns animais menores ou plantas, dormia quando tinha sono, corria quando tinha tédio, rolava com seus amigos iguais, mas percebeu que na verdade era mais igual à aqueles que o trouxeram de seu lar. A linguagem que lhe apresentaram foi adquirida com muito esforço, mas nao menor entusiasmo! Que maravilha poder expressar exatamente o que queria e o que sentia apenas com os sons que fazia movimentando os músculos facias e bucais! Antes eram só gritos e caretas que eram suficientes para o meio em que vivia, mas alí, tudo era muito mais complexo. Logicamente Rafita não pensou com essas palavras e profundidade, visto que seu vocabulário ainda era reduzido às necessidades diárias, mas percebeu tudo com a sua alma e se encantou pelas possibilidades, mesmo com uma capacidade de reflexão ainda em desenvovimento.

Pensaram que Rafita precisava viver em uma comunidade chamada família para que pudesse adquirir alí os hábitos necessários para a sua reabilitação social.Rafita pode sair daquele lugar grande e frio, onde as pessoas pareciam de plástico e o cheiro era esquisito e ir para um lugar onde as pessoas sorriam, interagiam mais, eram mais simpáticas ao lhe perguntarem algo e lhe davam um pouco mais de privacidade.Inicialmente tudo lhe parecia animador, as conversas, as brincadeiras, os hábitos, mas sua reflexão estava bem mais desenvolvida que antes e Rafita começou a questionar sobre algumas regras sociais. Com os dados que possuía, notou que os seres de sua espécie que tinham uma verruga  pingando no braço possuíam direitos inferiores aos que não tinham, e ele tinha essa verruga! Que sorte a dele em nascer com  essa verruga...

Ele já tinha percebido que as pessoas Com e Sem-verrugas viviam juntas, o que era muito estranho, pois algumas vezes pareciam se odiar e outra pareciam que se amavam mais que tudo nesse mundo. Notou também que as pessoas se aglomeravam de acordo com a portabilidade dessa verruga,por que estas pareciam dar a cada grupo algumas características específicas, e assim se dividiam. A relação entre iguais era mais estável, sem muitos arroubos sentimentais, havia uma melhor comunicação, menor cobrança e maior prestatividade que na relação entre Com e Sem-verrugas.

Uma vez Rafita quis sair à noite com um dos membros da familía, só que ele era um Sem-verruga e não permitiram que ele fosse. Indignado e sem entender os motivos, protestou, mas a familia tentou explicar-lhe a situação:
_Rafita, você é um Com-verruga, não pode sair à noite assim, as pessoas vão falar mal, ainda mais se sair acompanhado apenas de um Sem-verruga! Entenda, não pode!


Como entender aquela regra baseada em uma verruga! mas essa não era a única regra, que bálsamo seria se fosse assim...Aos poucos Rafita foi percebendo que seus direitos e deveres eram desproporcionais se relacionados aos Sem-verrugas! primeiramente, tudo lhe ficava mal, bebedeiras, namoricos, palavrões, interesse por sexo, alguns trabalhos, algumas atitudes, eram desaprovadas para os Com-verrugas.Por ser possuidor da dita cuja, a sua inclinação deveria ser para os trabalhos doméstico e manutençao dos seres em crescimento, que necessitam de ateção integral. Deveria cuidar da alimentação da familia, dos cuidados com a saúde, higiene, limpeza, fazer as compras, e ainda cuidar para que a família se sinta bem dentro do lar e tenha tudo de que necessite. Aos Cem-verrugas sobraram o trabalho fora de casa, a obrigação de trazer condições de consumo e só. Quando estes regressavam do trabalho tinham o sagrado direito de deitar e descansar, e esperavam que os Com-verruga fossem lhes servir em todos os caprichos e direitos que adquiriram com a evolução de sua espécie. O estranho é que os Com-verruga se acostumaram e aceitaram todas aquelas regras e muitos ainda se sentiam felizes por servir sempre! Mas a maioria sentia uma profunda agrura na alma! Pois aos Com-verruga, por muito tempo foram renegadas as artes, os conhecimentos, o esclarecimento! Rafita só não conseguia entender por que os Com-Verrugas não se rebelavam! Masoquismo? natural docilidade? Mas ele não tinha essa natural docilidade, então, o que era?

Com o passar do tempo, Rafita foi se sentindo cada vez mais infeliz...Viu algumas mudanças que pareciam, inicialmente favorecerem à sua espécie, mas que ledo engano...Os Com-verrugas se levantaram e lutaram pelo direito de também buscar pelo poder de consumo e muitos foram trabalhar fora, mas as topeiras não quiseram largar as tarefas que lhes eram atibuídas, e ao invés de ganharem mais direitos se viram com maiores obrigações. Alguns Sem-verrugas já conseguem acompanhar a evolução e enxergar os Com-verrugas como iguais, mas a adaptação e a perda dos direitos que tinham ainda os incomoda, é muito difícil cuidar da própria vida.

Vendo-se nesse mundo onde suas obrigações e restrições são proporcionalmente enormes e sufocantes, Rafita, depois de anos tentando se adaptar, tomou a decisão de voltar para o ambiente onde  foi esquecido no passado até que os seus iguais o reencontraram. Lá ele não era igual nem diferente, ele era ele, sem nome, sem obrigações, sem limitações baseadas em sabe-se lá quê. Lá ele podia deitar na relva sem que lhe chamassem de preguiçoso ou mendigo, podia dormir quando quisesse, correr quando as pernas lhe permitissem dado a passagem dos anos, e deitar ao sabor das lembranças sem que ninguém o impedisse por causa de sua verruga, que aliás, nunca teve vontade de tirar.

sábado, 24 de abril de 2010

Pode?

Pode um peixe ir viver na areia? 
Pode um caramujo viver sem a sua concha?
Pode um urso polar viver na África? 
Pode a lagarta deixar de se transformar em borboleta? 
Pode um vaga-lume não brilhar? 
Pode um cão miar? 
Pode a galinha criar dente?
Pode o tempo parar?
Pode um boi voar?
Pode uma cobra caminhar?
Como posso eu ser Jade?

sábado, 17 de abril de 2010

Chega desse discurso!

Não quero me lembrar das injustiças humanas, não quero pensar nas milhares de pessoas que sofrem horrores, todos os anos vítimas de guerras, tragédias naturais, violência, preconceitos e tantas outras questões que mutilam, ferem e marcam eternamente as vidas destas, eu não quero me lembrar!

Não, não me digam que  há pessoas que sofrem dores terríveis e que se resignam, não me fale em religião! Não me digam que os homens são os culpados por suas próprias desgraças e que Deus não tem nada a ver com os terrores que acontecem na humanidade! Não me venham com esse discurso de que minhas dores são insignificantes em frente a tamanhos padecimentos no mundo, oh, não! Não quero ter a esperança de que, se há um Deus, ele irá olhar para as minhas pequenas dores enquanto milhões padecem sem dignidade!

Chega! Chega de tentar dar um sentido ao que não tem! Não quero mais ouvir calúnias que ferem tanto os meus ouvidos como o ácido quente! Não quero esperar o que não vem, não quero crer no que não existe, não quero saber  o que não me faz bem. Quero apenas o mínimo, a verdade, seja qual for.
Quero penas ter pequenas certezas no meu dia e vagas esperanças no meu amanhã. Quero poder sonhar com os pés no chão! Quero que me respeitem como eu respeito a todos, que assim como eu, nunca me tratem como se eu não fosse capaz  de assimilar ou não merecesse a verdade. Tenho o direito de escolher conscientemente!

Por favor, não digam mais nada! Se não for a verdade, deixem me no silêncio do sepulcro.

sábado, 10 de abril de 2010

Meus olhos


p

Meus olhos estavam secos 
Até que o milagre se fez
E se desfez
E refez,
Desfazendo-se de vez.

Molhados se enrugavam
Destruindo  minha tez,
Robustez,
Solidez,
Destacando a palidez.

Secos ou molhados,
Seguem sem vaidade
E a ansiedade
os invade
Lembrando-lhes da maldade.

E que a força que se encontra
Sempre em busca da verdade,
Que aguarde
A felicidade 
Mesmo que como saudade...

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Tirem o meu coração


Tirem o meu coração estraçalhando o meu peito
Depois o pisoteiem e atirem-lhe alcool;
Deixem-no queimar até restar cinzas
E deitem os restos aos porcos! 

Tampem os meus ouvidos ingênuos
Não os deixem mais escutar!
Tirem  me o oxigênio
Pois já parei de respirar.

Espalhem os meus restos 
nos tapetes dos templos,
Ou nos campos funestos
dos cachorros sarnentos.

Por favor, me enterrem na escória
Depois plantem o mal capim,
Mas nunca deixem em minha memória 
Que mentiram para mim!

domingo, 4 de abril de 2010

Net: Ser ou não ser?



Quem pode lhe dar garantias sobre o verdadeiro ser de uma pessoa? Quem pode lhe dizer com certeza absoluta o que você deve fazer em sua vida, quais as decisões que você deve tomar e quais os caminhos são mais seguros? Quando é que você pode dizer com propriedade que conhece inteiramente o outro e sabe do que este é capaz de fazer? Quando a moça que teve o seu rosto queimado com ácido pelo marido ciumento se casou, ela tinha a certeza absoluta de que ele jamais lhe faria mal, e quem poderia contradizê-la?

As facilidades de se relacionar com pessoas  de tantas nacionalidades e culturas diferentes hoje em dia nos trazem um leque enorme de possibilidades. Muitas pessoas solitárias enxergam na rede uma oportunidade inigualável de poder interagir e talvez, de encontrar, quem sabe, o grande amor de suas vidas...Nos inúmeros sites de bate-papo e relacionamentos que a rede dispõe podemos nos comunicar como nunca antes fora possível, é incrível o que podemos fazer diante de uma tela de computador! Maravilhados por essas possibilidades, muitos perdem horas de seus dias em busca de algo que os possa preencher, algo que venha sanar todas as suas carencias sociais e afetivas. Grandes sentimentos podem ser dispertados nesse mundo, onde há também perigos disfarçados em toda a parte.

 Os problema começa quando as pessoas começam a dedicar a maior parte de seu tempo dentro deste mundo, deixando de realizar suas tarefas normais, de interagir com as pessoas de carne e osso que estão em sua volta. Os relacionamentos virtuais são muito mais práticos e fáceis, a conversa sempre é mais espontânea, as aparências, o local, nada disso importa, todos estão no mesmo lugar e situação. Algumas pessoas podem chegar a preferir esse mundo seguro ao real e se recusar a viver uma história verdadeira, a virtualidade se torna a sua única opção, a realidade as apavora.

Outras pessoas usam destes meios apenas para facilitar encontros, apenas como mais uma ferramenta de sedução. O medo que  isso acarreta é grande, há na rede, como em todo lugar, pessoas de má índole e que se especializam em seduzir mulheres carentes e sedentas de alguma atenção para lhes estorquir o que for possivel...Há muitas histórias tristes sobre amores via web, muitos corações partidos e muitos bolsos vazios, mas também há histórias felizes.

A internet nos possibilita encontrar pessoas mais facilmente que nas ruas, e a palavra é um precioso instrumento nesse processo.Aqui podemos nos comunicar, nos expressar, sem os empecilhos que o dia-dia nos traz, somos livres. Como saber se a pessoa que conhecemos a pouco tempo é uma boa pessoa ou é um terrorista, um aproveitador, um falsário? Como ter a certeza de que suas palavras são verdadeiras? Não é nada fácil, mas isso não é só na internet! Como você pode saber que aquele rapaz lindíssimo que você acabou de encontrar num bar ou em uma boate é uma boa pessoa? E muitas vão para as suas camas sem sequer saber seus nomes! A rede é só um facilitador, não é um meio para a corrupção.
Não há como termos garantia sobre a índole das pessoas...Nem mesmo a convivência é capaz de nos fornecer todos os dados necessários para categorizarmos este ou aquele, para permancermos tranquilos quanto as suas atitudes futuras. O que podemos fazer é observar os pequenos sinais, as pequenas frases que se escapam, as intenções não ditas, os atos, o desenrolar das coisas; podemos nos valer também de experiências vividas por outros e notar se há indícios, semelhanças no modo de agir. No mais, é pedir à Deus ou a quem nos valha nas horas de sofrimento para que nos ilumine os passos e não caiamos em armadilhas.

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