sexta-feira, 19 de março de 2010

Os quatro do ponto

Entediada, cansada e pensativa comecei mais uma manhã rumo ao trabalho. No ponto de ônibus, onde aqueles minutos pareciam infernais e infindáveis, me distraí por um momento olhando as flores amareladas das árvores que sempre aparecem no mês de março, quando quatro figuras se aproximaram do ponto. e desviaram a minha atenção. Ninguém que estava alí por perto deixou de notar a presença das personagens, mas nenhum deles demonstrou que os observava.

Três meninas , uma escadinha, deveriam ter entre  5 e 7 anos, todas elas com o mesmo penteado, a cabeça repartida em quatro e em cada quatro, uma pituca crespa e despenteada prendida com alguns barbantes. Suas roupas eram notadamente velhas, com alguns remendos e nódoas...A menor, ao se acomodar na calçada, retirou o sapato que já começava a sorrir e pisou sobre ele, sinal de que os pés não tinham o mesmo número. O sapato da mais velha já tinha um sorriso completo, mas as meninas não tinham sorriso, apresentavam um olhar assustado, triste, observador.As meninas mulatas não estavam sozinhas, eram acompanhadas por uma figura titubeante, de olhar vago e movimentos retardados...O pobre homem tentava aparentar dignidade ao fazer o seu papel, mas qualquer vivente notaria que ele não estava em condições de proteger e de servir de exemplo para as suas crianças...O homem negro, magro, curvado e com roupas largas e surradas demonstrava carinho e atenção, o máximo que seu estado permitia.

O ônibus finalmente chegou, as meninas seguiram ansiosas para a porta do carro, mas o pai, advertindo-lhes e querendo parecer exemplar em sua função ali, disse com a voz pastosa:_Calma, calma, tem que ter educação, respeito, calma!_Parecia mesmo exemplar.

Dentro do ônibus, o pai segurou a menor e a do meio se sentou no colo da mais velha, indício de que já tinha o costume de se sentir responsável pelas irmãs. Assim seguiram a viagem até o seu ponto de destino. Chegando lá os quatro se levantaram, o senhor com a caçula nos braços e as outras duas, que seguiam na frente. As primeiras, ao decerem do ônibus demonstraram que haviam aprendido algo com o pai dizendo "obrigado" ao motorista, seguidas pelo pai e pela caçula no colo do pai. Outras vezes vi os mesmos quatro e em todas as vezes os quatro estavam no mesmo estado, principalmente o pai. Devo observar que nessas vezes o relógio marcava 7:30 da manhã.

Segui meu caminho entediante e entediada. Pensei sobre aquela família, imaginei para onde iria naquela hora, de onde o pai tinha vindo, se dormira, se esse era o seu estado natural, se as meninas sentiam vergonha, se tinham comido, se tinham mãe, se precisavam de algo a mais do que podíamos ver...Obviamente não obtive respostas. Só gostaria de que aquela família fosse feliz, e que aquelas meninas guardassem apenas as boas coisas que o pai se esforçava tanto em demonstrar.


2 comentários:

  1. Existe uma dignidade que ultrapassa os vícios e as dificuldades da vida das pessoas...
    Também fico imaginando o que se passa além do recorte que presenciamos da vida dos outros e são tantas as possibilidades que nem meus devaneios tortos dão conta de alcançar a verdadeira realidade.
    Emocionante seu relato, fiquei tocada.

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  2. Ei Lu, que texto legal. Leve e simples. Gostei de ler. Me sinto como se estivesse olhando através dos seus olhos. Muito bom. Abração. by Bruno Kenzo

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