segunda-feira, 14 de setembro de 2009

As encalhadas

Mais um dia



Saiu de casa desanimada, sem nenhum objetivo além de realizar as suas tarefas habituais e voltar para o seu aconchegante quarto, onde finalmente iria se sentir livre e confortável, se jogar em sua cama antiga e cheia de ácaros já conhecidos, com os quais formalizara um acordo de convivência pacífica. 


Em nada pensava e nada desejava até que um suave perfume lhe chamou a atenção. Era um perfume muito meigo e sensual, era cítrico com o final adocicado, parecido com o aroma do capim ao final da tarde. Suas narinas instintivamente se dilataram para captar mais daquele aroma, assim como para decifrar o enigma de seu portador. 



Não precisou esperar muito até que o ônibus voltasse a andar e o senhor do perfume se sentasse exatamente ao seu lado. Bethânia quis muito olhar para o lado, mas não era de seu desejo que os seus pensamento fossem descobertos. Aguardou alguns minutos até que, pela visão de canto do olho, pode perceber que o ser misterioso se distraía com algo no exterior da janela, ao lado oposto do que estavam. Rapidamente ela olhou para o dono do perfume preparada para desviar o olhar para o além do horizonte, caso ele voltasse à sua posição normal. Percebeu que além do aroma ele tinha também um rosto peculiar, nada habitual em seu ambiente tão habitual. O nariz era anguloso, a boca pequena e ornamentada por um cavanhaque preto, tinha os olhos castanhos escuros e amendoados, como os de um ratinho astuto. Os cabelos eram também castanhos escuros e médios, as sobrancelhas eram grossas formando um belo casal de quatro com os olhos. 



Bethânia se perdia em pensamentos quando notou que o seu companheiro de poltrona se virava para ver quem estava, insistentemente, com o rosto voltado para ele.Quando os olhos de ratinho astuto chegaram aos olhos cor de mato seco, estes caíram de repente e logo se esquivaram para fora do ônibus. A menina não conseguiu conter o seu sorriso, nem o rapaz diferente. Bethânia sentia o rosto quente como se estivesse febril, não conseguiu agir naturalmente, parecia que as suas mãos não lhe pertenciam, não tinham lugar naquele espaço.



O ônibus seguiu a sua trajetória com suas descidas, subidas e curvas sinuosas, ia  se aproximando do ponto de descida da moça, o que a entristecia, pois se veria longe do perfume que  a distanciara e dos olhos que a fizeram corar. De soslaio fez suas últimas e derradeiras análises:




_Hum, que braços cabeludos! os sapatos são meio antiquados, se os visse separados, acharia que eram de um velho. As calças estão um pouco surradas, e a camisa esta cheia de bolinhas...Será que ele mora sozinho? Deve jogar a roupa na máquina e colocar pra secar. Acho que ele não deve ser brasileiro tem cara de argentino, uruguaio, sei lá. Mas com esse perfume...Uai, espera aí! Droga, uma aliança! Peraí, deixa eu ver direito se é na mão esquerda ou direita. Bosta, é na esquerda! Só podia ser, os bons sempre tem dona. Quando eu me casar, não quero essa palhaçada de aliança.



Perdida em suas analises reflexivas, quase perdeu também o ponto. Se levantou apressada, o ratinho astuto se contorceu oferecendo a passagem e um sorriso. Bethânia retribuiu e seguiu o seu caminho, com o perfume em suas narinas e em sua memória, ansiosa pela noite, quando iria se deitar com os ácaros e sonhar com os ratos.

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