terça-feira, 29 de setembro de 2009

Tenho medo

Sempre tive medos, muitos e muitos medos, a maioria sem explicação aparente, mas todos bem reais aos meus olhos.

Hoje eu tenho o maior medo de chuva preta com trovoada branca, daquelas que fazem as paredes da casa estremecerem e os ossos dançarem junto com elas. Mas eu não imagino que um raio possa me atingir e me fulminar, não tenho medo de ficar surda com o barulho da trovoada, nada disso me amedronta.Eu apenas sinto um medo e uma vontade de estar aconchegada, de ter um braço e um cobertor em minha volta para que eu me sinta protegida.

Outro medo que sinto é o de pessoas mortas, mas o que me apavora também não é a sensação de que a pessoa possa se levantar do Mundo-dos-que-já-foram, nem o medo de que seu fantasma ou alma venham me perseguir, ah, não! Tenho medo de tocar, de estar ao lado de um corpo que já nao tem vida, por que eu não sei o que isso significa, é muito assustador pra mim!

Tenho medo de que eu nunca consiga realizar algum sonho de infância e de que a vida seja só isso que vivo hoje, que ela já esteja resolvida e acabada. Tenho medo de nunca poder conhecer outras gentes, sentir outros aromas, ser iluminada por cores diferentes, admirar flores e vidas estranhas para mim e perceber que tudo é uma coisa só.

Tenho medo de descobrir que toda a minha luta foi inútil, que todos os meus sonhos eram idiotas, e que eu também fui uma idiota.

Tenho medo de ter a certeza de que as pessoas realmente  são tudo o de pior que vemos, de que tudo é mentira,  um teatro de manipulação, e de que eu sou uma das protagonistas.

Tenho medo de que essa tempestade que me assombra lá fora nunca cesse aqui dentro, e de que eu sempre esteja a espera de um braço e de um cobertor.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

As encalhadas

Mais um dia



Saiu de casa desanimada, sem nenhum objetivo além de realizar as suas tarefas habituais e voltar para o seu aconchegante quarto, onde finalmente iria se sentir livre e confortável, se jogar em sua cama antiga e cheia de ácaros já conhecidos, com os quais formalizara um acordo de convivência pacífica. 


Em nada pensava e nada desejava até que um suave perfume lhe chamou a atenção. Era um perfume muito meigo e sensual, era cítrico com o final adocicado, parecido com o aroma do capim ao final da tarde. Suas narinas instintivamente se dilataram para captar mais daquele aroma, assim como para decifrar o enigma de seu portador. 



Não precisou esperar muito até que o ônibus voltasse a andar e o senhor do perfume se sentasse exatamente ao seu lado. Bethânia quis muito olhar para o lado, mas não era de seu desejo que os seus pensamento fossem descobertos. Aguardou alguns minutos até que, pela visão de canto do olho, pode perceber que o ser misterioso se distraía com algo no exterior da janela, ao lado oposto do que estavam. Rapidamente ela olhou para o dono do perfume preparada para desviar o olhar para o além do horizonte, caso ele voltasse à sua posição normal. Percebeu que além do aroma ele tinha também um rosto peculiar, nada habitual em seu ambiente tão habitual. O nariz era anguloso, a boca pequena e ornamentada por um cavanhaque preto, tinha os olhos castanhos escuros e amendoados, como os de um ratinho astuto. Os cabelos eram também castanhos escuros e médios, as sobrancelhas eram grossas formando um belo casal de quatro com os olhos. 



Bethânia se perdia em pensamentos quando notou que o seu companheiro de poltrona se virava para ver quem estava, insistentemente, com o rosto voltado para ele.Quando os olhos de ratinho astuto chegaram aos olhos cor de mato seco, estes caíram de repente e logo se esquivaram para fora do ônibus. A menina não conseguiu conter o seu sorriso, nem o rapaz diferente. Bethânia sentia o rosto quente como se estivesse febril, não conseguiu agir naturalmente, parecia que as suas mãos não lhe pertenciam, não tinham lugar naquele espaço.



O ônibus seguiu a sua trajetória com suas descidas, subidas e curvas sinuosas, ia  se aproximando do ponto de descida da moça, o que a entristecia, pois se veria longe do perfume que  a distanciara e dos olhos que a fizeram corar. De soslaio fez suas últimas e derradeiras análises:




_Hum, que braços cabeludos! os sapatos são meio antiquados, se os visse separados, acharia que eram de um velho. As calças estão um pouco surradas, e a camisa esta cheia de bolinhas...Será que ele mora sozinho? Deve jogar a roupa na máquina e colocar pra secar. Acho que ele não deve ser brasileiro tem cara de argentino, uruguaio, sei lá. Mas com esse perfume...Uai, espera aí! Droga, uma aliança! Peraí, deixa eu ver direito se é na mão esquerda ou direita. Bosta, é na esquerda! Só podia ser, os bons sempre tem dona. Quando eu me casar, não quero essa palhaçada de aliança.



Perdida em suas analises reflexivas, quase perdeu também o ponto. Se levantou apressada, o ratinho astuto se contorceu oferecendo a passagem e um sorriso. Bethânia retribuiu e seguiu o seu caminho, com o perfume em suas narinas e em sua memória, ansiosa pela noite, quando iria se deitar com os ácaros e sonhar com os ratos.

sábado, 12 de setembro de 2009

Essa é do fundo do meu baú

Mundo cruel
Mundo cruel, mundo sombrio,
Mundo que roda, mundo que gira...
Que mundo é esse, meu Deus?
Mundo frio.
Mundo que sempre capricha na mira!
Deus fez os homens...Pra quê?
Pra quê animaizinhos?
Brinquedos de papel machê caindo pelos caminhos.
Vida, existência,
Tão vazias quanto o resto!
Clemência!
Por que tudo é tão funesto?

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