sexta-feira, 10 de abril de 2009

Menino feio

Nasceu fraquinho, parecia mais com as múmias encontradas no Antigo Egito, pele seca, enrugada e osso. Os olhos eram esbugalhados e as orelhas de abano, os cabelos muito crespos e russos. O pequeno renegado não teve a sorte de possuir nenhum dos atributos típicos dos bebês, não tinha a beleza, a graça e nem a fofura, tudo o que concede a estes as atenções necessárias. A única característica que lhe restara fora a fragilidade física e psicológica.

Sua infância não foi fácil, como era de se esperar desde que suas faces saíram de dentro de sua mãe. Na escola, era a grande vítima dos engraçadinhos populares, que sempre davam um jeito para que o nome dele entrasse em alguma notícia de última hora:

_Ah, é, gente, encontraram um novo parente do Alexis lá no México, vocês viram ontem no jornal? Uma múmia muito bem conservada!

_Nossa, aquele acidente ontem com o avião, hein! Se o Alexis estivesse lá com as suas super-orelhas-de-abano, isso não teria acontecido!

_E o vendaval da semana passada? Encontraram o Alexis num varal lá no alto do morro!

O início foi calejante para o pobre menino, mas ele chegou a se acostumar em ser sempre os centros das notícias e das chacotas. Ele já sabia de ante-mão o que os alunos iriam usar para insultá-lo no dia seguinte, vivia ligado nos noticiários. Ao ouvir alguma palavra que remetesse à feiúra, magreza, orelhas, olhos e cabelos, já tomava para si as insinuações. O mundo conspirava contra ele.

Não tinha amigos, não jogava bola, não participava de bate-papos, discussões, não andava de bicicleta, não fazia nada que os outros faziam,o seu mundo se resumia nele e em sua feiúra. E a sua feiúra se transformou em fantasmas muito maiores de acordo com o passar dos tempos; Ele se tornou um ser totalmente recluso, tinha medo de se expor, medo dos xingamentos, dos julgamentos, dos olhares, dos apontamentos, o que acabou influenciando em sua vida social, ele não tinha isso.

O Menino Feio já tinha 40 anos e nunca tivera um relacionamento duradouro. Os seus medos sempre se sobrepunham a tudo; Em primeiro lugar estavam sempre as sua dúvidas.Uma barreira tinha sido criada diante dele, separando-o de todos os outros seres humanos. Ele não se sentia capaz de despertar um interesse verdadeiro em alguém, pois lá no fundo, os meninos estavam gritando: _Você é feio, Você tem orelhas de abano, ninguém gosta de você, você é incompetente! Ninguém nunca irá amar você de verdade!_As vozes moravam lá, nunca cessavam...

Muitas foram as que tentaram se aproximar do menino, que já nem era tão feio, mas era amargo e misterioso. Sempre de olhos baixos e poucas palavras. Nenhuma delas, porém, tinha conseguido atingir o seu interior, ele não permita, não queria sofrer de novo deixando que caçoassem de suas fraquezas. Ele nunca mais seria alvo de chacotas! E nunca mais tentaria viver intensamente, como quando acreditou nas palavras dos colegas ao dizerem, que a menina mais linda da escola estaria interessada por ele.Foi o pior dia de sua vida, aquele em que a menina pegou o bilhetinho escrito com tanto carinho, tanto tempo de elaboração e ornamentação, riu-se a valer, e simplesmente o rasgou bem na sua frente, chamando-o de ridículo. Que dor mais terrível se poderia sentir!

Nunca mais se ririam dele! E nem ele riria também.Melhor viver na calma de sua solidão que sofrer tamanhas humilhações.

O menino morreu velho, feio e solitário...Nunca mais viveu grandes provações, mas as poucas e pequenas lhe martirizariam o suficiente. Ele não sabia qual era a dor e o prazer de se entregar, e achava que não queria mais saber como era se perder depois de se achar. Ele não entendia o sentido de tudo, e finalmente estava feliz, ele iria abandonar o mundo, não precisaria mais ter que lutar para viver entre as outras pessoas, que existiam apenas para lhe causar sofrimento e dor.

Um comentário:

  1. Que maneira delicada de contar uma história triste. Muito linda a história. Emocionante.
    O ser humano é realmente muito cruel com o diferente. Isso é tão real e tão triste.Beijos.

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