terça-feira, 31 de março de 2009

O presente


O celular tocou pontualmente às 5:00, os meus ouvidos perceberam mas não queriam acreditar que a hora já havia chegado. Dei à mim mesma mais alguns minutinhos, levantei-me, custosamente, às 5:40. Corri para a minha rotina diária, fui ao banheiro, fiz o café, me vesti, me penteei e percebi que a chuva, felizmente, havia parado. Desci a escadaria quebrando as pernas, pois já estava um pouco atrasada. Não chovia mas mesmo assim uma enxurrada descia pelos degraus, não havia nem um pedacinho seco! O resultado disso foi que eu molhei os meus pés e fiquei com eles molhados até às 18:30, quando cheguei em casa... Tudo bem, coisas da vida. Fui correndo para pegar a Van, e em uma dessas pedras me escorreguei e caí com a "poupança" no chão! O pior é que estava passando outra Van na hora, se me viram caindo eu não sei dizer, pois a ninguém vi.Continuei a correr, já convencida de que hoje eu não estava mesmo sendo uma pessoa de sorte, cheguei lá e a nossa Van estava parando. Fui desanimada para a escola, e quando lá cheguei, cumprimentei a todos e perguntei à vice-diretora se o meu forebs estava sujo, ela me disse que não. Reclamei:_"Acho que não estou com sorte mesmo..." Ela então abriu a bolsa e tirou de lá uma linda caixa com alguns produtos cheirosos e me deu, disse que eu e o secretário sempre estávamos ali, sempre ajudando de bom-humor e boa vontade, então ela queria nos agradecer. Eu é que me senti muito agradecida por aquele gesto, justamente em um momento ruim. O bilhetinho que veio junto dizia:


Lu,

Quando na amargura da vida tu te sentires sozinha,

Lembre-se de que no céu há Deus que te guia

E de que na terra há alguém que gosta muito, muito, muito...

De você.


Agradeço por conhecer tantas pessoas que fazem com que a minha vida seja um pouco menos triste, e que estão sempre dispostas a me estender a mão, mesmo quando não tenho forças ou coragem para pedir socorro. Obrigada, meus amigos!


sábado, 28 de março de 2009

FIAT LUX!


Nada importa, a dor é maior que todos os constrangimentos, maior que todas as frustrações, maior que o próprio ser que sofre! A porta que estava entreaberta não quer mais deixar que a luz passe, e caso uma brisa venha mudá-la um pouco de lugar e apareça um pouquinho de claridade, fere tanto os olhos que é insuportável! A luz significa um sábado ensolarado e quente, quando todos saem de casa para passear com os amigos e familiares, sorrindo, gargalhando, brincando, vivendo, e aqui dentro das trevas, se morre! Como é odioso o sábado radiante para quem sofre!Como é atrevida a alegria dos outros, que não se compadecem dos pobres infelizes!

Os noturnos se acostumaram às trevas. A escuridão lhes é agradável, dentro dela não se enxerga com a nitidez do dia, à noite, os gatos são pardos. Nas trevas podemos sair e ficar olhando sorrateiramente para os passantes, ou podemos dormir e aguardar o próximo pôr do sol.

Quem vive da noite não suporta a vivacidade diurna, a alegria do sol lhe cansa, lhe fadiga, a agitação lhe é um desafio! Para sair da cama, ambiente familiar, confortável e propício, é um tormento.

Tanto tempo dentro de uma caverna escura lhe dá a certeza de que é impossível que seus olhos se adaptem de novo à luz.Ele nem mais almeja isso, nem sabe se isso seria bom, quer apenas estar debaixo de suas cobertas.

Se um dia ele tivesse coragem de se esgueirar pelo chão até a porta de saída para ver um pedacinho do dia, da vida, ele se lembraria dos momentos em que brincava banhando-se no sol da manhã até à tarde, talvez sentiria em seus lábios o gosto do vento quente, sentiria o suor escorrendo enquanto inventava máquinas voadoras e martelava os seus dedos, reviveria a alegria que experimentava quando dava cambalhotas no sofá da mãe, mesmo a contragosto desta, tremeria ao sentir o primeiro toque na adolescência e assim, talvez, pudesse acordar do pesadelo e voltar a lutar.

Voltando para a luz, lembrando-se de que faz parte do dia e de que necessita dos raios solares como todos os outros, ele poderia dormir quando precisasse, e acordar quando quisesse.


quinta-feira, 26 de março de 2009

Em cena

Já tentei de tudo na vida! Já ignorei com a esperança de vencer pelo orgulho e pelo cansaço, buscando forças para lutar contra a minha vontade; já avancei como o touro sobre o toureiro, com a fúria de quem enxerga o pano irritante que não para de se balançar adiante, chamando o bicho pra luta; Já usei das maiores sutilezas, dizendo por meias palavras, atiçando a imaginação; Já desempenhei vários papéis, o de irmã, amiga, sedutora fatal, madura, carente, desprotegida, insegura, tímida, moderna, triste, descolada e de mãe;Já me fingi de morta, esperando a hora final; Já fui a vilã, a má, a errada. Em nenhuma dessas vezes fui outra além de mim, fui sempre eu comigo, buscando me reencontrar diversas vezes em meio ao meu emaranhado de fios sem ponta, sempre buscando a sinceridade da alma, das ambições e dos desejos. Quem eu nunca consegui ser foi a mentirosa.
Gostaria de olhar sem ver, de falar sem ser, de agir sem sentir! Gostaria de tomar o papel da fortaleza, que nunca tomba aos ataques, e o da gaivota, que sempre sabe para onde voar quando as coisas se esfriam. Gostaria de poder ler o que pensam, de reconhecer as pedrinhas do caminho! Gostaria de que a minha pele fosse forrada por chumbo, que os meus olhos fossem cercados por breu, que o meu ventre fosse feito de gelo...Gostaria de não subir as montanhas, quando não tenho cordas para descer.
Todos os papeis que desempenhei até hoje foram tentativas de acertos! Nenhum fora premeditado, todos sinceros.As minhas personagens fazem parte de um ser apenas, um ser que acredita na luz de cada pedaço! Mas esse ser não consegue ser menos do que é, não consegue se metamorfosear, não consegue ser menos sensível. Essa grande personagem que eu vivo, talvez não represente muito para o grande palco da vida, mas é a mais verdadeira de muitas. Ela sorri, chora, grita, esbraveja, se decepciona, corre, cansa, deseja, sofre e chora muito e sempre! As lágrimas não trazem apenas dor, trazem tudo o que a vida carrega. Os meus olhos e o meu coração já derramaram muitas lágrimas, externas ou internas, mas sempre verdadeiras.

sábado, 21 de março de 2009

Saudades


Ao folhear um livro na escola onde trabalho, fui surpreendida por um singelo bilhetinho de amor adolescente:


"Ontem foi um sonho,

Hoje, realidade

Quero te fazer feliz

Por que te amo de verdade.

Amo e amarei,

Sonho e sonharei,

Vivo e viverei,

Mesmo que seja ilusão,

Nunca te esquecerei."


Lembrei-me de quando escrevia em meu caderno de recordações aquelas milhares de frases, retiradas de várias fontes, umas inventadas por mim e a maioria sem nenhuma referência. Todas falavam sobre o amor, a amizade, a esperança, mas no fundo eram sobre a inocência...Naquele tempo tudo era mais simples, eu tinha as minhas "certezas", eu idealizava. O amor era muito mais possível e palpável.


Que saudades!

quarta-feira, 18 de março de 2009

Coração aberto



Já tinha se recuperado, estava com os esparadrapos em forma de cruz na testa e com a pele um pouco endurecida e cascuda pelo tempo, mas estava quase novo!Os últimos tombos não foram tão grandes e nem causaram tantas consequências, mas deixaram mais algumas cicatrizes em seu ser. Apesar de tanto apanhar, o "aloprado" sempre perseguia o ideal que havia criado em momentos distantes, quando era grande e vulnerável...Ao invés de se abrir cada vez mais, foi se fechando, teve medo ao conhecer os outros diferentes. Ele se expandiu, mas do escancaramento que tinha, restou-lhe apenas uma brecha. Muitas vezes tentou trancar-se, mas o que podia fazer se a sua natureza era a de estar sempre pronto para acolher?

Depois de sofrer e tombar, incrivelmente ainda se dispunha a confiar, a crer, e a lutar. Pobre, ainda não aprendeu com os inúmeros erros, ainda não consegue ver!Por que nos atormenta com essa estranha capacidade de sempre cair em armadilhas parecidas? Por que não nos deixa em paz!


Ele se vestiu de palhaço, se viu belo no espelho.Parece que gosta de sentir as tortas cremosas eclodindo em sua cara maquiada com a horrível pintura berrante, e gosta de ouvir os risos ecoando nos ares. Será que ele não pode ver que na platéia não há ninguém igual a ele?

O lutador tentou mudar. Ele tentou ser duro, tentou nao deixar mais uma brecha, tentou ser outro, mas ele não conseguiu! Ele não conseguiu... Ele é uma manteiga, ele é de ouro. O seu problema não era estar aberto, mas não saber a quem dar as chaves. E como saber?

O palhacinho calou-se.Tinha um problema, alguns hematomas, muitas dúvidas e talvez, algumas respostas. Ele precisava, antes de tudo, limpar a maquiagem e se levantar.

sábado, 14 de março de 2009

Confesso 10 coisas...

Muitas vezes fiquei muda diante das questões mais simples, muitas vezes enrubesci, muitas vezes hesitei...Várias também foram as vezes em que desejei gritar, esbravejar, criticar, demonstrar, e não o fiz. Apanhei, me arrependi, hoje tenho outros olhos, fiz uma pequena cirurgia de catarata em meu ego, me vejo e vejo tudo com um pouco mais de nitidez. O horizonte, aos poucos, vai se clareando para mim, consigo enxergar as ruelas e os vales que se despontam adiante, assim como os rios e as matas que se fecham à minha frente. Não me importo tanto mais com o que vão pensar sobre mim desde que seja baseado na verdade, por este motivo as páginas do meu livro estão abertas para quem tiver a disposição de lê-las. E assim pensando e tentando viver, não me acanho em confessar que:
1- Adoro comer comida com banana e carne com café;
2- Odeio acordar cedo e tenho maior disposição à partir da tarde;
3- O meu primeiro beijo foi dado aos 15 anos e tive um pouco de nojo;
4- Quando estou de TPM, como a maioria das mulheres, nem eu me aguento;
5- Vivo reclamando de tudo, sou meio lamurienta;
6- Gosto de ficar por muitos minutos sozinha, calada, pensando;
7- Adoro mãos;
8- Minha flor preferida é o Copo-de-leite, e o meu animal é o cavalo-marinho;
9- Ainda não sei o que quero da vida;
10- Apesar de ser "feminista" e saber que o romantismo foi criado para dominar as mulheres, ainda sou romântica...
Creio que essas confissões não foram assim tão bombásticas ou reveladoras, mas já são alguma coisa.Nem sei se interessará a alguém, mas ao menos não deixei de fazê-las.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Eteviana

Ela nunca pensou na possibilidade de presenciar tais comportamentos, comportamentos que desafiam a lógica imposta pela sociedade durante o resto do ano. Eteviana já tinha se recuperado de sua última aventura, a sua pesquisa de campo obteve resultados cedo demais! Aquele rapaz na danceteria havia lhe deixado marcas inegáveis dentro da sua imatura alma! Por que ela não teve coragem de ir lá falar com ele, por que não continuou a compartilhar daquele entusiasmo natural que surge quando dois seres se encontram em um olhar, e se unem em um mesmo pensamento e sentimento? Ela não sabia responder, ou melhor, sabia sim: Teve medo.


O tal "Carnaval" estava chegando e ela não sabia bem o que era, tinha informações extraídas de relatos entusiásticos, cheios de excitação e também de fotos e arquivos encontrados nas mais variadas fontes.Ela não compreendia o que havia nesta festa que fazia com que a maioria das pessoas de um imenso país criassem tanta expectativa. O que havia de tão maravilhoso? Eteviana iria presenciar o ritual mais potente que acontece no Brasil.

As suas amigas, objetos de pesquisas, usavam shorts que haviam comprado exclusivamente para aquela ocasião, estavam maquiadas exageradamente, usavam alguns acessórios estranhos, como máscaras coloridas, chifres, penduricalhos e levavam bastante dinheiro para consumirem o maior número de bebidas alcoólicas possível. A euforia das meninas chegou a contagiar a etezinha, ela também se ornamentou como as amigas, mesmo não compreendendo e não se sentindo à vontade com a caracterização.

Eteviana nunca viu tanta gente pelas ruas! E era gente de todos os tipos, tamanhos, cores, fantasias, estilos e esquisitices, mas todos eufóricos e a maioria, bêbada.Era incrível como os rostos estavam transformados! Como podia acontecer aquilo? Pessoas tão sérias estavam com as feições irreconhecíveis! Todos falavam com todos, todos dançavam pela noite inteira e todos davam gargalhadas! O estranho é que o clima que ela sentiu na danceteria, estava centenas de vezes ampliado nas ruas! Os olhares, os lábios, as mãos, os corpos, não paravam de se comunicar. A liberdade que se tinha de se relacionar era incrível!

Eteviana queria apenas observar aquele ritual mágico, fazer as suas anotações costumeiras e respirar um pouco daquele clima, mas, nao conseguiu escapar! De repente, um rapaz fantasiado de vampiro lhe pegou pelas costas e ficou pulando com ela no meio da multidão, ela nao soube como reagir àquele assédio! Com custo, conseguiu se desvencilhar do ousado rapaz, mas ao se virar para as amigas, outro rapaz veio em sua direção tentando lhe roubar um beijo. As amigas, cientes da inexperiência da pobre alienígena, vieram logo em socorro e conseguiram salvá-la do abusado. A pesquisadora teve que se esquivar muitas e muitas vezes, e já estava ficando cansada de tanta agitação e extrapolação hormonal. Os seus olhos tiveram em uma noite tantas visões inacreditáveis que valeriam por uma eternidade! As pessoas pareciam loucas! Se beijavam, bebiam exageradamente, se tocavam, davam vexame, urinavam e defecavam em qualquer local,como se fossem animais. Ela estava muito confusa, não sabia dizer se aquilo tudo era bom ou ruim, era muito estanho! Era primitivo, instintivo, animal!

Depois do primeiro dia de Carnaval, Eteviana decidiu que já tinha provado o bastante daquela magia, se enterrou dentro de casa e ficou aguardando o fim do mundo.

domingo, 1 de março de 2009


Muitas vezes, quando o dia se esconde ressaqueado e se despede por detrás das montanhas de Ouro Preto, contemplo os últimos raios que dividem o céu em várias faixas de diferentes intensidades de cores e me esqueço de mim nesse momento aconchegante.Para mim, as noites de verão são as mais belas! Lindas colorações alaranjadas esbarram-se nas montanhas e levam consigo o calor escaldante, deixando o mormaço característico da estação.

Apesar de todo o calor, de toda a beleza, reina no ar uma melancolia de fim de festa, uma tristeza fina e leve que nos obriga a pensar... Nesse momento, eu, sozinha com o fim do dia, com o laranja e o preto, me sinto melancólica como a tarde, mas me sinto também morna e amparada em uma nuvem de verão. Fecho os meus olhos e navego por outros mundos, mundos familiares que me ampararam outrora, mundos imaginários que me amparam na solidão.Esses mundos são diversificados, parecem-se com os raios da tarde, suaves e laranjas. Então me dá vontade de abraçar a tarde e me livrar da solidão, me aquecer nos raios quentes que se despedem.

As tardes de verão me fazem refletir sobre mim e sobre o outro, me fazem sentir, me lembrar, me esquecer e me fazem desejar.

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...